O Colecionador de Histórias

3 10 de Ellanaris, 1318


Notas iniciais
Música de inspiração: Many are the stars I see, but in my eye no star like thee (Ursine Vulpine feat Annaca)

10 de Ellanaris, 1318

Eu não consigo esquecer.

Toda vez que fecho meus olhos, retorno para o Jardim Congelado, sinto o ar frio se aquecendo em meus pulmões. Eu e meus amigos entramos em um silencioso acordo de não falar sobre o que aconteceu com ninguém. Nem mesmo entre nós o assunto é discutido. O que aconteceu no meu aniversário permanece um segredo, quase um sonho na fronteira da consciência. Mas, para mim, é uma constante presença nos meus pensamentos. A rosa que me foi oferecida é mantida escondida na mesma caixa de madeira que guardo meu diário – o último presente dado a mim por meus pais. É possível para um presente se tornar um fantasma a assombrar a quem foi oferecido?

A vela ao meu lado joga sombras e luz sobre a bela rosa do Inverno e do Fogo quase como um feitiço a hipnotizar meu olhar. Por que Ileanna me daria uma flor tão rara? Por que ela não nos atacou, não nos expulsou de seu domínio? Através da janela aberta, ouço o som de risadas abafadas e passos que tentam sem muito esforço não serem ouvidos. Mais invasores para o jardim de Ileanna e Iverith, mais jogadores para essa brincadeira que marca tanto nosso reino. Talvez seja esse o significado de tudo isso para os Soberanos, uma brincadeira. Não somos pegos ou expulsos, mas permitidos entrar e roubar uma rosa. Talvez seja um jogo tanto para eles quanto para nós. Se é isso, então por que presentear um jogador com o prêmio que deveria ser conquistado?

O que ela quer de mim? Ela quer alguma coisa?

Eu não sei, mas a cada dia que passa, me sinto mais compelido a retornar – não para roubar, mas para observar. Contudo, não posso dizer o que quero ver, pois nem eu mesmo sei. Há algo naquele jardim que retornou comigo e não foi apenas a rosa. Foi algo mais profundo, que penetrou minha pele e meu sangue, infectando meus pensamentos e me chamando de volta. Toco as pétalas manchadas, sentindo uma maciez ausente até mesmo dos mais valiosos tecidos. O que acontecerá se eu retornar? Ela aparecerá novamente? Ou será Iverith? Conhecerei a ira da personificação do fogo? Ou será apenas o silêncio que me recepcionará? Por que eu iria querer retornar? A lenda da Inverno e do Fogo sempre foi minha história favorita, mas era apenas isso: uma história. É a promessa de conhecer a verdade por trás do conto que me convida para voltar?

A história do Fogo e do Inverno... Eu me lembro de ouvir meus pais a contando para mim quando era criança...

Muito tempo atrás, quando o mundo era jovem e nosso reino ainda nem sonhava em existir, duas das Primeiras Crianças do Mundo deixaram o local de seu nascimento e vieram para o sul. Uma era Ileanna, a personificação do Inverno, a outra era Iverith, a forma humana do fogo. É dito que eles vieram juntos pois, desde o momento em que nasceram, se tornaram unidos por um amor capaz de abalar a própria Natureza. Esse é um detalhe que sempre achei interessante na história. O Gelo e o Fogo, opostos, mas juntos. Um amor improvável, mas não impossível. Acho que é por isso que as rosas do jardim guardado por eles se tornaram o símbolo de cortejo. Um meio de mostrar que, mesmo que pareça impossível, o amor oferecido é verdadeiro. Mas esse símbolo tinha mesmo que ser obtido com roubo?

Por muitos séculos, Ileanna e Iverith permaneceram sozinhos no sul. No coração da floresta coberta pela neve, eles construíram um castelo de ardósia negra e um branco e vasto jardim. Dizem que, de tempos em tempos, as outras crianças do mundo vinham visitá-los. Era uma época em que as Primeiras Crianças começavam a se espalhar pela terra, cada uma procurando por um local para ser seu lar. No final, o Inverno e o Fogo foram as únicas crianças a ficarem no sul e quando nossos antepassados começaram a chegar, eles viram em Ileanna e Iverith os verdadeiros líderes dessa terra e, assim, eles se tornaram os Soberanos do nascente Reino do Sul. Nesses dias, eles não eram silenciosos— eles ainda possuíam voz.

Por gerações, Ileanna e Iverith assumiram o papel como nossos soberanos, estando presentes entre nós, nos ensinando sobre o mundo e nos guiando através das épocas. Mas tudo mudou quando a guerra explodiu entre nós e eles. O motivo é nebuloso, ninguém sabe explicar direito e as muitas versões dessa história se contradizem. Alguns dizem que os soberanos se cansaram de cuidar daqueles que os substituíram no coração do Mundo, outros afirmam que fomos nós que nos voltamos contra o Inverno e o Fogo. E ainda há aqueles que declaram que não houve uma guerra, que nossos soberanos desafiaram o próprio mundo com o amor que sentiam um pelo outro e, por isso, tiveram suas vozes roubadas. Mas essa hipótese não faz sentido. Por que o Mundo castigaria um amor que já durava séculos? Acho que a guerra é a tese mais provável – e a versão mais contada, mas quem começou o confronto eu não sei.

A guerra foi intensa, muitos de nós morreram, mas os soberanos também foram feridos. Dizem que o branco jardim se tornou vermelho com o sangue derramado por eles e por nós. Das manchas feitas pelo sangue de Ileanna e Iverith, as Rosas do Inverno e do Fogo nasceram. Vendo tanta violência e morte, o Mundo decidiu intervir e acabar com a guerra. Ele exilou nossos antepassados no litoral, onde até hoje moramos, e retirou as vozes dos nosso soberanos. Com o final do confronto, Ileanna e Iverith se tornaram os Soberanos Silenciosos do Reino do Sul, pois, mesmo após a guerra e as mortes, eles ainda são nossos soberanos. Mesmo que, agora, permaneçam no castelo, exilados em seu próprio jardim. No dia a dia, nosso Conselho dos Anciões mantém nosso reino funcionando, mas na alma do Reino do Sul, o trono pertence ao Inverno e ao Fogo.

Essa é a história que sempre foi contada para mim e para todas as crianças. Se é completamente verdadeira, eu não sou capaz de dizer. O passado possui uma aura de misticismo que é difícil de quebrar. Mas aqui, sob a luz da vela e da lua, com o presente oferecido por Ileanna repousando ao lado do meu diário, eu não consigo deixar de questionar.

É essa a história que minha rosa guarda e me convida a conhecer? Há mais do que é dito no conto? Talvez... Talvez eu devesse deixar de resistir e retornar para o Jardim Congelado.

Se eu voltasse...

O Inverno me contaria a verdadeira história?

Notas finais
Por favor, deixem comentários. Críticas e sugestões são sempre bem vindas. Obrigada.