Notas iniciais
Olá :3 Para quem acompanhou "A Garota de Vestido Azul", essa história se passa um ano depois.

—Alana, sai logo desse banho!-Gritei, batendo na porta. -Você está há quase uma hora aí dentro! Alana! Eu vou ligar para os nossos pais!-Sem resposta, ela apenas começou a cantar mais alto, me ignorando completamente.

Dei meia volta e saí de casa marchando furiosamente até o disjuntor e o desligando em seguida. Todas as luzes da casa se apagaram, e um grito agudo veio do banheiro. Estava começando a esfriar, e um banho frio não era o que a minha irmã planejava.

Bem, não me julgue. Se você conviver uma semana com Alana Silva, vai implorar por piedade e fugir dela na primeira oportunidade. Infelizmente, não era algo que eu podia fazer.

—Eu realmente odeio você!-Gritou, aparecendo na janela, toda molhada.

—Pra uma garota de doze anos, você é terrível. Agora vá se vestir. Está esfriando, não vai querer pegar uma gripe.

—É? Que coisa. -Fechou a janela.

Revirei os olhos, liguei o disjuntor de novo e voltei para casa... Bom, tentei voltar para casa fica melhor nessa frase. Empurrei a porta mais uma vez, mas ela não abria.

—Alana, você não me trancou do lado de fora! Alana! Eu vou te esganar! Alana!-Meu celular, no bolso da calça, vibrou. O peguei, era uma mensagem da peste. “Aprecie a chuva”. Um trovão soou ao longe. Droga. Eu realmente odeio morar em Joinville.

Me sentei no banco que ficava em baixo da figueira no jardim e suspirei. Alana era uma peste, mas nem sempre. Acho que ter desligado a energia enquanto ela tomava banho tinha sido uma provocação e tanto, por isso ela tinha revidado. E claro que eu não ia deixar barato. É meio infantil pra alguém que tem vinte anos? Talvez.

Um movimento rápido no canto do muro me fez ficar de pé, alerta. Eu não morava num bairro perigoso, mas bandidos circulavam por qualquer lugar.

Preocupada, decidi testar a sorte das janelas. Alana tinha sido esperta em trancar todas, mas a da cozinha estava estragada, e era só forçar um pouco e pronto: aberta.

Comecei a ir para o meu quarto, então uma vassoura veio direto para o meu rosto, quase me acertando.

—Que isso? Alana!

—Ah, é você. -Abaixou a vassoura. -Eu achei que era um bandido.

—E você ia atacá-lo com isso?

—Eu não tive tempo pra achar nada mais pesado. E tinha um homem lá fora, espiando.

—Um homem?-Franzi a testa. Talvez tivesse sido a pessoa que eu tinha visto.

—É. No muro. Ele espiou bem rapidinho e sumiu.

—E você me deixou lá fora. -Cruzei os braços.

—Ah, mas você sabe se virar. Ia dar uma surra nele.

—Claro, por que eu sou praticamente a Xena.

—Eu não entendi a referência.

—Xera era uma princesa guerreira de uma série... Deixa pra lá. Eu vou contar aos nossos pais que você me trancou fora de casa.

—Mas você já tá aqui dentro!

—Mas podia não estar. Vai pro seu quarto. -Se virou, andando e resmungando. -E deixa a vassoura onde pegou!

Me aproximei da janela, espiando o lado de fora. Não tinha ninguém lá agora. Talvez fosse paranoia da Alana. Ela era medrosa demais. Mas eu tinha visto alguém também, não tinha? Foi rápido demais, não dava pra ter certeza...

Ah, pronto, eu estava paranoica também. Era melhor parar de ver séries policiais... E o jornal também, só pra ter certeza.

***

Enquanto o ônibus não chegava no meu ponto, chequei meu Facebook, procurando me distrair, mas não tinha nada de interessante: pessoas aleatórias discutindo política, vídeos sem graça, fotos de bebês e bichinhos, mais discussões e... Fotos de amigos... Quer dizer, ex-amigos, se divertindo em festas juntos. Era melhor deixar o Facebook de lado.

