O Continente das Trevas

11 Os Sagrados Cristais de Ashiva - Parte III


Notas iniciais
Bem, mais um capítulo concluído, e junto dele o desfecho da busca pelos Sagrados Cristais Sagrados de Ashiva. Agradeço a colaboração do leitor ThEuZiNhOw, cuja skill Infernus (Dio) aqui será apresentada. Tenham uma ótima leitura! ** Este capítulo eu dedico aos amigos André Erik, Gustavo e Jessica. E a todos demais amigos que acreditam e me apoiam neste trabalho. **

No Sul de Xênia, já em Território do Deus da Sintonia Thanatos, Sieghart e Mari seguiam apressados pelo corredor chamado de “Caminho para o Inferno” — que, sabiam, era usado pelo Deus Governante para de fato enviar seres malignos ao Submundo. Havia muitas lendas a respeito disso, mas jamais haviam imaginado que um dia trilhariam pelo secreto caminho usado pelo Deus.

O local era bastante escuro e as paredes de um tom de terra avermelhada, onde espessas raízes acinzentadas se contorciam entrelaçando-se por todo caminho — o qual era muito úmido, e ao mesmo tempo abafado e assombrosamente quente. Mari consultou ao relógio do Dispositivo Comunicador e viu que quase uma hora já havia se passado desde que retiraram o primeiro Cristal das mãos de Gomalick. E isso trouxe certa inquietude aos dois, pois o tempo estava acabando e ainda tinham outro Cristal, além dali, para buscarem.

Foi quando chegaram a uma bifurcação onde inscrições em linguagem antiga, aderidas a uma rocha, indicavam os caminhos. Sieghart as leu, junto de Mari, e viram que seguindo pela escadaria à direita eles estariam indo rumo a um local chamado “Salão da Honra Eterna” e seguindo pela esquerda — na escadaria que parecia mergulhar ainda mais para o mundo inferior — adentrariam num local de nome “Poço das Almas”, que com certeza deveria ter relação intrínseca com o Submundo.

Vislumbraram ao pergaminho e rumaram pelo caminho à direita; a longa escadaria os levou a outro vasto corredor praticamente às escuras, e Mari pediu a Dk- Mark III que iluminasse o caminho. Um cheiro forte de enxofre emanava de uma espécie de gosma esverdeada preza as paredes rochosas, e, por pequenas fendas em todo o caminho, o ruído de gazes tóxicos sendo expelidos ao ar se fazia ensurdecedor. Sieghart e Mari vestiram suas máscaras, e apressaram o passo a fim de deixarem aquilo para trás o quanto antes.

Chegaram então a uma espécie de Portal sob a forma de um arco esculpido na rocha e onde, na pedra, mais inscrições em língua remota se faziam salientes: “Salão da Honra Eterna”. Eles se olharam, e adentraram no mesmo, um tanto curiosos — mas não menos atentos por isso. Ao contrário do corredor recém-saído o salão era amplo e claro, e tamanha foi a surpresa do casal ao depararem-se com as esculturas, feitas em ouro, que ali reluziam imponentes junto a algumas outras também ali existentes.

— Mas esses são... — disse Mari atônita.

— Sim… Somos nós. A Grand Chase. — disse Sieghart, olhos fixos na imensa estátua com sua silhueta e que não deixava dúvidas de quem se tratava. Ao lado dela os demais membros masculinos da Grand Chase, e, no outro lado do salão, todas as representantes femininas do Grupo.

— Mas como isso é possível?! E o que será que significa Sieg?

— Não sei... Não sei mesmo. Mas adoraria saber.

Porém, a sensação de uma presença próxima à entrada — na penumbra do corredor por onde haviam vindo — fez com que se voltassem rapidamente naquela direção. E Sieghart ergueu sua Lâmina segurando-a com firmeza e pondo-se na defensiva.

— Pode baixar sua guarda, Sieghart! Sou eu, Dio.

— Você aqui?! — retrucou o Imortal olhando-o fixamente.

— Eu soube do Inimigo. Já estive com a Lothos, e parti o mais rápido que pude pra poder alcançá-los.

— Mesmo tendo vindo direto, o caminho é longo demais. Como chegou aqui tão rápido? — disse Mari, confusa.

