O Começo

1 Capítulo Único


— Nos vemos às duas, Max. E não ligue para o meu pai, ele vai adorar você depois de te conhecer melhor.

— Tomara, Roxanne — disse Max — Poxa, ele me dá medo.

— Deixa de ser bobo, vai ficar tudo bem. Tchau, Max — disse Roxanne, desligando em seguida.

Max colocou o telefone de volta no gancho, sentou na cama desarrumada e pôs a mão direita na cabeça, enquanto um largo sorriso se formava em seu rosto.

Sim, ele havia acabado de marcar seu primeiro encontro com a garota que ele mais amava no mundo, Roxanne! Como poderia ser capaz de conter sua felicidade?!

Em um piscar de olhos, Max subiu na cama e pulou alto, gritando “Uhu! Consegui! Eu consegui!”, enquanto uma brisa acariciava seu rosto, vinda da janela aberta.

— Tomara que não chova — disse o garoto — Agora, vou falar com o papai. Mesmo que o carro esteja na pior, acho que ainda dá para o gasto… Se bem que seria mais seguro ir de patins para o encontro. Meu pai é um cara legal, mas é assustador pensar no que pode acontecer se…

— Max! Estou sabendo de tudo! — disse o senhor Pateta, entrando pelo quarto — Estou tão orgulhoso de você, meu filho.

— O quê? Mas como é que você sabe dis… Não acredito. Eu não acredito, pai! Você estava escutando a minha ligação?!

— Vamos fazer um acordo, está bem? — disse Pateta, sentando-se na cama do filho — Eu te dou carona para o seu encontro e você esquece essa coisa de “espionar sua ligação”, ok? Ótimo. Agora vamos ao que interessa. O carro ainda está no concerto…

— É claro… — disse Max — Ele caiu de um penhasco!

— Na verdade foi de uma cachoeira — riu Pateta — O penhasco foi antes… Seja como for, decidi fazer um investimento nesse seu encontro, por isso, aluguei um veículo em melhor estado, com bons cavalos de potência.

Pateta explicou ao filho como seria o itinerário que fariam: primeiro, seguiriam até o parque, onde o casal poderia fazer um piquenique, a seguir, visitariam o parque de diversões e, já ao entardecer, Pateta levaria Max e Roxanne para um restaurante na cidade.

Max ficou satisfeito com o itinerário e agradeceu ao pai, que foi até a lavanderia buscar o smoking do filho.

— Smoking não é um pouco demais? — Perguntou Max, porém, Pateta já havia saído.

Nem valia a pena se preocupar com coisas assim; Pateta estava gastando tanto com o concerto do carro (que ainda era mais barato do que comprar um novo), que ter condições de pagar a lavagem do smoking, ingressos para o parque de diversões, alugar um carro novo e ainda pagar o restaurante já era, com toda a certeza, um verdadeiro milagre!

Max entendia isso e era grato ao pai, no entanto, não era como se não tivesse preocupações quanto à situação financeira de Pateta.

Fosse como fosse, deixaria o pai orgulhoso naquele dia.

Max caminhou até a estante e pegou o retrato da mãe (falecida quando ele ainda era muito pequeno) e não pôde deixar de se perguntar como seria se ela ainda estivesse ali. Bobagens.

Não valia a pena perder tempo com aquilo, então o garoto pegou uma toalha azul e seguiu para o banho (para se encontrar com Roxanne, alguns sacrifícios eram necessários), onde reencontrou seus velhos amigos: os senhores sabonete, shampoo e esponja de banho.

Enquanto a água caia sobre seus cabelos, o coração de Max batia forte, cheio de preocupação:

— Cara… E se acontecer alguma tragédia? E se o pai dela não a deixar sair? Por favor, meu Deus, que tudo dê certo…

— Max! Sai logo desse chuveiro! — Pateta gritou, fazendo o garoto se assustar.

— Tá legal, pai! Já vou!