Minutos depois, desci do ônibus, torcendo para não começar a chover. O problema de Joinville era que o clima era louco: uma hora estava muito quente, na outra chovia como se fosse o fim dos tempos.

—Psiu! Psiu!-Parei de andar, olhando em volta. Aquilo era comigo?-Psiu!

Claro que não podia ser algo bom. A voz, masculina, estava vindo dentre as árvores. Continuei andando, mas parei quando ouvi a próxima palavra. Kaliane. Meu nome.

—Quem é?-Perguntei, mais desconfiada impossível. Meu medidor de paranoia estava lá no alto, praticamente gritando que havia algo errado. -É uma pegadinha, não é? Alguém querendo fazer um vídeo pra internet? Eu não vou cair nessa...

—Kaliane. -Me calei. Eu devia correr agora. Correr muito.

Sabe as pessoas de filme de terror que vão ao encontro do perigo, totalmente alheias ao fato de estarem indo para suas mortes? Eu detesto essas pessoas. Mas isso não me impediu de ir na direção da voz.

Caminhei, incerta, por entre as árvores. Não tinha ninguém no meu alcance visual, o homem que tinha me chamado devia ter se escondido.

O que diabos eu tô fazendo? Eu posso acabar morta... Ou pior...

Minha mente deu o comando para o meu corpo para voltar, mas então em segundos eu estava suspensa no ar, numa rede de cordas. O susto me deixou atordoada por alguns segundos, então demorei a notar o homem que gritava, no chão. Ele era alto, de cabelos castanhos. Usava um terno azul, tênis vermelhos e um sobretudo marrom. Nada nele fazia sentido.

—... Eu sabia que ia funcionar! É claro! A espécie não é muito inteligente... Sem ofensas, senhorita Zygon.

—Quem diabos é você?-Gritei, agarrando as cordas. -É um maluco pervertido que sequestra mulheres com... Uma rede?

—Oi? Maluco pervertido? Isso é muito ofensivo, sabia?

—Me tira daqui! Socorro! Alguém!

—Pode acabar com a farsa agora, Zygon. Volte para sua forma original.

—O que?

—Eu mandei você voltar para sua forma original. Você não me engana. Estou há dias observando aquela casa. Vi um Zygon lá. Você. E agora te peguei e vou te levar de volta para o seu planeta.

—Ai meu Deus. Não sei sobre o pervertido, mas você é mesmo maluco. -Colocou as mãos na cintura.

—Você é uma Zygon. Não adianta continuar com o disfarce. Volte para sua forma original, e eu te levarei de volta a Zygor.

—Eu não faço ideia do que você está falando!-Franziu a testa.

—Forma de vida alienígena? Grande, vermelha e borrachuda? Bolsas de veneno na língua?

—O que?-Tirou um objeto esquisito do bolso e o apontou pra mim. -Que coisa é essa? É uma arma?

—Não... Depende. É uma chave de fenda sônica... E você é humana. Ah, droga, você é humana.

—Eu sou, sim. Até onde eu sei. Você achou que eu era um ET?

—Hum... Erros acontecem. Se a senhorita puder me perdoar...

—Você andou me espionando, me prendeu nessa rede, me chamou de ET e quer que eu o perdoe?

—Por favorzinho?

—ME DESCE DAQUI!-Arregalou os olhos e correu para a corda que prendia a rede.

—Isso pode...

—ME COLOCA NO CHÃO!

—Claro, claro. -Soltou a corda. A rede foi direto para o chão, me levado com a ela. A queda foi mais dolorosa do que pensei. -Você se machucou...?

—Não encosta em mim!-Fiquei de pé. -Quem diabos é você?

—Eu sou o Doutor. -Estendeu a mão, mas a recolheu quando viu minha expressão nada amigável. -Não vai me desculpar, vai?

—Apenas fique longe de mim. E da minha casa. Se eu te ver de novo, vou direto na polícia. E... -Peguei meu celular, batendo uma foto do rosto dele. -Isso vai para as redes sociais, junto com meu depoimento sobre o que aconteceu aqui. Estamos entendidos?

—Sim. Muito entendidos.

—Ótimo.

