O Chamado Do Eld
1 Chassit
Notas iniciais
UM
O ka é uma roda...
Roland começou aquela longa e infausta jornada acompanhado unicamente de suas perdas, seguido apenas pelas vozes sussurrantes dos fantasmas que ele mesmo fez ao longo de seu caminho. E o dinamismo cíclico do ka se assegurou de que o fim de seu trajeto se desfiasse exatamente à mesma maneira — com ainda mais nomes do que gostaria preenchendo sua funesta lista.
Eddie, Jake e Oi haviam se encontrado na clareira no fim do caminho, sacrificando suas vidas
(ou fora Roland quem as sacrificara?)
para que o pistoleiro enfim pudesse pousar seus ávidos olhos azuis naquela paisagem que tanto ansiou, o cenário da Torre Negra atraindo-o desde que não passava de um mero garoto ainda aprendendo as lições de Cort. Contudo, ainda que conseguir avistar seu objetivo lhe trouxesse arrepios de êxtase, a perda daquilo que um dia havia sido seu ka-tet realmente o angustiava em seu mais profundo íntimo, e a triste solidão de não poder compartilhar aquele momento com seu "um feito de muitos" era quase capaz de nublar a estonteante visão de sua Torre. Quase.
Imaginou os olhos cercados em dourado de Oi refletindo o brilho negro que se estendia para muito além da Torre, acompanhando de leve os dois Feixes que ainda restavam. Jake estaria boquiaberto e com uma leve sugestão de sorriso fascinado no rosto ainda infantilizado, talvez os dedos distraídos acariciando seu trapalhão apenas por costume. Eddie soltaria um de seus sonoros palavrões, certamente fazendo algum comentário espirituoso que Roland não seria capaz de entender, não por completo. E Susannah...
...Roland tinha a mais fiel certeza de que Susannah, mesmo com suas pernas em cotos, arrastaria-se com vigor em direção à Torre Negra chegando antes do que qualquer um, e Detta provavelmente escorregaria para sua voz com alguma exclamação pouco educada.
O pistoleiro teria dado a própria vida, sem ao menos pestanejar, para que aquele devaneio pudesse tornar-se real... Mas o ka de Roland ditava as regras, e a regra de maior vigor para o pistoleiro era sua mais completa solidão. Não importava quantos anos ainda lhe restassem (embora imperasse uma certeza irrevogável no pistoleiro de que a própria Torre Negra era a clareira no fim do seu caminho), sabia que jamais existiria tet que pudesse sobreviver a ele.
E, apesar das mortes brutais de Eddie, Jake e Oi, era pensar em Susannah que lhe doía ainda mais! A mulher de muitas faces havia renegado por vontade própria a Torre Negra — uma decisão que ao mesmo tempo encheu Roland de orgulho e inveja — e agora ele temia pela vida de Susannah com a mesma intensidade com que um dinh teme a ruptura de seu tet.
“Ela pode estar presa entre os mundos, num eterno todash...” — o pistoleiro pensou com crescente amargura, mas ao mesmo tempo ciente de que a solução daquele problema não estava mais em suas deformadas mãos. Susannah fez uma escolha, e como a pistoleira talentosa que era, estava a par dos riscos.
O que realmente estava ao alcance de Roland agora era a visão de sua tão almejada Torre ao pôr-do-sol, a pouca distância a ser cruzada fazendo duplicar sua frequência cardíaca normalmente muito bem controlada.
O ka — o motor propulsor que o moveu a atravessar um mundo que seguira adiante — agora se assegurou de que ele deveria terminar sua tarefa inteiramente só, como sabia que seria desde o começo; era mais uma vez o último pistoleiro do Mundo Médio...
...Talvez o último pistoleiro de todos os mundos!
O menino Patrick
(o Artista)
também já se pusera a caminho, no rumo contrário da canção entoada pela Torre, totalmente imune à atração irreprimível que Roland sentia por sua altiva construção, sensação essa cada vez mais arrasadora à medida que os últimos raios de sol iluminavam, tímidos, a soturna alvenaria que era o centro de todos os mundos, ligando-os naquele exato ponto independente de ondes e quandos...
...Porque a própria Torre Negra representava todos os ondes e quandos que habitavam os milhares de mundos, sejam eles verdadeiros ou não.
E o ka finalmente o colocara de frente à sua árdua busca, recompensando cada gota de suor de seu esforço com aquela estonteante visão.
