O Conde de Bran

1 O Conde de Bran


Notas iniciais
Meu primeiro conto, espero que gostem. Não se esqueçam de ler as notas finais. Capítulo revisado por psique. Boa leitura ! :)

“Antes disso eu nunca fora arrebatado
por amor tão súbito e doce
Seu rosto vicejava como se uma flor fosse
E assim meu coração foi roubado.”

(Walt Whitman)

Uma imensa esfera prateada se mantinha impetuosa no céu escuro e sem estrelas de Fevereiro de 2017. Com sua intensidade era, sozinha, capaz de refletir poderosos raios cristalinos de luz que iluminavam as ruas, becos e até mesmo os lugares mais escondidos daquela noite, sombria e misteriosa, no pequeno vilarejo de Bran da Transilvânia. Contudo, outro fenômeno parecia decidido a disputar a atenção daquele momento. Assim, lenta e graciosamente, como uma bailarina prestes à dar início à sua coreografia, uma densa neblina se erguia da terra, impossibilitando, desta maneira, qualquer um que quisesse deslumbrar a beleza daquele astro brilhante no céu. Consequentemente, aquela neblina também tornava turva a visão daqueles que desejavam enxergar o seu caminho, o que, para o desgosto e aflição de Aiden, havia se tornado um grande e árduo desafio. Afinal de contas, já era difícil se locomover à noite no meio da neblina, tarefa mais difícil ainda seria conseguir fugir de uma criatura descontrolada e assassina nessas mesmas condições. Ainda assim, Aiden Collins conseguiu despistar a tal criatura, entrando subitamente em um pequeno beco, ou pelo menos imaginou ter conseguido. Para sua infelicidade, o monstro foi capaz de detectar, com seu super-olfato, a posição do jovem rapaz. E assim, seguindo um odor peculiar — amadeirado, com notas minerais e vegetais, marcado especialmente pelo tom cítrico — e igualmente ouvindo aceleradas batidas de coração e descompassadas respirações, a imensa criatura finalmente alcançou sua vítima.

Entrando com um grande salto, um gigantesco e feroz lobo fez a sua aparição, fazendo daquele estreito, sujo e úmido beco o seu palco. Desta vez, nem mesmo a lua e a neblina estavam à altura de competir com a magnitude daquele animal. Seus olhos lembravam berilos escarlates, duas pedras preciosas cor de sangue, que, com sua imensa força magnética, eram capazes de teletransportar qualquer um que fosse exposto para dentro deles. Sua pelagem negra e densa refletia o luar, o que dava a impressão de estar olhando para lisos fios de seda prateados. Seus inúmeros dentes afiados e sedentos por sangue estavam à mostra. Eram tão brancos e puros quanto a neve, porém perigosos e, certamente, prontos para estilhaçar e arrancar a pele de suas presas com grande facilidade.

― Ah … como eu odeio lobisomens — resmungou ofegante o Aiden, que, ainda colado contra a parede e com a mão direita no peito, não demorou muito para dar continuação à sua fuga.

De imediato, correu em direção oposta ao lobo e saiu daquele beco, encontrando-se em outra rua, tão escura e coberta pela forte neblina quanto a anterior. O ser lendário, que havia ficado para trás, não demorou muito a reagir e, com o que parecia ser um pequeno e fino sorriso desenhado no canto da boca — como se estivesse zombando do comportamento da sua caça ao achar que poderia escapar tão facilmente de suas garras — pôs-se a persegui-lo novamente.