Comecei a me afastar. Quando estava fora do alcance visual do tal Doutor, minha pose de “Eu não estou assustada” se desfez. O que eu tinha feito? Entrado na mata atrás de um homem desconhecido e depois ameaçado ele? Meu Deus, eu podia ter morrido! Ou... Bem, ou algo pior... Estremeci só de pensar.

Meu anjo da guarda devia estar bem alerta ultimamente.

***

—Você se atrasou. -Alana disse, sentada num dos balcões da cozinha. -Eu tive que vir pra casa sozinha.

—Devia ter ficado mais um pouco na casa da sua amiga. Não quero que ande sozinha na rua. É perigoso. -Revirou os olhos.

—Suas mãos estão tremendo. O que aconteceu?

—Nada. -Cruzou os braços. Abri a porta da geladeira, procurando por uma garrafa de água. -Tinha um homem... Disse que se chama Doutor. Eu estava voltando do curso quando...

—Doutor? Você tem certeza?

—Sim. Mas não faz sentido. Ninguém se chama Doutor. Ele achou que eu era um alien. Como ele disse? Zygon, acho. Ele é maluco. É melhor não andar sozinha por um tempo. Ele pode ainda estar lá fora. -Peguei a garrafa e me virei, apenas para deixá-la cair segundos depois. -Ai meu Deus.

—Ele disse Doutor? Você tem certeza absoluta?

—Grande, vermelha e borrachuda... Bolsas de veneno na língua... Zygon?

—Onde ele está?

Aí eu comecei a gritar. É, gritar. Não é muito útil quando se está na frente de uma suposta forma de vida alienígena, mas era a única coisa que eu podia fazer.

Pouco depois a porta abriu, batendo com força na parede e lá estava o maluco da rede, o Doutor. Ele tinha aquela tal chave de fenda sônica na mão e uma expressão tranquila no rosto. Talvez estivesse acostumado com os Zygons.

—Tudo bem, está tudo sobre controle. -Avisou, segundos antes de ser jogado para fora pelo Zygon.

Parei de gritar e peguei a cadeira mais próxima, atingindo o alien com ela. A coisa vermelha cambaleou e virou pra mim.

—Opa. Escorregou da minha mão. -Começou a se aproximar. Ergui a cadeira entre nós. -Não chega perto de mim! Eu vou te acertar de novo!

—Parem!-O Doutor gritou, aparecendo na porta de novo. O Zygon e eu nos viramos pra ele. -Ninguém precisa se ferir. Eu só estou aqui pra levar você pra casa.

—Ele não vai pra lugar nenhum antes de dizer onde está a peste da minha irmã!

—O que?

—Alana. Minha irmã. Essa coisa horrível estava se passando por ela. Diz logo! Eu vou te acertar... -Ergui a cadeira. O Doutor correu pra ficar no meu caminho.

—Está tudo bem. Ele vai dizer onde a sua irmã está, não vai? Ela é só uma garotinha. O que fez com ela?

—Está na garagem dos fundos. -O Zygon respondeu. -Viva e intacta. -Olhou pra mim. -Ela é perigosa. Me mordeu quando tentei pegá-la. -Era bem a cara da Alana.

—Ótimo. Perfeito. Está tudo bem, viram? E você, solte essa cadeira.

—Assim que a coisa feia e borrachuda estiver longe daqui. -Avisei.

—Ei, não precisa ofender, também. Imagine como você parece feia pra ele... Só pra ele. -Franzi a testa.

—Isso foi uma cantada?

—O que? Não. Eu não faço isso. Okay, estamos perdendo o foco aqui. Vamos soltar a sua irmã e depois levar o Zygon para o planeta dele.

—Não vai perguntar o que ele fazia aqui?

—Ah. Eu tinha esquecido dessa parte. -Sorriu. -Você é esperta. Tudo bem, Sr. Zygon, por que estava se passando por uma garotinha de doze anos?

—Estava me escondendo. -O alien respondeu. -Me meti em problemas e achei melhor me esconder aqui.

—Ninguém procuraria um ET em Joinville. -Comentei. -Talvez o pessoal que acredita que naves aliens pousam no Monte Crista.

