O Cara do Apartamento ao Lado

17 A Dor Que Não Podemos Suportar


Notas iniciais
Boa Leitura

Anastásia Steele

—Srta. Steele, por favor, tome um pouco de água, você precisar de acalmar. —Gail diz enquanto segura o copo na minha frente.

—Eu preciso falar com Christian, ele não atende! —Grito andando de um lado para o outro. ‘

Eu não posso acreditar nisso. Tudo está doendo dentro de mim, há um buraco enorme. Eu não consigo acreditar que ele fez isso comigo, ele levou Alice e eu não pude sequer lutar. Vê-la chorando, e pedindo para ficar, nem isso pode convencê-lo a deixá-la aqui, ele não pode fazer isso conosco.

Eu não posso lidar com isso! Alice é o meu bebê, eu dediquei todos os últimos três anos a ela. Eu passei noites em claro, mesmo tendo que ir a aula no outro dia. Eu cuidei de cada febre, cada dor que ela teve. E ele nunca esteve presente. Agora ele arrancou meu bebê de mim!

—Ana... o que houve com a Alice? —Melissa pergunta.

Ela está segurando Arthur, e tentando acalmá-lo, desde que Alice foi levada ele está chorando muito.

—Ele levou ela de mim. —Sussurro e enfim as lágrimas começam a cair. —Ah, meu Deus. Meu bebê. Ele levou meu bebê.

—Srta. Steele, por favor, se acalma. —Taylor pede se aproximando.

—Não, Taylor. Eu preciso da minha filha. —Grito estapeando seu peito.

—Que merda está acontecendo? —Levanto a cabeça e vejo Elliot e Kate entrando.

—Ana, o que foi? —Kate pergunta correndo em minha direção. —O que aconteceu?

—Ele levou Alice... meu pai a levou. —Sussurro sentindo meu coração se quebrar em mil partículas.

Eu não posso suportar isso. Não consigo viver em um mundo onde Alice não esteja ao meu lado. Ela é tudo para mim, eu jamais vou conseguir viver. Por que ele está fazendo isso? Ele nunca gostou de nós, ele sequer a segurou ou acalentou ela quando tinha pesadelos. Ele só se mantinha distante. Foram quase quatro anos, para ele vir e arranca-la de mim, eu não posso lidar com isso. Tudo dói. Tudo.

—Quem levou a Alice? —Elliot pergunta já nervoso.

—Raymond Steele. —Taylor diz encolhendo os ombros.

—Você deixou ele levá-la? —Kate berra.

—Ele tinha uma ordem do juiz, e chegou acompanhado da polícia. —Taylor encolhe os ombros novamente. —Eu não pude fazer muito.

—Onde o Christian está? —Pergunta Elliot.

—Ele foi viajar. —Agora é Gail quem diz. —Eu vou levar as crianças para o quarto.

—Eu vou tentar falar com o Sr. Grey.

Gail sai da sala com as crianças e Taylor vai para seu escritório, caminho até o sofá e me sento enterrando o rosto entre as mãos. As lágrimas estão presentes, e eu acho que não vão parar enquanto Alice não voltar, mas é isso que me assusta, que armas eu vou ter contra ele? Ele é um coronel honrado no exército, ganha bem, e eu sou só uma garota de 18 anos que mal resolveu a vida.

—Eu vou ligar para o meu pai... talvez ele possa ajudar. —Elliot murmura e eu levanto a cabeça para lhe encarar.

—Seu pai me odeia por estar com Christian, Elliot. Ele jamais vai querer me ajudar. —Suspiro e me recosto no sofá. —Eu preciso falar com a minha mãe, mas Clarck me disse que ela está em uma viagem, e Christian deve estar em reunião. Eu não sei o que fazer.

—Ana, calma. Nós vamos trazer Alice de volta. —Kate murmura sentando ao meu lado.

—Kate, Alice não passou um dia sequer longe de mim nos últimos três anos e dez meses, você realmente acha que ela vai estar bem?