Realmente, era necessário muita coragem — ou muita imbecilidade — para sequer pensar que um mero humano seria capaz de se igualar, em velocidade e agilidade, a uma criatura mitológica como o lobisomem, logo a sua idéia de atraí-lo para uma armadilha era no mínimo inconcebível. Aiden escolheu não pensar no quão insensato o seu plano original era, pois tais pensamentos parasitas só o fariam desacelerar o passo, deixando-o ainda mais propenso a ser capturado. A rua pela qual estava sendo perseguido era levemente íngreme, o que seria uma vantagem para o jovem caso estivesse descendo, porém o seu objetivo era alcançar o castelo de Bran, que para o seu infortúnio se localizava no alto da colina. Ao passar pelo cemitério do pequeno vilarejo, não pôde deixar de olhá-lo com inquietação. — “Se não me apressar, é neste lugar que serei enterrado com certeza !” — pensou Aiden enquanto corria mais rápido. Ainda indagando-se se algum de seus parentes — exceto sua velha tia Bridget — se daria o trabalho de dar as caras em seu funeral, um estrondo, que mais parecia o baque de um grande objeto de metal contra o asfalto, chegou até os ouvidos de Aidan. E, nesse exato momento, o rapaz agradeceu aos céus por ter participado do clube de corrida na sua antiga escola, ainda que isso não importasse muito para a besta que vinha mais uma vez em sua direção, grunhindo e mais enfurecida, uma vez que trombara o focinho contra um contentor de lixo, o atrasando e fazendo perder de vista mais uma vez a sua presa. Estaria a sorte do lado de Aiden ?

Após percorrer mais duzentos metros, Aiden finalmente alcançou seu destino: o Castelo de Bran. A imensa estrutura de pedra cinzenta se erguia a mais ou menos vinte metros de altura: grandes muralhas o cercavam, junto a várias torres que se assemelhavam ao estilo medieval porém, percebia-se que havia passado por um processo de renovação para se adequar aos tempos modernos. Por mais que Aiden gostasse de parar alguns minutos para admirar aquela grande construção arquitetónica, o garoto não podia se dar ao luxo de perder muito tempo naquele lugar e, apressadamente, subiu a sacada de escadas que davam acesso à porta principal. Ao se deparar com a porta trancada, decidiu usar métodos não tão ortodoxos para penetrar aquele castelo. Habitualmente, costumava invadir um local de maneira mais sigilosa e sorrateira, no entanto, aquela certamente não era a melhor hora para pensar em meios mais delicados de invasão já que, a apenas alguns minutos dali, disparava-se um monstro louco e perigoso em sua direção. Observando que a estrutura da porta era feita de material barato, deu dois passos para trás e, juntando toda a força que ainda lhe restava, desferiu confiante um golpe na área lateral abaixo da maçaneta com seu calcanhar direito, fazendo com que a mesma se quebrasse e permitindo assim que o jovem adentrasse o castelo.

O interior era aconchegante, quentinho e o oposto do exterior, que ainda lembrava o estilo medieval, a parte interior do cômodo era moderna e elegante. Os móveis eram constituídos de madeira maciça escura, no meio do salão se erguia uma grande e linda lareira feita de mármore liso, onde o fogo queimava forte e brilhante. Nas paredes, vários quadros pendurados, nos quais estavam retratados senhores sentados em uma velha cadeira, com uma postura ereta. Aqueles eram, muito provavelmente, os antigos donos daquela habitação. Antes de Aiden se perder admirando o lustre de cristal no centro daquela sala, se lembrou que não estava ali de visita e que, a menos que quisesse ser servido como prato principal para a faminta fera que o estava perseguindo, ele deveria achar o objeto que tanto procurava. Somente tal objeto seria capaz de salvá-lo de seu destino que seria fatal, caso falhasse em achá-lo. Tal objeto só poderia estar escondido em uma das torres mais altas do castelo, pensou. Com seu coração batendo acelerado e com o pouco fôlego que ainda lhe restava, Aiden seguiu rapidamente em direção à escadaria em espiral no fundo da sala porém, antes que pudesse pôr o pé no primeiro degrau, sentiu um enorme peso em seu ombro direito. Uma mão puxou o jovem firmemente para trás fazendo-o girar e, pronto para se queixar de tal grosseria, Aiden se deparou com uma figura à sua frente e, deixando seu queixo cair, não pode expressar nenhuma palavra.

— E você é...? — perguntou, calmamente, a figura masculina com uma voz rouca.

— Ah…Eu sou…Aiden. Aiden Collins — respondeu quase gaguejando.