Max se secou, enrolou-se na toalha e seguiu para o quarto, onde viu o smoking em cima da cama.

Após se vestir, o rapaz ajeito a (terrível) gravata borboleta, lustrou os sapatos negros e desceu as escadas, onde encontrou seu pai com um terno branco:

— Vamos logo, meu filho. A Roxanne já deve estar esperando.

Max abraçou o pai e os dois seguiram até o veículo, para que Max tivesse a primeira grande surpresa do dia: Pateta havia alugado uma carruagem com quatro cavalos.

— Porque está fazendo isso comigo? — perguntou o garoto, quase chorando — Quando você disse “cavalos de potência”, eu achava que se referia a potência do motor…

— Eu sei… — respondeu Pateta, segurando uma lágrima — Mas estou completamente quebrado. Aluguei essa carruagem com o Tio Patinhas. Estou pagando 10 pratas a hora para ele!

— Ele não podia te alugar de graça? — perguntou Max.

Ambos ficaram em silêncio.

A pergunta era estúpida demais para merecer uma resposta; Patinhas não faria algo de graça nem para o Papa. Na verdade, alugar o veículo por “apenas” 10 pratas já era um ato de caridade, digno dos doze discípulos.

Para quebrar o gelo, o pai perguntou ao filho:

— Então, Max? Prefere o cheiro do cavalo ou do povo? Hahaha.

— O que?! — indagou o garoto — Eu prefiro o perfume de rosas da Roxanne.

— Rosas? Pensei que era óleo de motor.

— Isso porque, quando conheceu ela, você tinha acabado de explodir o carro… — disse Max. Ambos começaram a rir.

Pateta parou em uma floricultura e comprou um buquê de rosas brancas e vermelhas, entregou-as ao filho e depois pegou um perfume do terno para borrifar no garoto.

— Poxa, valeu mesmo pai — agradeceu Max — Nem percebi que tinha esquecido o perfume.

— Graças a Deus não esqueceu o banho também, hahaha — riu Pateta.

Após alguns minutos, a dupla parou a carruagem na frente da casa de Roxanne, onde Max caminhou em direção a porta, enquanto ajeitava o colarinho.

O garoto tocou a campainha e se deparou com o pai de Roxanne: um homem com o dobro da altura de Pateta, o físico de um búfalo e a expressão de um sargento.

Max encolheu ante o olhar intimidador do brutamontes, mas Roxanne apareceu por detrás do pai e cumprimentou o namorado.

Após abraçar o pai e beijar-lhe a bochecha esquerda, ela olhou para Max, sorrindo com timidez.

Enquanto ela ajeitava o vestido branco e saia pela porta, o pai dela sussurrou para Max:

— Se alguma coisa acontecer com a minha filha, eu vou moer os seus ossos e pôr no pão! — terminando, o homem apertou a mão direita de Max, com a força de um Hércules.

— Pode deixar, senhor — respondeu o garoto, zuando frio — Sua filha vai ficar bem.

Max entregou o buquê para a garota e depois a acompanhou até a carruagem, ajudando-a a subir.

Roxanne cumprimentou o senhor Pateta, que logo bateu o chicote, para que os cavalos brancos seguissem viagem.

Enquanto a brisa fresca acariciava o rosto da garota e fazia seus cabelos ruivos dançarem, Max suspirava, até que, segurando o frasco de perfume e olhando para o céu, criou coragem e abraçou a garota.

O casal ficou em silêncio; ambos buscavam algo para dizer, enquanto tentavam vencer a timidez.

Chegando no parque, Max ajudou a garota a descer da carruagem e Pateta pegou um cesto feito de juncos, onde um serviço completo de piquenique já estava preparado, coberto por uma toalha vermelha decorada com a face de Mickey Mouse.

O casal seguiu para perto do lago, ajeitando a toalha em um ponto onde a grama estava mais macia, enquanto Pateta ficou na carruagem, lendo o jornal.

