O Caçador da Tempestade
4 Marionetes em Budapeste
Notas iniciais
—Você está atrasado. -Avisei, entrando na TARDIS e agitando o cabelo por causa da água da chuva. -Como alguém que tem uma máquina do tempo se atrasa?
—Essas coisas acontecem. E então, tudo bem?
—Sim. Menos essa chuva que não para. Se não tivesse vindo me resgatar, eu teria ficado ilhada o dia todo aqui no centro.
—Você está encharcada. Que tal passar no guarda roupa antes de irmos?
—Boa ideia. Qual o destino de hoje?-Deixei meu guarda chuva perto das portas.
—Você escolhe.
—Bom... Tem uma coisinha que eu sempre quis fazer no passado.
—Então vá se trocar, não vamos perder tempo.
Corri para o guarda roupa, tirando o casaco molhado e procurando roupas que servissem em mim. Pedir ajuda para o Doutor, ao ficar presa no terminal por causa da chuva, tinha sido uma boa ideia. Caso contrário, eu ainda estaria lá, esperando a água baixar ou alguém passar de barco (o que não era tão improvável assim).
Após emprestar um jeans, uma camiseta e um par de tênis, voltei para a sala de controle, onde o Doutor estava falando com a TARDIS.
—Atrapalho?-Brinquei.
—Não. Estamos apenas tendo uma conversinha, nada demais.
—Certo. Uma conversa. Tudo bem. Estou pronta pra ir.
—Ótimo. Aonde vamos?-Sorri.
—Para Budapeste, 1998.
—O que aconteceu lá?
—Algo que eu sempre quis ver. Um show do Modern Talking.
***
—Atualmente a dupla não existe mais. -Comentei, andando ao lado do Doutor. -Ambos estão em carreiras solo. Eu nunca tive chance de ir num show, até agora.
—Eles são cantores antigos. Como foi gostar deles?
—Minha mãe. Ela sempre foi muito fã. Até hoje ela coloca músicas deles ao limpar a casa. Eu cresci com essas músicas... E virei fã também.
—E apareceu uma boa ideia me usar para vir aqui. -Fingiu uma expressão repreensiva, mas logo abriu um sorriso.
—Claro. Por que não? Eu sempre quis viajar no tempo. Agora posso, com um alien maluco que sequestra pessoas e viaja numa caixa de polícia dos anos 60. É perfeito!-Riu -Bom, voltando ao assunto Modern Talking... Eles fizeram um show fechado e exclusivo em Budapeste, antes de um mega show. A gente seria pisoteado nesse segundo, e eu odeio multidões.
—Então você quer invadir o show exclusivo.
—Exatamente! Acha que a gente consegue?-Paramos de andar. -O show é naquela casa noturna. Talvez a gente consiga entrar por uma janela ou...
—Ou podemos entrar pela frente.
—Não temos um convite. Seríamos expulsos no tapa... Por que está sorrindo desse jeito?
—Por que nós vamos entrar, apenas observe. -Pegou minha mão e caminhou até a entrada, ignorando a fila enorme que virava a esquina. -Com licença. -Tirou uma carteira do sobretudo, abrindo-a e mostrando um papel em branco.
—Podem entrar, divirtam-se. -O segurança disse, abrindo passagem. Franzi a testa, mais segui o Doutor para dentro.
—Viu? Nós entramos.
—Como você fez isso?-Perguntei. -Você hipnotizou ele? É um poder de alien?
—Papel psíquico. Extremamente útil.
—Então aquele cara achou que tínhamos um convite especial?
—Com certeza.
—Adorei! Posso ter um desse?
—Não. Nem pensar. Está bem cheio aqui. Não é exatamente uma multidão, mas são muitas pessoas.
—Eu faço um esforço. Vamos, temos que ficar bem na frente.
Basicamente sai atropelando todo mundo, pedindo licença enquanto empurrava quem ficava na frente (técnica essa aprendida com uma antiga amiga), até chegar num bom lugar.
O show atrasou um pouco, mas logo começou. E começou com estilo e minha música favorita da dupla: Brother Louie. Depois de uns gritos animados, comecei a cantar junto, enquanto o Doutor ria descaradamente. Apenas dei de ombros. Era um dos melhores dias da minha vida.
—Nada de celulares. -O Doutor avisou, quando me viu tirando o aparelho do bolso. -Essas pessoas jamais viram uma coisa assim. É por detalhes como esses que surgem as teorias de “viajantes do tempo” que se vê na internet.
—Ops. Foi mal. -Enfiei o celular no bolso de novo. -Você podia me dar um manual com as regras, ou só fazer um resumo. -Sorriu.
—Vou pensar nisso.
—Seria... -Aí eu perdi o raciocínio, deixando a frase incompleta, quando In 100 years começou a tocar.
