Notas iniciais
Para que ninguém se perca no rumo da história, os capítulos a seguir terão foco em personagens alternados. Portanto, o foco neste capítulo é em outro personagem totalmente diferente e distante do irmão de Almur, o "Lorde garoto", como eu pretendo chamá-lo por ora.

O dia inteiro fora chuvoso. “Os deuses choram”, o Lorde garoto pensou amargamente. Um conselho seguia seu desordenado rumo e a melodia que os pingos de chuva davam-lhe certo desejo de cochilar, sem citar as luzes fracas e crepitantes provenientes das velas em candelabros de parede. Mal conseguia manter-se acordado, debruçando-se sobre a mesa de mármore em sua frente. Ouviu o mestre mercador Lerw, de um lado da mesa, reivindicar novas rotas comerciais e outros assuntos nada interessantes. Ouviu Mel Stingen, o profano, contar certas piadas infames sobre os cavaleiros do sol poente. Todos os dez integrantes do conselho reivindicavam, comentavam, debochavam e se zangavam com algo. Todos, com exceção de si mesmo e do general de guerra Weldt Rain. Quando conseguia manter os olhos abertos por pouco tempo, conseguia ver que Weldt, mesmo todo cabelos longos e cinzas, vestes negras e rugas pouco aparentes, continuava sólido como pedra. Estava sempre com os dedos entrelaçados, com seu cotovelo apoiado na mesa, servindo de apoio para a sua cabeça quadrada e rígida. Não parecia piscar.

Horas se passaram e mais discussões irrelevantes chegavam. Àquele momento já estava decidido de se levantar e anunciar o conselho encerrado, até que o Gn. Rain finalmente decidiu se manifestar:

– Senhores, coloquemos estes assuntos triviais em seu devido lugar agora. Há assuntos de mais relevância, assuntos de guerra. Meu soberano, – Olhou-o com um olhar sério – Há rumores que correm por todo o continente. Muitos de meus melhores homens ouviram histórias diferentes: Fantasiosas, místicas e outras do tipo. Mas todas possuem uma frase em comum.

– Diga-me logo – Ordenou saber, esfregando os olhos.

– Muitos afirmam que a Víbora Escarlate voltou a vida. Dizem que se encontra em Loneway.

De súbito, a sonolência esvaiu-se. Todos trocavam olhares pela mesa do conselho, com expressões que transmitiam medo e dúvida. Por um momento, a palavra foi dada a chuva. Mas, logo depois, o ferreiro John Carlston, com sua voz mais aguda que grave, disse:

– Todos aqui sabemos que é impossível. Isto é apenas uma história do exército inimigo para nos amedrontar.

– Sim, mas seríamos imprudentes e ignorantes em não dar ouvidos para algo tão importante. — Trovejou Rain em resposta – Todos sabemos...

– Sim, todos sabemos – O interrompeu. Não gostava de ouvir ou falar sobre tal assunto e, sendo Lorde, não o permitiria agora – Deve ser apenas algum dos nossos mensageiros que se vendeu por alguma prata. O que os cega? Vamos priorizar conjecturas enquanto essa divisa passa fome e dobra joelho às outras duas? É tão movido pela fé quanto Helder era? Deseja o mesmo fim que ele? — De repente soou mais maduro do que seus desesseis anos sugeria. A imagem de Helder, um sacerdote grisalho, apareceu em sua mente. “Mas você acaba agora”, recordou.

– Não, senhor – Todos os outros permaneciam em silêncio – Mas peço humildemente para que permita que eu averigue a situação.

“O que ele tem de músculo não tem de razão”, pensou, amargamente, Lorde garoto.

– Negado. — Weldt era importante na guarnição da Ponte Divisa, mas não demonstraria – Você mantém Ponte Divisa e manda homens ao norte até que eu decida o contrário ou até que você morra antes do norte e do sudeste se renderem. Se bem que irei averiguar a situação, com outros homens. – Não o queria irado de todo — Cavalheiros, acabamos aqui.

Então se levantaram e, em fluxo ocioso, foram deixando a sala de tijolos negros. Ao fim, de súbito, pediu que Carlston e Stingen permanecessem para um aviso final:

– Stingen, quero que verifique a veracidade da Víbora Escarlate. Você irá partir junto a quinhentos homens em um ciclo lunar. Carlston, arme os homens que irão com ele. Juntem o máximo de informação possível, até lá.