—O que nós vamos fazer? —Kate sussurra encarando Elliot.

—Eu vou falar com meu pai de qualquer forma. —Elliot diz indo em direção a sala de estar.

Levanto-me e começo a andar pela casa. Alice saiu daqui tão assustada, ela estava gritando. Como ele conseguiu? Que tipo de pai consegue fazer isso? Ver o filho sofrer e mesmo assim não impedir. Ele nunca fez nada por nós, a última atitude louvável que poderia ter seria não se aproximar mais, mas agora ele está fazendo isso. Ele já não destruiu minha vida o bastante? Como Ray pode tirar Alice de mim? Depois de tudo que eu fiz por ela.

Alguns minutos depois Elliot está à sala, e seu olhar não é nada bom, ele apenas encara Kate e suspira balançando a cabeça. Acho que Carrick não vai ajudar. Quando Christian me apresentou a ele, tudo o que ele fez foi me desprezar, e dizer como eu era errada e que não deveria estar com Christian. Ele sequer me conhece, como pode ter tanta raiva de mim?

Afasto os pensamentos e caminho até o criado-mudo pegando meu celular, disco o número da minha mãe e espero, mas então cai na caixa postal.

—Mamãe... eu preciso de você. —Sussurro enquanto as lágrimas caem. —Por favor, atenda assim que ouvir. Ray esteve aqui, ele levou Alice. Eu estou desesperada. Por favor, mamãe.

Desligo o celular e começo a andar novamente, então ele começa a tocar. Encaro a tela e franzo o cenho ao ver que é Ray. O que ele quer.

—Coloca para gravar. —Kate diz encarando meu celular. Balanço a cabeça e ponho para gravar antes de atender.

—O que você quer? —Sussurro.

—Eu disse o que iria fazer, você não me escutou, Anastásia. —Ray diz e no fundo posso ouvir os gritos de Alice.

—O que você está fazendo com ela? —Grito sentindo a raiva chegar. —Ela é só uma criança!

—Eu estou pouco me importando com isso. Eu dei tudo a você, a ela, você deveria ter ficado aqui.

—E continuar sofrendo? Você acha isso justo? Você nunca esteve presente nas nossas vidas... você a tomou de mim e nem se importou com o que era melhor para ela.

—O melhor para a Alice, é estar comigo. Você se virou bem sozinha, vamos ver o que ela sabe fazer.

—Não, por favor, não faz isso. —Sussurro, mas é em vão, ele desliga.

—Desgraçado. —Kate esbraveja.

Caminho até o sofá e me sento jogando o celular ao meu lado. Ele não pode largá-la sozinha lá. Ela só tem três anos. É só um bebê, ainda morre de medo de trovões. Ele não pode fazer isso.

Assusto-me quando o celular começa a tocar, olho para a tela e meu coração dispara.

—Christian. —Praticamente grito ao atender.

—Oi, meu bem, desculpe a demora eu estava ocupado com...

—Ele a levou. —Digo soltando pequenos soluços e sua voz parece ter sumido.

—Do que você está falando? —Christian pergunta depois de alguns segundos.

—Meu pai veio aqui com a polícia e um assistente social, ele levou Alice. Ela saiu gritando daqui, e ele, ele me ligou para me ameaçar. Ela estava chorando...

—Eu estou indo para casa. —Diz antes de desligar.

➳➳➳➳

Christian Grey

Eu não posso acreditar que aquele desgraçado fez isso! Como ele pode? Como ele conseguiu fazer isso com a própria filha? Maldito! Mil vezes maldito!

—Sr. Grey. —Sawyer murmura se aproximando.

Eu já estou no jatinho, a qualquer momento nós vamos decolar, e a primeira coisa que farei quando chegar é pegar Alice de volta, eu não vou deixar um desgraçado com Raymond destruir a vida de Anastásia e Alice.