Não pôde deixar de fixar os olhos daquele enigmático homem: dois lindos topázios azuis, que davam a sensação de ser transportado para o mais profundo oceano; seu brilho, mais metálico e intenso que a própria lua, hipnotizava qualquer um que o olhasse e, ainda que a expressão daquele homem parecesse serena, aqueles olhos permaneciam indecifráveis. Tais olhos pareciam possuir poderes místicos, capazes de fazer com que as pessoas perdessem o seu senso de desconfiança, tornando aquele desconhecido ainda mais charmoso e atraente. Aiden parecia ter caído em um transe profundo e, aproximando-se involuntariamente daquele sujeito, sentiu subitamente uma pontada em seu peito. O medo finalmente havia alcançado novamente o rapaz, acordando-o daquele transe.

— Me larga! Tenho que ir — ordenou Aiden.

— Ir ? Eu acho que não. Já fazia muito tempo que carne fresca não adentrava em meus aposentos. E agora que você entrou, com tanta boa vontade… — olhou rapidamente para a entrada onde a porta se encontrava no chão, quebrada — ...não posso deixar que parta assim tão facilmente. — disse naturalmente, com um meio sorriso descarado desenhado no canto da boca, deixando à mostra um de seus caninos brancos e afiados.

— Desculpe, mas esta noite vai ter que entrar para a fila daqueles que querem me matar. — respondeu imitando o sorriso do outro.

Uma gargalhada rouca foi emitida da garganta do homem ao ouvir aquele comentário, afinal nunca alguém havia reagido tão fleumaticamente depois de ser avisado tão claramente sobre sua morte.

— Parece que você não entende bem a sua atual posição. — disse ainda rindo em deboche do humano. — A partir do momento em que você atravessou aquela entrada, você já estava morto. — continuou arqueando uma de suas grossas sobrancelhas negras e puxando bruscamente o braço de Aiden para mais perto de si.

O odor cítrico do perfume do rapaz, misturado com o forte cheiro de seu sangue quente, penetraram em suas narinas, deixando-o desnorteado por alguns segundos e, antes de tentar avançar naquele pescoço jovial e suculento, umedeceu levemente seus lábios carnudos com sua língua.

— Acho que é melhor morrer pelos seus belos dentes do que entre as garras daquele grandão ali. — assentiu Aiden, olhando para a entrada por onde o lobisomem acabara de entrar.

Confuso, largou Aiden e virou-se para encarar a grande fera parada em seu salão. Aquela repentina aparição o deixou revoltado, pois normalmente o teria detectado com seu olfato super-desenvolvido porém, Aiden despertou tanto a sua atenção, que havia deixado o fedor daquele cão pulguento passar despercebido. O ser lendário, com aparência de lobo, estava enfurecido com aquele humano miserável, portanto decidiu, de uma vez por todas, deixar de lado seu costume de brincar com sua presa, e retalhar até o último pedaço aquele que o havia feito de bobo por tanto tempo. Uma forte energia invadiu seu grande corpo, acumulando-se em suas patas traseiras e, com um forte impulso, a besta saltou em direção ao rapaz, não se importando com o estranho homem à sua frente. Instintivamente, o vampiro empurrou Aiden para o lado com força mediana, fazendo-o voar por alguns metros, e recebeu, em seguida, toda aquela carga pesada sobre seu corpo, caindo para trás. E, sem que Aiden percebesse, ambos, vampiro e lobisomem, rolavam para todos os lados em meio a um insano combate de força bruta. Parecia que nenhum dos dois sairia vitorioso daquele confronto, quando Aiden se lembrou de seu objetivo.

— É...então vou deixar vocês brigarem aí por enquanto — disse coçando a cabeça e virando-se mais uma vez em direção a escada.

Contudo, o rapaz viu novamente seu caminho bloqueado por uma outra figura. Desta vez, se tratava de uma mulher vestindo um vestido negro. Seus longos cabelos frisados e despenteados mostravam sua negligência para com a sua aparência e sua expressão sugeria raiva, pois sua boca estava aberta, mostrando seu par de caninos para Aiden.

— Hora de morrer rapazinho ! — disse aproximando-se de Aiden.

Como um sexto sentido, o vampiro que estava até agora medindo forças com o lobisomem, percebeu que aquela mulher estava prestes a morder Aiden. Neste exato momento, seu corpo esquentou e uma tremenda força surgiu subitamente dentro de si e passou pelos seus músculos. Desesperado, o vampiro agarrou a feroz besta, que se mantinha sobre seu corpo, e o jogou do outro lado do salão, onde chocou contra um armário, que se partiu em pedaços.

