Naquela noite fria de fevereiro, sob as custodias do inverno e julgamento eterno do breu, deitada e imóvel estava uma garota, em seus grandes aposentos, uma cama de casal para uma reles solteira. A luz da lua iluminava fracamente o quarto, entrando pela janela aberta cujas cortinas vermelhas agitavam-se com a ventania e gotas de água que vinham do horizonte, uma tempestade estava a caminho.

O tapete estava úmido pela garoa que adentrava, sendo soprada pelo vento, este que com seus dedos maníacos, chacoalhava as arvores e vegetações próximas, acompanhando a sinfonia da meia-noite que encantava os ouvidos do conde, ali, no canto obscuro da cama da menina, ele estava em pé, com seus olhos sanguinários e mortos vidrados na expressão mórbida e serena da moça. As mãos frias, feitas para assombrar, tocaram o rosto aquecido da mulher, a transmitindo seu gélido e soturno vigor.

Ela abriu os olhos castanho-escuro, em um terror descomunal que impedia suas cordas vocais de vibrarem para um grito, o ar não queria chegar a seus pulmões, a sufocando com toda a atmosfera ameaçadora que o conde lhe fazia sentir, um guincho saiu de sua garganta, os olhos arregalados encaravam as orbes vermelhas que lhe fitavam com um deleite sombrio e sedento, quando menos esperava, foi envolvida em um frio abraço, perdendo sua consciência em seguida.

Deslumbrou a bela visão do palácio oculto, em meio a delírios e sombras dançantes, todo o salão estava decorado em prata e mármore, cadáveres enfeitavam as mesas, sem suas peles e uma grande quantidade de sangue enchia as taças de metal, não havia nenhum sinal de luz, todos os candelabros estavam apagados e as janelas fechadas, era possível apenas ter a mínima noção do lugar, ela sentiu o coração bater fortemente, e presas afiadas serem cravadas em seu pescoço, perfurando, sugando sua energia vital com brutalidade, as mãos pálidas de garras longas se fechavam contra sua fina cintura, a apertando e causando um torpor revigorante no conde.

Reabriu seus olhos, viu-se novamente em seu quarto, sem sinal de outra presença, tudo parecia bem, levantou-se e pegou um castiçal com três velas, as acendendo, andando confusa e amedrontada pelo castelo. Desceu as escadarias de pedra com cuidado, chegando até o primeiro andar, e sentindo-se totalmente desconfortável com uma pintura de um homem pálido e cadavérico que pendia na parede, não queria voltar a seu quarto depois daquele pesadelo, então simplesmente deitou-se no sofá luxuoso, enfeitado por almofadas macias e preenchidas por penas, dormindo rapidamente por conta de seu medo.

Acordou com os primeiros raios da manhã, vindo especialmente de uma janela a sua frente, esta que ela não lembrava de estar ali, foi até a ventana, sentiu um medo incomum em seu corpo, o paralisando por completo, os olhos se arregalaram em temor, vendo que na verdade, aquele quadro estranho de antes, era uma janela, e no límpido reflexo do vidro, viu em seu pescoço as gotas de sangue que escorriam de duas pequenas bifurcações nas extremidades, seu coração quase parou de bater ao sentir duas mãos firmes e frias tocarem sua cintura, ela se virou somente para contemplar a figura cadavérica e assombrosa do conde, cujo rosto desfigurado a lembrava de um doente com lepra, as longas presas eram visíveis, ela paralisou como em seu “sonho”, virando uma estatua rígida de mármore, cujas gentis feições eram dignas de Michelangelo, mas um terror ficou estampado eternamente em sua face rubra, cujo calor se extinguiu com a mordida violenta contra sua jugular, quebrando sua tranqueia pela força e profundidade, jorrou sangue de seu pescoço, vermelho como os tapetes das catedrais, sujando a cristalina janela, lhe pintando com um aspecto mortal, retratando a própria vida sendo corrompida pelo profano.

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