— Digamos que aquela entrada não seja o único caminho pra cá. Como viram, esse lugar tem acesso ao Submundo e Thanatos não é o único que sabe disso. — respondeu, de modo seco.

— Agora vejo que não. — retrucou Sieghart, friamente.

— Não temos tempo a perder. — continuou Dio. — Deixem que eu afaça o que é preciso por aqui. Tomarei rapidamente ao Cristal que está sob o controle de Galamonth! Vão para a Ilha, senão não dará tempo para Arme fazer o Ritual! — falou em tom de comando o Asmodiano.

— Por que não vai você para a Ilha?! — retorquiu o Imortal, que não se agradava em nada de receber ordens justamente de Dio.

— Sieg não é hora pra discussões, ele tem razão, o tempo urge! — interviu Mari fitando-o, e tocando-o no rosto.

Foi quando um estrondo forte fez-se ouvir ao fundo do salão, ecoando pelas paredes do mesmo.

— Vão logo! Deixem-no comigo! — exclamou o rapaz já com olhos fixos no vulto que aparecia em meio a uma estranha fumaça.

Sieghart resmungou uma imprecação, olhando torto para o Asmodiano, e, então junto de Mari deixou o local apressado.

Enquanto isso, ao centro do céu de Xênia — envolta pelas nuvens e oculta pela poderosa magia dos Deuses Ancestrais — uma pequena ilha flutuante guardava um dos mais poderosos dos Sete Cristais Sagrados de Ashiva: o que pertenceu ao Demônio Vyrgan.

E a edificação solitária erguida sobre ela era extremamente alva, e muito lembravam o estilo Greco-romano de arquitetura da antiguidade. Os altos pilares, com teto plano e ar suntuoso pareciam refletir o sol na sublimidade do Templo ali erguido. O vento, porém ali era constante e soprava forte ecoando por entre as pilastras, que antecediam ao imenso salão no interior do local.

A vegetação em torno do mesmo era digna de uma paisagem encantada, com uma relva verde cobrindo todo recanto, e pequenas flores brancas ornando, com sua nívea beleza, a imensidão verde que a as acolhiam. E em meio a esse jardim natural, o reflexo azulado de um portal mágico fazia-se vislumbrar solenemente.

Enquanto que a alva túnica do poderoso Mago esvoaçava sob a força da intensa corrente, assim como seus longos cabelos negros. O cajado em sua mão tinha um brilho extremamente forte, e seu olhar era profundo e seguro.

Não era o acaso que trazia Yavos até ali — ele sabia que, mesmo parecendo, não fora adventício o fato de Feryus havê-lo tê-lo enviado ao encalço de Vikka. Existiam muito mais forças a reger as coisas do Universo, coisas acima da simples vontade das Forças do Bem e do Mal. E ele como um Grande Sábio Bruxo sabia muito bem disso.

E tão logo chegara ao Solo Sagrado de Xênia, ele secretamente tratou de inteirar-se do andamento dos acontecimentos naquele Continente e sobre o avanço das tropas do Deus Atron na região; e com rara e secreta magia — a ele transmitida por Alkyraz — conseguiu visualizar aos passos dos Guerreiros da Grand Chase, e sem esforços compreendeu seus objetivos.

Ele conhecia a lenda dos Cristais detalhadamente, assim como os esconderijos de cada um deles: outro segredo que o finado Imperador de Astrynat havia também o confiado em certa ocasião. E diante disso, naquele mesmo momento, soube qual missão o “acaso” havia lhe reservado. Sabia qual seria seu papel diante daquela realidade, onde as Trevas começavam a lançar perigosamente suas sombras pelo mundo.

Ergueu seu cajado, e uma luz em tom dourado o envolveu por completo, de modo que, pelo poder infinito de sua magia, sua túnica fora se transformando em uma espécie de areia dourada — a qual deu lugar a uma imponente e vigorosa armadura que cobriu seu corpo. Possuía tom dourado escuro e cristais prateados davam a ela intenso brilho.