— NÃO! — rugiu forte como um leão, espantando a mulher que estava prestes a abocanhar o pescoço de Aiden. — Ele é minha presa! — disse por último, mas já recebendo outro abraço pesado do grande lobo a sua frente.

Ao ouvir aquilo, Aiden não pôde deixar de sentir uma pontada de desconforto, afinal aquele comentário sugeria possessão. Se desvencilhou imediatamente das garras daquela estranha mulher, e subiu as escadas até o cômodo que se encontrava na torre mais alta daquele castelo. Ao adentrar no quarto, seus olhos foram automaticamente atraídos para o objeto que tanto procurava. Alí estava, exposta em seu suporte na parede: a Lâmina de Bran. Aquela era a espada de prata que pertenceu ao primeiro clã de vampiros da Transilvânia. Forjada por Vlad III Basarab, aquele que teria sido o primeiro de sua geração, foi passada aos herdeiros da primeira família, que recebiam o grande fardo da proteção de sua linhagem contra seus maiores inimigos: os lobisomens negros. Estes tentaram tomar o controle do vilarejo de Bran e erradicar a primeira família à mais de mil anos atrás. Apesar de seus esforços os terem permitido extinguir quase todos os seus inimigos, Vlad III, mais conhecido como o Empalador, forjou, com a ajuda de um dos mais poderosos magos da Transilvânia, uma espada única capaz de matar o líder dos lobisomens negros. Sua lâmina, feita de prata pura, era tão afiada que Aiden era capaz de ver o brilho da lua refletido em seu fio. O guarda mão como o pomo da espada eram feitos de um ferro mais escuro que a lâmina, enquanto o cabo era envolto por uma faixa de couro preto. Em seu vinco, estava gravado em romeno: strălucire mea străpunge întunericul și răul*. Diz a lenda que existe um feitiço muito forte sobre a tal lâmina, que a impedia de receber arranhões ou de ser quebrada por seus inimigos, mesmo apòs a derrota. Aiden estava definitivamente pronto para provar a veracidade daquela lenda.

Com a arma em mãos, desceu rapidamente as escadas até o salão, onde se deparou com armários, cadeiras, mesas partidas e pedaços de vidro, junto com alguns quadros quebrados no chão, e até o luxuoso tapete de pele de urso estava completamente rasgado. O lobisomem estava ofegante, um ferimento em sua pata traseira o impossibilitava de pular, porém mantinha sua posição rígida; enquanto o vampiro se encontrava mais debilitado, com seu braço esquerdo ensanguentado e sua postura levemente inclinada para frente. Aflito, Aiden se precipitou no cômodo e, para chamar a atenção do lobo, se feriu na mão esquerda com a espada de prata. A lâmina escorregou com muita facilidade sobre a palma de sua mão, arrancando leves gemidos de desconforto dele, enquanto um pequeno fio vermelho se desenhava com sua passagem. Somente uma gota escarlate caída no chão foi necessária para empestar a sala com seu cheiro único. É claro que Aiden não pôde sentir aquilo, visto que seu olfato não era tão desenvolvido quanto os daqueles seres lendários e, por isso, não imaginou as consequências de seu ato desesperado. Subitamente todos na sala, lobisomem e ambos os vampiros, se viraram em sua direção, o que o fez imediatamente se arrepender de tê-lo feito.

‒‒ Ah não … — murmurou se dando conta do que acabara de fazer.

Pensou o quanto estava sendo difícil lidar com um ser mitológico, mas agora tinha três criaturas sanguinárias olhando diretamente para si. O lobo negro foi o primeiro a reagir ao forte cheiro de sangue e, ignorando a dor em sua pata traseira, avançou e pulou na direção do rapaz. Sem pensar duas vezes, Aiden levantou sua espada apontando-a para o peito da besta que, sem ter como mudar sua trajetória, recebeu a punhalada em seu peito caindo por cima do jovem, morta. Juntando o pouco de força restante, empurrou o grande peso sobre seu corpo para o lado e retirou a espada de prata do peito da fera, em seguida limpou o sangue com um pedaço de pano, que havia retirado do bolso interno de seu sobretudo. — “Um a menos” — pensou — “Agora só me restam dois” — como se não fosse encrenca o suficiente.

