Notas iniciais
... e se em seus últimos dias uma memória importante, porém impossível de ser recuperada, voltasse em uma simples Epifania?

Sentado num banco em meio a uma colina, ao lado de um farol tão velho quanto eu, me ponho a observar a noite estrelada de lua cheia, enquanto recordo de minha esposa, que logo em meus últimos dias de vida, me desperta a saudade.

Já fazia algum tempo desde que River havia partido, e para minha maior lembrança, restava apenas sua montanha de origamis que montara sem parar, desde o dia que descobrira a existência de sua doença.

Foram tempos difíceis, pois ela começou a se comportar de maneira estranha comigo, como se ansiasse uma lembrança que um dia lhe fora importante e que nos marcara em algum tempo no passado. Se manteve calada então, se usando apenas de poucas palavras que me deixavam cada vez mais preocupado, pois não se comunicava mais com seu marido se não através de seus animais de papel. Aliás, infelizmente, uma hora não haveria mais espaço para guardar tanto origami de coelho.

… coelho. Agora me veio à mente, aquele dia em que eu estava a observá-la em silêncio, enquanto a mesma dobrava mais uma folha de papel. Ao notar minha presença, a ruiva ainda bela, de cabelos quase grisalhos, me aponta com sorriso para o origami colorido que fizera para mim, antes deu entrar. Aqui, me diga o que vê, Diz ela para mim com mais um de seus momentos, me fazendo observar outro origami, que se destacava apenas por suas cores. É um coelho, não é? respondo, receoso com o início de uma conversa que já fizera milhões de vezes, sempre com o mesmo desfecho. Sim, e o que você vê? Diz ela, ansiosa e ao mesmo tempo abatida. ora, vejo um coelho, digo identificando o óbvio que não lhe agrada.

… E o que mais? Diz ela com esperança, quase cabisbaixa. Bom, a barriga dele é amarela e as orelhas… Azuis? digo, tentando descrever o máximo de detalhes. Isso, o que mais? Diz ela o fitando, com certa euforia e expectativa. Olha, River… é apenas um coelho, eu não sei mais o que posso ver nele… Respondo enfim, dando um fim a pergunta que já fizemos tantas vezes.

Eu continuo a observá-la em silêncio e naquele momento, ela simplesmente me ignora após minha resposta e volta a dobrar suas folhas em branco, me deixando sem jeito e reação.

Ainda hoje não consigo compreender o significado de tudo aquilo. Suas dobraduras que usara sempre em suas metáforas, era para me dizer algo, é a única conclusão que tenho até hoje. Mesmo o seu último esforço em leito de morte não fora suficiente para me fazer entender, apenas me fez perceber o valor daquela bendita frase repetitiva, que agora martelava em minha cabeça, tanto quanto um pecado.

Me pego a olhar à lua, enquanto me perdia nas lembranças de agora à pouco. Voltando a lucidez, pego meu álbum de fotos em meu colo e começo a folheá-lo, até perceber a presença de uma folha em branco escapando do meio do livro, que me chama à atenção.

Ergo então a folha contra a luz da lua, afim de se perder novamente em memórias da River. Mas para minha surpresa, o brilho daquele corpo celeste atravessando o centro do papel me causa uma sensação inédita, embora nostálgica, de uma memória adormecida que voltara à tona, que acaba por me emocionar, sem eu nem mesmo saber o porquê.

Eu era criança e naquele dia eu havia fugido da minha mãe e do festival, para observar as estrelas daquela noite de lua cheia, do tronco seco e caído que eu achara na ponta de um penhasco.

olhando o céu, sou surpreendido por um som, de alguém se aproximando do local. Era uma garotinha ruiva do meu tamanho, que sem notar minha presença, se pôs a observar a noite também, do outro lado isolado do penhasco.

Eu, sendo uma criança curiosa como todas as outras, resolvi chamar pela menina.

— olá? – Ela olha assustada para mim e simplesmente sai andando dali, em passos largos que me despertam curiosidade.

— Ei, porque está indo embora?

— ... Você está no meu lugar. – Diz ela, parando para me responder.

— Seu lugar? – Digo curioso.

— Sim.

— Mas podemos ver juntos,não?

—...Sim. – Diz ela, se aproximando de onde eu estava e sentando do outro lado do tronco.

E então acabamos por ficar ali durante o festival, conversando sobre tudo e qualquer coisa como, por exemplo, o fato de nós dois não gostarmos daquele festival e de como aquela noite estava linda, fora do comum, ou fora do que costumávamos ver. Ela até me contou um de seus segredos, de que ela sempre achara que as estrelas fossem faróis e que um dia se tornaria amiga de um, também confesso que até hoje não entendo de onde ela havia tirado isso.

Depois de um tempo quando já havíamos falado de tudo e já estávamos sem nada para dizer, eis que a menina ruiva se manifesta, propondo um jogo…

— O que acha? – Diz ela à esperar minha resposta, ansiosa.

— Ok! – Digo já olhando o céu em vantagem.

— Valendo então. – ela observa cada ponta do céu, até que...

— ... Achei! – Diz ela, empolgada.

— M-mas Já?!

— Alí, bem alí! – Aponta para o céu.

— Onde?? – Procuro desesperado.

— O maior de todos, está vendo?

— ... Espera...ESPERA! – Olho para a lua.

— Está vendo agora?

— Sim, é um… coelho!

— Oque mais? – Diz ela, com um sorriso.

— E alí está as orelhas. – Aponto para as estrelas acima da lua.

— E oque mais?

— Lá embaixo são as patas, não é?

— Isso, e o que mais? – Diz ela, se divertindo com o momento.

— E a lua… É a sua barriga. – Respondo para ela, enquanto me distraía com seu brilho.

Ela sorri com minha resposta, satisfeita, e continua a brincar com seu novo amigo durante todo o festival, procurando formas na estrelas que superassem aquele coelho gigante, que se destacava no céu daquele daquela noite[...]

Notas finais
E fim. Esse foi um texto que fiz em sala de aula, uma atividade de português que pedia um conto com Epifania. Bom, deu nisso, uma Oneshot de To The Moon, fazer o quê, né e.e
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!