Mais tarde Gerard e eu combinamos de nos encontrar numa boate. Quando cheguei na porta ele me aguardava. Entramos e nos sentamos no bar pra conversar.

G: e então?


K: então o que?


G: deu certo o seu plano? – dizia ele enquanto dava algumas tragadas no cigarro.


K: acho que sim.


G: foi a primeira coisa que ele comentou comigo quando me viu.


K: sério? – pulei da cadeira e me apoiei no ombro dele. – o que ele disse?


G: nada de mais.


K: mas fala.


G: esqueci.


K: por favor, fala. – supliquei.


G: ah...ele disse que estava impressionado que você estava mudada....


K: pra melhor ou pra pior?


G: logicamente pra melhor ele até disse que estava orgulhoso dessas suas novas atitudes.


K: jura?


G: é claro né?


K: aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! – gritei de felicidade e o
abracei. – vamos dançar.


Puxei-o pela mão do bar e roubei o cigarro da mão dele pra mim. Dançamos no meio da pista. Estava muito feliz com a notícia, meu plano tinha dado certo. Que maravilha! Não conseguia pensar em outra coisa. Estava muito contente e queria descontar toda minha felicidade na dança. Nós estávamos dançando os dois quando Gerard chegou bem perto e tentou me beijar sem sucesso pois eu bastei em empurra-lo e o queimei com o cigarro sem querer.


G: ta louca?


K: você que veio pra cima de mim como um louco. nem pense em tentar isso novamente.


G: eu só queria um beijinho, entrar no clima...


K: esquece cara. Eu gosto do seu irmão.


G: ok, esquece. Eu acho que pirei mesmo. – e foi pro outro lado da pista me deixando sozinha com o cigarro.


No dia seguinte...

Acordei toda empolgada com a aula da faculdade, me arrumei toda e quando cheguei na faculdade a terrível notícia: Aula de anatomia. No começo eu achei legal, ta bom isso era fácil oras, só estudar e gravar o nome de cada parte do corpo e pronto, mas isso não foi a única coisa que tivemos que fazer. A turma foi levada pra uma sala com dois corpos, um de um homem e outro de uma criança. Tem noção do que é isso? Não agüentei e fugi da aula e acabei no banheiro chamando o Raul. Foi a pior coisa que eu já tive que enfrentar em toda minha vida, ou melhor, pior coisa que tive que fugir pra não enfrentar né?


Fugi da aula e fui direto pro hospital...Mas a sorte não estava mesmo do meu lado, pois as coisas ruins não pararam por aí...

Mi: Karen? Chegou cedo hoje... – disse Michelle vindo até mim quando entrei pela porta do hospital.


K: é, o professor liberou mais cedo... – menti na cara lavada.


Mi: você pode fazer um favor pra mim?


K: ta.


Mi: eu to atendendo um paciente, você pode me adiantar e atender o do
quarto 218 por favor?


K: ok. – fui até o banheiro onde troquei de roupa e em seguida fui pro tal do quarto 218. quando cheguei um homem idoso estava deitado na cama. – bom dia.


V: bom dia querida.


K: ok, do que o senhor precisa?


V: evacuação.


K: precisa que eu te leve ao banheiro?


V: não querida, eu preciso de algo mais. – e ele levantou a camisola deixando aparecer a parte de baixo nua e toda suja.


K: ó meu Deus! Que nojo. – gritei tapando os olhos e sai correndo da sala.


[...]


Mi: não precisa ter nojo, você usa luvas e pode pedir ajuda a outra pessoa pra que suspenda a perna do paciente. – e ela pediu ajuda a uma enfermeira e começou a limpar o idoso. O cheiro era insuportável. Quando saia do quarto depois de ver aquela cena horripilante, dei de cara com ela que me fez voltar ao quarto pra explicar como se deve limpa-lo.


K: eu preciso de um banheiro. – e corri pro banheiro.

Chegando lá vomitei tudo que tinha pra vomitar. Lavei meu rosto e me encostei à pia com as mãos no rosto. Estava um caco, aquilo não era pra mim mesmo. Não tinha estômago pra essas coisas.

Mi: está tudo bem agora? – perguntou ela entrando no banheiro.


K: ah sim eu só...chamei o Raul...


Mi: Karen eu posso te perguntar uma coisa? – perguntou ela se encostando
na pia.


K: claro.


Mi: tem certeza que é isso que você quer?


K: por que a pergunta?


