"O Cara" com O maiúsculo
2 Acaso
Notas iniciais
Acaso
―Tem certeza de que esse decote não tá’ muito exagerado? –Perguntou pela terceira vez enquanto fazia várias poses na frente do espelho
―Suponhamos que você não fosse a minha irmã, eu diria que você está gostosa, mas como é minha irmã: tá uma droga. –Eve voltou seus olhos para o caderno, apesar dos pesares era um garoto estudioso e com planos ambiciosos sobre a faculdade.
―Tia Lu, tá linda. –A voz sapeca de Mavis ecoou pelo pequeno quarto.
―A senhorita não devia estar dormindo? – Sua tia lhe encarou com os olhos semi-serrados. ―Com a Miche, na minha cama?
O apartamento tinha dois pequenos quartos, enquanto Lucy e Michelle dividiam um dormindo juntas em uma cama de casal, Eve e Mavis dividiam um beliche no quarto mais minúsculo. Mas naquele dia em questão havia ficado combinado que Mavis e Miche dormiriam juntas já que Michelle tem medo do escuro e Lucy voltaria tarde.
―É que a cama sua, só é boa com a tia Lu. –Retorceu os pezinhos.
Por alguns instantes ela começou a hesitar sobre ir ou não naquela festa, fazia muito tempo que eu não saia e quanto mais olhava para o reflexo que mostrava uma mulher com vestido tubo vermelho e um decote, com os lábios pintados de um tom escuro de vermelho, mais eu repensava.
Mas seu irmão a conhecia bem e apesar de como ela tentava esconder ele sabia de suas inseguranças, como sair para lugares públicos e com tantas pessoas, também sabia do seu trauma com caras devido aos vários “fugitivos” que já teve em sua vida. Além disso tudo sabia que ela tentaria problematizar de todas as formas para não ir naquela festa, mas ele a impediria tomando frente da situação antes que Lucy pudesse pensar em mudar de ideia.
―A Lu vai sair hoje, mas eu vou contar uma história super...―encarou a pequena e então tomou um tom de voz “assustador” ―hirper-mega-blaster ASSUSTADORA!
Eve se levantou ameaçando correr para cima da pequena e assim que ela correu ele foi atrás, provocando alguns risos altos, mas tudo bem porque o vizinho de cima era uma espécie de drogado chapado e a vizinha do lado era surda, além disso Michelle possuía um sono pesado e tranquilo.
―Então essa é a minha deixa. ―Suspirou pegando sua bolsa.
Lucy esperou durante alguns minutos o taxi que viria busca-la, o fato é que taxi era uma enorme regalia para seu orçamento, mas se pegasse um metrô ou ônibus uma hora dessas só chegaria no fim da festa e o que mais queria era chegar cedo para ir embora cedo sem mais constrangimentos.
Durante todo o trajeto pensou em como fazia tempo que não saia para um lugar assim, tentou se lembrar da última vez que sentiu o início de um sentimento amoroso aflorar em si por alguém que não fosse de sua família e então se deu conta que a muito tempo parou de criar expectativas sobre ter o “homem de sua vida”.
―Obrigada. –Disse ao pagar o taxista.
Quando entrou na casa da amiga havia barulho e gente conversando, dançando ou se pegando por toda parte e isso de certa forma a lembrou das festas de ensino médio, só que agora com pessoas mais maduras e menos drogas.
―Uau, você está maravilhosamente diva. –Gritou Erza antes mesmo de descer as escadas atraindo alguns olhares para Lucy.
―O-obrigada. –Respondeu envergonhada. ―Jellal já chegou?
―Já sim –a ruiva deu uma risada sacana que deu a entender um leve duplo sentido― e está lá em cima, de qualquer forma divirta-se, porque eu farei isso no andar de cima.
“Mas e o amigo que ia me apresentar?” Lucy pensou, mas logo desistiu de perguntar quanto notou o jeito bêbado da amiga e também a distância que já havia tomado.
