O Colapso de Raccoon City
1 O início do fim
Notas iniciais
Dia 25, setembro, 1998.
Um dia normal na vida dos habitantes de Raccoon City. As pessoas saem do trabalho, algumas buscam seus filhos na escola, outros vão para os bares se divertirem um pouco antes de descansarem para encarar o próximo dia.
No dia em questão, houve um surto de doença na cidade. Várias e várias pessoas foram aos hospitais, quase todas com os mesmos sintomas: coceira, vômito, dores no corpo e até mesmo febre. Uma onda de assassinatos começou a se espalhar no meio urbano e os noticiários demoraram, e muito, pra perceber o que estava acontecendo antes de fazer uma cobertura decente.
Infelizmente, nem todos tinham acesso às notícias no momento em que estavam, como algumas pessoas em um bar afastado do centro, o J's Bar. Ali, o estresse diário era esquecido e todos bebiam e conversavam de forma descontraída. Alguns jogavam sinuca, enquanto um ou outro trabalhavam em seus computadores portáteis ou então ficavam sentados perto do balcão, interagindo com as garçonetes de forma pouco ética.
A sineta sobre a porta tilintou e o garçom responsável pelo estabelecimento na noite em questão olhou para ver quem havia entrado. Era um sujeito maltrapilho, sujo e fedorento. Seus cabelos estavam emaranhados e ele caminhava de um jeito estranho, cambaleante, como se houvesse bebido tudo o que tinha direito.
O garçom suspirou, exasperado, e foi lá expulsar o morador de rua do local. Caminhou a passos firmes, mas o homem a sua frente sequer o fitava, mantendo seu olhar fixo no chão. Ele gemia baixinho, de forma lenta e arrastada.
– Hãã...
– Ei, cara! Cai fora do bar, você tá deixando os outros incomodados! — Disse o garçom, sem rodeios. Ele precisava ter uma postura firme para que outros engraçadinhos não tentassem fazer nenhuma quebradeira ou coisa do gênero.
O estranho permaneceu lá, parado, balançando levemente os braços caídos. O garçom revirou os olhos e pôs a mão em seu ombro, empurrando-o para fora, e então, aconteceu o inesperado.
Com toda a certeza, ninguém ali presente havia visto algo semelhante em momento algum de suas vidas.
O homem tido como mendigo agarrou o braço do funcionário com as duas mãos e em um movimento brusco e desumano, enterrou seus dentes na carne do rapaz de forma violenta.
Uma garçonete que estava atrás do balcão, limpando calmamente os copos deu um grito quando o animalesco indivíduo realizou seu ataque. A vítima empurrou-o e aplicou-lhe um soco bem dado no nariz, jogando-o no chão. Vários homens se juntaram ao redor daquela criatura e jogaram-na para fora do bar, e foi neste exato momento que as pessoas ali presentes perceberam que aquela seria uma noite e tanto.
Pela janela do recinto, podia-se ver vários outros semelhantes ao que promovera o ataque. Homens, mulheres, policiais, crianças e cães, todos eles vagando debilmente em direção ao bar. Um homem ergueu-se, o que trouxe algum alívio para todos já que ele era um policial e podia ser claramente reconhecido pela farda com a sigla R.P.D., ou Raccoon City Police Department. Ele se aproximou da janela para avaliar a situação.
Merda!, pensou Kevin. Ele estava na R.P.D. há anos e nunca vira nada parecido. Onde diabos estavam os outros policiais? Provavelmente em casa, ou em outros bares. Puta merda!, repetiu novamente em sua cabeça. Teria que manter a calma para não criar pânico entre as pessoas do bar.
– Me ajude com isso, cara! — Gritou para um grandalhão que havia ajudado a expulsar o homem doente. Ele usava um casaco de couro com alguma pele no pescoço, e pela abertura da veste, percebia-se que utilizava camisa e gravata por baixo. Um guarda? Ótimo, ele vai ter alguma utilidade nessa situação, refletiu o policial. Ele e o segurança foram até alguns barris cheios de bebida alcoólica e os arrastaram até a porta.