A Torre Negra, com suas janelas ascendendo num perfeito espiral, era ainda mais magnífica do que a gravura que vira no enganoso casebre de Dandelo
(“a foto tirada com uma Polarois, foi o que Susannah disse...”, Roland pensou, sem a menor ideia do significado daquilo)
e a fascinação do pistoleiro fez aumentar seus já apressados passos naquele cenário em que a própria voz da Torre o chamava...
“Venha, pistoleiro, traga-se ao teu fim! Suas rodas até mim afinal terminaram. Commala-venha-venha!”
— Commala-venha-venha! — entoou no mesmo ritmo cadenciado, o timbre ligeiramente rouco e solene obedecendo ao chamado (e como não obedecê-lo?).
Haveria muitos nomes a serem recordados e ditos antes que o pistoleiro finalmente cruzasse as últimas passadas e se sentisse digno de adentrar a Torre. E Roland os disse, um por um, enquanto fazia aquela última caminhada, tendo sempre em mente a face de seu pai agora que o fim começara.
Mas aquele estava longe de ser o fim. Aquele era o próprio (re)começo.
DOIS
Assim que penetrou nas dependências da Torre Negra, sua forte magnitude passou a exercer um efeito um pouco menor sobre o pistoleiro, permitindo que lhe fosse oferecida a possibilidade de seu ritmo se desacelerar, como se ela lhe concedesse a chance de analisar as várias salas caso fosse de seu agrado.
Não era.
Bastou ultrapassar a entrada da altiva Torre para perceber que seus compartimentos guardavam tudo a seu respeito, tudo acerca de sua jornada nos mais impressionantes detalhes. Não precisou analisar sala alguma para ter consciência disso, simplesmente sabia. Era um daqueles eventos não tão raros em que a própria Torre parecia lhe dar as respostas, e se era todo o seu passado que estava registrado naqueles vários andares negros, Roland dispensaria com prazer cada um dos pisos que não fosse o tão sonhado topo.
Não estava preparado para encarar tudo o que já havia feito — e deixado de fazer — para chegar ali. Ao invés disso limitou-se a subir, vencendo degrau por degrau, cada patamar separado do outro por dezenove
(dezenove é o segredo, ié! Chassit é a chave, e essa é a verdade!)
degraus. Enquanto subia, deliciava-se com os dedos que tocavam as pedras negras da Torre, ouvindo com fascínio o júbilo que emanava do centro de todos os universos pela presença daquele que carregava o sangue de Arthur Eld nas veias. Um sangue que pulsava, exultante, caloroso, por fim completo.
Roland passou a correr naquela subida que lhe parecia interminável, sentindo-se sedento e faminto — mas não por água e tampouco alimento — e prosseguiu ultrapassando as escadas em espiral mesmo que seu corpo estivesse exausto com os últimos esforços para ali chegar. Arfava enquanto rodeava a Torre por dentro. A mão esquerda havia se depositado no quadril naquele gesto impensado do espectro de sua antiga dor, mas o pistoleiro sequer se deu conta do movimento.
Novas gotas de suor desciam pelo rosto bronzeado, a ânsia de sua vontade escapando em meio ao cântico vivo que ainda entoava em sua cabeça
(“uma cabeça sem imaginação...”, avisou Steven Deschain
“uma cabeça dura e que pede por uns bons cascudos! Uma cabeça teimosa que ainda o levará à ruína, pistoleiro!”, completou Cort
“uma cabeça fácil de se enganar, ié, muito fácil...”, disse Rhea, da colina Cöos
“a cabeça do Papai-Branco, que matou seu único filho!”, Mordred rugiu, ainda afoito por capturá-lo, mesmo que seu corpo ora humano ora aranha jazesse morto
“uma cabeça que nunca, nunca aprende com o passado... e lá vamos nós de novo, pistoleiro!”, Walter, o homem de preto, suspirou
“Olan!”, Oi opinou, certo do que dizia
“a cabeça de meu pai... meu verdadeiro pai!”, foi a vez de Jake se manifestar, tímido
“uma porra de uma cabeça astuta, é o que eu diria!”, a voz enfática de Eddie soou
“a cabeça dum branquelo safado, isso é o qui é!”, Detta disse em nome de Susannah, e apesar das palavras, nelas havia a gentileza de Odetta
“a cabeça de um verdadeiro dinh...”, Alain comentou ao seu estilo risonho, sempre afável
“a cabeça — e o coração — que me conquistou sob a Lua do Beijo!", Susan Delgado confessou
“uma grande e estúpida cabeça de merda!”, Cuthbert finalizou com seu tom bem-humorado, e Roland quase pôde ver a piscadela daquele que, em vida, fora seu melhor amigo).