—Seu irmão está na linha. —Sawyer diz e eu apenas balanço a cabeça.

Pego o telefone e suspiro ao atender.

—O que foi, Elliot?

—Eu estou com ela aqui. —Elliot murmura. —Eu falei com o nosso pai.

—Que diabos você foi falar com ele?

—Christian, ele é um dos melhores advogados do pais, e quase juiz, se alguém pode ajudar a Anastásia é ele.

—E o que ele disse?

—Ele se recusa a ajudar a Ana, disse que isso é problema dela, e que... —Elliot faz uma pausa e suspira.

—Continue. —Murmuro com ainda mais raiva.

—Ele acha que ela é uma aproveitadora, disse que a Alice vai ser uma preocupação a menos para você, que esse foi o melhor.

—Desgraçado. —Sussurro com ódio. —Eu falo com você despois.

Desligo o telefone e o jogo em uma das poltronas. Esse desgraçado não vai fazer isso com Anastásia, muito menos com Alice. Se ele acha que vai falar assim delas, e eu não farei nada, ele está muito enganado.

➳➳➳➳

Desembarcamos com Seattle e eu vejo Taylor já nos esperando, mas dou ordens a ele que vá a outro lugar, eu quero resolver algo antes. Cerro meus punhos assim que desço do carro na casa dos meus pais, caminho para dentro e ouço sua voz vinda do escritório, então vou diretamente para lá. Empurro a porta e vejo seu olhar surpreso assim como o da minha mãe que está com ele, mas ignoro isso. Ando pisando firme até Carrick e seguro a lapela do seu blazer empurrando-o com a parede.

—Christian. —Mamãe grita assustada.

—Fala. —Grito para Carrick. —Fala na minha cara tudo o que você pensa da Anastásia e da nossa filha.

—Aquela menina não é sua filha. —Carrick murmura tentando em empurrar, mas eu soco sua cara então ele cai.

—Você é um hipócrita, não honra as calças que veste. Eu tenho nojo de você! —Grito e ele me olha assustado. —Você pode me odiar por eu não seguir a merda das suas ordens, mas eu não sou uma criança! Eu nunca fui. Eu conquistei tudo o que tenho sem a merda do seu apoio, e você, você destruiu a minha vida com a Elena, e aquilo nunca mais vai se repetir. A Anastásia é a garota mais incrível do mundo, e eu tenho sorte de tê-la ao meu lado. E se eu souber que você falou mal dela outra vez, eu acabo com você, entendeu?

—Você está colocando aquela garota acima de mim? —Carrick diz ainda mais surpreso.

—Muito acima, Carrick. Milhares de pés acima. Sabe por quê? Porque alguém como você, nunca entenderia como Anastásia é pura e boa. E ela não merece seu ódio. Eu nunca vi ninguém amar como ela ama, ela deixou a vida dela, os sonhos de lado, para cuidar da Alice. Você sabe o que aquela menina significa para a Ana? Você não sabe. Não tem ideia. E ao invés de ajudar, você está aqui, soltando um monte de merdas.

—O que houve com a Alice? —Mamãe pergunta se aproximando.

—O pai da Ana pegou a Alice. —Digo me afastando e percorro minhas mãos pelos cabelos. —Ela está desesperada.

—O que? —Mamãe grita. —Você sabia disso, Carrick?

—Elliot me ligou. —Carrick murmura se levantando.

—É, e você aproveitou para ofender Anastásia e Alice, você me dá nojo, Carrick, mas eu quero que saiba de algo. Tudo o que eu consegui hoje, foi sem a sua ajuda, e eu vou conseguir Alice de volta para Anastásia, sem a sua ajuda, e aí, só aí, você vai ver do que eu sou capaz de fazer pelas pessoas que eu amo. Eu espero que você esqueça de mim.

Caminho para fora do escritório sentindo a raiva sair um pouco. Carrick jamais vai estragar a minha vida novamente. Eu tenho certeza disso.

