Capítulo Cinco

Cinco, seis, sete, oito...

Branco. Era branco nas paredes, nos lençóis, nos tapetes e até nos travesseiros. Apesar da aparência de paz, aquele hospital nada lembrava o que poderia ser chamada de “trégua”. Havia corpos espalhados pelos corredores, macas com pacientes gemendo, alguns até mortos. Os quartos estavam apinhados de vítimas, mas Gina se dirigia para o único quarto “privativo” daquele corredor. Ela sabia que não deveria visitar o ex-namorado, mas sua mãe pediu para que ela levasse os recados de Rony e Hermione, além de alguns petiscos que ela julgava necessário para a recuperação de Harry Potter.

Ao entrar no quarto, ela se surpreendeu com a palidez do garoto, agora homem. Harry sempre foi tão cheio de vida, apesar das mazelas que o destino traçou. Naquele momento, ela só conseguia pensar que o homem passou pelo inferno e voltou vivo para contar a história. Com a porta entreaberta ela conseguia ver com detalhes o rosto, o corpo e a alma daquele que ela considerava como o seu amor.

Gina trancou a porta e avançou poucos passos em direção à cama. Harry estava dormindo. Ela depositou a cesta de alimentos que carregava consigo aos pés dele e se sentou na única poltrona disponível no quarto, próxima a janela. O sol já estava fraco, mas ela ainda podia sentir a quentura de seus raios em suas costas.

Ela começou a pensar nos caminhos que a levaram até aquele quarto de hospital. A Batalha de Hogwarts terminou há três dias. Rony e Hermione estavam na Toca, mas Harry foi encaminhado para o St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos porque ele parecia esgotado. Os ferimentos dos duelos somados a fuga de Gringotes devastaram o corpo do bruxo. Ele não comia, não dormia e também não conseguia conversar com ninguém sobre a luta que acabara de travar.

O rosto de Harry apresentava alguns hematomas, os braços estavam arranhados e o cabelo parecia que não via um pente há meses. Ela observou que ele respirava com tranquilidade e aparentemente sonhava com algo bom. Ela imaginava que ele não deveria ter tido grandes noites de sono enquanto caçava Voldemort.

As imagens da batalha voltaram à sua mente. Os mortos, os raios de feitiços, o desespero das pessoas, os gritos, a destruição. As visões das noites anteriores vieram com tudo em seus pensamentos. Ela não poderia deixar de pensar nos sobreviventes, em sua família, em Teddy.

Uma lágrima caiu de seus olhos. De repente, outra lágrima também caiu, seguida de outra, outra, outra, outra... Gina chorava copiosamente, sem dar trégua para os soluços e suspiros. Ela não percebeu quando Harry acordou ou quando ele se levantou.

Ela não sabia por que estava chorando. Se era pela família, pelo irmão morto, pelos pais devastados, pelos amigos derrotados e vencidos pelo campo de batalha, se era por ela mesma...

Harry se ajoelhou em frente dela com um gemido de dor que chamou a sua atenção. Ela soluçou. Não gostava de chorar na frente de ninguém, porque parecia que ela era aquela garotinha que acabara de ser resgatada da Câmara Secreta. E ela deixou de ser essa pessoa há muito tempo. Ele colocou suas mãos em seu rosto e Gina soluçou ainda mais. Por que ele estava fazendo isso?

Com grande esforço, Harry se sentou no braço da poltrona e puxou-a para um abraço. Gina chorou por toda guerra, pela morte de seu irmão e pelos amigos perdidos para os Comensais da Morte. Chorou também por estar ali, naquele local, com Harry.

— Shi, Gina. Vai ficar tudo bem. Aliás, já tá tudo bem! – murmurou Harry. Ele apertou ainda mais o abraço e colocou o queixo em sua cabeça. Ela apertou o tecido da camisa que o hospital havia dado a Harry. Ele passava as mãos em suas costas para acalmá-la, em uma tentativa de entender de onde vinha tanto choro, lástima, tristeza e saudade.

Com o tempo, os soluços foram diminuindo, as lágrimas deixaram de cair, os suspiros foram tranquilizados com o pôr do sol. Harry tinha conseguido trocar de posição com Gina e ela estava em seu colo, aninhada contra ele, o rosto em seu peito.

Ela ergueu os olhos para ele. Foi o que bastou. Harry acariciou o rosto de Gina com ternura. Ele secou o rastro que as lágrimas deixaram, se demorando no queixo, na ponta do nariz e na boca. Ele também colocou o cabelo que insistia em cair atrás da orelha dela. Ela notou que ele não desgrudava os olhos dos seus e que a respiração de ambos estava acelerada.