Pronunciou, então, palavras em linguagem antiga, e uma longa espada de forjadura divina, a Espada Nyattur — a qual possuía figuras de estrelas inscritas em relevo por sua lâmina — materializou-se em sua mão, e ele a guardou na bainha em sua cintura; pisou firme o piso gélido e opaco da edificação adentrando na mesma. Ele sabia o que o esperava e que seria árdua a sua missão, mas isso não o assustava e, pelo contrário, o impulsionava a encarar o Iluminado Monge Seiforyo sem nenhum temor.

Nem mal Sieghart e sua companheira haviam deixado o local, e Dio vislumbrou a imensa quantidade de Goblins que foram surgindo por todos os lados pelo imenso salão; como se fossem uma infestação de insetos em um local abandonado. E, por detrás deles, o vulto de Galamonth — em sua imponente armadura negra, cujo elmo só lhe deixava visível os rubros olhos — empunhava sua espada forjada com um raro metal, em cuja Lâmina reluzia num soturno tom avermelhado; assim como seu escudo onde inscrições sob a forma de dois grifos altivos salientavam-se em relevo. Era um homem de ar assustador, bem como o era sua história: repleta de sangue e dor.

Fora um dos maiores tiranos que os povos antigos puderam conhecer, e quase realizou por completo a ambição de Seralong, pois seus exércitos dominaram praticamente todo mundo antigo — com exceção do Continente Sagrado de Xênia e do Continente de Astrynat, cujo solo também era de certa forma considerado um Território Abençoado.

Em sua dominação ele impôs terríveis penas e violência aos povos oprimidos, e seu Reino ergueu-se pela força, tortura, e pelo suor dos povos escravizados. No entanto, ele queria mais, pois tinha sede de poder absoluto, e enviou seu gigantesco exército para invadir ao Continente Astrynat. Mas o Divino Imperador, O Deus da Temperança Alkyraz, antevendo seus propósitos, e há muito ciente de seu rastro de terror, já se articulava para defender as fronteiras de Suas Sagradas Terras, e numa decisão rara e fora dos padrões de neutralidade inerentes ao Império— tendo o consentimento por parte do Deus Governante Thanatos —, impetrou um poderoso contra-ataque contra o profano inimigo, tendo por objetivo devolver em definitivo a paz aos Continentes vizinhos.

De modo que, apenas ao protegerem suas orlas marítimas — numa batalha que durou seis longos dias —, o magnânimo Exército Imperial de Astrynat aniquilou por completo aos contingentes militares a serviço de Galamonth.

Era o início de sua ruína, que culminou com sua morte pela lâmina afiada da espada do maior Herói que Vermécia conhecera: Sieghart – quel havia lutado na Aliança formada pela Resistência (constituído por guerreiros e membros das Monarquias de Canaban, Serdin e outros Reinos menores) com o poderoso Império de Astrynat.

Mas sua morte não trouxera descanso a sua alma, e, no Inferno, pôde sentir o peso da opressão que trouxera a tantos seres. Foi impiedosamente torturado, e jamais dormia. E Quando Thanatos lhe confiou à guarda do Cristal Sagrado de Ashiva, pensou pudesse estar liberto de tamanha tormenta.

Uma vã ilusão, pois apenas ganhara imortalidade — condicionada à guarda do Cristal. Mas sua mente continuou sendo torturada, e foi no ódio que ele se apegou para suportar sua infinita existência, na angústia dos sombrios e arrastados dias, onde a escultura dourada do herói que o matou parecia eternamente zombar-lhe.

Ele observou o estranho que, atrevidamente, pisava em seu recinto, e com força segurou o cabo de sua espada. Dio não se moveu, porém seus olhos focaram rapidamente várias direções, e ele sabia a dimensão do que enfrentaria. Em torno dele a energia sombria avolumava-se, e ele, sentindo a hostil aproximação do inimigo, se deslocou rapidamente, aglutinou considerável quantidade de energia, e desferiu seu golpe “Esfera das Trevas” reduzindo a pó o contingente de Goblins que o atacavam, assim como fazendo recuar um pouco àquele que lhes servia de Mestre.

Galamonth, porém, refeito da investida, não hesitou em revidar ao ataque, e de sua espada desferiu um golpe que fez a energia fluir por entre as pedras que formavam o piso do chão, jorrando-a forte, tal qual uma parede de fogo em direção ao Asmodiano. Este apercebendo-se disso, abriu suas asas e alçou o ar esquivando-se rapidamente.