➳➳➳➳

Anastásia me aperta firmemente enquanto tento consolá-la, eu acabei de chegar, e eu me sinto tão culpado por não estar aqui quando tudo isso aconteceu. Com cuidado afasta-o do meu peito e a encaro. Seus olhos estão vermelhos e seu nariz rosado, ela esteve chorando, e muito.

—Eu consegui uma audiência com um juiz, ainda hoje. —Explico encarando-a. —Às oito.

—Você está falando sério? —Pergunta e vejo um brilho de esperança passar em seus olhos.

—Sim, nós vamos trazer a Alice de volta, eu prometo. Onde estão as crianças?

—Lá em cima... eu não consegui ficar com eles, eu estou tão assustada.

—Tudo bem, vai ficar tudo bem.

—Christian você voltou. —Kate diz entrando na sala com Arthur no braços e Melissa ao seu lado.

—Oi, Kate. —Murmuro me aproximando e beijo Arthur, depois Melissa.

Viro-me para falar com Ana, mas paro quando alguém segura minha mão. Meu peito enrijece e eu me viro novamente vendo que é Melissa, ela está me encarando preocupada.

—Você precisa trazer Alice de volta. —Melissa murmura.

—Eu farei isso, Mel. —Digo abaixando em sua frente. —Ninguém pode chegar e tirar Alice de nós, ninguém. Sua irmãzinha vai voltar.

Melissa me encara por alguns segundos e então balança a cabeça, ela se aproxima meio envergonhada e então me abraça, fazendo todo meu peito queimar por medo e amor. Como alguém pequeno pode me assustador tanto? Envolvo meus braços ao seu redor com cuidado e a sinto estremecer. Eu nunca vou entender como alguém pode fazer tudo o que fez com Melissa, mas eu quero que ela saiba que desde que ela entrou nessa casa, sua vida mudou. Ninguém nunca mais vai machucá-la.

Afasto-a depois de alguém tempo e sorrio para ela, então me levanto e encaro Kate.

—Você pode ficar com eles? —Pergunto e ela balança a cabeça. —Eu consegui uma audiência, nós temos que nos arrumar.

—Tudo bem, eu vou cuidar deles. Elliot teve que sair, mas logo virá aqui.

—Certo, Ana, vamos nos arrumar.

Anastásia balança a cabeça meio emocionada e então nós vamos para o quarto. Nos arrumamos rapidamente, e em nenhum momento ela para de chorar. Eu a entendo. Alice sempre esteve com ela, para onde quer que ela fosse Alice estava junto, e agora simplesmente foi arrancada de seus braços. Ray não deveria ter feito isso. Ele não sabe com quem mexeu.

➳➳➳➳

Anastásia Steele

Bato meu pé nervosamente no chão enquanto espero. Nós estamos no tribunal, e eu não tenho a menor ideia se Raymond virá, o advogado de Christian, disse que ele foi notificado a comparecer hoje, e que ele deve trazer Alice. Eu estou tão angustiada. Principalmente após descobrir que ele não poderia ter pego Alice sem a ordem de um juiz, mas é claro que ele mexeu uns pauzinhos. Ele sempre joga sujo. Ao menos eu sei que, se ele não vier com Alice, ele será tratado como fugitivo, e não terá chances de ter a guarda dela.

Suspiro e encaro Christian, ele está falando ao celular faz algum tempo.

Eu não consigo me acalmar. Eu preciso da minha filha.

Sinto meu coração disparar quando a porta se abre e uma mulher sai de lá se aproximando. Christian desliga o celular e se põe ao meu lado.

—Sr. Grey, Srta. Steele, eu sou Raquel, assistente do Juiz Edward. Ele vai receber vocês, por favor, me acompanhem.

