O Circulo
5 Capitulo 5 - Acontecimentos
Acordei aos poucos, ainda de olhos fechados me espreguicei, puxando o capuz pra trás, logo depois, abri os olhos, e ai a confusão começou. Um par de olhos assustadores me encarava perto demais e com atenção, gritei e o chutei em partes as quais não posso dizer, você sabe... aquele lugar. Pulei da cadeira me afastando o máximo que podia, meu coração parecia querer sair correndo pra fora do peito. Fitei a criatura de preto agora caída em posição fetal, que urrava de dor no chão. E então escutei o barulho das risadas, os quatro encontravam-se escorados na porta-janela, dobrando-se de rir.
― Quem... é esse maluco!? ― Perguntei apontando para o garoto que se levantava aos poucos.
― EU SOU O MALUCO? FOI VOCÊ QUE ME ATACOU, SUA DOIDA! ― Disse ele, a expressão retorcida de dor.
― BEM, EU NÃO FARIA ISSO SE VOCÊ NÃO TIVESSE QUASE EM CIMA DE MIM! ― Rebati.
― Gente... calma! ― Disse Nathan ainda parecendo se divertir com aquilo. ― Ela tem razão, Nick. Você á assustou.
― Que seja. ― Disse o garoto, ainda me encarando. Ele tinha um olho cor de vermelho sangue, e o outro negro, cabelos negros revoltos com um topete bagunçado, era magro e gracioso, alto também.
― Então esse é o Nick? ― Perguntei.
― E você é a Alexia? ― Rosnou ele como resposta.
― Chega vocês dois! ― Disse Victoria.
― Olha, Nick. Essa é a Alexia sim, já explicamos tudo a você e quem deve respostas agora não somos nós. ― Disse ela.
― Tudo bem. ― Suspirou, passando as duas mãos pelos cabelos e foi se sentar em minha poltrona. ― Magnolia teve uma visão de vocês, mas decidiu só hoje de manhã me fazer vir aqui, eu avisei pra vocês não terem ido. Vocês podiam ter morrido!
― Mas não morremos. ― Rebateu Jamie. Olhei para Nick, ele realmente parecia preocupado, por traz de toda aquela pose.
― Vamos logo com isso. ― Disse Nick, revelando suas asas e um borrão, e indo em direção ao chão.
― Lindas... ― Murmurei. Asas prateadas e imponentes. Piettra e Victoria tinham asas iguais de um rosa claro, As asas de Jamie eram de um azul pálido,e as de Nathan eram cor de marfim. Foram pra baixo, e me observaram de lá de cima.
― Vem, Lexi! ― Gritaram eles.
― Estão loucos? Não tenho asas!
― Claro que tem, vão aparecer se você se concentrar, venha! ― Subi na sacada, observando o chão, engoli em seco e saltei.
― Não! ― Berrou Nick que parecia distraído até então e senti um puxão ainda no ar. Abri os olhos.
― Ela não é como nós! Estão tentando matá-la!? ― Disse Nick, as asas batendo fracamente a suas costas, me segurava junto a seu corpo, senti o sangue fluindo por meu rosto.
― Desculpa! ― Disse Piettra voando para perto. ― Eu levo ela, Nick.
― Não! ― Fez uma careta como se censurasse a si mesmo. ― Não... precisa, eu levo ela.
― Ok. ― Disse Piettra.
E assim todos alçaram vôo, não pude me conter e dei alguns risinhos, era fantástico ver tudo de cima, o vento batendo no rosto.
― O que te faz rir tanto? ― Perguntou Nick.
― A velocidade, o vento... isso, é diferente. ― Ele abriu um sorriso e apenas disse: ― Você está louca.