As outras pessoas ali presentes se ofereceram para ajudar também e juntos, ergueram uma pilha de cadeiras contra as janelas, na tentativa de parar os mortos vivos que por ali poderiam entrar. O recinto permaneceu em silêncio, posteriormente quebrado pelo garçom caído no chão, tossindo e espumando pela boca. A garçonete se aproximou do colega de trabalho, mas um homem com aparentemente trinta e poucos anos pediu-lhe licença. Vestia um terno marrom e carregava consigo uma maleta, cuja qual ele posicionou no chão e abriu. Lá dentro, haviam vários documentos e outras coisas relacionadas, mas em uma pequena repartição jazia um rolo de ataduras e alguns antibióticos.
Enfaixou o braço do ferido imediatamente e pediu um copo d'água para a mulher que estava agachada ao seu lado. O funcionário deitado continuava a sofrer os efeitos colaterais da mordida e uma convulsão se iniciou pouco depois de ser socorrido.
– Meu nome é George, e preciso que faça tudo o que eu pedir, ok?! — Disse o homem de terno. — Segure seus braços, a convulsão logo passará!
Dito e feito. A convulsão passou e o rapaz permaneceu quieto no chão. George checou seu pulso e não havia batimentos. Tentou novamente, desta vez pressionando uma região específica de seu pescoço, mas seu corpo continuava sem resposta.
– Ele morreu... — Disse o homem de terno, sem entender o porquê de uma mordida matar um homem. Seria o mesmo caso dos últimos pacientes que lotavam os hospitais de Raccoon City? Seria esta a doença que... — Afastem-se dele!
A garçonete se levantou imediatamente, dando alguns passos para longe do colega de trabalho. Ela estava chocada, chocada o suficiente para não chorar pelo rapaz com quem geralmente trabalhava no turno da noite, ao longo da semana.
O funcionário tremeu, mesmo após ter sido dado como morto. Seus olhos se abriram e estavam brancos, revirados nas órbitas. Ele soltou um gemido longo e arrastado. Sua boca se abria e fechava debilmente e ele começou a se erguer. Antes que qualquer um pudesse impedir, um homem com roupas beges e um tanto que sujas de graxa chutou a cabeça do rapaz, que há apenas alguns minutos estava morto no chão.
Ele não esperou ninguém dizer o que deveria fazer. Pisou no rosto da criatura, uma, duas, três vezes, até que escutou ela se romper sob a sola de sua bota. Ele tinha uma expressão enfurecida no rosto. Virou-se para o restante das pessoas que ali estavam e disse:
– Eles não são pessoas! Não são nossos amigos, nem nossa família, nem nada! São só uns monstros idiotas e débeis! Acho que nem preciso dizer para não deixar eles morderem vocês, já que sabem o que vai acontecer depois!
– Ei, ei! Qual é o seu nome? — Gritou Kevin para o homem que acabara de matar o infectado.
– David... David King. — Respondeu, sem espichar o assunto.
– Certo, David. Cada um de nós precisa ajudar de um jeito, e preciso que você e... — O policial olhou ao redor, procurando alguém que poderia ser útil para a tarefa. — E você também! — Disse, apontando para a garçonete. — Vasculhem o bar, verifiquem as outras saídas! Precisamos bloqueá-las!
Os dois acenaram e correram, cada um para um lado, procurando portas que davam para a rua. Kevin virou-se para George e perguntou:
– Você é médico?
– Sim, eu sou. — Disse, com seriedade.
– O que sabe sobre essa... doença?
– Sei que não tem cura ainda, e que se alguém morre, alguns simples minutos e ela está atrás de você, tentando te devorar vivo.
O jovem policial respirou fundo. Levou a mão até a coxa e desabotoou a tira que prendia sua pistola ao coldre. Engatilhou-a e andou pelo hall do bar, irritado. Não sabia como proceder em situações como aquela. Pra falar a verdade, ninguém sabia.
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– O que diabos tá acontecendo lá no hall? Será que é algum bêbado idiota criando confusão? — Perguntou a mulher loira que retocava a maquiagem no espelho. Vestia um terno feminino vermelho e pendurado em seu peito estava um crachá do jornal Raccoon City Diaries, que costumava ser o noticiário mais assistido/lido na cidade.
