CLOVE:

As palavras de Alastor antes de ser levado ao décimo primeiro andar não soavam muito bem. Tinham um tom desesperador, e, acima de tudo, que alguma coisa estaria por vir. Esta tal coisa, obviamente, não seria boa.

Quando os guardas me jogam de forma grossa no quarto 94, percebo que o hotel não parecia ser tão bom como um refúgio para sobreviventes de um apocalipse zumbi quanto diziam. Porém, como eu posso dizer isso? Bem, pense em todas as coisas que acontecem quando você se hospeda em um hotel. Primeiramente, alguns integrantes da equipe interna do mesmo te recebem e lhe orientam. Aqui, os tais "auxiliadores" nos receberam com armas de fogo em riste, além de quase matarem Ethan e Billy. A seguir, nos orientaram para um estacionamento para veículos, onde, de forma grossa e sem vontade, nos jogaram para quartos sujos, fedidos e, principalmente, nada aconchegantes. Isto não parecia mais o Hotel San Villar de antes. Isto parece... parece uma prisão!

Voltando às palavras de Alastor: bem, se era para eu pensar em como invadir a sala de câmeras, o que ele faria? E Billy? Quem o socorreria em caso de emergência? E Ethan? Como iríamos salvá-los?
Porém, toda a minha preocupação foi interrompida por um dardo que veio em minha direção.

– Mil perdões, moça! — disse um homem que estava em pé, atirando aqueles pequenos objetos pontudos em um círculo que estava na porta. Mal havia reparado nele quando entrei no quarto. Ele tinha um cabelo loiro e curto, além de ser virado para cima. Seu corpo estava em forma, e ele usava um boné do time da marca DC.

– O.k. — digo. Não gosto de dialogar com estranhos, principalmente em uma situação de alerta como essa.

De repente, ouço o som da descarga de um vaso sanitário. Logo após isso, uma menina com aparência jovial de 17, 18 ou até mesmo 19 anos abre a porta do banheiro. Ela tinha cabelos não muito longos (que chegavam até seus ombros, para ser mais específico) e ruivos. Usava uma camisa que mostrava as suas clavículas e seus braços por completo.

Quando meus olhos se encontram com os dela, no exato momento ela os vira para o outro lado, observando o menino que jogava dardos, tentando acertá-los no alvo.

Ela parece ter murmurado algo em um som extremamente baixo para ele. Entendi algo como "Quem...?" ou "Por que?", mas nem tentei gastar meus pensamentos para coisas bobas como aquela.

Minha cabeça retoma o pensamento sobre oque poderia ter acontencdo com os outros. Ethan ainda estaria lá fora, preso, desidratado, com fome, esperando alguma ajud para tirá-lo dali. Billy deveria estar sentindo dores que, segundo ele, seriam suportáveis. Alastor... bem, não faço a mínima ideia de como o Alastor estaria. Ele era o único do grupo que aparentava estar controlável, despreocupado e sem pensar muito, ao contrário de outras ocasiões, onde ele mostrou ser alguém que pensa demais antes de fazer algo. Isso não importava. Oque importava era sobre a sala das câmeras. Como eu chegaria lá? Bem, havia milhares de possibilidades. Entre elas, estavam o furto de alguma arma de algum guarda para proteger-me de possíveis ataques no caminho, ser mais ligeira do que já sou e conseguir chegar lá no amanhecer antes dos soldados, etc.

O menino e a menina estavam dialogando, e, aparentemente, eu não estava prestando atenção. Não queria pagar as consequências com isso assim como Billy teve que passar por ignorar as palavras do Imperador. Porém, quando me chamaram para a conversa, eu já estavaprestando atenção, sendo assim impossível de inventar desculpas para não dialogar.

Vou até eles, e logo pergunto:

– Do que vocês estão conversando?

– Como detê-los. — a menina diz.

– Deter quem? — pergunto.

– Os mordedores — o menino responde -, e, principalmente, os soldados.

– Mordedores? — pergunto.

– Mortos-vivos. Como você os chama?

– Errantes.

– Bom, então iremos chamá-los apenas de errantes. — ele sorria para mim. Me sinto envergonhada, colocando a mão do lado de trás do meu pescoço. A menina ri, não conseguindo impedir de demonstrar a graça que ela achou em tudo aquilo.

