O Colapso de Oak Falls

3 Capítulo Três: Más Notícias


Notas iniciais
"Não havia nada errado ali, mas ainda não estava satisfeito. O moinho ao lado do casarão girava muito lentamente, emitindo um rangido irritante e monótono."

— Você disse que nunca traria o trabalho para casa! — disparou Sharon, enquanto batia com as duas mãos espalmadas sobre o peito de William, furiosa. — E olha o que VOCÊ fez! — A mulher andava em círculos pelo quarto, e sempre que tinha algo novo para dizer, ia até onde William Hayes estava e colocava o dedo indicador contra o seu peito, gritando. Sim, certamente os vizinhos ouviriam, mas Sharon não ligava para isso. Amanhã de manhã todos saberiam o que acontecera com Jonathan de qualquer forma, na maldita e minúscula Oak Falls.

— Conversamos às portas fechadas, ele... — William não olhava para ela, mas para o chão. Seu peito estava tão carregado de culpa que parecia prestes a explodir.

— Ah, pelo amor de Deus, William! Você não conhece o próprio filho? Eu sugeri que viéssemos aqui para cima porque você já havia quebrado a primeira maldita regra de não trazer esses assuntos para cá! Olhe para mim, William! — ela berrou, batendo mais uma vez em seu peito, e o Xerife ergueu para ela um olhar terrível, repleto do mais puro sofrimento. — Você... O nosso... O nosso filho...!

O olhar dos dois estava alinhado na mesma sintonia de dor, agonia, ansiedade... As lágrimas rolavam por suas bochechas e se uniam no queixo, rumo ao chão em uma única e grande gota. Não eram de tristeza, eram de medo. Medo pelo desconhecido, medo do que poderia acontecer com o filho, medo do que aquele maldito líquido roxo causaria a ele... Medo, e apenas medo.

William e Sharon se abraçaram, unidos no pior momento de suas vidas. Os dois eram um casal, deveriam permanecer juntos se quisessem ajudar Jonathan. Permaneceram daquele jeito por um longo momento, até que o xerife fez menção de se afastar e disse, com a voz ainda embargada:

— Preciso ir até a delegacia... Eu ainda não falei com os garotos, estão detidos e eu não posso deixa-los lá. Estou indo para o hospital também, eu... — ele olhou para o chão novamente por um instante, tornando a encarar Sharon depois disso. — Passarei no hospital antes disso, e depois também. Checarei se eles têm alguma novidade sobre o Johnny.

— Me avise de qualquer coisa. — A ênfase aplicada pela mulher era suficiente para passar o recado.

William acenou com a cabeça, esfregando os olhos antes de virar as costas e sair pela porta do quarto. Ele parou por um momento ao lado de fora e só depois de um longo suspiro, continuou seu caminho. Eram apenas doze degraus, mas agora a escada parecia infinita enquanto ele descia, apoiando o peso do corpo no corrimão. Não havia muita firmeza em suas pernas e seu estômago ainda estava meio embrulhado. O xerife pegou seu chapéu no cabide próximo à porta e colocou-o na cabeça antes de sair, inclinando-o para baixo até que a sombra projetada pela aba cobrisse seus olhos.

O caminho para o hospital foi tão penoso quanto poderia se esperar que fosse, mas Hayes o fez mesmo assim. Assim que terminou de estacionar a viatura policial na área permitida e saiu do carro, viu que Trevor, seu amigo e colega de trabalho, se aproximava. Ele tinha dois grandes copos de café nas mãos e William permitiu-se dar um pequeno sorriso para o amigo. Depois de tanto tempo trabalhando juntos, não era surpresa que ele soubesse do que o xerife precisava em situações complicadas. William agradeceu com a cabeça e pegou um dos copos. Os dois caminharam lado a lado em direção à entrada do hospital enquanto conversavam.

— Já falei com os garotos, Will, mas decidi não liberá-los enquanto o senhor não fosse até lá e fizesse suas próprias perguntas. — Ele olhou para o xerife por um momento, e recebendo o silêncio como resposta, continuou a falar. — O que eles me contaram é coisa de filme, cara.

Hayes parou e deu um longo gole no café antes de olhar para o colega. Estava ouvindo.