Max beijou a mão direita de Roxanne e lhe cortou uma fatia de bolo, enquanto lhe falava amenidades.

— Então, Max, como foi o seu dia?

— Foi bom, obrigado — respondeu o rapaz — E o seu?

— Foi legal — respondeu ela — E então? Já viu o novo clipe ao vivo do Powerline? Sabia que você e seu pai aparecem nele?

— Não brinca!

— É sério — disse ela — A galera toda da escola não para de comentar o assunto.

— Tivemos sorte de não sermos presos — riu Max — O Powerline foi muito legal.

Max mordeu um bolinho de creme, ao que Roxanne pegou um lencinho e limpou-lhe a boca.

— Iac — riu Max, igual ao pai.

Roxanne sorriu e se aproximou do garoto, que fechou os olhos.

Seu coração acelerou e o rosto começou a enrubescer, enquanto as mãos gelavam, como neve, a despeito das luvas brancas que Max usava.

— Prontinho, Max — disse Roxanne — Já tirei o resto da geléia.

— …ah, tá. Valeu mesmo Roxanne. — Respondeu o garoto.

Após terminarem o piquenique, o casal caminhou a passos lentos até a carruagem, onde seguiram em direção a um parque de diversões.

Pateta comprou os ingressos e os três entraram pela via principal, passando pelas catracas de aço polido, que reluziam com o Sol.

Pateta foi praticar tiro ao alvo, enquanto Max levou Roxanne para a roda gigante.

A garota adorou ver a cidade de Spoonerville naquela altura. Seus olhos castanhos brilhavam, enquanto Max ajeitava o colarinho e tocava na mão de Roxanne.

Ela abraçou o rapaz, sorridente:

— Aqui é maravilhoso, Max. É como olhar o mundo das nuvens!

— Demais, não é?! — perguntou Max, alegre — Esse parque é mesmo maneiro.

Após descerem da roda gigante, o casal se divertiu nas inúmeras barracas de jogos e prendas, onde Max ganhou um ursinho de pelúcia para Roxanne.

Enquanto seguia para a carruagem, Max encontrou o pai, que segurava um panda de pelúcia do tamanho de uma criança de oito anos:

— Onde conseguiu isso?! — perguntou o garoto.

— No tiro ao alvo — respondeu Pateta — Pode ficar com o panda, iac — disse o pai, piscando para o filho — Saberá o que fazer com ele.

Max agradeceu e, assim que chegou na carruagem, viu Roxanne ajeitada sobre a almofada.

— Aqui, Roxanne, é pra você — disse Max, desajeitado.

— Nossa, Max! Onde conseguiu ele?

— Hahaha, na verdade, foi do meu pai — respondeu o rapaz, enquanto Pateta acenava.

A garota riu e beijou a bochecha de Max, no entanto, sem largar o ursinho que tinha ganhado do garoto.

Pateta se ajeitou e conduziu a carruagem até um restaurante francês, onde o casal encerraria o dia.

Assim que entraram, Pateta sussurrou para Max escolher um lugar para o casal:

— Vou ficar em uma mesa distante — disse Pateta. — Assim, vocês vão se sentir mais a vontade.

Max agradeceu e conduziu Roxanne até uma mesa livre, próxima da janela.

O casal pediu ao garçom espaguete com almôndegas, enquanto Pateta (já confortável em uma mesa distante) pediu Soufflé de Queijo e um copo de leite.

Max acendeu duas velas que estavam na mesa, em um candelabro de bronze, sorriu para Roxanne e segurou as mãos da garota.

Ainda ruborizado, ele olhava para ela, sorrindo timidamente.

O garçom chegou com o prato e os dois dividiram o espaguete.

Roxanne sorriu e, mais uma vez, limpou os lábios de Max com um lenço, fazendo-o corar.

De repente, um outro casal entrou no restaurante: eram Mickey Mouse e sua namorada, Minnie.