– A montanha sangrará – Ambos responderam, em uníssono, e deixaram a sala. “Ótimo”, concluiu Lorde garoto com satisfação.

Fora o último a deixar a Sala Vazia, selando a porta de carvalho ao sair. O caminho para o castelo era curto e entediante, em igual proporção. A chuva não estava enfraquecida, continuando constante e forte. As folhas de plantas e arvores anãs estavam de um verde escuro e o chão enlameado. Suas botas estavam mais marrons que negras. “Devo me lembrar de trazer algum transporte da próxima vez”. Irritado, sonolento e meio corcunda, prosseguiu até lá. Como estava na cidade em que governava, vestia um manto negro com gorro para manter-se incógnito, entretanto os casebres de madeira e pedra estavam de olhos abertos todos postos em si. Fora muito desconfortante.

Ao portão principal do castelo, dois homens de armadura polida o pararam. Não estava com paciência para ouvir aquele discurso pré-elaborado. Rapidamente, sacou sua adaga e puxou o gorro para trás. Tudo como planejado: A adaga interrompeu o discurso já quase iniciado e chamou a atenção dos guardas e seu rosto confirmou sua identidade. Um grande grito de ABRA O PORTÃO ecoou pelos ares e dez segundos depois o portão abriu. Com ambos guardas em reverência, passou por eles e adentrou ao castelo.

Passado o pátio e um fosso, chegou no Hall Principal, como gostava de chamar apesar de não conhecer o sentido da palavra Hall. Lá estavam dois plebeus, um casal, tratando com o seu Cabeça, um jovem estudioso no qual ele designou como Tratador de problemas reais, o Cabeça. Os conhecia de tempos passados, quando eles reivindicaram mais lucros para os baixos mercadores. Sempre traziam mais problemas e nunca nenhuma solução, mas como Lorde tinha a obrigação de tratar desse assunto ou pelo menos tentar. Aproximou-se mantendo a compostura, pendurando o manto em uma cadeira de uma mesa retangular no centro do vazio e pouco iluminado Hall, ajeitando a roupa de lã branca com detalhes de safira.

– Boa noite, senhor e senhora... – O 'a' final soou prolongado, pois não lembrava do nome deles – Como posso lhes ajudar?

– Boa noite, meu suserano – o Cabeça respondeu – Trazem aqui informações sobre o preço que a Divisa Sudeste está pagando para comprar alimentos dos Vallyi. Estão exigindo um preço um pouco mais elevado de lucro ou o venderão de bom grado.

– O preço continuará o mesmo. A cortesia dada será suas cabeças no devido lugar – Mostrou um sorriso gentil — Saberei antes mesmo do ato tiver sido feito, entendido? — Não esperou nenhuma resposta, a expressão de submissão na face do casal foi o suficiente, e virou-se para o Cabeça – Yuki, quero meu banho pronto imediatamente.

– Assim será, senhor.

Deixando os dois ali com uma mensagem de 'Você sabe onde é a saída', dirigiu-se para a Torre dos Alojamentos para finalmente ter seu banho e dormir. Passados quartos, salas, escadas e mais quartos, finalmente chegou ao seu quarto, no topo da torre. Abriu a pesada porta de ferro com muito esforço e, acidentalmente, olhou-se no espelho. Seu rosto estava em péssimo estado, por duas noites sem dormir em cima de um cavalo. Seus cabelos ruivos e encaracolados caiam sobre a testa. Sua pele estava mais escura do que o natural, devido ao período que fora exposto ao sol. Mas seus olhos eram uma ruína, ainda que azuis, mostrando-se avermelhados e quase cerrados. Estando farto de ver aquele menino, homem cansado e sujo, pôs-se a observar o quarto e enfim achou a banheira com água quente. Sentiu um fio de alegria, despiu-se rapidamente e entrou na banheira de madeira. Da janela já saia os primeiros raios solares. “A alvorada”, pensou e logo em seguida adormeceu.