— Os caras estavam certos, é um meteorito, já sabíamos disso, mas uma água roxa que brilha como se fosse uma televisão de LED? Teu garoto foi banhado naquela porcaria e eu duvido que já saibam o que era aquilo. Eu sei que você não vai com a cara dos milicos, mas precisa mandar um rádio pra eles agora mesmo. Já mandei o Stanley para a estação, mas ele é só um, precisamos fechar a estação completamente e descobrir com o que estamos lidando aqui para ajudar o Jonathan. Você sabe melhor do que qualquer um que em situações assim, informação é crucial, chefe.

— Vá até a delegacia e mande um fax para o destacamento mais próximo, Trevor. Diga que houve um acidente e solicitamos apoio o quanto antes. Não vou esperar até amanhã à noite. — William tirou o chapéu e voltou a caminhar em direção ao hospital. As portas duplas se abriram automaticamente quando se aproximou, fechando-se alguns segundos depois de ele passar direto pela recepção. Passou pelo labirinto de corredores até chegar à ala em que Jonathan era examinado, seguindo seu caminho sem dizer uma palavra a ninguém, mas o barulho apressado de passos atrás de si o fez interromper sua caminhada. Virou-se para trás e se deparou com a ofegante Dra. Banks.

— Xerife, eu... — ela colocou as mãos nos joelhos por um momento, erguendo o indicador para indicar que precisava de um segundo antes de falar. Respirou fundo e retornou à postura profissional antes de se pronunciar. — O quadro de seu filho é estável. O procedimento de descontaminação já foi efetuado e colhemos amostras da substância para os militares. Trevor me disse, mais cedo, que eles chegam amanhã, então devemos ter alguma informação útil até lá. Enfim, Jonathan está descansando no momento, e eu preciso que o senhor o veja apenas pelo lado de fora do quarto... Não sabemos a natureza do líquido que causou o choque em seu corpo e não podemos permitir que haja qualquer risco de contágio. Eu... Eu sinto muito, mas...

— Não precisa se explicar, Deborah. Eu entendo. — O xerife bebeu mais um longo gole do café, enquanto caminhava ao lado da doutora em direção ao quarto em que seu filho era tratado. — Preciso que arranje uma equipe de urgência para as suas pesquisas. Trevor foi até a delegacia para solicitar apoio imediato dos militares e a minha expectativa é de que estejam aqui ao nascer do sol, se tiverem alguma consideração. Eu sei que estou pedindo muito, mas... — William olhou dentro dos olhos de Deborah antes de continuar, mas ela já havia entendido tudo o que precisava.

— Deixa com a gente, xerife. Temos um juramento para honrar, somos especialistas em perder uma boa noite de sono. — Ela deu dois tapinhas no ombro de Hayes, sorrindo de maneira tranquilizadora. — Seu filho ficará bem sob os nossos cuidados. — Ela fez um sinal com a mão em direção a um enorme painel de vidro na parede e através dele, podia-se ver o quarto de Jonathan.

O garoto estava imerso em um sono pesado na cama, vez ou outra se mexendo para lá e para cá. Estava menos pálido em relação ao momento do acidente, mas ainda parecia doente e abatido. Os aparelhos ao seu redor emitiam um bipe de maneira suave e monótona, indicando funções normais em seu pulso e respiração. William se aproximou e encostou uma das mãos no vidro, sentindo um enorme nó se formar na garganta por não poder se aproximar mais do filho.

— Quanto tempo ele ficará aqui, doutora? — o xerife perguntou, interrompendo o silêncio.

— Ainda não podemos dizer com certeza, xerife. Pode ser até amanhã, pode ser mais uns dois dias... Estamos analisando a substância para saber com o que estamos lidando e podermos tratar Jonathan da maneira mais adequada. Se os militares chegarem ainda esta madrugada, tenho certeza que a colaboração de mais algumas cabeças pensantes pode acelerar o processo.

— Farei o possível para que isso aconteça. — Hayes acenou com a cabeça, agradecendo pela atenção da doutora e seguiu em direção à saída do hospital a passos largos. À medida que deixava o prédio, a preocupação excessiva para com o quadro do filho começava a aliviar. Deborah Banks era uma das melhores médicas do Hospital de Oak Falls e certamente o garoto estava em boas mãos. Ela também não havia mentido quando dissera que mais algumas pessoas poderiam acelerar e muito o tratamento de Jonathan. Os militares possuíam mais materiais, detinham certo conhecimento prévio da situação e certamente teriam um protocolo semelhante para aquilo.