Ao mesmo tempo em que, com velocidade, estendeu seu braço e conjurou sua foice, lançou-a para frente e, com precisão atingiu o punho direito de Galamonth com seu golpe “Estrela da Morte” — o qual fez romper sua poderosa armadura e abriu-lhe um talho tão grande no braço, que, por muito pouco, não fora amputado pela violência do impacto.

O Guardião urrou de dor, e apoiou-se nos joelhos e no próprio escudo. Enquanto Dio friamente o observava e deixava a energia das sombras avolumar-se, de modo cada vez mais intenso, em torno de si.

— Seu Demônio maldito! — vociferou Galamonth, levantando-se com olhos repletos de ódio, enquanto que, superando a própria dor, ergueu novamente sua espada. Em torno dela e do próprio Guardião uma aura rubro escura foi se formando, enquanto com olhos cruéis fuzilava ao Asmodiano, evidenciando um ódio profundo.

E à medida que essa aura aumentava, estranhos silvos começaram a se fazer ouvir, e inúmeras Gárgulas adentraram no salão dando voos rasantes e lançando por sobre Dio rajadas de areia petrificante. Ele procurou esquivar-se, mas o número de criaturas era tamanho que acabou sendo atingido e não pôde escapar, tendo seu corpo petrificado momentaneamente.

Aproveitando-se disso, Galamonth partiu para o ataque direto e perfurou-o com sua espada. Mas a armadura de Dio resistiu bem e, não fosse por ela, ele teria se ferido com mais gravidade. Contudo, a brutalidade do Guardião foi tamanha que no peito de Dio ficou um pequeno corte, o qual começou a sangrar intensamente manchando sua veste.

O Asmodiano, apesar do ferimento, não se intimidou e, com sorriso irônico nos lábios, conjurou sua própria Foice e num movimento brusco revidou ao ataque tentando enterrá-la no peito de Galamonth. Este ergueu velozmente seu escudo interpondo-o entre seu tórax e a espada sombria de Dio, assim evitando o pior.

No mesmo instante as Gárgulas avançaram perigosamente contra o Asmodiano, que dessa vez não se deixou cair em suas investidas, e as fulminou lançando por sobre as mesmas uma das mais poderosas técnicas de sua Quinta Classe (Amargedon).

— Infernus! — gritou, movimentando sua mão demoníaca em um giro no ar e, assim, com sua energia sombria, formou uma espécie de redemoinho negro — que se elevou de uma espécie de fenda dimensional ao solo —, o qual sugou, com impressionante violência e força as gárgulas para seu interior.

Galamonth por pouco também não foi sugado, e não fosse por enterrar sua espada ao chão teria também sido tragado pela energia do redemoinho.

Dio, dominado por sua energia sombria, abriu suas asas e voou alto, girou sua foice e a cravou no piso do salão enterrando-a. No mesmo momento a fenda dimensional se expandiu, e magma fervente começou a jorrar de seu interior envolvendo a todas as gárgulas, carbonizando-as em frações de segundos. O Asmodiano então retirou sua foice do chão e a fenda se fechou, desaparecendo, como se nunca ali houvesse existido.

Com os olhos brilhantes como chamas caminhou até o Guardião — que o fitava com certa perplexidade —, e invocou um estranho totem com ar demoníaco, que começou a emanar poderosa energia das trevas.

— Vórtice Demoníaco! — clamou, e em seguida todo o chão pareceu ser envolvido por uma espécie de líquido escuro e semitransparente, o qual parecia borbulhar e emanava uma espécie de fumaça fervente.

E Galamonth, quando deu por si, estava totalmente aprisionado pelo estranho líquido; remexia-se e lutava para tentar mover-se e seu corpo parecia não querer obedecê-lo. E quanto mais tentava se desvencilhar mais a pressão em torno dele aumentava, de modo que sua poderosa armadura começou a fragmentar-se, como fosse feita de barro. E em seu corpo cortes começaram a surgir, profundos, e vertendo muito sangue.

Dio ergueu seu braço e depois cerrou seu punho.