– Nossa... — digo.

– Ele é assim mesmo. — diz a menina. Ela estende a mão para eu cumprimentá-la — Meu nome é Lexie. Ele se chama Stephan. E o seu nome é...

– Clove. — respondo.

– Seja bem-vinda, Clove. — afirma Stephan. Ele estende a minha mão e a beija. Sinto-me desconfortável e envergonhada. Lexie começa a rir, provavelmente porque meu rosto deveria estar vermelho como um tomate.

– O que foi? — pergunto para ela.

– N-nada. — ela responde, gargalhando.

– Enfim — solta Stephan -, temos que levar isso a sério. O Imperador vai querer nos matar dentro de alguns dias.

– Por que? — pergunto.

– Ultrapassamos o limite. — responde Lexie.

– Limite? Que limite? — pergunto.

– Bem — ela vai explicando -, não podemos passar das árvores. Nós passamos, e então...

Lexie é interrompida por uma porta aberta. Dois soldados musculosos estão defronte a mesma, nos aguardando sair. Então, eu, Lexie e Stephan abandonamos o cômodo.

– O que estão fazendo? — pergunto.

– Você é uma escrava. — um dos soldados responde — Terá que encontrar água por ora.

– Encontrar água? — pergunto — Onde?

– Se vire! — o outro soldado responde — O problema foi seu de ter encontrado o Hotel San Villar.

– E nós? — Stephan pergunta.
– Viado — um dos soldados diz, referindo-se a Stephan. Não gosto da brincadeira, mas não sei o motivo disso -, vá caçar. Menininha — diz ele, referindo-se a Lexie -, vá com o viadinho também.

– Não o chame assim! — exclamo. Eles começam a rir, e continuam o trajeto.

Seguimos até um elevador, onde o guarda aperta o botão "T". Descemos até o térreo. Era possível ver certa movimentação de alguns sobreviventes, provavelmente se instruindo em relação aos seus deveres diários.

Os soldados nos levam até a parte de fora do hotel, e nos deixam com outros sete ou oito sobreviventes.

– Onde eu consigo água? — pergunto para Lexie e Stephan.

– Existe uma usina hidrelétrica ligada a um rio aqui perto. — afirma Lexie.

– Não está se referindo ao Rio Jenfrey, certo? — Stephan pergunta. Infelizmente, Lexie não responde. Já ouvi falar sobre o Rio Jenfrey. Dizem ser muito perigoso pelo excesso de animais selvagens em suas bordas, que esperam os humanos irem até o mar para caçá-los. — Ah não, ah não!

– Por que está tão preocupado? — Lexie pergunta. O olhar de Stephan se encontra com o meu. Nos analisamos por cerca de quatro ou cinco segundos, e então, os desviamos.

– Enfim, estou indo. — digo.

– Espere! — afirma Stephan. — Eu lhe ajudo.

– Mas você tem que caçar! — afirma Lexie.

– Cace por mim. Fale para eles que eu lhe ajudei.

Então, Lexie vai para a floresta, enquanto eu e Stephan seguimos uma trilha até a tal usina hidrelétrica.

– Não é muito longe. — diz Stephan.

– Já presumia. — digo — Ia com o meu avô todo dia para um campinho não muito longe daqui quando eu era criança. Passávamos pelo Rio Jenfrey e pelo Hotel San Villar. Saudades daqueles tempos...

– Eu nem morava em Dallas. — afirma Stephan — Sou nova-iorquino. Por causa de emprego, meus pais vieram pra cá, então eu perdi minha bolsa de estudos em uma universidade de Nova York.

– Fazia faculdade do que?

– Medicina.

– Eu abandonei a faculdade.

– Por que?

– Deveres pessoais.

– Ah.

Olho para ele. Stephan parecia estar admirando o Sol se pondo no interior. De repente, seu olhar se encontra com o meu, novamente. Seus cabelos loiros eram chacoalhados pelo vento que estava a noroeste. Seus olhos azuis e encantadores não paravam de fixar os meus. Parecia que eu estava no paraíso de uma menina de 23 anos. Percebo, em poucos segundos, que nossos lábios estão cada vez mais pertos. Sim, nós iriamos nos beijar e iniciar, ali, um pequeno romance entre duas pessoas indefesas em meio a um apocalipse zumbi...

