O Caçador da Tempestade
11 Eu quase causei um paradoxo
Notas iniciais
O tiro passou raspando pela minha cabeça e atingiu a parede. Eu não sabia se Idris tinha uma péssima mira, se era difícil acertar um alvo em movimento ou se ela realmente não estava atirando para acertar.
O Doutor entrou na salinha onde estava a TARDIS, me puxando para dentro e trancando a porta. Em seguida, agarrou minha mão de novo e correu para a nave.
O interior da TARDIS estava diferente. Mais... Moderno. Acredito que a palavra seja essa. Era mais escuro, e mesmo que continuasse enorme por dentro, a sala de controle parecia menor. Havia prateleiras numa parte de cima, e um quadro negro num canto. Não consegui imaginar meu Doutor ali dentro.
Falando em Doutor... Ele parecia meio perdido, olhando para os controles da nave, falando consigo mesmo. Ouvi um som alto de fora. Idris e a equipe Torchwood estavam tentando chegar até nós.
—Qual é o plano?-Perguntei, apressada.
—Eu não tenho um plano.
—Você sempre tem um plano.
—Dessa vez eu não tenho. -Parou de andar. -Não lembro de quem eu sou, mal lembro de você e não lembro como pilotar essa coisa.
—Nós temos que sair daqui, agora. A equipe da Torchwood vai entrar a qualquer momento...
—Ninguém passa à força por essas portas.
—Idris parece conhecer a nave muito bem, e certamente vai saber entrar. Nós temos que sair agora, Doutor.
—Eu não sou o Doutor!
—Sim, você é!-Dei um passo na direção dele, agarrando seu braço. -Você não fala como ele, não se parece com ele, mas você é. É o Doutor, o viajante do tempo que sai por aí com sua TARDIS fazendo história e encontrando aventuras. -Olhei por cima do ombro, os barulhos estavam mais altos. Encarei o Doutor. -Você ainda é homem que achou que eu era um Zygon e que me pegou numa armadilha. Ainda é o homem que me salvou de um casamento forçado com um pirata e certamente é o homem que me levou para Marte 002, conhecer o Instituto Joanne Watson, onde fez um discurso que eu não vou esquecer nunca.
—Joanne. -Sussurrou, desviando o olhar.
—Você é o Doutor. Não importa que não lembre, ou que esteja com medo. -Se afastou. -Você confia em mim, não confia? Por que eu confio em você. -Olhou pra mim, não parecendo ouvir a gritaria feita pelas pessoas do lado de fora, então começou a correr pela sala de controle, mexendo no painel, apertando botões e nos tirando do lugar. -Eu fiz um discurso motivacional?
—Certamente que fez.
Pouco depois estávamos saindo num planeta de aparência desértica e vermelha. Lembrava muito Marte 002. Ao longe, eu podia ver construções e uma redoma de vidro. O Doutor apenas me disse para segui-lo, e começou a caminhar para o lado contrário.
—Onde estamos?-Perguntei.
—Gallifrey, meu planeta.
—Sério? E onde estamos indo? A cidade não fica pra lá?
—Não estamos indo para a cidade.
—Então onde...
—Apenas confie em mim.
Continuamos andando, em silêncio. Acho que passamos uns vinte minutos caminhando, até chegar numa caverna. Eu não estava muito segura em entrar nela, mas o Doutor segurou minha mão de novo, me puxando com ele.
O interior da caverna era totalmente diferente do comum. As paredes eram quadradas e brancas, como se fossem de um quarto. Não havia móveis, apenas um retângulo branco que parecia uma cama, bem no centro do ambiente.
—Doutor, que lugar é esse?
—A Sala Morta. Uma das entradas fica em Gallifrey. Eu não lembro das outras. -Respondeu, sem olhar pra mim. -Aqui o tempo não passa, nunca.
—E por que estamos aqui?
