O Confronto Final

1 Capítulo Único


Era impossível definir as horas no deserto de Arkaia. O céu estava prateado, iluminado pela luz de mais estrelas do que qualquer humano tinha visto um dia, pois não havia o brilho do Sol ou da Lua para ofuscar o brilho desses pontos brilhantes. Nenhuma nuvem despontava naquele dia, e o brilho que emanava do céu estrelado gerava um estranho efeito nas areias do deserto, que refletiam o tom prateado que recebiam, formando ondas nas cores prata e amarelo.

Mas não havia nenhuma vida ao redor que pudesse ver aquilo, exceto pelo fira e pela drow elf que se encaravam nas ruínas da cidade.

—Desista, Yarina— duas vozes disseram em uníssono quando o fira abriu a boca. —Você já causou destruição demais. Dessa vez, não há perdão para você. Você sabe perfeitamente bem que não pode me vencer em um combate direto. Apenas deixe o corpo dessa drow elf e renda-se.

A drow elf assumia uma posição cansada, as pernas entreabertas na areia. Seu braço esquerdo estava estendido e segurava uma cimitarra prateada. Com o braço direito segurava o esquerdo. Sangue escorria por entre seus dedos, em um intenso tom de vermelho.

—Você acha mesmo que pode me vencer, Larique?— A drow elf respondeu, com uma voz que parecia não pertencer ao corpo que falava; era ancestral e poderosa, e parecia trazer lembranças de escuridão a quem quer que a ouvisse. —Então porque você não me deteve antes que eu destruísse sua preciosa Castania? Você é um deus fraco. Não tem a menor chance contra mim.

—Você sabe que isso não é verdade.— as duas vozes que o fira emitia responderam, ainda em uníssono. —Você sabe que meu avatar está muito melhor preparado para receber minha energia que o seu. E você sabe que nunca foi capaz de me vencer em uma luta corpo a corpo. Você não tem saída.

O fira mantinha a coluna ereta, e o escudo erguido. Segurava uma claymore com apenas uma mão, e surpreendentemente não parecia sofrer nenhum prejuízo com isso. Sua pele amarela emitia uma aura de luz, e suas tatuagens e seus olhos brilhavam em um tom ainda mais intenso. Estava com uma expressão mal-humorada, que não se alterava nem por um segundo.

—Sei! Sei como o seu precioso Formorinn te controla. Sei também como ele é incapaz de matar esse corpo. Sei que enquanto estiver dentro dele, você simplesmente não pode me vencer!

—É o que veremos!

Com uma arrancada explosiva, o fira partiu para cima da drow elf, cobrindo em um piscar de olhos a distância entre os dois. Direcionava um ataque na altura do peito de sua rival, com uma força que certamente a arremessaria longe. Mas com facilidade, ela interceptou o ataque com a parte interna da curvatura de sua lâmina. Iniciou então um confronto de força com o fira, mas mesmo que empunhasse sua cimitarra com as duas mãos, claramente estava perdendo. No último instante possível, rolou para o lado, e se levantou em um salto, descendo um corte vertical contra o fira.

Este interceptou o ataque com o escudo que usava, e a lâmina da drow elf emitiu um brilho preteado, que pareceu percorrer todo o deserto. Com um giro, ela atacou novamente o fira, que se esquivou com um simples salto para trás. Se aproveitando da distância —que sua claymore cobria, mas a cimitarra não—, desferiu uma série de golpes em X, mas a guerreira desviava de alguns golpes e interceptava outros com a cimitarra, enquanto se aproximava lentamente do fira. Quando já estava a uma distância viável, girou sua cimitarra, fazendo com que a claymore de seu oponente caísse na areia do deserto.

Quando a espada caiu ao chão, o fira se abaixou, usando seu escudo para cobrir quase todo o corpo. Com um andar arrogante, a drow elf se aproximou, como se já tivesse vencido a batalha, mas foi surpreendida com um golpe de escudo na face, que a fez recuar cambaleante. Já com a claymore na mão novamente, o fira investiu novamente contra a sua oponente, acertando um profundo corte em sua coxa, que a inutilizou.

O corpo da guerreira foi tomado pela dor, e ela caiu com um joelho ao chão. Quando olhou para o fira, ele abria completamente a guarda para preparar um golpe final contra a drow elf.

—Renda-se.