Comeu alguns salgados, bebeu algumas bebidas de leve teor alcóolico ou sem nenhum, não gostava de bebidas ou qualquer coisa que tirasse seu foco e capacidade de tomar decisões.
Olhou para o relógio e viu a marcação de quase onze horas, quase uma hora que estava lá e nada de bom tinha acontecido. O tempo havia esfriado mais do que estava acostumada em Magnólia, um cara bêbado tentou jogar algumas cantadas idiotas em cima de da jovem e além de tudo era casado.
Depois de duas horas dentro daquela casa desistiu completamente da ideia de que encontraria “O Cara” ali, mesmo que fosse Cana quem tivesse apostado a favor disso a loira também tinha uma leve esperança de que isso acontecesse, afinal não saia muitas vezes e quase nunca tinha oportunidades assim. Lucy nunca foi daquelas que acredita que um dia você magicamente irá se esbarrar em alguém e esse alguém vai ser o seu Cara, acreditava em acasos sim, mas não só neles, também acreditava em atitudes e naquela noite ela havia tomado a atitude de sair e realmente tentar alguma coisa, mas do que havia adiantado?
Saiu da casa pensando em ligar para Eve perguntando se estava tudo ok, se estavam sentindo fome ou se Mavis e Michelle já haviam dormido tranquilamente. Assim que saiu da casa começou a descer uma pequena escadaria que dava acesso a porta, mas parou no último ao notar a presença de um homem que pelo menos de longe parecia jovem e um tanto desnorteado.
―O Romeo fez o que? ―Perguntou alto.― Meredy, o que é crush? Mandou emojis pro’ seu crush? ―Perguntava sem entender. ―O que é crush? Não, você não vai estrangular ele, Meredy ele é só uma criança, calma. –O rapaz soltou um suspiro tão profundo que até mesmo a moça que observava de longe conseguiu notar.
Lucy não sabia quantas vezes já havia tido esse tipo de conversa com Eve, ou dado broncas em Mavis pelo comportamento de enfiar o pequeno nariz onde não é chamada, principalmente na vida de Eve e seus “namoricos”. Riu com o pensamento de que alguém já pode ter a observado assim como fazia agora com o rapaz.
―A mamãe está bem? –Escutou o rapaz perguntar enquanto falava ao telefone. ―Certo, vou desligar, não vou demorar muito para chegar.
Quando o rapaz se virou para a entrar novamente não pode ignorar a moça que olhava risonha para ele.
―Alerta: adolescente revoltada. –Ele pronunciou erguendo as mãos em modo de rendição o que fez com que ela jogasse os ombros para trás rindo ainda mais. ―Não é para ir não, é verdade, eles vão dominar o mundo.
Enquanto Lucy ria ele a encarava, os ombros encurvados para trás e a risada um pouco barulhenta a fazia se parecer com uma garotinha alegre, mas o vestido vermelho decotado desconversava tudo isso. Os cabelos, que por conta da escuridão e iluminação mal proporcionada por postes, não tinha certeza se eram loiros ou apenas castanho claro, mas de qualquer forma ela era linda.
―Me desculpe, é que faz um tempo que não dou tanta risada. ―Ela se desculpou descendo o último degrau da escada e agora se mostrando um tanto mais baixa que ele.
―É uma pena, sua risada é muito boa. –O rapaz soltou o pequeno flerte distraidamente de forma natural, de forma que talvez ele não tenha notado, mas a fez ruborizar.
―Mentiroso. –Soltou uma pequena risada dessa vez, mas logo se deu conta de que não se lembrava mais como se fazia esse lance de conhecer alguém novo. ―Me desculpe, te chamar de mentiroso é que bem... ―Tentou se explicar já pensando que tinha feito tudo errado.
―Tudo bem, foi só uma brincadeira. –Respondeu gesticulando de forma que dizia que estava tudo bem.