— Morra! — disse com voz fria. E Galamonth foi completamente tragado por chamas negras que começaram a imergir do estranho líquido, e, em meio a seus urros de dor, foi sendo puxado para dentro de um imenso vórtice que surgiu por detrás dele e que o levou diretamente ao Inferno.

Dio sorriu, e afastou-se de Galamonth antes mesmo deste desaparecer dentro do vórtice — o qual sumiu tão logo o Guardião fora consumido pelo mesmo. Aproximou-se do pedestal onde a luz em tom vinho do Cristal Sagrado brilhava intensamente; sem hesitar o pegou e ficou a fitá-lo de modo profundo.

Uma brisa tocou seus rostos, trazendo o perfume adocicado das flores que cobriam toda extensão da Ilha, e o Gram Mago Yavos, olhos fixos no homem diante de si, possuía no rosto um ar de seriedade.

— Quem é você, afinal? A energia que vem de você me é familiar, no entanto não o reconheço. Não totalmente... — disse a voz profunda e severa do Guardião, cujos olhos miúdos visualizavam o Mago atentamente.

— Me chamo Yavos, e sou um emissário daquele que foi o Soberano de Astrynat, o Deus da temperança Alkyraz. E pela honra da lembrança de seu Sagrado Nome, vim atuar em prol da Restauração da Paz em nosso mundo. Os Deuses pereceram, Selados pelo Mal que ressurgiu sob a forma de um novo e poderoso Inimigo. E para reverter isso e conter o avanço das Sombras — ele disse pausadamente — preciso que me entregue o tesouro que se encontra sob sua proteção, preciso do Cristal do demônio Vyrgan.

Seiforyo apenas sorriu. E em torno dele sua aura prateada reluzia emanando brandura — tal como se podia esperar de um homem que alcançara a Iluminação.

Tinha um corpo de aparência robusta, e seus cabelos, assim como sua espessa barba, eram extremamente alvos. E, apesar de ter desperdiçado o poder lhe outorgado pelos Deuses na sua busca desmedida pela imortalidade, ainda mantinha as mesmas características de quando esteve realmente no mundo dos vivos.

Aliás, quando entre os mortais, fora querido e admirado pelos Deuses, e ao tentar impetrar guerra contra o Continente de Astrynat — em represália pelo que ocorrera com Galamonth — na estupidez de tentar vingar seu antepassado, conheceu a fúria dos Deuses; e sob o poder de Thanatos perdera sua vida mortal antes mesmo que pudesse argumentar com o mesmo.

No entanto, ele havia lhe dado uma oportunidade de reparar seus pecados, incumbindo-lhe a tarefa de guardar eternamente ao Sagrado Cristal do Deus Ashiva.

E, sentindo o pesar de sua própria culpa, o Monge Seiforyo não hesitou em aceitar o que lhe fora ofertado; com humildade e resignação, se tornara o Guardião do Cristal e, na solidão da pequena Ilha, passou a viver a vazia imortalidade — que tanto buscara, e que descobrira ser tão monótona quanto se tornaram seus dias.

E, agora, diante de si estava um homem — cuja aura repleta de serenidade e de uma familiar divindade — vinha, em nome de Alkyraz – o benevolente e justo Deus da Temperança — requerendo o Sagrado Objeto sob seu cuidado. Seu coração e sua intuição diziam que deveria confiar naquele homem, porém seu dever e, o preço a pagar caso deixasse o Mago levar o Cristal também se faziam pesar em seu julgamento.

E, mesmo sabendo que a verdade está contida na voz suprema do coração, ele decidiu testá-lo. Não abriria mão de sua vida — por mais enfadonha que houvesse se tornado — se realmente o Cristal não fosse dali retirado para o uso no Bem. Seiforyo, verdadeiramente, havia se modificado e sua luta seria apenas pelo bem dos povos, assim como, se necessário fosse, sua real e definitiva morte.

— Não o posso entregar. Nem a você, Mago Yavos, e nem a ninguém. Mesmo que fosse o próprio Deus Alkyraz aqui diante de mim não poderia fazê-lo. Este cristal está sob minha proteção, e somente o Deus Governante Thanatos pode requerê-lo.