Ela reuniu as últimas forças que tinha, para afastar o escudo do fira com o braço esquerdo. Este foi pego desprevenido, e hesitou por alguns segundos. Foi suficiente para que ela desferisse uma estocada profunda na barriga do seu inimigo, que certamente seria fatal.

—Não!— Uma voz diferente emanou da voz da drow elf quando esta abriu a boca. O golpe perdeu força no percurso, e foi parado pela armadura do fira. Este recuou, assustado por ter aberto a guarda tão facilmente, mas se recompôs rapidamente.

—Acho que meu avatar não é o único com controle aqui.

—Droga!— A voz ancestral gritou, e a voz retumbou por todo o deserto. —Isso não vai acabar assim!

E então um feixe de luz negra saiu pela boca da drow elf, e o céu se fez negro. Não uma escuridão como a noite, mas uma escuridão completa e absoluta. A única luz em Castania naquele momento era a que emanava da pele de Formorinn e de sua claymore. Mas este brilho se dissipou, e um feixe de luz branca e intensa saiu para sua boca, se lançando em direção a luz negra.

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Na areia do deserto, o corpo exausto de Shura desabou. Ela nunca havia recebido o espírito de uma deusa, e sentia cada músculo de seu corpo ardendo de exaustão, como se estivesse em uma intensa batalha há semanas. Se sentia incapaz de fazer qualquer tipo de movimento, de forma que não conseguiu amortecer sua queda, caindo de cara no chão. Formorinn ainda brilhava com os resquícios da energia de Larique que ainda lhe restava. O deus sabia que, caso não deixasse alguma energia com seu portador, este também não teria muitas forças, por mais que já estivesse treinado. Mesmo assim, seus joelhos se dobraram de exaustão.

—Shura!— Gritou. Caindo ao seu lado, girou seu corpo com cuidado, voltando-lhe para cima. Colocou a mão em sua testa e sentiu seu corpo ficar cada vez mais cansado, enquanto doava a energia para conservar o corpo da drow elf.

—Formorinn…— ela respondeu com os olhos semicerrados. —Eu não acredito que ela conseguiu tomar controle de mim. Já fazem mais de 10 anos que nosso vinculo se quebrou….— Shura sentia dor pra falar, mas se esforçava.

—Tudo bem— Formorinn respondeu. —O importante é que você conseguiu se controlar, certo?

O fira então parou para analisar o ferimento na perna da amiga. Escorria muito sangue da região, colorindo a areia do deserto de vermelho. Era realmente muito grave.

—Eu… eu estou com medo— ela disse com lágrimas nos olhos. —Tudo doí muito. Não sei se eu consigo aguentar.

—Você tem que aguentar— Formorinn respondeu, aumentando o fluxo de energia que transmitia para Shura. O brilho de seu corpo se apagou quase que por completo, e ele caiu ao chão ao lado da drow elf. —Você é tudo o que me restou!

—Eu… eu vou tentar…

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Yarina, a deusa da Lua, se lançou em forma de luz em direção aos céus, tomando conta de todo o espaço. Larique, o deus do Sol, se lançou logo atrás, e a forma de luz que assumiu perfurou e absorveu a negridão que cobria o céu. Em instantes as duas luzes desapareceram, as estrelas voltaram a brilhar.

Agora os dois deuses flutuavam em um espaço completamente vazio: sem luz, sem ar, sem nada. Yarina havia assumido a forma de uma gárgula gigantesca, completamente negra, com uma aura prateada. Tinha garras afiadas, do tamanho de seres humanos, que pareciam cortar o próprio vazio com o contato. Seu rosto ainda era de uma bela garota, com cabelos prateados e compridos. Porém, a face jovial estava dominada por uma expressão de fúria, que emanava medo para quem quer que visse.

Já Larique assumira uma forma que se assemelhava a de um humano comum, porém com a pele em um tom de dourado extremamente vivo, que emanava um brilho cegante. Era careca e tinha um tamanho normal, e se assemelhava a um monge. Mesmo que a sua forma fosse mais comum que a de Yarina, transmitia tanto poder quanto a deusa, ou até mais. Portava um bastão que aparentava ser simples, mas estava marcado pelas mais diversas runas, que também tinham uma luz característica e visível.

Ambos pareciam ser imateriais, como se fossem feitos apenas de luz, e nada pudesse tocá-los. Yarina ria, no auge de sua fúria, enquanto Larique mantinha uma expressão fria e imparcial.

—Essa é sua última chance, demônio. Renda-se agora, ou dissiparei sua essência de forma permanente.