– Huh... — Uma jovem estudante asiática organizava sua mochila em cima de uma das pias e evitou responder a mulher e seus assuntos banais. Vestia-se como uma adolescente normal, com um moletom verde, jeans e tênis, embora pelo seu olhar, percebia-se que aquela garota não era apenas o que aparentava ser.
– Eu vou lá ver, tchauzinho! — Disse a jornalista, que se retirou do banheiro e bateu a porta. A estudante suspirou, exasperada, e foi atrás da mulher. Apesar de não ter tanta curiosidade para saber o que estava acontecendo, tinha certeza de que ouvira um grito e aquilo a deixara intrigada.
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– Paradas aí! — Gritou Kevin, erguendo imediatamente a pistola na direção delas e destravando-a com o polegar. A estudante deu um passo atrás, mas a jornalista não. Ela se aproximou, e tinha uma expressão de incredulidade no rosto.
– O que diabos você ACHA que tá fazendo?! Somos inocentes, idiota! — Gritou quando percebeu o corpo no chão. Teve que por a mão na boca para não vomitar ao sentir aquele cheiro nauseante ou ver a massa encefálica do rapaz espalhada no chão.
– Vocês foram mordidas ou algo do tipo? — Perguntou, ainda com a pistola apontada para a jornalista.
– Mordidas? É óbvio que não! Por que alguém me morderia? — Gritou, com raiva. Que merda é essa?!, pensou ela.
– Certo, vou explicar a situação rapidamente pra vocês. Raccoon, aparentemente, foi dominada pelo que eu vou passar a chamar de "zumbis". Eles atacam qualquer coisa viva que se enfiar na frente e infelizmente nós estamos encurralados aqui. Se algum deles te morder, você fica infectado, morre e depois volta à vida, mas não vai ser nada racional. Vai sair por aí mordendo os outros, e assim se cria um ciclo que infelizmente se ampliou demais pro meu gosto.
– Puta que pariu... — Disse a repórter, passando a mão nos cabelos.
As pancadas no vidro eram incessantes e repetitivas. As criaturas tentavam entrar ali à todo custo, mas as cadeiras e os barris estavam funcionando muito bem. David e a garçonete voltaram após algum tempo, afirmando que todas as saídas estavam bloqueadas, mas que havia um caminho para o terraço que poderia ser útil para eles fugirem.
O segurança, que disse se chamar Mark, se apressou em falar que a melhor alternativa seria aquela, e George concordou. Kevin acenou com a cabeça e todos se agruparam.
– Peguem qualquer coisa que sirva para acabar com essas porcarias e vamos lá!
George quebrou uma cadeira e pegou um de seus pés, assim como a estudante asiática. Kevin manteve sua pistola e Mark passou para o outro lado do balcão e foi tateando-o até encontrar, por baixo da madeira, um revólver calibre 38. Cindy, a garçonete, pegou um taco de sinuca e a jornalista Alyssa quebrou uma garrafa, ficando com ela em mãos. David estava com uma chave inglesa empunhada, e assim, todos foram até as escadas.
O policial fora na frente, já que estava com a arma e Mark estava logo atrás. Os corredores do bar eram estreitos e poderiam encrencar alguém que ficasse preso ali com aquelas criaturas. O mecânico indicou a porta que levaria ao terraço e para lá eles se dirigiram.
A noite estava com um ar úmido, mas todos ali podiam sentir o cheiro forte e inconfundível de fumaça. A estrutura do bar não era tão alta, mas eles conseguiam avistar carros queimando e corpos caídos em vários lugares. Kevin se aproximou da borda e olhou para baixo, soltando uma risada irônica. Os outros se juntaram a ele, sem entender o por quê da risada em meio a uma situação tão desesperadora.
Cindy caiu de joelhos, pondo as mãos na boca. Mark balançou a cabeça negativamente e gritou de raiva. George mordeu o lábio inferior e encostou-se na porta que levava ao bar. Yoko, a estudante, se sentou, afundando o rosto nas mãos. David apenas cerrou os punhos, com raiva.
Lá em baixo, cercando todo o bar, havia uma horda de centenas daquelas coisas e não havia nada que pudessem fazer contra eles. Kevin olhou para os companheiros e disse:
– Estamos muito, muito ferrados. — Ele mal terminou de falar e para completar sua frase, a porta que segurava aqueles monstros lá fora cedeu.
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