Seguimos a mulher por um corredor amplo, então ela abre uma das portas, não é como uma sala de julgamento, é apenas uma sala normal, com uma mesa ampla e várias cadeiras ao redor. Na cadeira principal há um senhor, e acho que ele é o juiz. Nas cinco cadeiras a sua direita, posso ver Raymond sentado com seus advogados ao lado, e vê-lo faz o ódio crescer, mas eu tenho que me manter calma.

Raquel nos indica as cadeiras ao lado esquerdo do juiz e nós nos sentamos com o advogado de Christian, depois ela caminha até a outra ponta da mesa e se senta.

—Srta. Steele, Sr. Grey. —Cumprimenta o juiz. —Bom, como vocês sabem, essa reunião foi convocada para tentarmos um acordo antes de saber quem é o mais indicado para ter a guarda de Alice Steele. Eu odeio mentiras no tribunal, deixando claro, então, normalmente eu peço a presença das crianças, e vejo como ela reage a cada um. Um assistente social estará ao lado da menina, para auxiliá-la. Depois eu vou deixar cada uma falar a respeito.

Concordamos com o juiz e nesse momento eu percebo o olhar de Ray sobre mim. Eu não entendo. Nós éramos tão próximos, tão unidos, e depois ele simplesmente virou esse monstro. Por que ele está fazendo isso comigo? Tudo bem se ele me odiar, agora querer destruir as coisas para Alice? Como ele consegue?

Afasto todos os pensamentos quando uma das portas se abrem e uma mulher entra trazendo Alice. Ela ainda está com a mesma roupa que saiu, uma camisa rosa e tutu.

Alice percorro os olhos pela sala, ela parece apavorada, então ela encontra Christian primeiro e seu queixinho começa a tremer, e de repente, ela me vê, seu olhar ficar sério e logo ela começa a chorar.

—Mamãe. Mamãe. —Alice grita tentando vir em minha direção, mas a assistente social a segura. —Não. Mamãe.

Meu coração se quebra ao vê-la chamar por mim e não poder ir pegá-la. As lágrimas automaticamente começam a cair enquanto Alice grita e se joga no chão. Isso me surpreende, ela nunca fez isso. A assistente social tenta pegar Alice então ela começa agredi-la deixando-me ainda mais surpresa.

—Está vendo como ela age? —Ray diz me encarando. —Você não é um bom exemplo para ela.

Respiro fundo e prefiro ignorá-lo, então encaro Alice.

—Alice. —Digo firme e ela para de chorar. —Já chega. Ok? Eu quero que você se comporte.

Alice levanta do chão, soluçando ela engole todo o choro e me encara dando pequenos solavancos.

—Vamos pana casa, mamãe. —Alice implora chorando. —Papai...

—Pode soltá-la. —O juiz diz encarando a assistente social que solta Alice.

Meu coração simplesmente explode ao vê-la correr na minha direção e agarrar meu pescoço com seus braços. Ela começa a chorar novamente, mas de forma contida, mas acho que ela não vai me soltar tão cedo.

—Eu tiquei tom muito medo. —Alice murmura e eu vejo o juiz me encarar.

—Tudo bem, filha... que tal você se sentar aqui. —Digo tentando soltá-la, mas ela me aperta ainda mais.

—Nós vamos dar início. —Anuncia o juiz. —Nós vamos fazer algumas perguntas, sobre a criança, primeiro para você Sr. Steele. Eu quero que você responda, sem seus advogados se meterem.

—Sim, senhor. —Ray diz se ajeitando na cadeira.

—Certo. Quando você chegou aqui, o senhor informou a minha assistente que cuida de Alice Steele e Anastásia Steele desde que sua mulher foi embora, certo?

—Sim.

Maldito!

—Certo, Sr. Steele, se você cuida das suas filhas provavelmente sabe muito sobre elas. Eu quero perguntar coisas sobre Anastásia, apenas me responda. —O juiz me encara por alguns segundos e então volta a encarar Ray. —Quantos anos Anastásia tinha quando sua mulher se foi?

—Quatorze.