—Você continua sendo patético achando que pode me vencer. Se você está tão confiante, porque não tenta?

Antes que um segundo se passasse, Larique havia aparecido ao lado da cabeça de Yarina, e atacara sua face com um potente giro do bastão. A arma parecia inofensiva e pequena perto do tamanho colossal da deusa, mas ao acertá-la as runas emitiram um brilho, e uma onda dourada percorreu todo seu rosto, que tremeu com o impacto. A expressão da gárgula se contorceu com a dor, mas essa reagiu rapidamente, acertando o humano com um tapa que o teria arremessado para longe.

O deus foi atingido, mas parou no meio de seu curso e investiu novamente contra Yarina. Ele se movia mais rápido do que ela conseguia processar, e com facilidade chegou na região onde se encontrava o abdômen da deusa, e desferiu uma sequência impiedosa de golpes a medida que subia sua altura, partindo em direção a cabeça. Novamente ela tentou atacá-lo, usando de suas garras, mas com um giro ágil Larique se esquivou das garras, e acertou uma delas com o bastão. Quebrada, a garra caiu em direção ao vazio.

A luta parecia desleal para a Lua. O Sol se movia a uma velocidade que se equiparava a da luz, e a deusa não conseguia se defender ou atacá-lo. Porém, era obvio pela forma como Larique se movimentava que, um golpe de Yarina seria fatal para o deus. Havia tensão no olhar dele, e dor no olhar dela.

Os golpes do deus pareciam causar mais dor e raiva na demônio do que algum dano de fato. A cada golpe a aura prateada da mulher enfraquecia um pouco, mas parecia que a batalha ainda teria que durar mais anos para que Larique acabasse com a luta.

Ele seguia acertando-a, seu bastão girando com tamanha velocidade que parecia formar um disco de brilho no ar, como se fosse o próprio astro-rei. A precisão era imensa, e ele sempre conseguia encontrar os pontos mais doloridos da deusa. Em certo momento da batalha, ele desferiu um golpe contra o queixo de Yarina, em um golpe que se assemelhava a um gancho, mas ela conseguira prever aquilo: estava preparada, e quando Larique se virou, viu a garra gigantesca de sua inimiga vindo em direção ao seu coração.

Ele estufou o peito e concentrou sua energia na região, e conseguiu parar o golpe como se sua pele tivesse se tornado diamante. Porém o gasto de energia para aquilo havia sido imenso, e a aura dourada do deus se apagou quase completamente. Após isso, ele parecia muito mais cansado em batalha; seus golpes estavam mais lentos e mais fracos.

Mas ele não desistia: como reação ao golpe, Larique acertou o nariz de Yarina, que adquiriu uma estranha curvatura. Seguiu atacando a face da deusa, onde seus golpes pareciam mais eficazes, e a aura da deusa se reduzia cada vez mais. Mas com isso, o deus havia aberto a guarda: não tinha mais tanto espaço para se deslocar, e com facilidade Yarina agarrou-o em pleno ar.

—Desesperado— Yarina riu. —Você ficou tão desesperado para me derrotar que esqueceu tudo que aprendeu em toda sua vida. Agora você está acabado, Larique!

O Sol havia praticamente desaparecido sobre a palma da demônio, que o agarrava com força. Tentava se libertar, mas não era páreo para a força que Yarina tinha.

—Tente, Larique! Tente-se libertar de mim! Tente, enquanto as trevas tomam conta de você!

Larique percebeu então que a negridão em torno dele tornava um aspecto diferente. Como se pequenos tentáculos surgissem e o segurasse, ele foi ficando cada vez mais imóvel, e sentindo cada vez mais dificuldade de tentar se libertar. Aos poucos perdeu todas as forças, enquanto sua aura ia se apagando e sendo destruída.

—Você fala em dissipar minha essência— Yarina se gabava. —Isso mostra o quão fraco e tolo você é. Nossa essência é a mesma, você não percebe? Seria um desperdício dissipar uma energia como a sua. Não! Eu vou absorvê-la para mim! E então, me tornarei o ser mais poderoso que esse universo já viu. Nem mesmo Shandom será páreo para mim! Você está acabado, Larique. Você perdeu, e sua ruína é o fim de tudo em que você acredita.

