O Cavaleiro dos Lírios
13 Elísio
Na medida em que avançava na escuridão, tudo a sua volta ia desaparecendo gradualmente. Jin estava, agora, adentrando nas catacumbas. Em verdade, ele estivera vagando por um túnel estreito, composto por pedras pretas pontiagudas e uma escadaria um tanto quanto invisível e áspera em mesma proporção, que descia para dentro da terra por algum tempo já. A cada passo que dava na escadaria, suas sandálias de couro remendada com pedras, cortesia do senhor Oscar Highwood, produziam um som que ecoava várias vezes até desaparecer. A sorte de Jin é que havia sido presenteado com uma pequena tocha antes de se encontrar na situação atual.
A princípio, Jin começou a contar seus passos. E, também, havia percebido que seu cabelo estava um pouco mais comprido desde que iniciara sua viagem. Agora, o garoto ruivo tinha suas madeixas de cabelo espalhadas pela testa. Periodicamente, Jin empurrava todo o cabelo para trás. Entretanto, devido à umidade da pseudocaverna estreita que se encontrava, seus fios logo se espalhavam pela testa novamente. Então, num mecanismo simples, contava seus passos de modo que a cada cem passos que dava ele puxava um fio de cabelo para a testa. Contudo, parou de contar no número cinquenta e um do décimo primeiro fio. Não o surpreenderia se, repentinamente, encontrasse o núcleo do centro do mundo.
E então, de repente, enquanto Jin repetia a descida de degraus de maneira desanimada e desleixada, ele alcançou uma abóboda na qual não havia mais degraus para um nível mais baixo. Aparentemente, ele havia chegado onde destinava-se.
“Você já ouviu falar sobre a rede sob tudo?”, recordou Jin sobre que o senhor Highwood disse em sua conversa anterior, “Sabia que não. Tenho certeza que há algo que nos interessa lá embaixo”.
Jin abaixou sua tocha para verificar o chão, mas nada havia além de pequenas rochas em conjunto com algumas flores e folhas secas. A trouxe, então, para a altura do peitoral e chacoalhou-a para a esquerda e para a direita, mas nada aparecia em seu campo de visão. Por fim, levantou a tocha o máximo que pôde para verificar a extensão vertical do local. Entretanto, a escuridão apenas mostrou o quão grandioso era o lugar que se encontrava.
Por fim, o menino partiu em uma direção qualquer, desejando desbravar a natureza do local. Após o primeiro passo, e o segundo, chegou em algo um pouco contraditório para a extensão do local: Não conseguiu ouvir o ecoar de seus passos.
Assim que foi avançando na escuridão, estranhas silhuetas altivas começavam a aparecer no limite da claridade da tocha e o chão abaixo de si se tornava menos pedregoso e mais liso.
E foi então, repentinamente, que a tocha conseguiu clarear a sua primeira entidade: Um arco de pedra do tamanho aproximado de seis metros no qual podia-se ver uma escritura ilegível para o jovem, mesmo que ele tenha sido alfabetizado em seis idiomas diferentes, localizados dois a dois em cada uma das divisas. Contudo, a escritura parecia ser derivada de uma existente do norte. Jin passou por debaixo do arco.
Logo em seguida, a tocha começou a iluminar várias outras estruturas. Casas, jardins de flores secas (que eram parecidas com cinzas), prédios anões, bares e alguns outros estabelecimentos foram verificados.
“Você deve procurar pela Víbora!”, havia Oscar exclamado anteriormente, quando Jin perguntou qual seria seu objetivo nas catacumbas, “Não vai ser difícil, como você verá”.
Jin precisava encontrar a Víbora Escarlate, mas não havia ideia do porquê ela estaria ali, ainda mais quando se tratava de um Highwood nortenho. Sem alguma ideia melhor aparente, Jin encontrou uma pequena construção que se assemelhava a uma estalagem qualquer e, como não havia nenhuma porta em uma abertura que aparentemente serviria para encaixá-la lá, não houve dificuldades em adentrar.
E então Jin lembrou-se que tudo se tratava de catacumbas. De fato, a estrutura do lugar era bem parecida com uma estalagem: Janelas, um pequeno balcão, algumas mesas de pedra e uma escadaria velha, porém utilizável, para um andar superior, cujo chão era feito de madeira. Mas, é claro, nenhuma estalagem havia esqueletos humanoides em sua quase total extensão. E eram todos bem distintos no quesito de tamanho, comprimento e disposição. Alguns ainda tinham tudo no lugar, já outros tinham seus crânios ou outras partes derramadas pelo chão.