...se não fosse o som de um errante.

Logo, afasto-me de Stephan — que vai para a minha esquerda — e me escondo em um arbusto. Ele permanece atrás de uma rocha. Não tínhamos nenhum objeto para combater os mortos-vivos, e isto dificultaria bastante nossa vida.
Por fim, vejo o errante aproximando-se do local. Ele parecia estar chegando cada vez mais perto de mim. Em poucos segundos, ele me rastreia e avança em mim. Seria aquele o fim de minha vida?

Felizmente, não.
Stephan vai para cima do errante o joga para o chão. Depois disso, ele pisa em cima de sua cabeça, fazendo-a explodir.

– O-obrigada. — suspiro — E-eu ia morrer.

– Todos nós estamos mortos. — diz ele. Não consigo compreender o que ele diz.

– Como assim?

– Estamos infectados com oque originou eles. Se morrermos em forma de ser vivo que na verdade está morto, nós nos tornaremos morde... bem, errantes, mesmo que nenhum deles nos tenha mordido ou arranhado.

– Ah. — falo, tentando expressar a minha compreensão sobre o assunto. Seguimos caminho até o Rio Jenfrey.

–-

Após um curto período de caminhada, finalmente chegamos ao local. Lá, estavam encontrados cinco baldes de metal. Enquanto Stephan pega um, eu coleto outro, e juntos, vamos até a margem do rio.

Eu sou uma pessoa que sempre teme o pior antes de fazer qualquer coisa. Naquela situação, não seria diferente. Estava com medo de que os tais animais selvagens que tanto citam surgissem e nos engolissem.

– O que está havendo? — Stephan pergunta, reconhecendo a minha cara de susto.

– Estou com m-medo. — respondo.

– Ignore. Enfim, medo do que?

– Dos animais selvagens.

– É. Também estou. Apenas... ignore o medo.
Juntos, recolhemos um pouco de água, e a colocamos nos baldes. Após um tempo, pegamos os baldes e seguimos para a trilha de retorno ao hotel.

– Poderíamos fugir daqui. — disse Stephan.

– J-juntos? — pergunto, surpresa.

– Sim. Juntos. — diz ele, apertando a minha mão enquanto carregava o balde com a outra.

– Mas e os meus amigos? — pergunto.

– Amigos?

– Sim. Tem o Ethan, e o Billy, e o Alastor...

– Ah, entendi. Salve-os.

– É difícil.

– Difícil como?

– Difícil. — respondo. Não consigo explicar de forma coerente, já que eu não queria falar nada sobre o plano que eu, Billy e Alastor estávamos planejando para salvar Ethan e escapar das mãos do Imperador.

–-

Após um tempo chegamos ao hotel. Observamos Lexie com uma besta em suas costas, além de estar carregandos dois cadávares de veado e duas raposas mortas em seus ombros.

– Foi uma boa caçada, pelo visto. — afirma Stephan.

– Realmente. — ela diz. Nos agrupamos e vamos até a parte de fora do hotel, onde deixamos nossas "oferendas" e ficamos ali, sentados em um tronco de árvore.

– Quero sair daqui. — afirma Lexie.

– Todos nós queremos sair daqui. — "corrige" Stephan.
De repente, um corpo morto de um homem cai de um dos andares do hotel. O homem parecia estar espancado, pois seus olhos estavam inchados. Analiso mais o cadáver, e encontro um bilhete em um bolso de sua calça jeans.

O inimaginável estava presente naquele bilhete. O mesmo era dirigo a... mim.

"Clove...

Teremos que sair daqui o mais rápido possível. Peço para que, amanhã de manhã, você distraia alguns guardas para o segundo andar, para nos abrir caminho até a fonte de eletricidade do prédio. Estamos no décimo primeiro andar. Quando o soldado se despistar totalmente de você, vá para a sala de câmeras e distraia os mesmos até o quinto andar.

Após isso, nos encontramos no térreo. Quero que você vá lá agora para explicarmos melhor o plano.

– Billy / Alastor"

– O que é? — pergunta Lexie — O que diz?

– Falo depois. — digo — Vamos para o nosso quarto.