Havia tido uma péssima noite, Jamie não me deu ouvidos e orgulhoso decidiu pegar a missão pra ele, obvio que seu grupo não conseguiria deter Katrop, já eu por outro lado... havia enfrentado ela antes, sabia como derrota-la, ainda por cima Merethy acabou me irritando quando tentou me beijar na frente de todos e a afastei com um empurrão, dizendo o quanto ela parecia uma vadia fazendo aquilo, odiava isso. Quase todas as garotas da escola ficavam de risinhos ou se declaravam pra mim, interesseiras, não estavam de fato interessadas em mim, mas sim em minha família, minha imagem... meu poder. De certa forma isso era o principal motivo por eu ser tão irritado com todos, o único que de fato não se importava com isso era Brandon, meu colega de quarto. Eu pertencia á família Friedrich, uma das mais bem sucedidas e de linhagem “nobre”. Por consequencia meus pais cobravam muito de mim, eu me esforçava ao máximo em tudo, para agrada-los, mas isso é outra história. Levantei-me da cama, suspirando pesadamente, Brandon sempre costumava acordar mais cedo para treinar antes da aula. Fitei o relógio, eram 04:00 em ponto. Me arrastei pra fora da cama e tomei um banho demorado, afim de afastar todos os pensamentos desgastantes, voltei para o quarto vestindo a armadura padrão da escola, e sai do dormitório indo em direção a escola. Adentrando o local andei sem rumo por um tempo, até que parei para observar o céu lá fora, por uma das janelas.
― Não consegue dormir? ― A voz parecia ter surgido do nada, mas eu a reconhecia, Magnolia sempre aparecia assim, assustando a todos.
― Bom Dia. ― Falei, me virando para fazer uma mesura em sinal de respeito.
― O que lhe atormenta, Nick? ― Perguntou a mulher a minha frente.
― Pensamentos indesejados.
― Nick, não nos encontramos por acaso. ― Disse Magnolia em tom sério. Aquelas palavras me atingiram com força, a primeira coisa que pensei foi em Jamie e os outros indo naquela missão, entrei em pânico.
― Ah, não... não! Eles não conseguiram? Eu avisei pro Jamie, droga!
― Eles estão vivos, graças a uma intervenção bem peculiar. ― O alivio chegou logo depois, eles estavam vivos.
― Como assim?
― Uma... garota... ― Disse Magnolia com um risinho, levando uma das mãos a boca, de forma que a cobriu. ― Você terá de ver por seus próprios olhos. Ela é... diferente, Nick. ― Os olhos de Magnolia brilhavam, como se ela já soubesse de algo que eu não sabia, se bem que era verdade. Magnolia tinha um dom, isso é raro de acontecer até mesmo entre membros da classe S. Ela tinha o dom da visão, previa o futuro e passado.
― Mas... o que eu tenho a ver com isso?
― Quero que os traga de volta, todos. Isto inclui a garota também.
― Certo, mas aonde encontra-los? ― Ela tirou um papel pardo dobrado da manga, e me entregou.
― Aqui estão as coordenadas. Obrigada, Nick.
― Disponha. ― Disse, abrindo a janela, acenei em despedida e me joguei de costas, girei no ar rente ao chão estendendo as asas, planando pelo local até ganhar velocidade e seguir de encontro a meus amigos.
Não tive dificuldades para achar o lugar, a casa era enorme, seguindo as instruções de Magnolia, avancei. Ao longe avistei uma figura sentada em uma cadeira na sacada, me aproximei com cuidado. A garota parecia completamente em paz dormindo, mesmo tapada até o pescoço parecia ser pequena, alguns fios de cabelo cor de sal caiam pelo rosto. Então ouvi meu nome, e olhei através da porta-janela. Victoria parecia ter sido a primeira a me avistar, abriu a janela e entrei no quarto, observando o interior, o que se seguiu foi todos nós sentados no chão conversando sobre os acontecimentos, achei incrível aquela garota de aparência tão frágil ter conseguido fulminar Katrop. Me levantei indo em direção a garota, ela ainda dormia e sorri diante da expressão serena dela, aproximei meu rosto do dela, fitando-a. Ela começou a acordar em instantes depois, se espreguiçando ainda de olhos fechados, quando abriu os olhos, tudo que vi foi um borrão lilás e cinza, e estava no chão. Ela havia me chutado em uma parte nada agradável, urrei de dor, indignado.
― Quem é que esta rindo do nada agora? E depois sou eu a louca? ― Perguntei.
― Não é nada demais, apenas estava recordando de algo. ― Murmurou ele ainda pensativo.
― Humm. ― Olhei pra baixo, estávamos sobrevoando a floresta e ao longe podia já podia avistar a escola que se erguia majestosamente, apontei pra ela. ― É linda.
― Espere até ver o interior. ― Comentou Nick. Os outros voavam próximos, Jamie e Nathan apostavam corrida e Victoria e Piettra voavam lado a lado, conversando entre si.