— Ai, Mickey! Isso é tão romântico! — disse Minnie, abraçada com o namorado — Fico feliz que queira comemorar, mas não achei que quisesse transformar isso num encontro.

— Mas é claro, Minnie — disse o camundongo — Tudo para minha garota. Além do mais, ainda não sei se o empreendimento vai vingar, então, seu apoio é que está me dando coragem.

O casal se sentou em uma mesa ao centro e, logo que viram Max e Roxanne, acenaram para eles:

— Ei Max! Somos nós! Quem é essa garota? — Perguntou Mickey — É a sua namorada?

Algumas pessoas começaram a rir, fazendo Max murchar e ficar com a cara vermelha.

Achando que o garoto estava tímido demais, Mickey decidiu “dar uma força” e seguiu até o piano do restaurante.

Alegremente, o camundongo começou a tocar uma canção, enquanto cantava:

— “Nesta noite o amor chegou, chegou pra ficar. E tudo está em harmonia e paz; romance está no ar”…

— Ai, meu Deus! — lamentou Max.

— Max, tá tudo bem? — perguntou Roxanne.

— Tá! Não… não poderia ficar melhor — sorriu o garoto — Senhor… — sussurrou Max — Meu Deus, me salve nesse momento de necessidade… Eu prometo que nunca mais vou baixar músicas da internet nem falo mal do diretor da escola…

Roxanne tocou nas mãos de Max, sorrindo para o garoto, mas Minnie foi até o piano, para acompanhar o namorado:

— E agora, pessoal, essa é pela House of Mouse (mesmo que ainda não tenha sido aberta). Vamos lá Mickey, um, dois, três, um, dois, três… Max, essa é pra você!

— Por favor, não… — lamentou o rapaz.

Os dois camundongos começaram a tocar uma nova canção no piano:

— “O seu glamour é raridade. O seu glamour a moça não vê em ninguém. Seu visual é novidade; tem mais algum? Mais um? Não tem!”

Roxanne sorriu para Max e apertou suas mãos, compartilhando da situação constrangedora, porém, sem perder o ânimo.

De súbito, o chefe do restaurante saiu, irritado, pela porta da cozinha, enquanto discutia com um garoto de 13 anos, que usava traje formal branco e alamares de ouro.

— Vocês, estrangeiros, são todos iguais! Não sabem apreciar a boa culinária francesa! — disse o chefe.

— E vocês, franceses, não passam de arrogantes! — disse o rapaz — Além disso, você nem é francês! E, para seu governo, “pão francês” não é da França! Vamos embora, Mabel, não tenho que suportar esse falsário!

— Ajoelhe-se, seu inimigo da França! — gritou o chefe — Curve-se e adore a minha culinária francesa.

— Eu não me curvo a ninguém, seu tratante! — gritou o garoto — Não sou um idólatra e não adoro regicidas como vocês!

O garoto seguiu para a porta, furioso e jurando vingança, enquanto sua amiga ajeitava os cabelos castanhos dele.

A garota usava um bonito suéter rosa, com um unicórnio bordado e tinha cabelos longos e castanhos, presos por um tiara rosa com um laço.

Em seu sorriso se via claramente o aparelho dentário, mas não era feio; longe disso, era mais um elemento para tornar sua aparência quase a completa antítese de seu amigo — esse muito mais distinto e bélico, como um leão de guerra.

Antes, porém, que saíssem pela porta, depararam-se com um pato de polainas, usando cartola negra, óculos redondos, casaco vermelho e segurando uma bengala dourada: era Tio Patinhas.

— Mas o que é que está acontecendo aqui? — Perguntou o pato.

— Acontece que esse cretino teve a audácia de elevar a voz para Mabel — respondeu o garoto, enquanto ajeitava os cabelos castanhos da amiga corada. — Por isso, acho melhor irmos embora, ou eu vou matar esse herege!