Não era necessário pedir permissão. Não era preciso perguntar ou questionar. Ela era dele e ele era dela. Como sempre foram. Devagar, Harry foi se aproximando de Gina, foi ficando tão próximo que o beijo era inevitável.

Começou calmo, leve, como se ele estivesse saboreando o momento, que há muito havia almejado. Ela colocou as mãos em seus cabelos, deixando-os ainda mais despenteados, como ela sabia que ele gostava. As mãos de Harry foram para as costas dela, apertando, seguindo a trilha tão conhecida, tão amada. Gina arranhou a base de sua nuca e um gemido baixo saiu dos lábios dele.

A mão de Harry subiu pelas costas e encontrou os cabelos de Gina, tão longos, tão vermelhos, tão brilhantes. Ele nunca contou para ela o fascínio que ele tinha por aqueles fios. Seus dedos se enroscaram nas mexas, puxando-as de leve, para que o pescoço dela ficasse a mostra. Gina adorava quando ele fazia isso.

Em um momento, eram beijos, abraços, suspiros, gemidos, toques, sensações. No outro, eram lágrimas caindo dos rostos de Harry e Gina.

— Você não sabe o quanto eu senti falta disso. – murmurou Harry contra seus lábios.

Gina colocou as mãos no rosto de Harry. Secou as lágrimas e olhou profundamente para os olhos verdes que tanto amava. Ela mordeu os lábios pela intensidade do olhar dele, era como se ele pedisse desculpas pelo tempo que passaram longe.

— Eu tive tanto medo de te perder, Harry! – disse.

Ele não disse nada. Somente a puxou para outro abraço.

— Eu também, Gina! Eu também! – murmurou Harry.

Aquela tarde no hospital poderia sugerir uma possível reconciliação entre os dois. Porém, nunca mais Harry ou Gina comentaram sobre o relacionamento ou o que sentiam um para o outro.

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A promessa feita a Ryan já completava duas semanas e até o momento Harry não conseguira dar grandes passos em seu plano. A notícia do casamento de Gina se espalhou rapidamente pelos Weasley, com a aprovação de todos, menos Hermione, que lançou rápidos olhares para ele no almoço de domingo. Parecia que ela sabia que ele estava arrasado com o futuro enlace.

Gina comentou que a madrinha seria Luna Lovegood e que o casamento seria realizado nos terrenos da propriedade de Peter, na Escócia. Por enquanto, ela estava checando a lista de presentes e o que iria levar para a cerimônia, uma vez que a família do noivo era extremamente tradicional e já providenciariam tudo para que a data fosse inesquecível.

— Você poderia ir comigo a algumas lojas. O que você acha, Harry? – comentou Gina em uma tarde de sábado, enquanto eles lavavam a louça do almoço.

Ele deixou cair o pano de prato no chão pelo susto. Até parece que ele gostaria de escolher o lençol, jogo de louça ou a toalha que Peter iria usar. Ele queria era queimar o convite que estava em cima de sua mesa.

— Acho uma excelente ideia, Gina! – murmurou.

A ruiva terminou de enxaguar os copos e caminhou para a sala. Em poucos minutos, ela voltou com um cartão, que entregou a Harry. Era um endereço de uma escola de dança.

— Obrigado, Gina, mas acho que eu não estou interessado em aprender a dançar nesse momento. Aliás, nunca tive muito jeito para isso. – Harry colocou o cartão em cima da geladeira.

Gina voltou sua atenção para os talheres.

— Na verdade, eu gostaria que você fosse comigo em algumas aulas. Pensei em aprender alguns passos de tango ou valsa para impressionar a família de Peter durante a cerimônia. Quero algo diferente e especial para o meu casamento. Além disso, você é o meu padrinho. – Ela olhou para Harry, que continuava perplexo com o convite.

— Ouvi dizer que tango é a nova moda em casamento. – continuou. — Sei que você não gosta de dançar, mas vai ser divertido! – Ela fechou a torneira para olhar nos olhos do amigo.

Harry pegou novamente o cartão e se sentou na cadeira da pequena cozinha. Poderia até ser uma boa ideia. Quem sabe ele se aproximava mais da ruiva e finalmente ela poderia ver que o casamento talvez não seja uma boa ideia.

— Tudo bem. Eu vou contigo. Quando começam as aulas? – Harry se levantou para enxugar o restante da louça.

— Segunda, perto das 17h. Que tal?

— SEGUNDA? – Harry gritou.

Gina riu profundamente. Ela sabia que o amigo não tinha grandes habilidades em dança, mas pensou que poderia ser engraçado e uma excelente oportunidade para estreitar a relação de ambos.