— Vejo que encontrou aquilo que estava atrás. Contente? — disse ofegante o vampiro, cobrindo o ferimento em seu braço com a mão direita.

— Sim, e se não se importam, é melhor eu ir andando. Acho que já os incomodei o bastante por hoje — replicou Aiden inclinando-se ligeiramente para frente, como em uma reverência e já se afastando lentamente em direção à saída.

— Espere garoto! — ordenou a mulher que até então se manteve escondida atrás da lareira. — Vamos matá-lo mestre — sugeriu em seguida.

— Cale-se Elisabeth! Eu sei muito bem o que farei com este humano. Mas como eu disse antes, ele pertence a mim, e só eu poderei matá-lo. Agora vá! Desapareça daqui ou terei que puni-la igualmente — mandou com um tom sombrio.

A mulher resmungou uma última vez porém, decidiu não obstinar-se perante aquela ordem e, fixando os olhos de Aiden, subiu as escadas, desaparecendo.

— Então...agora você vai...me matar? — perguntou Aiden ao outro, que se mantinha ereto mais uma vez. Como mágica, suas feridas já haviam cicatrizado.

— Mas é claro. Estou ansioso. — disse aproximando-se lentamente, ao mesmo tempo que retirava seu paletó rasgado para longe, deixando somente uma camisa branca, manchada de sangue sobre seu corpo.

— E como você planeja fazer isso? — indagou curioso, enquanto aquele homem se mantinha agora a um palmo à sua frente, encarando-o.

— Eu vou...abocanhar seu pescoço com meus dentes...e sugar todo o seu sangue...até não sobrar nem uma gota, é claro. — sussurrou fixando ora os olhos cor de mel do outro, ora a sua boca ligeiramente aberta.

Com aquela declaração, Aiden deixou escapar um pequeno suspiro. Parecia estar mais uma vez enfeitiçado pelos grandes topázios azuis. Não conseguia entender como aquele sujeito conseguia deixá-lo tão desnorteado, ao ponto de querer entregar-se completamente a ele. Seus pensamentos se transformavam e as imagens vinham, involuntariamente, em sua mente. Despertou um profundo desejo de ser levado por ele à cama e sentir os seus corpos nus se entrelaçando, debaixo do edredom. Naquela fria noite, aquela boca quente aqueceria seu corpo magro, aquelas mãos macias segurariam, com força, os seus cabelos cacheados, enquanto aqueles músculos definidos deslizariam sobre a sua pele, e o seu sexo rígido, junto ao de Aiden, o faria delirar na cama. Tais pensamentos invadiram a imaginação de Aiden que, até aquele momento, não conseguia mover sequer um músculo. Estava paralisado. Sem reação. Seus olhos estavam fixos nos lábios daquele ser e pôde notar mais uma vez os seus caninos que estavam à mostra. Porém, antes que o outro pudesse cravar os dentes em seu pescoço, acordou.

— Não! — disse finalmente, pondo um fim naquela ilusão e afastando-se. Segurou firme com as duas mãos o cabo da espada apontando para frente.

— O que acha que vai fazer com esta espada? Você teve sorte ao matar este cão sarnento, mas não se engane em achar que fará o mesmo comigo. — debochou com um certo ar de superioridade.

— Não se engane em achar que não sei como lidar com criaturas como você.

Aquele comentário fez o vampiro gargalhar alto, o que só deixou Aiden mais vermelho de raiva. Porém, sabia intimamente que o outro tinha razão, tivera sorte ao matar o lobisomem. No entento, não iria admiti-lo pois, apesar de ser menor, o jovem não se deixaria intimidar tão facilmente.

— Porque não tenta me atacar então? Realmente poderia me causar grandes estragos com essa espada. Você deve saber do que ela é capaz, afinal foi por isso que invadiu meu castelo. Ou está com medo? — sorriu de canto.

— Claro que não! Eu não tenho medo de você! — disse tentando convencer mais a si próprio do que ao outro.