— Olá? — Disse Jin. Não houve nenhuma resposta, mas um pequeno barulho foi ouvido do andar superior. Mais passos nervosos começaram a repercutir no ar, provindos de cantos distintos da sala, vindos do andar superior. A madeira chiava furiosamente.
Sem nenhuma ação aparente, Jin apenas recuou alguns passos em direção a entrada. Os barulhos começavam a tornar-se mais fortes e, agora, acompanhados de alguns gritos destorcidos. O garoto ruivo presumiu, com toda a convicção, que havia algo móvel no andar de cima, em grande número. Temeu que fosse o motivo pelo qual os esqueletos eram esqueletos.
Jin decidiu, por fim, deixar a estalagem assim que uma parte do teto, o chão do andar superior, desabou e trouxe, ao chão do térreo, algo similar a uma panela grande e esférica que derrubou um líquido vermelho esverdeado que banhou todos os esqueletos. O garoto saiu no momento em que outra grande parte do teto vinha abaixo.
Quando Jin estava onde estivera antes, ele avistou várias figuras humanoides apareciam em torno dele (a sua frente em um ângulo de 180º. Estava encurralado, uma vez que a estalagem estava atrás dele). Todos possuíam grande variedade em altura. O menino não sabia o que fazer, apenas deu um pequeno grito repentino quando notou que todos eles tinham olhos vermelhos, que não trajavam nenhuma vestimenta e que eram todos humanos. Contudo, a etnia deles não era conhecido pelos estudos do mundo, uma vez que eles possuíam pele cor verde-musgo.
Enquanto Jin estava abismado com as mais recentes revelações, ele percebeu que todos deram um passo em sua direção enquanto um estrondo gigantesco foi escutado. Ele não soube, no momento, se o estrondo fora da construção que desabou atrás de si ou se realmente foi o passo de todas aquelas pessoas. Felizmente, Jin tateava a parte esquerda de seu quadril numa ação de pânico e tocou no cabo de uma espada. “A espada do senhor Oscar”, Jin recordou e, com inconstância, puxou a espada da bainha que trazia consigo. O tinir da espada raspando por toda a sua extensão pela bainha de ferro fez com que todos aquelas pessoas dessem um passo para trás. Jin segurava a espada com ambas mãos.
O próximo movimento da multidão foi abrir um caminho que mostrava uma nova pessoa que não era antes vista na multidão. A tocha, infelizmente, apenas trouxe a silhueta da pessoa: Um humano altivo, um pouco magro, que não aparentava ter nenhuma arma consigo. Ele dava pequenos passos em direção a Jin e adentrando semicírculo que todos haviam criado. Quando todos se uniram novamente, a pessoa já estava dentro do semicírculo, agora fechado.
A pessoa, iluminada pela tocha, estava com ambos antebraços a frente da sua face. Não vestia nenhuma vestimenta assim como todos os outros e era um homem. Entretanto, sua pele parecia negra como ébano.
Quando Jin menos esperava, a pessoa, em velocidade monstruosa, partiu para cima dele, ainda com a face ocultada pelos antebraços, e, subindo no ar num pulo altivo enquanto girava, desferiu um chute voador em direção ao peitoral do menino. Por simples reflexo, Jin curvou-se a direita num movimento amador, mas que o preveniu de tomar qualquer dano. O homem, assim que atingiu o chão atrás de Jin (isto é, em uma pilha de escombros da ex-estalagem), um fluxo de ar tão monstruoso fez com que, assim que o atingiu, o menino colocasse o braço esquerdo (da tocha) a sua frente. Como resultado, a tocha agora se apagara e os olhos vermelhos de todos os outros estavam por todo o lado.
A primeira coisa que Jin teria pensado numa batalha normal teria sido desferir um ataque resposta para o oponente, visando estudar os movimentos do outro e o modo que o dano o atingia. Contudo, como estava apavorado e com respiração elevada, Jin buscou algum espaço para se distanciar do oponente. Assim que o homem se levantou, Jin estava no limite do semicírculo, quase encostando nas pessoas que o ditavam. Ele podia sentir, também, que todos tinham seus olhares voltados a ele.
Mais uma vez, o homem veio para ele em uma velocidade monstruosa. Dessa vez, assim que partia para cima de Jin, seus punhos pegaram fogo enquanto uma nuvem de fumaça era espalhada em torno dele. O braço esquerdo do oponente estava a frente e o punho direito estava fechado, tocando seu maxilar na parte direita da face. A claridade mostrou um homem com o rosto tenso e musculoso, cabelos negros e arrepiados. Tudo indicava que ele fora a última Vibra Escarlate.
