O Cisne Negro
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Quando caí em mim, olhava para a vida que seguia lá fora pela janela enferrujada do meu apartamento. Minha cabeça estaria em qualquer lugar que não fosse ali.
Basta disso, eu não vou mais ficar aqui me consumindo de dentro para fora com uma culpa que não tem como ser minha, aconteceu porque deveria, porque não tinha mais como haver algo diferente disso.
Me levantei e notei que ainda trajava meu vestido preto de seda, meus sapatos pretos e minha meia três quartos pretas. Onde estaria eu anteriormente trajando roupas escuras como aquelas? Num enterro. E ponto, o corpo ficara lá e minha felicidade perdida em algum lugar do passado.
Tomei um banho, mal conseguia me despir em frente ao espelho, a cicatriz que ficara jamais sairia, me lembraria sempre do dia quinze de março de dois mil e treze.
No mês seguinte lá estava eu, num lugar onde jamais imaginei, ou quis, estar. Ouvia palavras desferidas por alguém que jamais me traria confiança, suas palavras jamais serviriam para confortar minha dor. Antes do fim, saí dali.
Estava frio, o dia estava com aquele tom de iluminação cinzento, que só me faziam pensar em uma coisa, uma pessoa que jamais poderia estar em meus braços novamente. E minha felicidade jamais seria restaurada ao que era antes, nunca...
—Desculpe-me- uma voz doce invade meus pensamentos.
—Não foi nada- digo e olho para a então dona da voz, os olhos tão penetrantes quanto sua doce voz, aquela boca perfeitamente preenchida por um batom rosa bem claro e suave, as sardas que lhe cobriam as bochechas e o topo do nariz. Pela primeira vez em muito tempo, minha mente se desviou, e eu já não focava mais no mesmo.
—Sério?- ela pergunta preocupada, olhando diretamente em meus olhos -eu rasguei sua meia-calça, meu deus, desculpe-me.
—Eu nem havia notado, não se preocupe, não tem problema.
—Desculpe-me mesmo, ah como eu sou desastrada- ela olhava para mim com aquela expressão encabulada que a deixava mais linda ainda.
—Calma, não se preocupe com isso, ok? Não tem problema, de verdade- no final da frase, as palavras já soavam como proferidas por uma pessoa totalmente dispersa, como eu conseguiria me concentrar com aqueles olhos negros me olhando? -Quer tomar um café comigo?- perguntei por instinto, sem nem ao menos pensar, nem senti as palavras saírem de minha boca.
—Por que não?- ela sorriu -Eu conheço um lugar ótimo aqui perto, topa ir comigo até lá?
—Claro- preciso me recompor rapidamente, isso possivelmente havia me tomado quarenta segundos, mas eu senti como se houvessem passado no máximo dois.
Fomos conversando o caminho inteiro, havia muito tempo que eu não sorria, e eu fazia isso apenas pela presença da menina, que me transmitia uma alegria inexplicável, ela me ouviu e me compreendeu durante aquela conversa, e parecia que estava feliz por isso.
O lugar a qual fomos não era nada comum, eu nunca teria imaginado que havia um local como aquele nesta rua. O chão era coberto por um carpete estampado por desenhos indianos, a música de fundo era relaxante, as mesas de madeira polida, mas ainda assim com um ar rústico e o teto era repleto de detalhes no gesso, com uma pintura indiana aparentemente feita à mão.
—O que achou? Esse lugar não é aconchegante?- ela me perguntou sorrindo e me olhando com olhos brilhosos.
—Sim, eu nunca imaginaria que esse lugar existe, com certeza eu vou querer voltar aqui outra vez, e isso porque ainda nem tomei o café.
—Você não vai mudar de ideia quando tomar.
Fizemos nossos pedidos, o café veio pouco tempo depois, passamos umas boas duas horas conversando:
—Então, você estava na missa de um mês de morte da sua mãe?- ela me pergunta para confirmar a informação me olhando com um olhar compreensivo e doce
—É, eu não consigo me ver livre desse peso que me toma o peito. É tão angustiante!- Paro de falar abruptamente pois percebo que se prosseguir vou começar a chorar.
—Calma, vai ficar tudo bem, eu prometo- ela sorri e se levanta para me abraçar- eu não sou muito boa com palavras
Não falo nada, nem choro tampouco, só sinto seu abraço quente e suave. Ao sairmos de lá, saímos para a mesma direção, rumo ao ponto de ônibus mais próximo:
—Esqueci de perguntar, qual o seu nome?- ela fala enquanto procura alguma coisa na bolsa
—Eu me chamo Gabriella e você?
—Me chamo Karolina- ela sorri enquanto puxa uma caneta e um caderninho da bolsa, ela pega uma folha e me dá o caderninho- escreva aí seu celular, escrevo o meu aqui, meu ônibus já tá chegando e eu não quero perder contato- ela fala enquanto escreve.
Faço o que ela pediu e devolvo o caderninho, em seguida pego o papel. O ônibus dela chega e ela se vai, acenando para mim pela janela.
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