O Colar de Afrodite
1 O Colar de Afrodite
— Por que tivemos de aceitar isso mesmo?
Annabeth e eu estávamos em uma festa, extremamente elegante, devo dizer. O teto era revestido com uma pedra branca, que parecia brilhar. Nas laterais e nas colunas, linhas de ouro ajudavam a dar um toque elegante ao salão. Ah, o salão, era imenso, do tamanho de um ginásio, talvez.
Mas eu e Annabeth não estávamos aqui por diversão. Estávamos em uma missão para Afrodite, tínhamos de pegar o colar que ela perdera. E ele poderia estar em qualquer lugar da casa, no pescoço de qualquer pessoa. Enquanto só sabíamos pouca coisa sobre ele, talvez seja suficiente, talvez não.
— Eu estava precisando de um pouco de adrenalina, Cabeça de Alga. E eu acho que você também está — respondeu Annabeth, olhando pelo canto do olho cada pessoa que passava por nós.
Era ridículo o traje que eu usava. Annabeth pelo menos o achava que estava bem em mim, mas eu já achava totalmente o contrário. Eu sou filho de Poseidon, devo usar shorts e ficar sem camisa. Não usar smokings e ir em festas de pessoas ricas e famosas.
Suspirei cansado. Por mais que eu não quisesse aceitar, Annabeth tinha razão. A adrenalina me perseguiu durante anos, agora eu não consigo mais me separar dela. Eu realmente estou precisando de um pouco de ação.
Bem, eu podia estar achando que eu não estava bem nesse traje. Porém, Annabeth estava mais que perfeita. Devo dizer, mais que magnífica. Seu cabelo estava preso acima de sua cabeça, ajeitado pelas próprias filhas de Afrodite. Seu vestido era azul, com alguns pontos brilhantes. Havia um véu sobre ele, que a deixava deslumbrante, de alguma maneira. Usava um colar de ouro, e uma pulseira do mesmo material. Seus olhos cinzas estavam mais bonitos do que nunca, retocados pela maquiagem que as filhas de Afrodite haviam feito nela.
As filhas da deusa do amor sabem realmente como deixar alguém mais que deslumbrante. Meus olhos mal conseguiam abandonar o corpo de Annabeth.
— Perdeu alguma coisa por aqui, Cabeça de Alga? — indagou Annabeth, soltando um pequeno riso enquanto via um pouco de baba escapar de minha boca.
A limpei rapidamente com as costas das mãos e desviei o olhar. Annabeth sempre me pegava olhando para ela, e sempre fazia a mesma pergunta. Mas geralmente eu não babava.
— Tudo bem, vamos logo procurar esse colar — digo, tentando mudar de assunto.
Começo a andar para frente enquanto ainda ouço Annabeth rir um pouco, mas em poucos segundos ela recupera sua pose e começa a andar ao meu lado.
Falamos de diversas pessoas que poderiam estar com esse colar. Mas nenhuma delas batiam com as descrições que havíamos recebido.
— Ah, quer saber? Que se dane esse colar! — exclamei baixo, para somente Annabeth ouvir. — Vamos fazer algo realmente divertido, antes que eu me arrependa de ter vindo aqui.
Annabeth franziu a testa, e, por um segundo, vejo que ela pondera a ideia.
— É, pode ser que não seja tão ruim assim...
Antes que ela possa dizer qualquer coisa a mais, eu a puxo em direção à mesa de bebidas. De lá pegamos duas taças de champanhe e começamos a bebê-las.
Depois disso, discutimos o que iríamos fazer amanhã. Dar uma volta em Nova York sob pégasos? Annabeth não gostou da ideia, e logo sugeriu que fizéssemos um piquenique no acampamento. Aceitei com uma condição: logo depois disso, iríamos diretamente para o mar.
Hora ou outra eu roubava um beijo dela. Cada um de nós bebeu uma taça de champanhe. Depois duas. Depois três. E, a cada uma, eu via o efeito da bebida sobre Annabeth.
O mais estranho é que eu não me sentia nenhum pouco bêbado. Creio que pelo fato de eu ser filho de Poseidon e ter alguns poderes sobre a água, o álcool não me afetava. Legal.
Mesmo assim, Annabeth já não estava mais em condições de concluir nossa missão. Droga. Eu havia sugerido algo para nos distrair um pouco e lá estava as consequências.
Eu precisaria terminar essa missão sozinho, por mais chato que isso seja. Deixei Annabeth sentada em um dos imensos sofás do local e voltei à procura do colar.
Eu olhava de pescoço em pescoço, procurando incansavelmente. Minhas mãos se moviam sem parar, claros sinais de minha hiperatividade. Suspirei fundo e comecei a me controlar.
Eu precisava achar aquele colar. Agora já era algo mais pessoal.
Foi quando eu vi uma garota exuberante usando o colar. Ela tinha cabelos loiros que estavam trançados. Seus olhos eram de um azul penetrante. Seus traços eram típicos traços de uma filha de Afrodite, mas ela não era uma, as filhas de Afrodite não tinham maçãs nas bochechas. Não que isso seja um defeito, pelo contrário, isso só a deixava mais bonita.
Meus olhos se encontraram diretamente com os dela, mas ela não pareceu se sentir desconfortável com a situação. Pelo contrário, ela sorriu para mim. Não era um sorriso intimidador ou um sorriso debochado. Era um sorriso... sedutor.
Ela levantou a mão e indicou com os dois dedos para que eu me aproximasse. Minha cabeça já não controlava mais meu corpo.
A garota subiu a escada comigo em seu encalço. A cada passo que dava, eu ia sentindo que algo estava errado por ali, mas eu não conseguia raciocinar. A garota exercia um efeito hipnotizante sobre as minhas pernas, e eu não conseguia me controlar contra isso.