—Certo. Sr. Steele, em fale sobre Anastásia, como ela é como pessoa? Como ela era na escola?

—Bem, ela não é a melhor filha do mundo. —Ray diz e eu sinto a raiva subir. —Sempre teve notas baixas, não gostava muito de ir à escola. Ela não é uma garota muito obediente, sempre arrumava brigas.

—Entendo. Raquel, por favor, pode chamar a primeira testemunha. —Ordena o juiz e Raquel balança a cabeça.

Ela se levanta e sai da sala, então volto segundos depois com alguém que eu conheço muito bem. É a Srta. Campbell, ela foi minha professora há muitos anos.

—Srta. Campbell. —O juiz diz dando um aceno de cabeça e ela sorri. —Aqui diz que você foi professora da Srta. Steele da primeira série, ao oitavo ano.

—Sim. —Megan diz sorrindo com orgulho e meu coração se aquece.

—Como ela era? Como aluna?

Vejo o olhar de Ray escurecer. Ele ajeita sua gravata e se mexe desconfortavelmente na cadeira.

—Ah, Anastásia sempre foi um amor de menina. Ela oito anos, eu nunca a vi tirar uma nota vermelha. Ela sempre teve os melhores trabalhos, as capas mais bonitas. Ela tinha até mesmo a letra mais bonita da sala. E ela sempre, sempre ajudou seus colegas em sala de aula. Ela ajuda os alunos no reforço desde a quinta série.

—Entendo, só mais uma coisa, Srta. Campbell, Anastásia já deixou de comparecer a aula alguma vez?

—Ah, não... eu acho que no caso, uma vez o outro. Quando sua irmãzinha ficava doente. Mas ela sempre foi a aula normalmente, e nunca deixou de cumprir o papel de aluna.

—Certo, é só, muito obrigada.

Raquel acompanha Megan até a saída e eu vejo Edward olhar para Raymond que está completamente pálido.

—Como eu disse, Sr. Steele, eu odeio mentiras. Há algo mais que queria me dizer sobre Anastásia?

—Ela não é a pessoa indicada a cuidar da minha filha, meritíssimo. —Ray diz com raiva.

—É isso que estamos discutindo. —Diz o juiz. —Agora me diga, por favor, a cor favorita de Alice, a comida favorita, e a roupa que ela mais gosta de usar.

—Bem... —Ray balbucia. —Hã... ela gosta de rosa... gosta de peixe.

—Eca, peixe. —Alice grita e até mesmo o juiz acaba sorrindo.

—Alice não gosta de frutos do mar. —Explico e o juiz balança a cabeça.

—Srta. Steele, eu posso lhe fazer algumas perguntas?

—Claro. —Sussurro encolhendo os ombros.

—Há quanto tempo você cuida de Alice.

—Desde que ela nasceu. —Encolho os ombros e sorrio. —No começo era estranho, eu só tinha quatorze anos, e meu pai, bem, ele simplesmente disse, eu tenho que trabalhar. Então eu comecei a cuidar de Alice.

—Desculpe. —O juiz pede surpreso. —Qual era a idade de Alice?

—Ela tinha cerca de uma semana.

—Srta. Steele, por que ela te chama de mãe?

—Ela não sabe que é esse homem. Alice cresceu achando que eu sou a mãe dela, e por mais que eu tentasse convencê-la de que nós somos irmãs, ela se recusa a aceitar isso.

—Certo, eu quero que você me responda, qual a cor favorita de Alice, qual sua comida favorita e a roupa.

—Tudo bem ela adora tons rosa, e ama vermelho, ela adora brócolis com molho branco, e se pudesse comeria só isso. E ela ama tutus, é o que mais tem em seu guarda-roupa.

—Sr. Steele, eu quero te fazer mais uma pergunta antes de chamar a próxima testemunha.

—Claro.

—Por que a sua filha parece conhecer mais Alice do que você?