Quando atravessou as portas automáticas, Hayes parou e olhou para cima. O céu estava completamente escuro naquela noite, como se as estrelas tivessem abandonado sua longa vigília e desistido de brilhar. Por que, de tantos lugares, o maldito meteorito cairia ali? Seria o karma do qual a vidente do shopping tanto vociferava em frente à sua loja? Teria feito algo para merecer a situação em que Jonathan se encontrava? Respirou fundo e balançou a cabeça, afastando aquelas ideias malucas. O que mais aquela imensidão escura guardava para eles? “Esqueça isso, você tem trabalho a fazer”, pensou o xerife, colocando o chapéu de volta na cabeça e seguindo em direção à viatura policial. Era, provavelmente, apenas o sono resistindo ao efeito do café. William entrou no carro e seguiu para a delegacia.

As ruas estavam ainda mais vazias do que duas horas atrás, quando recebera o chamado do guarda da estação informando sobre o que acontecera. Agora, quase cinco da manhã, a noite ainda era densa e o vento oscilava entre fresco e frio. A cidade era maior do que precisava, levando em conta o tamanho de sua população. Segundo as estatísticas, chegariam à casa dos dez mil habitantes em um ano ou dois, mas a extensão territorial abrigaria facilmente o dobro disso. A avenida comercial era enorme e as casas eram espalhadas em espaçosos bairros residenciais, além de que muitos deles ultrapassavam a barreira florestal e espalhavam ainda mais o núcleo populacional. Oak Falls era unida em momentos de tragédia e grandes eventos, mas havia um maldoso ditado entre os idosos da cidade que dizia “cave sua própria cova, não conte com a porta ao lado”. William esperava que os tempos fossem outros, pois precisaria de toda ajuda possível para contornar a situação da estação e fazer com que a distribuição de água voltasse ao normal o mais rápido possível, pois se dependessem do prefeito, estariam ferrados.

Mais calmo, o xerife chegou à delegacia em uma velocidade normal e tornou a estacionar na vaga especial para as viaturas. Desceu do carro e, dando um último gole no seu café, entrou pela porta da frente e fez-se ouvir a sineta que sempre soava à entrada de alguém. Trevor já estava ali, mas cochilava sobre o antebraço em cima do balcão e Hayes não fez menção de acordá-lo. Já havia exigido o suficiente do amigo. Seguiu direto para a sala de interrogatório onde os garotos eram mantidos e parou por um momento antes de entrar. Jamais colocaria dois garotos de doze anos atrás das grades, sabia que eram apenas crianças e não haviam cometido crime algum contra as outras pessoas. Girou a maçaneta e entrou com a expressão mais neutra que conseguiu colocar no rosto.

— Senhor Hayes! — Ralph e Simon exclamaram em uníssono, levantando-se ao mesmo tempo para falar com o xerife.

— Fiquem calmos, sentem-se para que possamos conversar, pessoal. — William fez um gesto com as duas mãos abertas, sinalizando que estava tudo bem e pedindo um pouco de calma. Os garotos se sentaram novamente, olhando um para o outro por um momento e depois para o xerife novamente.

— Como... Como ele está? — Simon arriscou, com a voz baixa.

— Ele está bem, Simon. Está dormindo agora e a doutora diz que terão mais informações pela manhã. E vocês, como estão?

— Bem! — novamente, em uníssono, e isso os fez se entreolharem novamente com certo incômodo.

— Pode falar, Ralph. — Simon fez sinal com a cabeça para que o garoto começassse.

— Trevor nos tratou muito bem, senhor. Só de não nos colocar nas celas com aqueles outros caras, nós...

— Jamais colocaríamos crianças em celas com criminosos, Ralph. Não é o nosso código de conduta. — Hayes olhou fixamente para ele, tentando extrair alguma coisa. — A não ser que vocês também fossem criminosos, o que imagino que não sejam.

— De jeito nenhum! — uníssono, de novo.

— Enfim, preciso que me contem novamente o que foram fazer lá e tudo o que aconteceu. Qualquer informação é útil e quero liberá-los antes dos militares chegarem. Eles não são como eu e não quero que precisem lidar com eles.