― Quer tentar uma coisa louca? ― Perguntou ele.
― Tipo o que? ― Franzi o cenho.
― Se segure. ― Ele sorriu maliciosamente, e encolheu as asas ao redor das costas, começamos a despencar em uma velocidade incrível, quando estávamos perto do chão giramos, e ele bateu asas novamente até planar e começamos a subir, giramos mais algumas vezes pra baixo, e então ele bateu as asas cada vez mais forte, fomos passando dos outros aos poucos, não conseguia me controlar e ria, assim como ele. Passamos pelos imponentes portões da escola e aterrissamos perto da fonte, que tinha a escultura de um esqueleto segurando uma foice em uma túnica. Observei, ela era sombria porem linda de um jeito diferente. Depois, olhei para a enorme e elegante construção a minha frente, a escola por fora parecia um castelo em estilo gótico, era gigantesca. O nome da escola se destacava acima das pesadas portas de madeira da entrada. “ Escola preparatória de Ceifadores, Cross Shadow. “ A minha esquerda havia o dormitório feminino seguindo o mesmo padrão de construção, e a direita o masculino.
― Uau! ― Exclamei. Nick se afastou, parando a meu lado contemplando a escola igualmente.
― As aulas são diferentes de todas as que você já teve. Natação e Ed. Física é na rua, atrás do dormitório feminino da para o local de natação e atrás do masculino pra Ed, física. São separados os lugares. Quando as aulas acabam antes de irmos para nossos dormitórios ou em intervalos costumamos ficar por aqui, sentados na grama ou nas mesas atrás da escola.
― Legal. Como são os professores? ― Perguntei.
― Em geral, são bem legais. A escola é gigantesca, tem até mesmo cômodos escondidos, sabia?
― Sério? ― Perguntei, ele assentiu, guardando as asas atrás das costas. O segundo a chegar foi Jamie, de terceiro Nathan, eles se empurravam de brincadeira. Piettra e Victoria chegaram logo depois, ao mesmo tempo. Piettra passou o braço ao redor do meu e sorriu, empolgada.
― Pronta? ― Perguntou ela.
― Acho que sim. ― Fiz uma careta, o que os levou a rir. E com isso adentramos o castelo, por dentro conseguia ser ainda mais lindo, no chão um piso branco com um intricado desenho de roseiras negras, as paredes eram cor de creme, cheia de fotos e quadros, escadas de madeira escura imponentes, grandes janelas coberta por pesadas cortinas de veludo vermelho.
― Vamos á sala de Magnolia. ― Murmurou Jamie. Subimos as escadas pelo que pareceu uma infinidade de vezes, o interior era tão lindo quanto o lado de fora, Nathan contou que a sala de Magnolia ficava em uma das torres, bem isso explicava o porque de termos de subir tantas escadarias, quando finalmente chegamos, Nick foi na frente batendo de leve na porta. Quem abriu, foi uma mulher alta e esguia extremamente pálida de cabelos cor de fogo presos em um elegante coque, vestindo um longo vestido preto de mangas esvoaçantes, um olho castanho e outro laranja, olhou pra todos, sorrindo.
― Graças a Deus todos voltaram com vida. ― Disse ela, e abraçou um a um dando dois estalados beijos em cada lado da bochecha. Por fim, parou em minha frente abrindo um largo sorriso.
― Louise. ― Disse, me puxando para um abraço, de certa forma não consegui conter um sorriso também, mesmo sabendo que ela havia errado meu nome.
― Hum, na verdade... é Alexia, Sra. ― Ela se afastou para poder me olhar nos olhos.
― Tem razão, não vamos apressar as coisas, Alexia. ― Disse ela, se corrigindo. Se ela não havia se enganado, qual o motivo de ter me chamado de Louise?
― Sentem-se todos, tenho alguns comunicados a fazer antes de desvendar essa mocinha. ― Ela fez um gesto para que todos entrassem na sala, e entramos. Sentei na poltrona de frente pra mesa dela, Piettra havia se sentado a meu lado, Jamie, Nathan e Victoria sentaram-se no sofá e Nick estava escorado perto de uma estante.