Mi: desculpa eu te dizer isso, eu posso estar errada, mas...acho que essa não é sua área. Você não tem aptidão pra essas coisas. Precisa ter sangue frio. Ontem você ficou enjoada ao ver aquele paciente baleado chegando no hospital..


K: mas tinha sangue escorrendo pelo chão...


Mi: você está aqui pra isso. Vai ver muita coisa pela frente e coisa ainda pior.


K: é...você tem razão. Acho que isso não é pra mim. – achei melhor desistir dessa historia de emprego no hospital. Não servia pra isso. Era meu plano indo pro ralo.


Mi: eu não quero que desista por mim, só estou te falando o que eu acho. Mas pode ser que esteja pensando errado.


K: não está não. Eu pensei que fosse mais fácil, mas...não tenho estômago pra essas coisas.


Mi: o que pretende fazer agora?


K: só me restar largar esse estágio e desistir.


Mi: tem certeza? – disse pegando na minha mão amigavelmente.


K: Acho que é o melhor a se fazer.


Mi: ok. quer dar uma volta? Eu largo agora... – disse olhando pro relógio.


K: ok.


Mi: vou me trocar então. – ela deu uns tapinhas de leve no meu ombro tentando me confortar e depois se retirou do banheiro me deixando sozinha. Meu plano foi por água abaixo, mas agora era hora de partir pro segundo plano: mantê-la próxima e parece que isso não irá demorar muito à acontecer.

Saímos dali e fomos direto pra um pub onde pedimos cerveja.

K: não sabia que você bebia, parece ser tão certinha.


Mi: não sou de ferro né? Está o maior calor e nada melhor do que uma geladinha.


K: poxa, nem fala. Tim Tim? – disse estendendo meu copo de cerveja no qual ela deu duas batidinhas com o dela nele.


Mi: Tim Tim.


K: e então, já foram ver a igreja?


Mi: ainda não. Vou lá amanhã.


K: está certa disso?


Mi: disso o que?


K: disso: casar...


Mi: ah...to... – disse num tom incerto.


K: tem certeza? Esse “to” não me convenceu.


Mi: é que eu sou muito apegada ao meu pai e às vezes eu fico pensando...vou sentir muita falta dele...vai ser difícil me desapegar entende...? mas fora isso vai ser maravilhoso. Eu nunca encontrei alguém que me fizesse sentir tão especial como o Mikey.


K: também não. – disse pensativa. Olhei pro meu lado e ela me olhava com os olhos arregalados e eu percebi o quão grave soou minha frase. – digo...como amigo é claro.


Mi: vocês eram muito apegados não é? – como assim eram? Ele vai me deixar de lado agora?


K: é sim. Muuuuuuuito. Não sabe o quanto... – e dei um gole na minha cerveja.


Mi: vocês...vocês já...namoraram?


K: namorar? não...Nunca.


Mi: mas já ficaram não é?


K: por que as perguntas?


Mi: é que não sei...às vezes eu sinto que vocês são tão próximos... – disse meio cabisbaixa. Me deu um pouco de pena dela. Isso seria ciúmes? — desculpa. Não interprete isso como ciúmes, é só curiosidade. Ou melhor, vamos esquecer tudo isso.


K: acho melhor.


Mi: e então? Vamos nos conhecer melhor. Tenho que conhecer a amiga do meu noivo e a madrinha do nosso casamento.


K: como assim madrinha?


Mi: é, mikey ainda não te falou?


K: não.


Mi: pois é, decidimos que você seria a madrinha ideal pro nosso casamento. Você topa?


K: é claro. – disse sorridente e ao mesmo tempo aquela historia de casamento me dava uma tristeza...


Mi: que bom que aceitou. Você entrará com o Gerard.


K: Gerard? Irmão do Mikey?


Mi: é. Por que? Não gosta dele?


K: não é isso...


Mi: eu pensei que fossem amigos, vocês dois andam sempre juntos.


K: é, não me incomodo em ser o par dele. De jeito nenhum... – na verdade seria um incômodo sim. Já bastava ter que atura-lo todo dia.


Mi: ih! Eu amo essa música. – disse ela se levantando quando ouviu começar a música “Under Pressure” do Queen.


K: eu também. – respondi animada.

Começamos a cantar juntas ao mesmo tempo caindo na gargalhada. Parecíamos duas bêbadas cantarolando no bar com todos nos olhando. Foi a noite mais divertida de todas que eu tive nesse mês inteiro. Cantamos, conversamos, rimos e bebemos. Realmente nesse ponto Mikey estava certíssimo, ela e eu tínhamos muito em comum.