— Mil perdões, vossa alteza — desculpou-se o quaquilionário — E quanto a você, chefe, acho bom remediar isso, ou vai para o olho da rua e… Max? Hehe, olá Max! Pateta também está aqui?

— Ai, meu Deus — sussurrou Max — Eh… O papai está logo ali, Tio Patinhas, hehehe… Que bom ver o senhor por aqui… Também veio jantar? — disse o rapaz, segurando o sorriso forçado.

— Vim é cobrar as contas do mês! — respondeu o pato — Sou o dono daqui. Além disso, também vim receber o imperador Nikolas (e conseguir exclusividade no fornecimento de bombas de chocolate para o palácio dele; o povo adora). — Por favor, vossa alteza, deixe isso tudo de lado e vamos comer alguma coisa, está bem? O chefe paga, ou está demitido — sorriu Patinhas.

— Não, isso não é certo — disse Nikolas — Prefiro pagar eu mesmo, mas não tenho dinheiro de Patópolis comigo — disse o chefe de Estado — Apenas dracmas imperiais do meu império… Eles servem?

— São feitos de quê? — perguntou o pato.

— De ouro — respondeu o imperador.

— Ouro?! É mesmo verdade?... Então servem — sorriu Patinhas — Majestade, senhorita — disse ele, beijando a mão direita de Mabel — Por aqui, por favor. E chefe… Leve uma torta de chocolate para as crianças — disse o pato, apontando para Max e Roxanne — Eles são tão fofos juntos! Me fazem lembrar dos meus tempos no Klondike, com a Dora Cintilante…

As risadas aumentaram, fazendo Max esconder a cara na toalha de mesa.

Roxanne riu e o trouxe de volta, enquanto:

— Essa noite está sendo muito divertida — disse ela.

Enquanto Max sorria para sua namorada, Pateta caminhou até a mesa onde Nikolas e Patinhas estavam e cumprimentou a ambos.

Sob os olhares atentos de Patinhas, Pateta perguntou se Nikolas estava gostando de Spoonerville, ao que o imperador respondeu que sim, apesar dos problemas:

— As vias são muito estreitas — lamentou o chefe de Estado — Não há espaço para meus elefantes ou hussardos poderem marchar… E é tão bonito quando desfilam uniformizados! São como um exército divino, pronto para conquistar o mundo todo… Mas aqui, nessa cidade, não dá. Além disso, nem posso passear com meus leões e tigres, porque as pessoas se assustam… Mas o senhor Patinhas me garantiu que o chocolate daqui é o melhor, por causa da sua fábrica. É verdade isso?

— Sim, ele é maravilhoso — concordou Pateta — Nunca vi coisa igual!

— Mas esse chocolate é caro? — perguntou o imperador.

— … Nunca vi coisa igual — disse Pateta, dando de ombros. — Bem, a senhorita gostaria de ouvir alguma música alegre? — perguntou Pateta para Mabel — Mas eu precisaria pedir que Mickey e Minnie deixassem o piano e… bem, fico sem jeito. Eles ficam tão fofinhos cantando juntos!

Mabel assentiu e Nikolas se levantou, alegando que não era problema:

— Eu posso executar os dois. Fique aí, querida — disse o rapaz, sacando a espada reluzente.

Graças a Deus, Patinhas interveio, dizendo que negociar era melhor do que “manchar uma espada tão cara de vermelho”. Aborrecido, Nikolas concordou e caminhou até os camundongos:

— Me desculpem, senhores — disse o imperador — Minha amada está fazendo sua primeira visita a sua cidade e eu gostaria de tocar uma canção para ela, nesse piano. O que querem para saírem?

— Bem… — disse Minnie — Escutei errado, ou o Tio Patinhas disse que você era algum tipo de rei, ou algo parecido?

O rapaz afirmou que era um imperador estrangeiro, ao que Minnie sussurrou algo para Mickey e ambos concordaram que era uma ótima oportunidade para arrecadar fundos e, finalmente, ter condições de abrir a tão sonhada “House of Mouse”.