— Mas Thanatos está sob o Selo das Trevas. Ele e todos demais principais Senhores Divinos deste Solo Sagrado. Os bravos Guerreiros da Grand Chase estão reunindo a todos os Cristais, e está muito perto de concluírem essa difícil tarefa. Porém, o tempo urge. Precisarão dos Sete ou tudo estará perdido; e os Deuses ficarão eternamente presos pelo Selo. — argumentou, com insistência o Mago.

— Eu sinto muito. — falou, com sua voz inalteradamente branda. — Daqui o Cristal de Vyrgan jamais sairá.

— Eu gostaria de ter podido evitar um combate desnecessário, mas se é essa sua posição final, não me resta escolha. — disse Yavos, com ar sério. — Há muitas coisas maiores do que nossas vidas em jogo, para eu simplesmente dar as costas a você e deixar este recinto. E pela Paz eu irei até o fim! Este é meu desejo, o mesmo ensejo que sempre motivou ao venerável Alkyraz! E por Ele e por Astrynat eu hei de devolver a verdadeira justiça a esse mundo! — ele segurou forte o cajado e a luz que provinha da pedra em sua ponta pareceu intensificar-se.

— É um direito seu. Mas espero que saiba que você optou por sua morte ao me desafiar.

— Digo o mesmo a você Monge Seiforyo.

Os dois se fitaram de modo grave, e Monge Seiforyo pôs-se a murmurar um mantra; em torno dele uma grandiosa luz começou a emanar de seu próprio corpo, e começou a espalhar-se por todo salão. Sentindo a grandiosidade do poder que provinha do Guardião, Yavos pôde pressentir a dimensão da batalha iminente. Mas não podia permitir que, com o enfrentamento dos poderes infinitos de ambos, isso viesse a chamar a atenção da Gram Maga Vikka para aquele local, pois a poderosa feiticeira sentiria, sem esforço algum, o uso de sua familiar magia.

Num movimento rápido, elevou seu cajado ao alto, enquanto de seus lábios palavras numa língua remota foram balbuciadas dando forma a um poderoso feitiço que selou, com uma espécie de redoma, aos dois oponentes, de modo que todo combate se restringisse aos limites da mágica cúpula.

Seiforyo parecia em transe e continuava a sussurrar seu mantra, e Yavos, deitando seu cajado ao piso frio, desembainhou Nyattur, a qual revelou um brilho prateado e fantasmagórico refletido por toda extensão de sua lâmina. Em torno do Mago uma luz aura também se irradiava, e foi com destreza que ele ergueu a Espada de modo defensivo, formando uma forte barreira que impediu que fosse avassalado pelo poder de Seiforyo que — com olhos incandescentes — lhe lançou repentinamente uma rajada de imensa energia cor de fogo. Não fosse pelo poder Sagrado da Espada Nyathur, a ele presenteada pelo Deus Alkyraz, teria certamente sucumbido ao ataque.

Com habilidade concentrou seu poder e, desse modo, pôde revidar ao ataque, lançando de volta para o Guardião toda força de seu próprio golpe. Este, porém, apenas fez um movimento com seu braço esquerdo e a energia se dissipou desaparecendo completamente. Com rapidez, então partiu para cima do Mago e começou atacá-lo de modo mais direto com sua Vajira. Yavos, envolto por um escudo mágico, defendia-se, ao mesmo tempo em que tentava contra-atacar com sua Sagrada Espada — a qual desferia cortes precisos enquanto a energia em torno dela sugava as forças vitais do inimigo.

Seiforyo sentiu o poder da Espada, e viu suas forças sendo exauridas rapidamente. Com a destreza de um grande guerreiro, ele reuniu novamente sua energia e a arremessou contra Yavos, de modo que fez com que ele erguesse mais ao alto sua Divina Espada, e, ao fazê-lo, o Monge apressou-se e o golpeou com a Vajira pelo lado oposto, desestabilizando-o e fazendo com que Nyathur fosse arremessada para longe, beirando os limites da cúpula. Além de atingi-lo em cheio, de tal forma que, sob a força de seu ataque, Yavos caiu rente a uma das pilastras da edificação.