Ignorou as vozes que apenas serviam para abrir antigas feridas no pistoleiro, feliz ao perceber que sua jornada terminara. Seu objetivo de vida estava bem ali à frente, a alguns míseros passos de distância se comparado à longa marcha de seus pés, e uma única palavra se destacava sobre a madeira da solitária porta que dava-lhe as boas vindas ao topo. E a palavra, é claro, era ROLAND.
O pistoleiro não sabia se isso o surpreendia ou não (afinal, a Torre havia esperado por ele com a mesma ansiedade com que o próprio Roland avançou até ela, quanto a isso não lhe restava dúvida!), e, fascinado, deixou que sua mão não mutilada se moldasse à maçaneta dourado-envelhecida. Seu coração falhou uma batida ou duas.
TRÊS
Assim que Roland abriu a porta que lhe revelaria o topo da Torre
(a porta que levava como inscrição seu nome, por Gan, a porra do seu nome!)
deparou-se com um genuíno horror que por um segundo fez lágrimas brotarem em seus claros olhos azuis. O tão conhecido e infértil deserto Mohaine — a apoteose de todos os desertos — se estendia largo e infinito para além da última porta da Torre Negra. E o súbito entendimento recaiu sobre seu corpo já velho e cansado...
Um grito da mais pura agonia se externalizou para além de seus pulmões assim que percebeu o que o esperava.
— Não, eu imploro, outra vez não! — tentou se afastar da imperiosidade árida do deserto, seu eterno ponto de partida
(e chegada)
na roda vívida do ka.
Voltaria à época em que os únicos membros de seu ka-tet resumiam-se às pistolas de cabo de sândalo herdadas de seu pai, e seu único dinh era o ressoar vibrante da Torre que sempre o chamaria, o ribombar do convite dos Feixes pulsando em veias que faziam correr o nobre sangue da linhagem Eld.
Mas de nada adiantaria lamentar, pois o destino
(ka-ka, a voz de Eddie o corrigiu)
tinha a força da Canção da Torre Negra, e resistir a ela era uma nova forma de derrota, pois frente à vontade do ka, Roland era tão insignificante quanto partículas de poeira.
Seus pés o levavam, impassíveis, para a imensidão desértica de terras duras que se estendia bem à sua frente, pouco se importando se sua cabeça mandava recuar ou se seus baços olhos se traduziam apenas em profundo horror, olhos que encaravam um destino muito pior do que a própria morte e imploravam por expiação. O desespero em ter que retomar aquela jornada estava visível em cada esforço inútil de frear seu incoerente avanço na direção do deserto Mohaine em sua infinita escassez.
E enquanto se concentrava naquela ocupação de afastar-se (uma tarefa que prometia apenas fracassos), algo diferente aconteceu daquela vez, e Roland fora invadido pela certeza de que o evento era realmente inédito. Por mais que não soubesse quantas malditas vezes já havia cumprido aquele trajeto — atravessar o Mundo Médio, avistar a Torre, gritar o nome de seus companheiros de ka, subir ao topo e por fim ser arrebatado novamente ao princípio de sua obsessão — nunca antes seus aguçados ouvidos captaram o que agora
(prestes a ser novamente lançado ao deserto)
ouviam. Um grito da mais profunda angústia — e que não era seu! — reverberou pelas negras paredes da Torre.
Aquele desconhecido lamento durou apenas um ínfimo instante, porém foi tão claro para Roland quanto o chamado que sempre o levava àquele viés de enorme agonia.
Pelo breve segundo que o desalentado berro durou, o pistoleiro achou que se tratava do grito de seu pai — Steven Deschain —, mas assim que o pensamento se firmou em sua mente cansada, ele mostrou-se falso. Tão falso quanto Joe Collins, que na verdade era Dandelo.
Bastou o brado terminar para que Roland, de imediato, soubesse a quem pertencia.