Tudo aquilo pareceu totalmente surreal, mas assim que o golpe o acertou, Jin percebeu a veracidade daquilo. No contato do golpe, o punho flamejante do braço esquerdo do oponente havia acertado o braço direito do menino. O golpe foi tão forte que Jin perdeu o equilibro e cambaleou para o lado oposto, posteriormente caindo no chão. A espada caiu um pouco distante dele. Sentia uma dor intensa por todo o braço direito e, automaticamente, percebeu que, por ora, a movimentação do braço estava comprometida. Urrava de dor no chão, enquanto a Víbora permanecia estática, ainda na pose do golpe.
Jin apoiou-se no joelho direito para levantar-se. A Víbora, agora, olhava para ele em sua posição usual. Entretanto, dessa vez, os joelhos estavam um pouco dobrados e as pernas estavam separadas. Jin presumiu que aquela era uma posição defensiva, então a Víbora estava esperando um ataque vindo dele.
Aproveitando o tempo ganho, Jin tocava seu ombro direito. Aparentava estar deslocado. A dor era quase insuportável.
Enquanto nenhuma ação era feita, Jin assustou-se com o que via: Duas cópias da Víbora Escarlate estavam presentes e, também, o senhor Oscar Highwood, com sua Zweihänder erguida acima do ombro direito, segurada por duas mãos. Nada daquilo fazia muito sentido, a não ser que o senhor Oscar conhecesse uma passagem alternativa para as catacumbas que era completamente mais veloz que a que Jin seguira. Mas nada explicaria as duas Víboras a mais.
Tudo o que ocorreu em sequência foi muito rápido. Uma das três Víboras correu para cima do menino e acertou-lhe a face na parte esquerda, enquanto a outra correu para a frente dele e o segurou. Essa Víbora estava sorrindo. Mas foi então que Jin sentiu a lâmina fria da grande Zweihänder trespassar sua barriga, e via quase toda a sua extensão a sua frente. Todos riam ao seu redor, as pessoas de pele esverdeada, o senhor Oscar e as duas Víboras adicionais. Exceto uma Víbora em particular, que continuava na posição defensiva e que não tomara nenhuma ação contra ele.
Assim, o senhor Oscar retirou sua grande espada de dentro do menino de cabelos ruivos. Tudo começava a se tornar turvo para ele. A Víbora o soltou também. A boca de Jin estava cheia com o gosto de sangue, seu ombro já não parecia mais importar e se sentia banhado pelo sangue que agora pingava no chão. Desorientado, Jin havia conhecido pela primeira vez na sua vida o verdadeiro sentido de escuridão. Seu corpo parecia movimentar-se sozinho, andando para cima da Víbora em posição defensiva.
Foi então que Jin tombou ao chão. Caiu com a parte direita de seu corpo no chão. A Víbora em posição defensiva desfez sua posição e, então, foi agraciado com um livro arremessado por alguém da região. Com a maior calma do mundo, segurou o livro com a mão esquerda e andou na direção de Jin. Tudo estava acabado para ele. O rapaz já conseguia sentir o frio…
… Apenas em seu braço direito. Não um frio interior, mas como se ferro frio beijasse sua pele. A espada estava debaixo si!
Jin rapidamente começou a tatear a espada em busca do seu cabo, enquanto a Víbora Escarlate ajoelhava-se a frente dele, com o livro aberto na mão esquerda, e uma aura luminosa na mão direita. Como Jin não conseguia mais sentir o tato na mão, agarrou a espada com a mão direita, abaixo de si, e, em um movimento desleixado, trouxe o braço a frente de si num ataque horizontal da direita para a esquerda com a espada. A visão do garoto já começava a escurecer, o cheiro putrefato já quase não era mais sentido, o sangue não tinha mais gosto em sua boca. Mas conseguiu ver a mão direita da Víbora escarlate deixando o corpo dela, enquanto sua espada continuava seu caminho. Mas, enquanto a Víbora estava prestes a começar a urrar de dor, o peitoral dela conheceu a espada de Jin por meio de um ataque por estocada manuseado por ele com uma força que não sabia de onde viera.
“Víboras são víboras, rapaz”, a forte voz de Oscar Highwood ecoou em sua mente, “E, de fato, tem muitos truques para derrubar sua presa!”.
O sangue da Víbora que caia no rosto de Jin não foi sentida.
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