Ela percebia que Harry estava distante nos últimos dias. Com um olhar perdido, sempre ponderando as coisas, medindo as palavras e até evitando encontrar com ela no corredor do prédio. Parecia que ele estava ressentido com alguma coisa, mas ela não sabia o que era. Esperava que Amanda não tivesse o importunando novamente. Bem que ela sabia que essa ex-namorada de Harry era um inferno na vida de qualquer pessoa.

— Sim, segunda. Mas eles funcionam aos sábados. Se você preferir.

— Não, melhor não. – Harry se apressou a falar.

Gina riu.

— Eu não tenho muito tempo a perder, afinal faltam poucas semanas para a cerimônia, mas vou respeitar a sua decisão. – Ela completou.

— Tudo bem. Mas você tem que prometer uma coisa – Harry caminhou até Gina em poucos passos – Você poderia ir comigo ao baile do Ministério?

— Baile? Desde quando o poderoso e reservado Harry Potter comparece a eventos do Ministério da Magia? – zombou Gina. Ela sabia o quanto Harry detestava essas festas da alta sociedade. Só existiam pessoas interesseiras nas rodas de conversas e ele detestava isso.

— Eu não tenho muita escolha. Fui “convocado”, marrentinha – disse fazendo aspas com as mãos.

Gina começou a considerar o convite. Afinal, não poderia ser de todo ruim comparecer a um evento do Ministério da Magia. E Harry a chamar de “marrentinha” era um bom sinal.

— Haverá bebida de qualidade?

— Pode ter certeza que não faltará firewhisky em nossa mesa – brincou Harry. Ele se aproximou da ruiva e colocou uma mecha de cabelo que insistia em cair no rosto de Gina atrás da orelha. Ela sentiu um arrepio na espinha, algo que não tinha nada a ver com o vento que acabava de percorrer as cortinas da sala.

— Hã... Tudo bem Harry. Eu vou com você! – Gina se afastou dele e começou a guardar a louça seca nos armários. Ela estava desconcertada com o simples gesto. Algo que não acontecia há anos. Ela não notou, mas Harry deu um sorriso de canto.

Algo dizia que as aulas de dança seriam interessantes.

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— Cinco, seis, sete e oito. E um, dois, três e quatro. Pode parar Potter. Você está fazendo errado.

Era a quinta vez que o professor Ian parava a aula por causa de Harry. Ele tinha que admitir que aquele baixinho com cara de poucos amigos era um bom dançarino. Gina estava encantada com os passos, a música e o jeito de dançar dele.

— Eu não levo jeito para isso Gina! – murmurou Harry com cara de poucos amigos. Ela apenas riu.

Ian andou com passos largos pela sala. A aula era composta por mais três casais, sendo dois americanos. A dupla espanhola estava fazendo um workshop de férias e pretendia mostrar seus talentos durante a lua de mel, mas Harry achava que a mulher não estava tão interessada no noivo.

Desde a primeira aula de Harry e Gina, Olívia não tirava os olhos dele. Quando trocavam de casais, era inevitável que ela não desejasse ser o par de Harry. Ele já não sabia mais o que fazer com as mãos que roçavam pelo seu peito ou as frases indecentes que era obrigado a ouvir ao pé do ouvido.

— Você tem que sentir a parceira, entende? Coloca a sua mão na cintura de Gina e relaxe. O homem conduz a mulher na dança, sabe? Por isso, Gina tem que se sentir em suas mãos e a sintonia de vocês tem que ser a mais alta possível, compreende? Vamos lá, Harry Potter!

Harry praguejou baixinho e Gina riu.

— Ele não é tão mau, Harry – disse Gina.

— Diga por você!

Ian voltou para frente do rádio.

— Mais uma vez pessoal! Sem distrações, Potter! Cinco, seis, sete, oito.

A música era suave, então os passos eram lentos. Gina colocou o rosto no ombro de Harry e aproveitou o momento. Ele segurava Gina pela cintura e dava um passo para lado, outro passo para outro. Ao ritmo da música eles dançavam.

Harry abriu os olhos e observou os outros casais. Eles não estavam tão diferentes, mas ele poderia inovar. Afinal, o plano dele não era reconquistar Gina. Ele aproveitou que a música ganhou nuances mais rápidas e rodopiou a parceira de dança. Ela foi pega de surpresa.

— Eu não esperava essa evolução – Gina riu.

— Você ainda não viu nada! Veja isso – Ele se inclinou sobre Gina, que ficou sustentava pelas mãos de Harry em suas costas. O ritmo estava propício para experimentações. Os dois não observaram que os outros casais pararam de dançar para ver a apresentação que ali ocorria.

