O Coelhinho da Páscoa e o Coronavírus.
1 Capítulo 1
O Coelhinho da Páscoa estava com um enorme problema em suas pequenas patinhas. E esse problema tinha nome, apelido e endereço: Coronavírus, Covid-19 e todos os países do mundo, respectivamente.
Quem diria que um problema tão pequeno quanto um vírus microscópico poderia prejudicar algo tão grande quanto a Páscoa? Com certeza não o Coelhinho.
Mas, ei, agora ele tinha que pensar em como fazer a Páscoa funcionar tão em cima da hora e com o mundo inteiro parado e trancado em casa.
Em cima da hora? Mas o aviso de coronavírus não foi dado há um tempão? Sim! Mas o Coelhinho não levou a quarentena muito a sério e pensou que estaria tudo acabado antes da Páscoa, então passou seus dias vendo vídeos de gatinhos fofos no YouTube, jogando videogame e relaxando na banheira.
Bem, sem tempo de se arrepender pelo passado, o Coelhinho tinha algumas horas para fazer a Páscoa acontecer no mundo todo! Com coronavírus ou não!
(Alguém aí tem alguma ideia pra emprestar pro Coelhinho?)
*
O maior problema da quarentena foi que o comércio fechou e o Coelhinho não pôde comprar todo o chocolate que precisava pra fazer os ovos de Páscoa. O chocolateiro favorito dele, que o fornecia chocolate há mais de 500 anos, fechou a loja por causa da quarentena!
"Por que vender chocolate não foi considerado trabalho vital para a sociedade?!" O Coelhinho reclamava enquanto pulava de um lado pro outro buscando uma solução "Os médicos e veterinários continuam trabalhando, mas meu vendedor de chocolate não! Que injusto!"
Depois de fazer muito drama pelas injustiças do mundo e da crise do chocolate, o Coelhinho bolou um plano: ele ia plantar ele mesmo o cacau e fazer chocolate do zero!
O que seria uma ótima ideia... Se a Páscoa não fosse em algumas horas.
"Assim não dá, já tem até gente na internet dizendo que não vai ter Páscoa por causa desse tal de coronavírus... É fake news!" O Coelhinho já estava arrancando os pelos e subindo pelas paredes quando pensou numa solução.
Ele ligou para a Fada dos Dentes, mandou um sinal de fumaça para a Cachinhos Dourados, escreveu um e-mail para um dos elfos do Papai Noel e usou um telefone de lata pra negociar com o Bicho-papão, mas tudo isso valeu a pena quando ele conseguiu o pó de pirlimpimpim 2.0!
O que é o pó de pirlimpimpim 2.0? Simples! É um pó especial que pode ser usado para muitas coisas! Ele tem mais de 27 funções, mas uma delas, e a única que interessava o Coelhinho, era acelerar o crescimento do cacau. (Sim, é uma função muito específica)
O Coelhinho plantou os cacaueiros, jogou pó de pirlimpimpim 2.0 no quintal todo e, meia horinha depois, colheu o cacau madurinho do pé. Aí foi só transformar o cacau em chocolate e problema resolvido!
Ele trabalhou a todo vapor na cozinha. Correu de um lado pro outro, acendeu forno, apagou forno, mexeu panela, colocou coisas no congelador, mexeu mais panelas, derramou chocolate numa forma com uma pata enquanto preparava calda de chocolate com a outra e ajustava a temperatura da geladeira com o pé. Foi uma maratona! Sorte que coelhos são rápidos.
O congelador nunca teve que esfriar tão rápido, o forno nunca teve que esquentar tão rápido e o Coelhinho nunca teve que correr tão rápido antes, mas no fim deu tudo certo! Ele tinha milhares de ovos de chocolates dos mais variados! Tinha de chocolate branco, ao leite, amargo, com confeitos, sem confeitos, recheado, oco, sem brinquedo, com brinquedo (essa parte foi graças ao Papai Noel), colorido, sem cor. Era ovo pra todos os gostos!
Agora era embalar... Como essa coisa de Páscoa dá trabalho! Sorte que ele só tinha que fazer isso uma vez por ano. Correndo de novo, ele embalou os milhares de ovos em embrulhos coloridos e amarrou todos com fitas e laços. Perfeito!
Só faltava entregar....
Espera. Ele não podia sair de casa. Era quarentena!
E agora?
*
Depois de muito debate interno, o Coelhinho decidiu que sim, o trabalho dele era essencial e ele precisava sair. Então ele tomou um banho, passou álcool gel nas patinhas, tomou outro banho, depois mais um banho, só que de álcool gel, e, por fim, colocou uma máscara, luvinhas e óculos de proteção.
Foi exagero, mas é melhor prevenir que remediar, certo?
Então ele foi até o quintal pedir a ajuda de seu fiel ajudante.
Algumas pessoas têm gatos, outras cães, outras coelhos, outras até aranhas. O Coelhinho tem um boi.
E não um boi qualquer, o boi Jefferson!
Por que um boi? Bem, porque cães e gatos não conseguem puxar uma carroça, claro.
O Coelhinho empilhou todos os milhares de ovos na carroça, passou álcool gel no Jefferson, colocou uma máscara nele e gritou "Vamos, Jefferson!", e o Jefferson começou a andar.
Eles distribuíram ovos pela cidade toda. Mas a Páscoa só dura um dia e o Coelhinho tem que dar a volta no mundo quase todo (menos na Austrália, lá é o primo dele, Bilby, quem entrega). Pra aguentar isso, o Coelhinho pegou uma lata de energético BullRed (não tem nada a ver com a RedBull) e deu para o Jefferson.
O energético BullRed deixou o Jefferson pilhado e ele correu como um raio pelo país inteiro. E pelo outro país. E pelo outro também.