Aiden não previu o que aconteceria nos próximos segundos, distraído, não percebeu a aproximação daquele ser. Tudo aconteceu rápido demais, Aiden nem sequer pôde pensar em uma maneira de se defender. Com um só movimento, o vampiro foi capaz de retirar a espada de sua mão, fazendo-a aterrissar ao lado do corpo inerte do lobisomem. Tentou, sem sucesso, afastar-se para ficar fora do alcance de seu oponente, porém o vampiro foi mais ágil. Este agarrou rapidamente o braço do rapaz, puxou-o para si mesmo e em seguida para baixo, ao mesmo tempo que moveu sua perna direita para trás dos tornozelos do jovem, à medida em que o puxava para fazê-lo tropeçar. Com este inesperado movimento, Aiden se desequilibrou e caiu de costas ao lado do vampiro que, ainda segurando vigorosamente seu pulso, passou sua perna esquerda por cima do garoto e deitou-se sobre ele.

— Eu sou Darius Basarab. O Conde de Bran. — disse fazendo sua voz soar mais amedrontadora. Apertava o pulso esquerdo do humano sobre o alto de sua cabeça, enquanto sua mão esquerda segurava firmemente o queixo de Aiden, arrancando-lhe um pequeno gemido de desconforto. — Você não pode fazer absolutamente nada, a não ser aceitar a sua morte. — Mais uma vez, os olhos dos dois se conectaram.

Dentre todas a criaturas existentes no mundo, o vampiro é com certeza a mais indolente, mas também a mais difícil de eliminar. Não devido à sua notável velocidade, nem sua extraordinária força ou imortalidade — não que todas essas características não fossem uma grande desvantagem para aqueles tentassem caçá-lo — mas, o que mais diferenciava o vampiro dos outros monstros, era a sua capacidade de persuasão. O efeito de seus olhos era tão intenso que induzir alguém a aceitar uma ideia, atitude ou realizar uma ação se tornava tarefa fácil. Deste modo, a criatura não precisava se esforçar muito para caçar, visto que suas presas se ofereciam a ela de bom grado. Este era, sem dúvida, o caçador perfeito e ninguém poderia escapar de suas garras, pelo menos em teoria pois, em prática, existia um único meio de libertar-se de seu transe: a dor. Ainda tentando lembrar-se de suas aulas de defesa pessoal na academia, Aiden retirou de seus bolsos, com sua mão livre, uma pequena faca e, sem hesitar, deslizou a lâmina sobre seu dedo indicador, criando um fino fio de sangue. Era possível notar as pupilas se dilatarem e as suas narinas abriram mais a fim de sentir aquele cheiro. Ao notar que a atenção do vampiro estava completamente direcionada para a ferida recentemente aberta, moveu lentamente sua mão para a esquerda e em seguida para a direita, fazendo com que ele a seguisse com os olhos, como um cachorro faminto a olhar para um osso.

Uma vez liberto do transe imposto pelos olhos do conde, Aiden pôde, pela primeira vez, observar a fisionomia do outro. As linhas que desenhavam a sua face eram retas e intensas, formando um retângulo. A largura dos maxilares acompanhava de perto a largura da testa, ambos eram largos; seu queixo era proeminente, também formando ângulos retos e nítidos. Sobre seus olhos azuis, repousavam longas e grossas sobrancelhas, que eram retas e especialmente baixas, dando uma expressão de perpétua indiferença e acentuando ainda mais a sua aparência sinistra. Seu comprido, fino e saliente nariz se sobressaia sobre seus lábios carnudos e estreitos. Possuía cabelos de cor castanho escuro, lisos e retos, que estavam, cuidadosamente, jogados para trás. Aiden sabia que, naquele exato momento, o Conde estava vulnerável, e que esta oportunidade jamais lhe apareceria novamente. Sabia que deveria tomar uma atitude imediatamente, seu cérebro mandava sinais para que sua mão usasse a faca e estocasse o peito do vampiro. Contudo, uma força maior o impedia de executar este comando. Aiden simplesmente não podia — ou não queria — fazer mal a Darius. Ainda indagando-se o motivo de sua incapacidade, foi pego de surpresa quando o outro avançou sobre seu dedo lesionado, colocando-o em sua boca e sugando fervorosamente o líquido vermelho que escorria do pequeno corte. Pôde sentir seus dentes duros e afiados espetando-lhe a pele, enquanto sua língua subia e descia sobre toda a extensão de seu dedo indicador. A saliva de Darius trazia uma leve sensação de ardência, ao mesmo tempo que proporcionava uma certa satisfação. A mistura de dor e prazer acendeu uma pequena faísca no interior do jovem, que, logo em seguida, se intensificou, transformando-se em uma pequena chama. O fogo propagou-se rapidamente, formando um caminho, que vinha de seu baixo ventre até chegar em sua garganta e sair, relutantemente, de sua boca na forma de um gemido. Seu corpo estava em chamas, nada seria capaz de apagar aquele incêndio interno. Aiden ainda tentava, em vão, lutar contra sua palpitante excitação, quando o som desagradável de sirenes chegou aos seus ouvidos.