―Faz muito tempo que eu não converso com alguém novo então eu realmente não faço ideia do que estou fazendo e eu realmente falo muito quando estou nervosa e acabo estragando tudo. –Disse rápido e nervosamente, de repente já não era a jovem descontraída que estava lá e sim uma completamente insegura.
―Bem, eu sou novo por aqui então estou tão carente por contato social que nem vou notar se você falar demais. –A acalmou e realmente era verdade, conhecia apenas Erza e Jellal naquela cidade e Magnólia era totalmente diferente de Crocus, de onde viera. ―Sou Natsu e você é? –Estendeu a mão em forma de cumprimento.
―Lucy. –Sorriu.
Natsu tinha uma estatura mediana, ombros largos e cabelos um tanto rebeldes, a loira o encarava e só então percebeu que deveria ter dito mais alguma coisa para que a conversa continuasse.
―A festa está bem lotada, não é? –Ela comentou, internamente tinha batido a própria mão na testa “isso foi muito idiota” pensou.
―Realmente, quase não escutei meu celular tocar quando Meredy me ligou. –Comentou distraído. ―Meredy é minha irmã. –Justificou antes que fizesse a loira ter ideias.
―Entendo, também tenho um irmão mais novo. –Riu
―Ela e Romeo vivem em pé de guerra, minha vida tá’ de pernas pro ar desde que me mudei pra cá. –Encarou a jovem que o olhava com um olhar de compreensão. ―Romeo é um irmão adotivo...acabo de perceber que eu também falo mais do que devo e acabo estragando tudo. –Comentou rindo sem graça.
―Imagina. –Lucy comentou, sabia muito bem o que era ter a vida de pernas pro ar.― É bom saber que eu não sou a única, se os dois estragam tudo então se anulam e acabamos não estragando nada. –Comentou rindo. ―E eu também sei como é ter a vida de pernas para o ar, tem dias que Mavis, Michelle e Eve me enlouquecem.
―Suas filhas? –Perguntou, mas ao contrário dos outros ao invés de ter o tom de “cruzes, já tem filhos com essa idade? ” ele estava mais para “tudo bem, só quero te conhecer melhor”.
―Não, minhas sobrinhas, mas moram comigo. –Desbloqueou o celular velho e o ergueu a altura dos olhos do rosado, seu papel de parede era a foto de duas garotinhas loiras pequenas e um garoto mais velho, também loiro fazendo careta acima da cabeça das duas. Dava para ver na sua expressão o orgulho que tinha daquela foto, daquelas pessoas que ela tanto amava.
―Gêmeas? –Arqueou as sobrancelhas e viu a loira concordar. –Uau, você deve ser uma tia e tanto para dar conta da bagunça. ―Ele riu e então a viu gargalhar também.
Os minutos foram se passando e então quando se deram conta as pessoas já estavam indo embora da festa, mas a conversa fluía tão bem e aquilo era tão raro ultimamente para ambos que nem ao menos se deram conta do fim da festa até verem Jellal e Erza se despedindo do último convidado dentro da casa.
―Achei que tivessem ido embora. –Erza comentou indo até os dois que estavam na calçada. ―Ainda bem que se encontraram, porque na correria até me esqueci de apresentar vocês dois. ―A cara de interrogação que surgiu instantaneamente na cara de ambos, Natsu e Lucy, era no mínimo cômica. ― De qualquer forma nunca é tarde, Lucy esse é o meu amigo e de Jellal que comentei e Natsu essa é uma grande amiga minha, Lucy.
Talvez se Lucy tivesse pensado em fazer aquela ligação um pouco mais cedo, talvez se Natsu tivesse resolvido atender o celular no banheiro, talvez se ela tivesse simplesmente ignorado a conversa que o viu ter no celular e talvez se ele tivesse simplesmente ignorado o telefonema da irmã, nada disso teria acontecido. Mas aconteceu é a vida funciona assim, de acaso em acaso se montam grandes histórias.
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