Ao fim da escada, a garota abriu a primeira porta que viu. Entrou lá dentro, e me puxou. Me jogou na cama e tirou seu vestido. Meus olhos diretamente se fixaram nos seus seios, que ainda estavam cobertos por um sutiã.
O colar ainda pendia em seu pescoço, mas minha cabeça não deu atenção àquilo. Na verdade, minha cabeça não deu atenção a nada. Eu só conseguia pensar no quão bela aquela garota era...
E então a ficha caiu. O colar, Afrodite me alertara sobre o poder dele. Era isso. Eu não trairia Annabeth, não, de jeito nenhum.
Rolei da cama e caí ao lado dela. A garota franziu a testa, confusa. Arqueou uma sobrancelha quando me viu levantando, desajeitado. Eu não poderia olhar para ela, então meu olhar estava focado a um ponto atrás dela.
— Hã... Bem, acho que você tem algo que eu preciso de volta — falei meio desajeitado.
— Ah, Percy, vamos, não estrague esse momento. Você e eu, estamos aqui, sua namoradinha já está fora de jogo. O que custa passar somente uma noite com outra? — ela apontou para o seu corpo e disse: — Você não quer isto?
Não, eu não queria ninguém além de Annabeth. O problema é que essa garota não entendia isso.
— Não, eu não quero isso — respondi, evitando olhar para o corpo dela.
Ela pegou o vestido do chão e o colocou desajeitadamente. Olhou para mim, decepcionada.
— Ah, Percy, você e eu poderíamos ser tão poderosos... Se você soubesse quem sou, não hesitaria em ficar ao meu lado.
— E quem você é, afinal? — perguntei.
— Não, você não precisa saber. Afinal de contas, você morre agora.
E então de sua mão surgiram labaredas de chamas, que logo vieram em minha direção.
Meu movimento mais rápido foi me jogar no chão. As labaredas passaram direto por mim e foram de encontro à parede, que instantaneamente se incendiou.
Eu havia caído perto da garota, e isso me deu a oportunidade de lhe dar uma rasteira. Ela caiu no chão, um pouco tonta, e tentou se levantar, mas eu já tinha Contracorrente em mãos e posicionei a espada no pescoço dela.
— Faça esse fogo parar. Agora! — exigi olhando bem em seus olhos.
Com um estalo de dedos o quarto se escureceu. As chamas haviam desaparecido. A pouca luz que restava no quarto vinha diretamente da lua, e isso fazia com que somente parte do rosto da garota fosse visível.
E essa única parte visível sorria.
— Me dê um motivo para não cortar sua cabeça nesse exato momento — ameacei entredentes.
O sorriso dela se expandiu. Pressionei ainda mais a lâmina em seu pescoço, fazendo respingos de sangue caírem em minha espada e no chão.
O que aconteceu a seguir foi tão rápido que eu mal consegui acompanhar. A garota levantou repentinamente e encostou seus lábios nos meus. Ao meu lado, bem aonde a porta fica, pude ouvir um grito sendo sufocado, um grito que eu conhecia mesmo tendo o ouvido tão poucas vezes.
Soltei a garota a minha frente, mas não sem antes arrancar o colar de seu pescoço. Saí correndo pelo corredor, desci as escadas e mirei meus olhos à porta.
Uma cabeleira loira ia correndo para o lado de fora. Eu reconheceria um cabelo como aquele em qualquer lugar – era o cabelo de uma filha de Atena.
Transformei Contracorrente novamente em caneta e corri até a porta, desesperado. O que Annabeth tinha visto? Será que ela estava duvidando da minha fidelidade?
Perguntas e mais perguntas se formavam em minha cabeça à medida que eu me aproximava dela. Estávamos no jardim muito bem cuidado da casa. Se eu não estivesse numa situação tão chata, eu sem dúvida pararia e o observaria sentando em um banco com Annabeth ao lado...
Finalmente a alcancei. Os sapatos que ela usava a impedia de correr muito rapidamente, e isso facilitou a minha corrida.
— Me solta, Percy! Eu vi, está bem? Eu vi! — ela exclamava se debatendo.
Seu rosto estava totalmente borrado de maquiagem. Suas mãos me batiam fortemente, despertando uma fúria que eu tivera poucas oportunidades de ver em Annabeth. Os socos me faziam cócegas, já que minha pele era de “ferro” graças à maldição de Aquiles.
A deixei me bater até que não aguentasse mais. Quando começava a se cansar e a frequência dos socos diminuiu, pude, enfim, me explicar.
— Annabeth, ela era uma bruxa. Digo, uma bruxa mesmo, ela fez bruxaria. Estava fazendo até que eu coloquei minha espada em seu pescoço. Foi ela quem me beijou! O meu erro fatal é a fidelidade, Annabeth, você sabe que eu nunca te trairia! — exclamei desesperado. Eu não poderia deixar a minha Sabidinha ir embora.
E então ela fez algo que me surpreendeu. Ela me abraçou, e eu retribuí. Sua cabeça afundou no meu peito e eu apoiei meu queixo em seus cabelos. Aspirei fundo.
— Eu sei, Percy, sei que você não me trairia — ela disse calmamente depois de minutos abraçados.
Sorri mas não disse nada. Eu não precisava, o momento em si já dizia tudo.
Me separei gentilmente dela e mostrei o colar. Ela sorriu com a visão e o pegou, colocou em sua bolsa e disse:
— Acho que ainda podemos curtir a noite. Eu só preciso dar uma passadinha no banheiro — ela disse, me dando um beijo e indo em direção a festa. — Te vejo lá dentro!
E depois disso eu tive uma das melhores noites de minha vida.
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