Harry levantou Gina e voltou para os passos de dança que tinham aprendido naquela semana. De repente a rodou pela pista, puxando para os seus braços. Eles não perceberam que a música tinha acabado.

Palmas encheram o salão.

— Isso sim é dança. Tá vendo como não é difícil, Potter? Pessoal, na próxima semana iremos ver a bossa-nova brasileira, ok? Beijos e não façam nada do que eu faria hoje à noite, se é que vocês me entendem. Tchau crianças. – riu Ian recolhendo os utensílios usados na aula.

Harry riu. Gina aproveitou o momento para sair do abraço e recolher os seus pertences que estavam em um canto da sala.

Olívia aproveitou a distração do marido para puxar assunto com Harry, enquanto este estava guardando seu material antes de ir para casa.

— Você está evoluindo bastante, Harry. Impressionante como em poucas aulas vocês já conseguiram fazer grandes avanços. Esse último passo foi espetacular. – Ela jogou os longos cabelos para trás.

— É? – riu Harry. Ele não sabia como escapar da espanhola. – Pois é. Sabe, acho que a culpa é toda da Gina, porque ela é extremamente boa nessa coisa de dançar.

— Sua namorada é bem dedicada, mas acho que você precisa de uma parceira melhor – Ela olhou para os lados. O marido conversava animadamente com Ian. Ela colocou as mãos, com as unhas perfeitamente pintadas em vermelho, no peitoral de Harry, que estava protegido apenas pela camiseta preta folgada ao corpo.

— Acho que o Harry não precisa de ninguém, Olívia. Na verdade, ele precisa ir para casa agora mesmo! – disse Gina que via a cena com um olhar feroz para a mulher.

Harry sorriu. Pegando o resto das suas coisas e colocando-as de qualquer jeito dentro da mochila, ele saiu das mãos de Olívia e caminhou até Gina. Ela entrelaçou seus dedos nos dele, fato que o deixou perplexo por alguns minutos.

— Vamos? – Gina sorriu.

“Essa aula rendeu até demais”, pensou Harry.

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— Para quê você precisa de uma saladeira de cristal? – disse Harry ao ver o preço exorbitante do item na loja de utensílios domésticos.

Depois da aula de dança, ele e Gina começaram a caçada pelo enxoval. Já era a segunda loja que visitavam, mas a ruiva não gostara de nada, porque, segundo ela, as coisas estavam caras demais para pouca qualidade.

Os produtos variavam entre lençóis até escorredor de pratos. Algumas coisas Gina colocara na lista de presentes, mas ela queria ver os objetos de perto, porque queria que os móveis, eletrodomésticos e os utensílios conversassem entre si. Como ela iria morar na Escócia, os presentes deveriam ser entregues na casa da família de Peter, algo que Harry achara muito complicado no início.

— O que você acha desse vaso, Harry? – perguntou Gina ao ver uma peça de cristal na última prateleira. Por ser mais alto, o auror pegou o objeto para que ela tivesse uma maior visão e avaliação do produto.

— Vai ficar perfeito na mesa de entrada. Já posso até imaginar lírios e rosas enfeitando o hall.

Harry estava incomodado com a cena da academia. Ele sabia que Olívia não valia seu estresse e que ela era comprometida, mas Gina tivera um ataque. Ele nunca havia visto nada parecido nesses últimos anos em que estiveram lado a lado.

— Gina, por que você fez aquilo?

— Já pensou quão excelente isso poderia ficar perto de um porta-retratos? Iria ficar perfeito, mal posso esperar! – Gina continuava tagarelando sobre sua casa nova.

— Gina, podemos conversar?

— E outra, eu posso colocar um belo tapete persa que ligaria o hall até a sala de estar. Só de imaginar os possíveis quadros que Peter fará questão de colocar na casa...

Harry pegou o braço da ruiva

— Gina? Por favor, por que você fez aquilo com a Olívia?

Ela olhara em seus olhos e ele pode perceber que Gina estava escondendo alguma coisa.

— Só não queria que uma mulher compromissada ficasse dando em cima do meu melhor amigo. Além do mais, você é muito froxo Harry! Ela só faltou te comer com os olhos desde que começamos as aulas, ela sempre dá uma desculpa esfarrapada pra estar perto de você, fazer dupla contigo e dá em cima de você na frente do marido. Foi demais

Ela continuou a percorrer os corredores da loja.

— Hey, me ajuda com esses jogos de talheres.

Harry não pode deixar de sorrir quando teve a impressão de que algo estava mudando em sua relação com Gina. Estava mudando para melhor!