—Hã... elas são... irmãs. Irmãs devem se conhecer.

Edward apenas semicerra os olhos então encara Raquel, ela balança a cabeça e sai da sala, então minutos depois, quando a porta se abre, meu coração dispara ao ver mamãe e Clarck entrarem. Ah, meu Deus. Ela veio? Mamãe está aqui.

Mamãe sorri para minha e se aproxima tomando a cadeira ao meu lado, então Clarck senta ao seu lado.

—Detetive Adams. —O juiz cumprimenta. —Detetive Clarck.

—O que essa mulher faz aqui? —Ray grita com ódio e mamãe apenas arqueia a sobrancelha.

—Bem, Sr. Steele, nós estamos discutindo algo do interesse dela, afinal, é sobre as duas filhas dela que estamos falando. Agora abaixe seu tom, antes que eu mande prendê-lo.

Ray olha para mamãe com ainda mais ódio, então se cala.

—Detetive, o que você tem a dizer? —O juiz pergunta.

—Bom, eu não tenho muito a dizer, mas eu tenho algo para lhe entregar. —Mamãe diz estendendo um papel ao juiz que pega.

—O que é isso?

—Eu já explico, mas eu preciso deixar umas coisas claras antes.

—Certo, pode dizer.

Mamãe suspira e me encara, e no seu olhar, posso ver que tem algo errado. Ela sorri e então toma folego.

—Anastásia, tudo bem se você quiser me odiar depois do que eu falar, mas eu não quero que ninguém tome sua filha. —Mamãe diz sorrindo com os olhos marejados. —Quando eu me casei o Sr. Steele eu já estava grávida da Anastásia... ela não é filha dela.

Sinto as lágrimas tomarem meus olhos e encaro minha mãe sem ter certeza do que acabei de ouvir. Ray não é o meu pai?

—Cala a boca! —Ray grita se levantando, mas se senta quando o juiz o encara.

—Ela cresceu, acreditando que era filha dele, ele também acreditou nisso. Meus pais tinham acabado de me expulsar de casa, e eu não sabia o que fazer. Mas quando Anastásia tinha quatorze anos, próximo de eu ganhar o bebê, Ray descobriu a verdade. —As lágrimas escorrem pelo rosto de mamãe enquanto ela diz tudo. —Eu nunca o vi me olhar com tanto ódio. Eu tentei contar a verdade pare ele algumas vezes, mas eu tive tanto medo, e eu estava certa em ter. Raymond me bateu quando descobriu a verdade.

—Ele agrediu você? —O juiz pergunta surpreso.

—Agrediu. —Mamãe diz rindo com escarnio. Clarck segura sua mão e ela sorri. —Ele me bateu tão forte, por tanto tempo, que eu tive um parto precipitado, eu ainda estava de sete meses... então quando eu cheguei ao hospital, o bebê que estava na minha barriga, já havia morrido.

As lágrimas começam a escorrer pelo rosto enquanto ouço tudo o que minha mãe diz. Ray está nervoso, percorrendo as mãos pelos cabelos. Eu não consigo digerir tudo isso. Eu não posso acreditar que Ray não seja meu pai... e que talvez, se eu entendi, Alice não é filha deles.

—Desculpe, Detetive Adams, mas se eu entendi, você acabou de dizer, que aquela criança que está nos braços da sua filha, não é sua e do Sr. Steele.

—Não, Alice nunca foi nossa filha. —Mamãe diz encolhendo os ombros. —Quando Ray descobriu o que ele tinha feito com nosso bebê, a primeira coisa que ele fez foi correr para um orfanato. Ele não conseguiria adotar um bebê, porque na época ele estava se programando para lutar no exército, mas encontrou Alice em um orfanato, e bem, ele me disse que eu deveria fazer isso, por Anastásia. Eu estava desesperada, e eu não pensei, mas eu aceitei adotar Alice. Ela era só um bebê. Então quando eu fiz isso, ele me mandou embora. Eu ainda estava internada quando ele levou Alice e me ameaçou.