O sonho era escuro, mas tudo era claro: estava no Monte dos Andarilhos. Conseguia enxergar em um raio de 250 metros apenas, mas conhecia sua localização pela grande pedra plana circular que havia debaixo de sí, pintada de variadas cores e sem limites vistos. O céu estava cor púrpura e as estrelas, rubras. Da escuridão, olhos castanho-escuros observavam-no acima de grotescos sorrisos esbranquiçados que o lembraram a criança que ele ainda era. Então rodopiou, sem ousar se mexer, em busca de algum caminho seguro para deixar aquele circo de horrores.

– aruc orp euq ot is X.

Sentiu os pelos em sua nuca ouriçarem. A voz vinda detrás de si tinha sido estridente a ponto de quebrar qualquer vidro reforçado já feito. Decidiu, intuitivamente, não se virar e rezar para que a criatura não o matasse. Contudo, virou-se no momento em que as faces na escuridão levantaram adagas pingando sangue, apontando para ele. Agora, via as faces tristonhas com lágrimas brilhantes e as escutava gemendo por todos os lados. Algumas seguravam lápides, outras ossos. Apenas uma silhueta humanoide não mostrava expressão e segurava uma espada de ferro com aparência simples, só que com o cabo ornamentado em vidro leril. Ela levantou a espada e, nesse momento, um relâmpago revelou a aparência de todos os rostos emotivos: esqueletos, homens em carne viva e seres em decomposição e um homem cujos cabelos negros e arrepiados, pele escura e olhos negros afirmavam a sua identidade: a Víbora Escarlate. Ele apontou a sua espada para o menino e trovejou:

– Jaçusit!

E todos juntaram lanças, espadas, clavas, manoplas, machados e todos os mais variados tipos de armamento e avançaram em uníssono com o grito de terror que o menino deu.

As palavras “apropriado”, “correntes” e “descobertos” o salvaram, ligando-o ao mundo lúcido mais uma vez. Acordou com um pulo em seu colchão de penas de flamingo, enquanto se vertendo em suor, cheio de lágrimas em seu rosto. Duas pessoas estranhas estavam em seu quarto vendo a cena, ambas vestindo um manto de cetim com gorro que cobria a face. Foram eles quem o acordaram, dizendo tais palavras que tinha escutado. Com respiração ofegante, ficou observando-as e elas resolveram fazer o mesmo. Uma delas, com ambos os braços atrás, abaixou o capuz com a mão esquerda, revelando um homem careca de feições amigáveis:

– Senhor, me desculpe pela surpresa. Fui informado que o poderia encontrar aqui a esta hora — “Cabeça o deixou entrar?”, raciocinou – Sou da cidade de Yerngir, ao oeste daqui, e venho como representante da princesa Malia. Venho lhe informar que ela virá visitá-lo em pessoa, ao crepúsculo de hoje.

– Sim, sim – Respondeu, esfregando os olhos e soluçando um pouco – P-peça ao Cabeça para l-lhe escolher um quarto que seja do vosso agrado – Percebeu que não estava vestido e se cobriu com os lençóis da cama — Estarei me preparando agora, peço humildemente que saia – Tocou um sino próximo a cama e vários servos o trouxeram roupas limpas, uma camisola e bermuda de algodão ornamentados com pérolas. Todos na sala o reverenciaram e deixaram seu quarto.

Após estar propriamente vestido, leu alguns capítulos de seu livro Os Mistérios da Cidade Torre, escreveu alguns rabiscos e depois abriu a janela de carvalho e vidro colorido. Feito isso, olhou para cima para ver o céu e, com ele, o horário. “Auge”. Sabia que tinha se passado a metade do tempo que a luz estaria presente. Fechou a janela e saiu de seu quarto, descendo a grande escada em espiral da torre.

– Cabeça – O chamou para perto quando atingiu o térreo – Quero que você mande esta mensagem para o Campo das Árvores Mortas. Mas mande um corvo especial, um preparado para ser interceptado em... bom, aonde quer que a Víbora Escarlate esteja.

Cabeça analisou a mensagem e depois olhou para ele confuso.

– Me perdoe, senhor. Mas aqui é uma carta de guerra e...

– Sim, é um poema. Um fúnebre, fúnebre poema – Fechou seus olhos azuis e deu seu sorriso mais sincero.