― Primeiramente, vocês foram muito corajosos enfrentando aquela sombra. Mas poderiam ter morrido, e teriam se Alexia não tivesse aparecido. Poderiam pelo menos terem levado Nick, ou outro, se não quisessem ceder á missão. Mas de certa forma estava previsto, isso fez o destino de vocês cruzarem com o dela. Nick, obrigada por ter ido atrás deles e os trazido de volta, fico realmente grata. Todos desempenharam um trabalho importante, de fato. ― Todos se levantaram, curvando-se a ela com o punho sobre o peito. Os observei, ainda sentada sem entender.
― Agora... Alexia, poderia estender-me sua mão? ― Olhei para Piettra, nervosa. Que apenas assentiu. Entreguei uma de minhas mãos a ela, que as segurou com as duas fechando os olhos por um instante, até que os abriu, sem foco. Todos assistiam aquela cena com interesse.
Passou-se 5 minutos...
E mais 5...
Pareceu uma eternidade até ela finalmente voltar ao normal.
― Fantástico. ― Murmurou pra si mesma, ainda piscando. ― Suas memórias, mesmo as de quando você era muito nova, ficam arquivadas em sua mente assim como a dos outros, Alexia... você é realmente uma de nós.
Ela se levantou, fazendo a mesma coisa que os outros haviam feito até pouco tempo a ela, os outros repetiram.
― Espera... isso... quer dizer que eu sou adotada? ― Perguntei, pasma.
― Isso quer dizer que você foi roubada de sua verdadeira família, os Laurenzzi. ― Todos presentes engasgaram-se de espanto, Nick se pronunciou, pasmo.
― Como eu não percebi isso antes? Ela é a cara de Agatha! ― Exclamou ele.
― Fui... roubada? Como assim? ― Só percebi que havia me levantado quando minhas pernas fraquejaram e eu cai na poltrona novamente, tremendo.
― Querida, sua família é muito influente e por consequencia tem vários inimigos... eu gostaria de te apresentar a eles. Se quiser... Eles nunca deixaram de procura-la, sabia? ― Disse ela em tom doce. ― Apenas assenti, ainda sem forças.
― Mais uma coisa, você esta com seus poderes selados. ― Suspirou Magnolia.
― Como assim? ― Perguntei.
― Uma maldição, que lhe priva de seus poderes, mas esta enfraquecendo com o tempo... Acho que nossa professora de Rituais pode resolver isso ainda hoje. Depois daqui vão falar com ela...
― Alexia, seja bem-vinda a nossa escola. ― Disse Magnolia.
Assenti, ainda sem conseguir falar direito, olhei pros outros que sorriam minimamente por ainda estarem atordoados com as noticias.
― Magnolia, ela pode ficar no mesmo quarto que eu! Já que ainda não tenho parceira. ― Apressou-se Piettra, que deu pulinhos quando Magnolia concordou.
― Mandarei seus horários de aula a noite, por favor, ajudem-na a se acostumar.
― É claro. ― Disse Jamie, se levantando para me puxar em um abraço rápido. ― Seja Bem-Vinda!
― Seja Bem-Vinda, Lexi! ― Disse Nathan também me dando um abraço que me tirou do chão, após um giro ele me soltou, Victoria me deu um abraço murmurando um “Bem-Vinda, e se precisar de ajuda estarei aqui sempre. “ Depois Piettra, quase me derrubando, e por fim, sobrou Nick que me observava de um jeito estranho, se aproximou devagar como se pensasse em fazer isso ou não, por fim me estendeu a mão.
― Bem-Vinda, Alexia.
― Obrigada.
― Ei, não é melhor ela descansar um pouco pra depois passar por um ritual e buscar as coisas dela? ― Sugeriu Victoria.
― Pode ser. ― Dei de ombros.
Nos despedimos e segui com Piettra para o dormitório feminino, o interior seguia o padrão do interior do “castelo” estava vazio, tinha TVs grandes nas paredes e puffes pretos, espalhados, depois vários corredores com portas de mogno, entramos em um dos quartos, e Piettra disse:
― Bem-Vinda ao lar! ― Não consegui nem prestar atenção no quarto, tudo que fiz foi me sentar na cama, processando tudo que havia acontecido nas últimas vinte e quatro horas, e pela primeira vez chorei, por tudo que eu podia ter sido, por tudo que perdi, e pelas mentiras que vivi todos esses anos até descobrir finalmente quem eu era, sei que parece loucura, mas disso eu entendo, então foi isso, botei tudo pra fora, lavei toda a angustia, o medo, tudo.
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