O Cisne Negro
3 Capítulo 3
Onde estou? Me pergunto assim que acordo, a resposta me ocorre segundos depois. Nem me lembrara de como havia ido parar dentro daquele quarto de paredes brancas decoradas por desenhos pretos, a luz externa entrava suavemente por uma janela enorme encoberta por uma cortina de seda branca.
Me levanto e me vejo trajada em uma camisola preta de renda, sigo até o banheiro da suíte e me fito ao espelho, minha expressão me assusta, eu não parecia mais tão cansada e não tinha mais cara de quem iria se despedaçar a qualquer instante, e talvez, eu já houvesse me acostumado com aquilo. A porta do banheiro se abre:
—Oh desculpe-me, eu não sabia eu você estava aí, mas já que já entrei mesmo...- ela fala e segue em direção à privada, onde se senta e começa a urinar
—Você não se importa de fazer suas necessidades na presença de alguém?- pergunto olhando para a garota
—Normalmente sim, mas com você não- ela diz e se levanta- deixa eu lavar as mãos aqui, com licença- ela me dá um empurrãozinho na minha bunda com a bunda dela.
Saímos do banheiro, procuro onde largara minhas roupas, assim que as acho, as visto rapidamente:
—Ei, você sabe que horas são?- pergunto um tanto quanto despreocupada
—São...- ela olha em seu celular -nove e quarenta e sete, por quê?
—NOVE E QUARENTA E SETE?- o desespero toma conta de mim -Eu tenho que ir embora, tipo, agora!
—Onde vai com tanta pressa?- pergunta ela com uma calma encantadora.
—Eu estou atrasada pro trabalho, muito, me empresta uma saia lápis?
—Claro, espere.
Ela me empresta a saia e eu voo para fora daquela casa rumo ao ponto de ônibus mais próximo.
Mais tarde, quando bate meu horário, deixo o prédio da empresa e vou para a minha casa, passara o dia todo pensando naquele olhar incrivelmente sedutor.
Desvio meu caminho e passo em local, que ao mesmo tempo que me faz mal, me faz bem: o cemitério de minha mãe. O local é organizado para tentar ao máximo possível aliviar o clima pesado para quem o visita, os túmulos são dispostos em ordem alfabética, o mármore claro contrasta com a grama verdinha e com o sol do espaço aberto.
Quando me aproximo da lápide, vejo que meu irmão está lá:
—O que faz aqui?- ele me pergunta sério olhando para a lápide
—O mesmo que você- respondo sentindo toda a culpa que sentia antes voltar com mais intensidade
— Sabe o que penso sobre você, não quero discutir, então não se direcione a mim.
As palavras que ele desfere me atingem como uma tijolada no peito, eu nunca soube o motivo de tamanho desgosto por mim, que nunca fizera nada para ele. Resolvo ignorar seu pedido e pergunto:
—O que lhe faz me odiar tanto?- minha voz sai firme e altiva
Ele me olha com uma expressão de indignação:
—Com tem coragem de perguntar? Você é a maior decepção que essa família poderia vir a ter!- ele diz e sua voz e sua expressão passam todo o sentido de raiva, de ódio.
—Por quê?- pergunto meio que já imaginando a resposta
—Ora, largue de ser sonsa, sua desgraçada! Você sabe muito bem que nenhuma família iria querer uma coisa igual a você nela, eu não quero perder meu tempo aqui, só peço que se afaste de mim e de meus filhos, eles não merecem essa sua influência. Procure um tratamento, vai ser melhor pra você, ok?
A minha única reação foi sair de lá correndo o mais rápido que conseguira. Minha mente se recusava a funcionar, tudo que eu conseguia pensar era no quão mal eu estava e o que fizera para merecer aquilo.
Entrei em minha casa a calma já começa a agir sobre mim. Em partes. Qual é dificuldade em compreender o meu lado da história? Em pouco tempo eu já não pensava mais nisso, minha mente se focava na saudade que minha mãe me fazia sentir.
Naquela mesma noite, já me conformara que não haveria mais nenhum dia do qual eu teria orgulho de viver. Tudo me parecia tão vazio e sem sentido, me parecia tudo tão em vão...
-AI
Exclamei com o susto, o interfone tocava:
—Boa noite, senhorita, tem uma garota chamada Karolina aqui embaixo pedindo para subir, devo permitir?
—Sim, pode deixar subir.
Minutos depois ela sobe, bate na minha porta ignorando o fato de existir uma campainha, abro a mesma:
—Você não parece nada bem, o que houve?- ela fala e olha dentro de meus olhos
—Nada de mais...- olho para meus pés e lágrimas saem de meus olhos sem que eu consiga controlá-las
—Quer me contar o que foi? Ás vezes falar ajuda, vem cá- ela me puxa delicadamente pela mão até meu sofá.
Depois de lhe explicar tudo que acontecera naquela tarde, um peso que me derrubava saiu de sobre mim, me fazendo sentir melhor:
—Você não pode se culpar pelo acontece, está fora de seu controle. E nada de ficar insistindo em sua exiguidade, você sabe, ou deveria saber, que não é assim- a cada palavra que ela dizia, eu sentia mais e mais alguma coisa crescer dentro de mim, um sentimento incomum para mim.
Sem que eu pudesse evitar, me inclinei sobre ela e lhe beijei, e dentro daquele beijo, eu sentia que tudo que me afligira durante o dia simplesmente perdia a importância e eu só queria ficar cada vez mais presa àqueles lábios.
Afastamos nossos lábios e nos fitamos por algum tempo, sem falar nada, apenas admirando uma a outra. Me perguntava se ela me via tão bonita quanto eu a via, mas na verdade, enquanto eu a tivesse, isso não importava.
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