Os garotos engoliram em seco, e logo tornaram a repetir a história. Bons minutos se passaram enquanto todos os fatos já relatados eram repassados para o xerife com alguns detalhes a mais, outros a menos que foram relembrados posteriormente, mas logo já haviam reconstituído toda a cena. Hayes ouvia atentamente e tomava algumas notas, vez ou outra, sempre muito disposto a entender os garotos.

— Vocês disseram que o líquido cobriu o corpo do meu filho e ele começou a passar mal imediatamente. — Fez uma pequena pausa e os garotos concordaram com a cabeça, rapidamente. — Vocês tentaram carrega-lo, logo também tiveram algum contato com aquela coisa. Sentiram-se diferentes? Algum enjoo, náusea, dor de cabeça?

— Pra ser sincero, senhor... — Simon levantou a mão para falar e Hayes prontamente deu-lhe a permissão. — Senti dor de cabeça enquanto nos aproximávamos, como quando estou sem os óculos. Meus olhos doeram de uma maneira semelhante à que acontece quando me esforço para enxergar algo que está muito longe. Eu sei que somos crianças, mas já assistimos a tantos filmes e... Aquilo estava atraindo metais. Meus óculos não paravam de tremer e se forçar contra as minhas orelhas, como se quisesse voar para aquela coisa no chão. Talvez seja radioativo, ou...

— Não é radioativo, Simon, senão estaríamos todos internados como o Johnny. Chegamos tão perto da pedra quanto ele. — Ralph comentou, virando-se para o xerife depois disso. — E se houver mais pedaços daquela coisa, senhor? Um meteoro, quando colide com a atmosfera, explode em muito mais pedaços do que apenas um. E se houver mais deles espalhados ao redor da cidade? Outras pessoas podem ter entrado em contato e...

— Mais gente seria afetada pelo líquido. Se aquela porcaria for contagiosa, teríamos uma epidemia de algo totalmente desconhecido em Oak Falls. Merda... — Hayes completou o raciocínio do garoto e sua preocupação aumentou imediatamente. Ele estava certo.— Vocês estão liberados. Trevor vai leva-los para casa agora e conversará com os pais de vocês. — Os garotos abriram a boca para protestar, mas Hayes fechou a cara para os dois e disse, em tom autoritário. — Sim, vocês não são criminosos, mas cometeram um grande erro esta noite. Invadiram uma propriedade privada interditada pela polícia, sob a jurisdição do exército, e entraram em contato com uma substância desconhecida e de altíssimo risco. O mínimo que posso fazer é garantir que tenham um bom castigo quando voltarem para casa.

— Sim, senhor... — Simon e Ralph concordaram, cabisbaixos, enquanto levantavam-se e eram escoltados para fora pelo xerife. William se aproximou do balcão da delegacia e bateu na madeira como se batesse na porta da casa de alguém, chamando a atenção do amigo adormecido. Trevor levantou a cabeça rapidamente, como se tivesse apenas fechado os olhos por um momento, e saiu da cadeira para falar com o xerife.

— Sim, chefe?

— Leve os garotos para casa. Conte aos pais o que aconteceu, mas sem muitos detalhes. Não precisamos preocupa-los mais do que o necessário. Garanta que eles não saiam mais de casa às duas da madrugada para invadir propriedades. — Hayes olhou para eles por cima do ombro e depois para Trevor novamente. — Você conseguiu falar com o destacamento?

— Consegui, senhor. O sargento que falou comigo disse que faria o máximo possível para que o primeiro caminhão chegasse aqui até as sete da manhã, e mandou dizer para espera-lo com... — Trevor pegou um papelzinho rasgado em cima da mesa que continha algo anotado e começou a ler. — “Duplo Burguer com queijo extra e...”

— Sem salada. Miserável... — William abriu um sorriso e balançou a cabeça. Trevor, sem entender nada, apenas deu de ombros e contornou o balcão para levar os garotos para casa. Os três se despediram do xerife e seguiram até a outra viatura estacionada no pátio, uma pick-up com a traseira fechada, preta e branca, com o símbolo do Departamento de Polícia de Oak Falls no capô.