Duas músicas depois, eu lembrei de onde estava e com quem estava, então cutuquei o Doutor, me esticando na ponta dos pés pra chegar o mais próximo possível na altura dele.
—Acha que depois podemos tentar ir no camarim?-Perguntei. -Nada de fotos, juro, só autógrafos.
—Podemos tentar. Não prometo nada.
—Isso já é bom o bastante. Deus, ninguém nunca ia acreditar que eu estive aqui, num show do... Ai. -Cobri a nuca com a mão, após sentir uma picada nela. Olhei para trás, procurando entender o que tinha acontecido.
—O que foi?
—Alguma coisa me picou.
—Me deixa ver. -Me virei de costas pra ele, afastando o cabelo. -Wou.
—O que?
—Hã... Nada. Acho que foi... Um mosquito.
—Tem certeza? Já levei muita picada de mosquitos, e nunca doeu tanto.
—Mosquitos de 1998 talvez tenham picadas mais dolorosas. -Olhei pra ele.
—Não faz sentido.
—Acontece. Olha, agora tem dançarinos.
Esfreguei a nuca e voltei a prestar atenção no show.
Está tudo bem, Kali, nada vai estragar esse dia especial.
***
—Foi um bom show. -O Doutor comentou, animado. -Bem curto, mas bom. Quer tentar ir no camarim agora?
—Na verdade... Eu quero sentar um pouco.
—Certo. É cansativo ficar muito tempo em pé, mesmo quando estamos nos divertindo. -Comecei a andar, mas vacilei e o Doutor teve que me segurar. —Kali?
—Acho que estou tonta.
—Você comeu algo antes de vir?
—Uma coxinha, na esquina do terminal. Não é fome. Posso sentar?
—Claro, claro. Se apoie em mim. -Nos aproximamos do bar, onde o Doutor me ajudou a sentar num banco. -Quer alguma coisa? Água? Comida? Um pano quente? Analgésico?
—Não. Só respirar um pouco.
—O que mais está sentindo?
—Enjoo. Cansaço. Tem manchas no meu corpo?-Perguntei, olhando para o meu braço.
—Nada de manchas. -Tirou a chave de fenda sônica do bolso e apontando pra mim.
—Isso faz diagnósticos médicos?
—Faz muita coisa. Oh... Isso não é bom. Nem um pouco bom, na verdade. É bem ruim.
—Você está me assustando.
—Desculpe. -Abaixou a chave de fenda sônica. -Você não está doente.
—Então o que eu tenho?
—Ummicrorobôdentrodevocê.
—O que? Fala devagar.
—Ummicrorobô...
—Devagar! Eu não entendo!
—Tem um micro robô dentro de você. -Arregalei os olhos.
—Tem o que?
—Um micro robô. Acredito que seu sistema imunológico não tenha gostado da invasão.
—A picada. Ele... Deve ter sido isso. Ai meu Deus, como isso vai sair de mim? Por que ele tá em mim?
—Não entre em pânico. -Pequenos números verdes e que se mexiam encheram meu campo de visão. Fechei os olhos, tentando me livrar deles, mas eles continuavam lá. -Kali? O que foi agora? Fala comigo.
—Números. Estou vendo números.
—Quais?
—Eles mudam muito rápido, eu não sei. Por favor, tira isso de mim. Eu não quero um micro robô...
—Eu preciso que você fique...
Então eu não podia mais ouvi-lo, e tudo sumiu.
Aí começa a parte ruim.
Eu não tinha mais controle nenhum do meu corpo.
Fiquei de pé, ignorando o Doutor, e comecei a andar para fora da casa noturna. Tentei gritar, pedir ajuda, parar ou qualquer outra coisa, mas não conseguia. Era como se eu estivesse presa dentro da minha mente.
Marchei para uma fila, onde havia mais pessoas como eu, apenas andando, algumas ignorando pessoas que falavam com elas, gritando e implorando para que parassem. Eu não era a única com um micro robô.
A fila só foi aumentando, cada vez mais, e o grupo de pessoas sem os micro robôs foi diminuindo, restando apenas o Doutor.
Minutos depois, começamos a entrar numa grande fábrica, com longas chaminés que soltavam fumaça escura e fedida. Ali eu perdi o Doutor de vista.
Estou sozinha. Estou sozinha. Estou sozinha. Estou sozinha. Estou sozinha.
A fila se juntou a outras, então paramos em formação, pessoas sem controle lado a lado, nada de expressões no rosto. O barulho de máquinas era o único que podia ouvir agora.
Uma mulher surgiu lá no alto, numa sacada. Loira, alta, e totalmente assustadora.