Refeito do golpe, Yavos ergueu-se rapidamente — parecendo quase não haver sentido os efeitos do mesmo. E, ao efetuar um movimento leve e perpendicular com sua mão direita, trouxe para junto de si o cajado que havia deitado ao chão quando desembainhou Nyattur; ergueu-o na direção de Seiforyo e, no mesmo instante, um forte clarão circundou ao mesmo, sob a forma de múltiplos raios, se expandiu e acertou ao Guardião com imperiosa força — o que fez com que este emitisse um terrível grito de dor pelo poder que o abatia, e ele caiu ao chão bastante ferido.

Ele havia menosprezado ao poder de Yavos, por este estar mais a defender-se do que a contra-atacar, e agora sentia na pele o preço por seu tolo descuido, enquanto a dor lancinante consumia sua carne; sua poderosa armadura não conseguira protegê-lo da forte magia impetrada pelo Mago e fora destruída. Tateando o chão e, erguendo-se cambaleante, ele então se voltou para o Mago com um estranho sorriso nos lábios. Yavos o fitou incógnito, porém, manteve o cajado apontado na direção de seu adversário.

— Confesso que o subestimei, mas não pense que você me venceu com apenas isso... Não se deixe iludir pelo estado de minha armadura... Meu poder não advém disso...

— Nunca menosprezo meus adversários, e eu sinto que seu poder realmente vai muito além, e que vou presenciá-lo logo, ou estou enganado?

— Não poderia decepcionar um oponente como você – ele retrucou sem alterar o tom de usa voz.

Yavos manteve os olhos fixos no Monge e seu ar era soturno. Ele sentia a imensidão do poder que se aglutinava ao redor de Seiforyo.

Um poder tão grandioso e que foi expandindo-se, de modo que sua energia começou a atritar-se contra as paredes da redoma mágica conjurada pelo Gram Mago de Astrynat.

Faíscas cortavam o ar emitindo estalidos secos, e Yavos sentiu-se oprimir diante disso. Apesar da desconfortante sensação ele não se intimidou, e envolto por uma intensa energia prateada e pelo poder de seu Colar da Névoa, ele rodeou-se novamente por um escudo mágico.

— Sutra das Sombras! — disse Seiforyo, com a voz profundamente grave. E assim, num pequeno movimento com as mãos, ele as colocou para frente, e impulsionou grande massa de energia — sob a forma de tigres negros que caíram avassaladores por sobre o Mago, rompendo seu escudo e deixando marcas profundas em sua armadura. Houve uma grande explosão, e Yavos fora arremessado de modo brusco, batendo fortemente na parede mágica da cúpula antes de cair ao solo.

Seiforyo mantinha nos olhos uma espécie de chama, e olhou para o Mago com desdém. Este, caído ao chão, sentia o corpo como que dormente, e foi com esforço que ergueu lentamente a cabeça. Foi quando viu que Nyattur estava caída muito próxima a si; num movimento precisamente calculado, ao levantar-se, ele pegou firme no cabo da Espada Sagrada e a ergueu, apontando seu gume afiado para o Guardião.

O tempo passava rápido demais, e ele não podia mais perder nem um minuto sequer prolongando aquela luta sem sentido. O Guardião estava novamente com punhos cerrados e a energia voltava a crescer em torno dele evidenciando que novamente o atacaia, mas Yavos desta vez estava preparado e, tendo os olhos muito austeros, pronunciou estranhas palavras olhando para Nyattur. Uma onda de luz muito clara percorreu toda redoma deixando tudo lento aos olhos de Yavos, ao mesmo tempo em que a Espada Sagrada foi envolvendo-se por uma magnânima e aterradora aura negra.

— Hera Astral! — clamou o poderoso Mago com voz profundamente fria, desviando, com um simples movimento de Nyattur o avanço dos tigres de energia, que outra vez Seiforyo havia arremessado contra ele. Ao mesmo tempo em que avançou com extrema velocidade para cima do Guardião atingindo-o diretamente no peito com sua Espada.