Olhando um para o outro, Minnie e Mickey comentaram sobre o empreendimento e fizeram a proposta.

Nikolas não ficou nada alegre com o valor (embora esse não fosse um problema para ele):

— Como é?! Vocês querem R$750.000?! Mas isso é um abuso! Eu só quero tocar uma música no piano, e não comprar a cidade toda! Eu devia jogá-los na fogueira, seus dois aproveitadores!

— Nesse caso, tenha um bom dia — lamentou Mickey.

Nikolas segurou a espada com força, mas deteve-se quando viu os olhos castanhos de Mabel, enquanto ela comia alguns biscoitos trazidos pelo chefe.

Como a inocência da garota comovesse seu coração, Nikolas afastou toda a cólera inicial e optou pela abordagem pacífica:

— E ainda dizem que amar não tem preço… — lamentou o imperador — Tudo bem, eu banco sua casa noturna… Meu Deus, como essa cidade é cara.

Assim que Mickey e Minnie se retiraram, Nikolas começou a tocar Claire de Lune, de Debussy, para a alegria de todos — principalmente Max, que já não precisava passar vergonha.

Ele e Roxanne voltaram a comer o espaguete, até que lhes restou uma última almôndega, que repartiram ao meio.

— Oh, Max, que noite agradável foi essa.

Após terminarem a refeição, o casal pediu um sorvete de creme e depois conversou amenidades, até que a hora avançou e todos decidiram partir.

Patinhas ficou feliz em conseguir o acordo comercial com Nikolas que, por sua vez, já não tinha mais vontade de cortar a cabeça do chefe.

Mickey e Minnie ficaram no restaurante por mais algumas horas, até que a noite começasse a cobrar o débito do dia cheio, fazendo todos ficarem sonolentos.

Pateta conduziu Max e Roxanne até a carruagem, que logo chamou a atenção de Nikolas:

— Usam carruagens por aqui? — perguntou o imperador — E esse modelo até que é muito bom… É seu, Patinhas?

— Gostou? — perguntou o quaquilionário — Aluguei para meu amigo, Pateta. Sabe, vossa majestade, as industrias Patinhas tem muitos modelos de carruagens e eu, Tio Patinhas, adoraria importar alguns para o seu reino… Por um precinho quase simbólico, claro.

— Estou achando… — disse Nikolas — que o seu “precinho simbólico” vale tanto quanto o resgate de um rei! — disse o imperador, que logo amenizou o semblante, quando viu Mabel brincando com os cavalos brancos — Mas como Mabel parece ter gostado dos cavalos… — disse Nikolas — Está bem, Patinhas. Você venceu. Eu aceito o acordo de importação das suas carruagens…

— É um prazer fazer negócios com você, vossa alteza.

— Tenho certeza que sim… — resmungou o chefe de Estado.

Após todos se despedirem, Pateta levou a carruagem até a casa de Roxanne.

Max ajudou a garota a descer o veículo e ela agradeceu pelo dia agradável:

— Max, esse dia foi maravilhoso — disse ela — Foi perfeito.

— Verdade, Roxanne? Foi mesmo? — perguntou o garoto.

Sem responder, Roxanne abraçou Max, com carinho, fitou seus olhos nos dele e depois sorriu.

O coração de Max acelerou e o garoto sentiu as mãos suarem frio.

O garoto ficou corado e, antes que pudesse raciocinar alguma coisa, os lábios de Roxanne foram de encontro aos dele.

Embora rápido, aquele beijo foi como mil fogos de artifício em uma parada militar, logo após uma grande vitória.

O chão pareceu se tornar um punhado de nuvens macias e Max olhou para a Lua, grande e brilhante, quase caindo de tanta emoção.

— Nos vemos amanhã, Max — disse Roxanne.

— Com certeza, Roxanne. Vou esperar ansioso. — respondeu ele.