—Se há algo em suas mentes agora, devem estar se perguntando o que está acontecendo. Serei direta e clara: micro robôs se instalaram em seus corpos, controlando-os. Há trabalho a ser feito, e vocês o farão. Um trabalho secreto. Por isso precisamos de vocês, minhas marionetes. No fim, os micro robôs destruirão seus cérebros.
Não. Não. Não. Doutor, por favor, faça alguma coisa. Por favor. Por favor. Por favor.
Eu queria chorar. Acho que não era a coisa mais útil, mas era o que queria fazer. Mas nem isso podia, apenas receber ordens e cumpri-las.
—Que os trabalhos comecem!
O grupo de marionetes se dividiu, se espalhando pela fábrica. Meu grupo se aproximou de máquinas enormes e com botões demais. Eu não fazia ideia de como aquilo funcionava, mas o micro robô em mim sabia, e logo eu estava apertando botões e mexendo em alavancas.
O que era tudo aquilo e por que controlar pessoas? Qual era o propósito? E por que nos matar no fim?
Apertar botões. Mover alavancas. Quanto tempo isso estava acontecendo? E onde estava o Doutor? Por que ele não impedia aquilo?
De repente, as máquinas desligaram, deixando a fábrica em silêncio. Um grupo de pessoas começou a correr entre nós, armas em mãos. Em algum lugar, a mulher assustadora gritou. O Doutor apareceu ao meu lado.
—Eu sinto muito, isso deve doer.
Um som horrível disparou pela fábrica, fazendo minha cabeça doer. Parecia um gato arranhando um quadro negro. Não pude fazer nada além de cair no chão, vendo o mundo apagar rapidamente.
***
Abri os olhos devagar. Podia reconhecer a fábrica, que estava cheia de vozes e pessoas caminhando agora. Um homem estava abaixado ao meu lado, mexendo em algo que estava no pulso, então se virou pra mim, abrindo um sorriso.
—Bem vinda de volta, senhorita. Foi a última a acordar.
—Cadê o Doutor?-Perguntei, minha voz estava horrível, limpei a garganta.
—Fazendo o mesmo de sempre, investigando. Ainda não sabemos o que estava sendo feito aqui, e não encontramos ninguém que possa explicar.
—Tinha uma mulher...
—Ela foi rápida em fugir. Como está a sua cabeça?
—Bem. Quem é você?
—Jack Harkness, amigo do Doutor. Ele decidiu pedir ajuda dessa vez. Foi uma confusão e tanto. Acha que consegue ficar de pé?-Assenti. -Então vamos lá, eu te ajudo. -Passou o braço pelas minhas costas, com cuidado. Eu estava meio dolorida por causa da queda. Em pé, tive que me apoiar numa das máquinas.
—Obrigada.
—Ao seu dispor. Se precisar de mais alguma coisa...
—Jack, não ouse jogar seu charme nela. -O Doutor repreendeu, se aproximando. -A garota nem se recuperou ainda.
—Eu estava sendo gentil.
—Não, você estava flertando. Kali, como está?
—Bem. -Respondi. -O que aconteceu? Parecia que a minha cabeça ia explodir.
—Os micro robôs foram desativados. Aquele som que você ouviu foi o que os desligou.
—Aquela coisa ainda está dentro de mim?
—Sim. Mas a Torchwood disse que irá remover todos os micros robôs... E apagar a mente dos humanos afetados. Menos a sua, claro.
—O que é Torchwood?
—Nada com que você tenha que se preocupar. -Respondeu, interrompendo Jack que tinha acabado de abrir a boca. -Agora você pode ir com Ianto? É aquele rapaz ali, ele vai te explicar o procedimento e você será a primeira, para que eu possa te levar pra casa logo. Tudo bem?-Assenti. -Ótimo.
Me aproximei do rapaz indicado, enquanto Jack e o Doutor começavam a conversar sobre o que tinha acontecido e sobre o que ia acontecer agora.
—Tudo bem? Eu sou Ianto.
—Kali. Isso... A coisa toda... Vai doer?
—Não. É bem simples, na verdade. Nosso médico só precisa... -Olhou na direção de um homem que discutia com uma mulher num canto. Ele gritava “Quem é o médico aqui?”, chamando atenção de todo mundo. -Assim que ele parar de brigar com a Gwen, nós vamos começar. Só espere aqui um momento. -Começou a se afastar. -Owen, tem cem pessoas esperando você parar de dar ataque, será que podemos começar hoje?
Me encostei na parede, olhando em volta. Eu estava exausta depois da confusão toda com os micro robôs e tudo mais. Bom, estava na hora de me acostumar ao ritmo de vida maluca do Doutor, ou eu ia acabar ficando pra trás.
—Tudo bem, Kali. -Ianto disse, se aproximando. -É a sua vez. Pronta?-Olhei na direção do Doutor, respirei fundo e voltei a encarar o rapaz.
—Pronta.
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