Mas e quando chegou a hora de cruzar o oceano? Diferente das renas no Papai Noel, o Jefferson não sabe voar.
Sem problemas! Porque o energético BullRed te faz voar! (Mas não te dá asas)
Acontece que BullRed deixa o Jefferson com gases. Gases muito, muito poderosos. Jefferson então soltou um pum muito poderoso que fez ele, o Coelhinho e a carroça voarem sobre o oceano e aterrissarem no outro país.
Eles correram pra entregar mais ovos, então Jefferson soltou outro pum e eles sobrevoaram outro oceano pra entregar mais ovos. E mais ovos e mais ovos. Eles ficaram nessa até que algo terrível aconteceu:
O BullRed acabou.
(E o Coelhinho encheu a caixa de BullRed reserva com álcool em gel pra viagem)
Isso não seria um problema tão grande... Se eles não estivessem no meio do voo. Mas eles estavam, e caíram. No meio do oceano.
Não foi legal.
*
Por sorte Caio, o tubarão-baleia, estava nadando por lá e os pegou. Caio era amigo do Coelhinho e deu uma carona para ele e Jefferson até o continente. Milagrosamente, nenhum ovo foi perdido na queda.
Mas o Coelhinho precisava que Jefferson estivesse pilhado pra entregar ovos rápido, antes de o dia acabar. Então ele preparou ele mesmo um novo energético! E como ele fez isso? Misturando água, pimenta e o ingrediente secreto: muito, muito açúcar.
A receita dizia para ser parcimonioso no açúcar, mas o Coelhinho não acreditava em receitas e estava com pressa, então jogou o pote inteiro na mistura. Jefferson ficou louco de açúcar e pimenta e correu por todos os países em tempo recorde.
Foi uma corrida muito louca.
O sol já tinha se posto (e o tempo estava acabando!) quando o Coelhinho chegou na última casa. Era só entregar o último ovo. Simples assim.
Então por que ele não tinha coragem de ir?
A verdade é que a última casa era muito assustadora. Parecia casa de filme de terror. E estava escuro! Tinha teias de aranha assustadoras, uma pintura assustadora e vultos assustadores de pessoas assustadoras que moravam lá!
O Coelhinho não queria entrar sozinho, e Jefferson não podia entrar com ele. Primeiro porque ele era um boi grande demais pra passar pela porta, segundo porque ele também estava apavorado e se recusou a chegar perto da casa.
Respirando fundo, o Coelhinho abraçou o ovo com força e entrou pela portinha do cachorro.
*
A casa era tão assustadora por dentro quanto era por fora.
Por sorte, ninguém viu o Coelhinho entrar. Era parte do trabalho dele, ninguém podia saber que ele passou por lá! Ser discreto era importante!
Ele passou na ponta dos pés pela porta da cozinha e viu a família inteira jantando junta. A mãe tinha um penteado sinistro, o pai tinha um terno sinistro e a filhinha tinha um ursinho de pelúcia sinistro de um olho só e a refeição parecia um bando de vermes ensanguentados, mas era só macarrão cheio de molho. Embaixo da mesa, tinha algo que o Coelhinho pensou que era um diabinho raivoso, mas depois percebeu que era só um cachorro feio.
Bem, tanto faz, todo mundo merecia ovos de Páscoa, família esquisita ou não. Ele andou devagarinho até achar o quarto da garota, com cuidado pra não chamar a atenção do cão do demônio, e, quando achou, colocou o ovo de chocolate sobre a cama.
Missão cumprida! Agora era só sair e—
E a garotinha apareceu do nada na frente do Coelhinho.
"Ay, madre mía!" O Coelhinho gritou de susto (em espanhol), depois se corrigiu: "Oh, mio dio!" Tentou de novo (em italiano), mas a garotinha ainda o olhava confusa "Ai, meu pai do céu!" Agora ela pareceu entender. Agora sim, língua certa!
Essa coisa de dar a volta ao mundo num dia só dava um nó na cabeça. O Coelhinho até imaginava como o Papai Noel ficava depois do Natal. Era língua demais, país demais e tempo de menos.
"Quem é você?" A garotinha sinistra que parecia ter brotado do chão e não via nada de errado em falar com coelhos perguntou. Agora de perto, dava pra ver que o ursinho de pelúcia de um olho só era um pirata urso.
"O Coelhinho da Páscoa, oras!" Cruzou as patinhas no peito. Como ela tinha a audácia de não saber quem ele era? "E você não me viu aqui! Ssshhh"
"Não tá tarde pra você passar?" Ela não parecia ter a menor vontade de gritar para os pais que o Coelhinho da Páscoa estava ali. Ele não sabia se se sentia com sorte ou ofendido.
E, de fato, era tarde. A lua já brilhava no céu e tudo.
"É.... A quarentena atrapalhou meu cronograma" Admitiu. A garotinha assentiu solenemente como se entendesse tudo.
"Por que não mandou tudo pelo correio? Ou entregou pela internet?" Perguntou curiosa.
"Porque, ora, porque... Bem, veja bem, é que" O Coelhinho se enrolou "Porque a Páscoa tem que ser feita pessoalmente, ora bolas!" Enrolou. A verdade é que ele não pensou nisso.
A garotinha pareceu engolir a desculpa, então ele se despediu e deu no pé rapidinho. O cachorro feio viu ele na saída e até tentou correr atrás dele, mas o Coelhinho foi mais rápido, saiu como um raio da casa, montou no Jefferson e caiu fora dali.
As perninhas dele doíam em lugares que ele nem sabia que dava pra doer por causa de tanta correria. Com certeza foi uma das Páscoas mais agitadas que ele já teve.
Naquele momento o Coelhinho decidiu que, se no ano que vem tivesse quarentena, ele ia fazer tudo pela internet.
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