— É o grito de Arthur Eld! — exclamou, horrorizado, entendendo finalmente em seu último momento consciente de que toda a linhagem Eld
(incluindo o próprio Arthur, diga obrigado!)
estava amaldiçoada pelo alcance da Torre Negra, toda aquela estirpe indo em busca de seus deslumbrantes mistérios em suas respectivas épocas, e todas elas falhando daquele mesmo modo miserável e cruel. E o grito, de tão desolado, conseguiu ultrapassar os quandos entre Roland e Arthur, ambos presos na mesma sintonia cíclica e traiçoeira da Torre e, coincidentemente
(ka!)
destinados a chegar àquele momento de tortura exatamente no mesmo instante, como se o grito frustrado de Arthur fosse destinado ao próprio Roland. Separados por um quando e unidos por um onde.
Não teve a menor dúvida de que, naquele exato momento em que o bramido de Eld vibrou o próprio alicerce da Torre, o nome que Arthur via gravado na sua porta certamente correspondia ao seu próprio e não ao de Roland — assim como os andares de seu quando, as saletas da Torre certamente guardando os objetos da busca do primeiro Eld — revelando que Arthur e toda a sua descendência também seriam levados ao início da longínqua busca pela Torre após concluí-la...
...Porque a própria Torre Negra nada mais era do que a maldição da sucessão do Eld, era o centro dos mundos que exigia a redenção do único sangue digno de ultrapassar aquelas atemporais paredes e subir pelas ardilosas e convidativas escadas em espiral, que desembocariam na armadilha de seu cume.
Roland, sem mais resistir ao chamado impulsivo do ka, ultrapassou a porta do último andar e novamente se viu no meio do escaldante deserto. Sua mente logo tratou de reiniciar sua memória àquele onde e quando, assim como a mão direita agora perfeitamente restaurada.
— Misericórdia! — pediu o pistoleiro num apelo tardio, mas misericórdia nada tinha a ver com o ka, e logo ele se esqueceu completamente do porquê aquela palavra saiu de seus lábios ressecados pela sede. Roland olhou para trás, ainda com o grito
(canção)
do Eld no subconsciente, e aquele som o acompanharia por todo o trajeto a ser novamente percorrido. E, por todas as noites de seu caminho, o pistoleiro sonhou com o bramido de seu ascendente, e cantou aquela canção junto com Eld nos planos oníricos de sua rasa imaginação.
Ele retomou sua jornada ainda no início, o límpido azul de seus olhos novamente adquirindo a determinação de sua teimosa e irrefreável busca, levando-o a mais uma vez completar o repetitivo caminho que seus pés estavam coagidos a trilhar.
QUATRO
O pistoleiro havia completado este ciclo exatamente 360 vezes, sendo aquela a 361ª vez que o faria
(dezenove multiplicado por dezenove, claro! Chassit ao quadrado, e que o Deus-bomba seja louvado!)
e este era um sigul realmente forte de que dessa vez tudo podia ser diferente. Um sigul ainda mais relevante do que a corneta do Eld carregada junto à bagagem, que antes fora perdida no calor da batalha que levou Cuthbert Allgood à clareira no fim do caminho.
Seria diferente sim, para o bem ou para o mal! Porque esta seria a vez do chassit, e o grito de Arthur Eld o acompanharia por todo o repetitivo caminho, a canção de Arthur permanecendo latente até o momento certo, mantendo-se viva nos recantos afastados da memória de Roland Deschain.
E assim permaneceria, até que o ciclo daquele ka fosse rompido.
Porém, enquanto isso não acontecesse...
...O homem de preto fugia pelo deserto, e sim, o pistoleiro ia atrás.
“Traveling alone in an unknown world
Accepting the burden that never was mine
To carry on for the knights who have gone
Keeping their name and their honor sacred
Was he a liar who told me this path?
Treacherous smile contorted staff
There is a tower, I'm doomed to go
An unrevealed power this traveler must know
(I know)
I'll never return
But as long as there's breath in my lungs
Carry on I hear the call
My sword will burn
And the tower will crumble and fall
As I near it, I hear them say
Childe Roland to the Dark Tower came
The fallen have risen they're calling my name
Childe Roland to the Dark Tower came
Questing for vengeance to never be seen again
Casting off nightmares from unsleeping eyes
Grim are the visions of death undisguised
Long have I journeyed to unseen demise
All of my years wasted searching for lies
(It's time)
For me to die
But I fear that my tale won't be told
This misfortune is mine to hold
Childe Roland to the Dark Tower came
The fallen have risen they're calling my name
Childe Roland to the Dark Tower came
Questing for vengeance to never return
Childe Roland to the Dark Tower came
The fallen have risen they're screaming my name
Childe Roland to the Dark Tower came
Questing for vengeance to never be seen again”
(Childe Roland — The Last Alliance)
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