O deus sentia que estava sendo puxado para dentro do corpo de escuridão de Yarina. Aos poucos as trevas foram tomando conta de sua visão, e ele foi se desesperando. Ela tinha razão: ele havia perdido. Não tinha mais forças para lutar contra.

Fechando os olhos, tornou a fazer o que fazia quando era um humano: meditar. Tentou manter o controle de seu desespero e sua raiva, como um monge fazia. Ao se concentrar, conseguiu prestar mais atenção ao que acontecia ao seu redor. Yarina realmente parecia ser feita da mesma energia que ele, porém uma forma corrompida de sua energia. Ele sentia também que grande parte de sua energia pura ainda residia ali.

Então teve uma ideia insana.

Começou a lutar contra o fluxo de energia que minava suas forças. Mais que isso: tentava recuperar toda a energia que Yarina havia roubado dele. Assim, com certeza conseguiria se libertar. A deusa não percebeu o que Larique fazia, e esse conseguiu concentrar grande energia, quase suficiente para se libertar.

—Não!— Yarina gritou quando percebeu o que acontecia. —Você não vai absorver minha energia! Você é mais fraco, está acabado!

Ele sentiu então sua consciência conectada com a de Yarina, e sentiu uma resistência a qual tinha certeza, não conseguiria superar. Concentrou toda a energia que havia acumulado então em um único ponto microscópico, quase invisível. E então, implodiu-a, causando uma supernova.

A explosão destruía tudo o que tocava, e ainda aprisionado dentro do corpo de Yarina, Larique foi completamente destruído. A energia foi se expandindo cada vez mais e mais, tomando conta de todo o corpo da deusa, destruindo-o aos poucos, de dentro pra fora. Ao fim, ambos haviam sido exterminados.

Mas a supernova foi muito maior que Larique conseguira prever. Continuou se expandindo, destruindo tudo que encontrava ao seu redor. A supernova tomou proporções épicas, fugindo do espaço vazio no qual os dois deuses batalharam.

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Formorinn havia se sentado ao lado de Shura, que ainda estava deitada na areia. Ele tinha tirado a camisa, e usara tiras delas para estancar as feridas da drow elf. Pouco da energia do Sol ainda restava em seu corpo, e ele a doava praticamente inteira. A própria força já estava sendo recuperada, de forma que ele precisava de muito pouca da energia do Sol. Shura dormia, e sua respiração estava muito lenta; certamente ela ainda não tinha recuperado forças suficiente para se manter sozinha.

De súbito, o fira sentiu uma sensação horrível, como se sua conexão como deus Sol se quebrasse totalmente. A energia que estava em seu corpo e que ele usava para manter Shura viva desapareceu. Ela acordou arfando.

—O que aconteceu… Larique…— ela disse, os olhos arregalados. Mas não teve energia para acabar de falar. Havia gasto as últimas forças falando aquela frase, e sua respiração cessou.

—Shura?— Formorinn disse, percebendo que a drow elf não respirava mais. —Shura!— Disse, em um grito de pura agonia. —Por favor, não! Você é tudo o que me resta!

Desesperado, tentou fazer uma massagem cardíaca, sem sucesso. Lágrimas lhe escorriam pelos olhos enquanto tentava doar ar para a drow elf em uma respiração boca a boca, mas nada adiantava. Definitivamente, Shura estava morta.

—Não!— Formorinn disse, enquanto olhava para o céu. Ele e Shura eram os últimos do grupo de heróis que haviam sido escolhidos para deter Yarina. Cada um dos outros havia morrido. E agora, Formorinn era o último. —Pelos deuses, não!— ele disse, enquanto olhava ao redor, para as ruínas do que havia sido Arkaia. Dromus era a única cidade que ainda estava de pé, em um tipo de aliança sinistra com a deusa da Lua; o resto havia sido destruído.

Olhou para o céu, como costumava fazer quando queria rezar para Larique. Sentia que, naquele momento, Larique também não podia lhe ouvir. No fundo, ele sabia: o deus Sol havia morrido. Mas ele não queria aceitar.

Foi quando percebeu um ponto de luz dourada em constante expansão. O ponto se expandia em uma velocidade impressionante, e a luz engolia o brilho das estrelas e a negritude do céu. A enorme bola de luz tomou conta de todo o céu, e continuou se expandindo.

Formorinn percebeu que a luz alcançava a areia do deserto. Assustado, percebeu que a luz desmaterializava tudo que tocava.

Ajoelhou-se, e de braços abertos, esperou ser engolido pela grande explosão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!