—Bem, é melhor te levar para Zygor antes que seus problemas te encontrem aqui. -O Doutor disse. Limpei a garganta de modo exagerado. Era algo que eu via nos filmes e achava legal. -Depois que soltarmos a garotinha, é claro.

***

—Então minha irmã não vai lembrar do que aconteceu?-Perguntei, encostada no batente da porta. O Doutor assentiu.

—Não. Nada. É melhor assim. Ela é jovem demais, e não sabemos o que faria a seguir.

—E o que nós faremos? Devíamos chamar a NASA? Os militares? A polícia? Ufólogos?

—O que? Não. Definitivamente não. Está tudo sob controle. O Zygon já está no planeta dele, ninguém se machucou... Está tudo bem.

—Certo. -Suspirei. -Esse dia foi insano. E você parece bem calmo com isso.

—Pra mim, um dia insano é um dia normal.

—Então me deixe entender a situação. Você é um... Caçador de Zygons?

—Não. Eu sou só um viajante.

—Viajante?

—É. Estou por aí, viajando pelo tempo e espaço.

—Tipo... Tipo aquele filme ruim “De volta para o Futuro”? Ou aquele legal “ O Elo Perdido”? Você tem uma máquina daquela...?

—Não. É uma nave. Uma nave que viaja pelo espaço e tempo.

—Certo. -Franziu a testa.

—Nenhuma reação incrédula sobre isso?

—Um Zygon estava se passando pela minha irmã. Acho que não há motivo para surpresas. -Sorriu. -Então você viaja por aí numa nave. Okay. Como a arrumou? É tecnologia humana? Aposto que é dos Russos!

—Não, não. Eu pareço russo?

—Parece britânico pra mim. Você é britânico?

—Não. Eu não sou humano.

—Você é um Zygon?-Riu.

—Definitivamente não. Sou um Senhor do Tempo.

—Nunca ouvi falar.

—Não estou surpreso. -Sorri.

—A sua nave...?

—Está no seu quintal. Nos fundos. A deixei ali depois de levar o Zygon pra casa.

—Eu posso ver ou isso é um crime pros Senhores do Tempo?-Estendeu a mão. -Não tem nenhuma armadilha no caminho, tem?

—Não. Não tem. -Segurei a mão dele.

—Então me mostre.

Corremos para o quintal dos fundos. Lá, como se fosse a coisa mais normal do mundo, estava uma caixa azul, grande. Não parecia uma nave. E o letreiro dizia “Cabine Pública da Polícia”.

—Essa é a...

—TARDIS. -O Doutor completou. -Parece uma cabine, mas é só um disfarce.

—Ela é... Pequena. -Riu. -O que?

—Pequena?-Soltou minha mão e abriu uma das portas. -Olhe aqui. -Me aproximei, espiando o interior.

—Não... Fala sério... Não. Ela é... Muito, muito maior por dentro. -Recuei. -É ilusão de ótica?

—Não. Apenas a boa e velha tecnologia dos Senhores do Tempo.

—Incrível. E a sua tripulação? Ou é só você?

—Só eu. Tive companhia, mas... Nada dura para sempre. Então estou sozinho... Apenas a TARDIS e eu.

—Isso é fantástico... Quer dizer, não você estar sozinho. Mas... Viajar por aí...

—Bom... -Coçou a nuca, parecendo um pouco incerto. -Eu não me importaria em ter companhia... É ótimo viajar com alguém. Então... Caso estiver interessada...

—Está falando sério? Eu? Viajar com você... Ali? Por quê? Você nem me conhece... Por que confiaria em mim?-Sorriu. Um sorriso tão sincero que acabei sorrindo também.

—Acredite em mim... Eu sempre sei quem escolher... Mas nem sempre por quê. -Estendeu a mão. -Eu confio em você. Confia em mim?-Segurei a mão dele.
—Acho que depois de hoje... Eu seria tola em não confiar.

Notas finais
Kaliane é de Joinville (como Joanne Watson, de uma história anterior), assim como eu :3 E sim, uma galera acredita que há naves aliens pousando no Monte Crista (eu, inclusive kkkk). O que acharam? Comentem aí. Bjs ♥