— Mas que droga! O que eles querem agora? — Darius levantou-se e andou em direção a entrada, retirando sua camisa branca, que estava maculada de sangue de lobisomem — Nem pense em sair daí! — ordenou por último.

A face de Aiden enrubesceu, mais uma vez, com a visão do belo corpo atlético do Conde: este possuía a pele clara e lisa, que cobria seus peitos e ombros largos, assim como seus braços musculosos, que pareciam desfilar pretensiosamente sobre suas pequenas e firmes nádegas. Assim que sentiu a presença magnética e desconcertante do vampiro desaparecer pela entrada, não pensou duas vezes, levantou-se e disparou, como uma bala, em direção a janela daquele cômodo, sem ao menos pensar em pegar a espada. Após observar bem o lado exterior do castelo, estimou estar a, mais ou menos, três metros de altura. Saiu pela janela agarrando-se nas bordas em seguida, usou as pedras, que constituíam os muros do castelo, como apoio para descer um pouco mais. Quando finalmente percebeu estar a uma altura segura, ajustou seu corpo para o lado e, com grande determinação, saltou. Com a destreza de um felino, dobrou seus joelhos e preparou-se para o impacto. Após tocar o chão, rotacionou o peso de seu corpo para frente, rolando diagonalmente. Em seguida, correu, dando a volta no castelo, e saindo em um pequeno beco que dava acesso a rua principal, pela qual havia percorrido antes. É claro que Aiden, sendo um bom ladrão, já havia preparado aquela rota de fuga, antes mesmo de entrar no castelo. Porém, não imaginou que a usaria, visto que esta escapatória estava reservada, somente, para um caso de urgência. De longe, pôde ver a viatura de policia, parada em frente ao castelo. Dois agentes conversavam com o Conde, que agia de maneira totalmente descontraída, como se nada tivesse acontecido. Certamente, teriam sido chamados, após algum morador se queixar dos fortes barulhos, vindos da residência de Darius. Aiden não perdeu tempo e, sorrateiramente, desceu a rua em direção ao pequeno albergue, no qual estava hospedado pela noite. Para sua sorte, podia ver nitidamente por onde corria, uma vez que a densa neblina, que antes cobria as ruas, havia, finalmente, decidido dar espaço à lua brilhante no céu. Mas desta vez, era Aiden o astro daquela noite, e todos os holofotes, agora, estavam voltados a ele, iluminando seu caminho.



Notas finais
* strălucire mea străpunge întunericul și răul : A minha luz atravessa a escuridão e o mal. Bom, comecei este projeto, inicialmente, com o intuito de escrever um capítulo único. Para mim, se tratava mais de um exercício de escrita. Porém, me indentifiquei tanto com meus personagens, que cheguei a pensar em dar continuação, afinal não tinha como, em um conto tão curto, ambos se apaixonarem um pelo outro. Eu pelo menos acho que uma relação necessita de mais tempo para se desenvolver. Enfim ... caso eu receba feedback deste conto, e se alguém, por acaso, quizer saber como será o futuro destes dois, neste caso, eu ficarei muito feliz em continuar a escrever. :D Por favor, deixem comentários, críticas, etc. Ficou bom, ruim ? A narração ficou lenta, ou pelo contrário, rápida demais ? Estou no caminho certo, ou será que fui na lua e voltei com este texto ? hahaha Brincadeiras a parte, é importante, para que eu perceba as falhas da minha história, deste modo, poderei melhorar ainda mais. Todo comentário conta, então não deixe de escrever o seu ! Obrigado por ler. :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!