—É uma armadilha. -Uma voz feminina avisou, atrás de nós. O Doutor e eu nos viramos. Havia uma garota armada na entrada da caverna. Ela não era muito alta, e os cabelos loiros estavam bem presos num rabo de cavalo. Usava roupas pretas, a jaqueta tinha um T vermelho bordado no peito, feito de formas geométricas que eu não sabia o nome. -Ele não trouxe você aqui com boas intenções.
—Quem é você?
—A pessoa que veio te salvar. -Olhou para o homem ao meu lado. -Afaste-se dela, não quero machucá-la.
—Espera! Não atire, por favor...
—Mas eu preciso. Eu tenho que fazer isso pra salvar você, pra mudar a história.
—Do que está falando?-Respirou fundo.
—Sou eu, Kali. Alana.
—Não. Minha irmã...
—Eu estou mais velha. Saí da minha linha do tempo e voltei só pra te salvar. Idris Harkness vai comer meu fígado por isso, mas eu não me importo. Roubei isso da mesa dela. -Mostrou o pulso. -Manipulador de Vórtex. Viagem no tempo barata.
—Eu não preciso ser salva, Lana. Está tudo bem...
—Não está! Eu voltei no tempo para mudar a história. Voltei para impedir que ele te mate!-Recuei. Alana tinha os olhos cheios de lágrimas. -Ele matou você. A última vez que te vi foi quando estávamos no ônibus, em Itapoá, lembra? Pra você isso aconteceu hoje. Pra mim... Faz anos. A Torchwood investigou, a UNIT investigou... Mas nunca encontraram você. E o Doutor afirmou ter te matado.
—Não... Não... -Me sentei na cama retangular, eu não conseguia mais ficar de pé, minhas pernas tremiam.
—Entrei para a Torchwood... E então encontrei a oportunidade que precisava.
—Lana...
—Não posso deixar ele te matar... -O Doutor apontou a chave de fenda sônica para Alana, eu nem tinha visto ele pegá-la. Minha irmã derrubou a arma. -O que vai fazer agora? Me matar também?
—Estou te impedindo de fazer besteira. -Avisou. -Seu plano é idiota.
—Como é que é?
—Seu plano. É totalmente estúpido. Você volta no tempo e impede a morte da sua irmã, ótimo. E depois? Por que motivo você volta no tempo, se ela está viva?
—Paradoxo. -Murmurou. -Mas... Mas eu preciso...
—Você precisa voltar para o seu tempo.
—E deixar você matar a minha irmã?
—Eu não vou matar a sua irmã. Kali é a única pessoa em quem eu confio agora. Vá para casa, garotinha.
—Não...
—Lana, faça o que ele disse. -Pedi. -Por favor.
—Mas ele mata você. Eu tinha doze anos quando Jack Harkness apareceu na nossa porta e disse que você morreu. E depois... Depois o Doutor confessou que te matou e deixou seu corpo no espaço. No espaço! Ele sequer podia ter devolvido?
—Alana... Por favor. Eu confio nele.
—Ele confessou ter te matado!
—Alana, vá pra casa!-Gritei, ela deu alguns passos para trás. Abaixei o tom de voz. -Vá para casa... Por favor.
—Não... -Desapareceu. O Doutor abaixou a chave de fenda sônica e a guardou no bolso.
—O que aconteceu?
—Eu a mandei de volta e travei o Manipulador de Vortéx. -Respondeu. -Idris pode arrumar depois, mas certamente não vai deixar Alana com ele.
—Não. Eu estava falando sobre a minha... Ela disse que eu vou morrer. -Se virou pra mim.
—Você vai morrer... Um dia. Todos morrem.
—Alana disse que você me matou e confessou o crime. -Se aproximou. -Por que você mentiria sobre isso?
—Kali, você confia em mim?-Segurou meu rosto com as duas mãos.
—Confio. Eu confio em você por que você é o Doutor.
—Certo. Então me desculpe por isso.
E tudo desapareceu de uma só vez.
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