Houve um ruído seco, seguido de um longo gemido, enquanto a aura sombria em torno da Espada explodiu saindo em feixes negros por todos os lados. Seiforyo mantinha-se ereto e, estranhamente, nem uma gota de sangue vertia do seu corpo, após a retirada de Nyattur. Apenas uma estranha fumaça emanava do profundo corte que havia se cicatrizado. Mas muitos outros golpes com a espada foram desferidos após este e todos não deixaram marcas — como Yavos já o sabia iria ocorrer:

Os golpes da Sagrada Nyattur, através da Sagrada Magia” Hera Astral” não destruiriam apenas ao corpo do Guardião, mas especialmente sua alma. E o sangue que deveria banhar o chão de modo intenso era imediatamente absorvido pela própria Espada.

E quando o sétimo golpe atingiu a fronte de Seiforyo a energia explodiu mais intensamente, e alma do Guardião foi praticamente dilacerada, restando apenas muito pouco de uma tênue, e já moribunda, consciência. Ele caiu ao chão, de costas, e seus olhos pareciam estar se tornando opacos.

Em torno de Nyattur a aura negra não mais reluzia e, ao invés dela, novamente o brilho prateado a envolvia de modo fantasmagórico.

Yavos mantinha-se sério, e embainhou a Sagrada Espada sem desviar os olhos do Guardião, que, agonizante, fazia esforço imenso para erguer uma das mãos, e parecia querer dizer algo. Ele se aproximou do velho homem.

— Yavos… Por favor… — balbuciou Seiforyo, com grande dificuldade, segurando-lhe na perna esquerda. Este se agachou.

— Você lutou bravamente... Mereceu sua vitória... Passou no meu teste com louvor...

— Teste? — surpreendeu-se Yavos. Mas o Monge mal tinha forças para explicações, e apenas sorriu de modo fraco.

— Cuide do Cristal e liberte aos Deuses... Meu coração me diz que posso confiar em você... — disse, quase inaudível e, então retirou do bolso, sob o que restara de sua armadura, um objeto em forma de cilindro, totalmente em ouro maciço, o qual depositou nas mãos do Mago.

— O que é isso? — indagou Yavos fitando o objeto.

— Entregue ele a um jovem de nome Jin. Diga que foi o Mestre de seu Mestre que o enviou por você. Acho que isso poderá ajudar no momento certo... — os olhos de Seiforyo estavam mais opacos, e lágrimas desciam-lhe pelo canto deles em pequenos filetes transparentes. Ele segurou firme o braço de Yavos e o puxou.

— Prometa-me que entregará esse objeto a ele! Prometa-me! — suplicou, sentindo seu corpo não mais querendo o obedecer e tudo se tornando friamente escuro.

— Eu prometo. — disse Yavos, de modo sério. — Pela Honra de Minha Ordem, e por tudo que mais venero, eu lhe dou minha palavra de que esse objeto será entregue ao seu verdadeiro portador.

O monge esboçou um sorriso. E, lentamente, a mão que segurava forte a seu braço afrouxou-se e caiu solta ao chão, assim como a cabeça do Guardião, que tombou sem vida para o lado.

Yavos o fitou sombrio, e, então, lhe fechou os olhos que ainda permaneciam abertos. Levantou-se, e pegou o Sagrado Cristal de Ashiva, que brilhava intensamente — emanando uma tétrica luz negra — por sobre um altar prateado. E ao olhar novamente na direção do corpo do Guardião, percebeu que o mesmo estava se transformando numa espécie de areia fina e escura, a qual se perdeu no ar sendo carregada por um repentino e estranho vento.

A luz dourada do entardecer adentrava invasiva espalhando seu tom avermelhado pelas pilastras. Contudo, não foi o resquício do sol que lhe ofuscou a visão, por uma fração de segundo, e sim um forte clarão prateado que reluziu de modo intenso. E nesse momento ele apercebeu-se de que o escudo mágico que havia formado a cúpula havia se dissipado, e que, definitivamente, não mais estava só no vasto saguão daquele pequeno Templo.

Continua...

Notas finais
Os Sete Cristais de Ashiva foram conquistados, mas a jornada é árdua. Conseguirá a Grand Chase chegar a tempo de Arme conjurar o Ritual das Chamas Sagradas? Fortes emoções ainda estão por vir!! Fiquem atentos! Obrigada por acompanharem minha fic!