—O que ele disse? —O juiz pergunta encarando Raymond que se encolhe.

—Ele disse que se eu não fosse embora, ele contaria tudo a Anastásia, eu fiquei com tanto medo, mas eu não queria ir, então ele disse que a mataria. Eu tinha muito medo dele, pavor, então eu fugi, desesperada, sem poder levar as meninas. Mas eu queria ser forte, eu queria ver minha filha de volta. Nos últimos quatro anos, tudo o que eu fiz foi me tornar forte, para ter coragem de falar tudo isso.

—Essa mulher é louca, é óbvio que ela está mentindo. —Raymond grita se levantando.

—Você pode fazer um teste. —Mamãe sussurra então Ray se senta tentando se conter. —Meritíssimo, no papel que eu te dei, eu passos a guarda de Alice para Anastásia.

—Você não pode fazer isso. —Ray grita novamente.

—Você não pode dizer, o que eu posso, ou não fazer, Ray. —Mamãe diz calmamente. Ela suspira e me encara. —Eu errei muito feio com você, e vou entender se você me odiar, mas eu nunca vou deixar tomarem sua filha de você, não como ele fez comigo.

—Eu vou matar você. —Raymond grita batendo a mão na mesa então o juiz se levanta.

—Eu já ouvi o suficiente! Sr. Steele, o senhor está preso por desacato, por agressão seguida da morte de um bebê, e por tantas outras coisas.

—Ah, eu vou adorar ver isso. —Clarck sussurra quando a polícia entra na sala e algema Raymond.

—Você vai me pagar! —Raymond grita para mamãe.

—Claro, coloca na conta. —Ela sussurra.

—Bem, Srta. Steele, eu não tenho muito o que dizer. —Edward diz chegando os papéis que mamãe o entregou, então me estende. —Aqui está, você é oficialmente mãe de Alice.

Aceito os papéis e encaro Christian, então aperto Alice em meus braços. As lágrimas não param de cair, e por mais que eu me sinta traída por mamãe, eu não consigo odiá-la. Ela passou por tudo, para me proteger. Ela também sofreu, e agora. Ela me deu Alice. Eu... eu não consigo odiá-la. Eu jamais poderia fazer isso.

Levanto-me com Alice nos braços e ela pede para ir com Christian, então encaro minha mãe.

—Eu sinto muito. —Mamãe diz enxugando as lágrimas. —Pode me xingar, e me odiar eu...

—Eu amo você, mamãe. —Digo cortando-a. —Você errou, mas você me deu Alice. Eu acho que estou aliviada por não ser filha dela. Nem por Alice ser... tudo se encaixa agora.

—Ana, eu realmente sinto muito.

—Eu também sinto, mas, Ray não vai mais estragar as coisas.

—Não, não vai. —Mamãe afirma sorrindo.

Encaro-a por alguns segundos e abraço. Eu sei, eu poderia odiá-la, mas... eu tenho uma filha, que quase foi tirada de mim, e graças a minha mãe, isso não aconteceu. E por mais que ela tenha errado, e muito. Eu só consigo ser grata.

—Vai para casa agora. —Mamãe diz segurando meu rosto. —Sua filha precisa descansar.

—Certo... —Sussurro sorrindo e lhe abraço novamente. —Obrigada por tudo, mamãe.

—Eu amo você, Ana.

Sorrio e me afasto, então caminho até o juiz.

—Você é uma boa mãe. —Ele diz me olhando com carinho. —Cuide bem dela.

—Obrigada, e eu vou cuidar.

Encaro Christian segurando Alice e sorrio emocionada. Ele pisca para mim e me estende sua mão. Seguro sua mão e sorrio. Eu não poderia estar mais feliz. Eu tenho Alice, e Ray não é meu pai. Ah, eu me sinto tão aliviada. E agora, eu vou para casa, com a minha filha.