A garota despediu-se de Max e Pateta, agradecendo pelo ótimo dia e depois entrou em casa, levando consigo os dois ursos (o buquê ficará em casa, com o pai).

Max pôs as mãos na cabeça, ainda tentando acreditar no que acabara de acontecer, acalmou o coração e caminhou até o pai.

Pateta ficou em silêncio e ambos foram para casa.

Assim que desceram da carruagem, Max olhou para o pai e o abraçou:

— Valeu mesmo, pai. Sem você, nada disso teria sido possível.

— Você é meu filho, Max — disse Pateta — Enquanto eu estiver aqui, pode contar comigo.

O rapaz agradeceu e seguiu para o chuveiro, fazendo mais um sacrifício diário.

Enquanto isso, Pateta tirou do terno um pequeno medalhão e o abriu, revelando a foto de sua falecida esposa (uma cópia da foto que Max guardava no quarto).

Ela tinha olhos castanhos e um sorriso alegre, que fizeram Pateta segurar uma lágrima:

— Nosso filhote está crescendo — suspirou Pateta — Você ia gostar de ver o rapaz que ele se tornou.

Pateta olhou para a Lua e entrou em casa, sem se preocupar com a carruagem, já que o cocheiro chegaria dentro de poucos minutos para buscá-la, dado o adiantado da hora.

Após Max terminar o banho, foi a vez de Pateta, que não levou mais do que dez minutos.

Ao invés de jantarem, pai e filho decidiram apenas fazer um lanche rápido e colocar um filme no vídeo-cassete.

Era uma série de curtas que Pateta contracenara ao lado de Mickey, alguns anos antes, mas que ainda faziam Max rir, entusiasmado.

Após alguns minutos, o garoto caiu no sono.

Com esforço, Pateta o pegou nos braços e o levou até o quarto, colocando-o na cama.

“Ele já não é tão leve agora” sussurrava Pateta, “Daqui a pouco, eu é que vou estar sendo carregado por ele”.

Após beijar a testa do filho, Pateta fechou a janela e saiu pela porta, dando uma última olhada no rapaz antes de fechá-la.

Por um instante, não viu mais o adolescente de cabelo bagunçado, mas aquele garotinho de sete anos, que ficava ansioso pela chegada de papai Noel, todos os Natais.

Após alguns instantes, abriu a porta novamente, como quando Max ainda era bebê e acordava toda noite.

Max ainda estava lá, adormecido, fazendo Pateta indagar o quanto ainda veria cenas como aquela:

— E pensar que eu sempre contava histórias antes do Max dormir… Acho que ele não tem mais tempo para elas.

Pateta voltou a fechar a porta e seguiu para a fachada da casa, onde colocou uma cadeira e se sentou, admirando a Lua.

Se o tempo ainda passava, não o sabia dizer, mas olhar as estrelas e a luz noturna era como voltar a uma época diferente daquela, quando as coisas ainda pareciam ser simples.

De repente, Max saiu pela porta de entrada e ficou de frente para o pai:

— Eh, pai, eu… — começou o garoto — Será que podia contar uma história? Acho que fiquei ansioso demais com o dia… agora não consigo mais dormir.

Pateta sorriu e ambos entraram.

— Mas é claro, filho — disse Pateta — Tenho muitas boas histórias… Babies in the Wood, Robin Hood, Os Três Mosqueteiros, Peter Pan… — continuou Pateta, abraçando o filho — Vou contar todas até você adormecer, iac, iac.

— Iac — riu Max — Como nos velhos e bons tempos…

Após isso, os dois tiveram uma noite cheia de fábulas clássicas, contos antigos e algumas histórias de família, até que ambos adormeceram e foram parar no país dos sonhos, onde o tempo não passa, adultos se tornam crianças, adolescentes ainda gostam de ouvir histórias dos pais e os momentos mais legais da vida podem se repetir infinitamente, como as cenas de um filme gravado.



FIM

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