Hayes saiu da delegacia e trancou as portas, já que ninguém ficaria ali no momento. Além dele e dos dois policiais, apenas a secretária trabalhava ali e seu turno começava pela manhã. Seguiu até o carro e abriu a porta rapidamente, pegando um mapa que se encontrava dentro do porta-luvas. Estendeu-o sobre o capô do carro e prendeu a lanterna no suporte de sua farda, no ombro, iluminando-o. Voltou até o porta-luvas e pegou uma caneta preta, correndo até o mapa mais uma vez para fazer algumas marcações. Se o meteorito tinha caído na estação e poderia ter caído em outros lugares, certamente seriam próximos. Ele fez um grande “x” sobre a estação de tratamento de água e começou a iluminar as áreas próximas com a lanterna, tentando relacionar os possíveis locais de perigo. O Rio Fawkes seguia da estação até a fazenda dos Baker, onde percorria floresta adentro até passar pela reserva fechada e desaguar no imenso Lago Canson, quase fora da cidade.

Seguiria para a fazenda dos Baker primeiro, e agora que o café já agia em seu corpo, talvez até desse uma passada no lago para conferir se havia algo anormal por lá. Fez uma prece silenciosa enquanto guardava o mapa e a caneta no porta-luvas e desligava a lanterna em seu ombro. Rezou para que não houvesse mais pedaços do meteorito em Oak Falls e que outras pessoas não tivessem entrado em contato com aquela coisa. Os Baker eram uma família isolada, raramente vistos na cidade. Criavam e cultivavam seus próprios animais e vegetais. Só vinham até o centro para comprar provimentos que facilitavam, vez ou outra, a vida na fazenda. Se algo tivesse acontecido com eles, Hayes só saberia quando chegasse lá, pois nunca receberia um telefonema informando.

Respirou fundo e deu marcha ré com viatura. Os pneus cantaram ao tocar o asfalto e serem revertidos em uma poderosa aceleração, e pouco depois de deixar a delegacia, o xerife já se encontrava cortando a distância pela rodovia. A estrada de terra que levava até a fazenda ficava no acostamento do quilômetro 103, não muito longe da cidade, mas algo lhe dizia que precisava ir ainda mais rápido. Em poucos minutos e arriscando a própria vida com o excesso de velocidade, Hayes já saía do carro para abrir a pesada porteira da fazenda Baker e passava pela pequena ponte de madeira, dirigindo devagar sobre a estrutura. Com a luz alta e o giroflex ligados, tinha uma boa iluminação do caminho até a casa da família, mas a estrada não era boa e a falta de uso tornava a manutenção ainda mais escassa.

Demorou mais para chegar até a casa do que da cidade até o portão, mas chegou. De longe, conseguia enxergar o enorme celeiro da família e o casarão onde moravam, feito completamente de madeira. Havia inúmeros varais com lençóis e roupas do lado de fora, impedindo que enxergasse a frente da casa, mas aparentemente as luzes estavam apagadas. William desceu do carro e se aproximou silenciosamente pelo gramado, evitando alertar os cachorros e principalmente Geralt Baker, um homem conhecido pela truculência e maus modos. Afastou um lençol para passar, apenas para se deparar com outro, e com outro, e com outro. Caminhou mais alguns segundos, sempre desviando daquelas peças que lhe cobriam a visão, até que finalmente chegou até a frente da casa. Não havia nada errado ali, mas ainda não estava satisfeito. O moinho ao lado do casarão girava muito lentamente, emitindo um rangido irritante e monótono.

Hayes contornou a casa, sabendo que dessa vez, alertaria os cachorros que ficavam por ali, mas não tinha escolha. Precisava se certificar de que nada ruim havia acontecido à família e a única maneira de fazer isso era indo até lá. Assim que começou a fazer a volta na casa, notou a primeira inconsistência: os cachorros não estavam ali. Suas pequenas casas de madeira estavam, mas as cordas que usavam para prendê-los à noite estavam arrebentadas e o chão à frente das casinhas estava remexido, como se os cães tivessem escavado antes de fugir. O xerife levou a mão até a lanterna e ligou-a para inspecionar, mas assim que se aproximou, completando a volta ao redor do casarão, viu exatamente o que não queria ter visto.

A parte de trás da residência estava destruída. O teto havia cedido, vítima de um poderoso impacto que acabara com toda a varanda dos fundos. William se aproximou rapidamente, apontando a lanterna para lá, mas não precisava de luz para enxergar agora. Em poucos segundos, suas entranhas se contorceram de pavor, recriando a terrível sensação de quando recebera o telefonema informando sobre o acidente de Jonathan.

A cor púrpura iluminava toda a parte dos fundos da casa.