O Cara Legal do Nebraska
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A primeira parte minha a tocar o chão dessa cidade foi meu pé direito, devidamente calçado num scarpin preto de salto 15. Só depois é que saí do táxi, com minha bolsa numa mão e os óculos escuros na outra. Fazia bastante tempo que eu não voltava aqui, mas o Blunt's Bar ainda continuava a mesma coisa: uma construção quadrada, de tijolos vermelhos aparentes, com uma placa de neon em cima da entrada anunciando o nome do estabelecimento.
Era tão nostálgico. Entrei, e por dentro tudo também era igual: piso de madeira, bancada gasta pelo uso, assentos altos de metal com o estofamento vermelho liso. Havia um número considerável de pessoas, mesmo ainda sendo duas da tarde, e meu olhar foi direcionado a ele assim que entrei.
Luke também não havia mudado nada.
Me sentei num dos assentos altos perto da bancada e esperei que ele me notasse. Luke me olhou rapidamente e desviou o olhar. Quando ele se voltou novamente para mim, me reconhecendo, sorri. Ele retribuiu, e veio em minha direção.
Deus, fazia tanto tempo...
***
Entrei timidamente no bar: nunca havia estado em nenhum antes. Mas queria provar para Jason Marx, aquele cara idiota, que eu me daria bem em um, se quisesse.
Provavelmente, não conseguiria começando já intimidada.
Entrei de cabeça erguida, mas a sensação de que não deveria estar ali me fez ir para o banco de frente para o bar mais longe da portaque encontrei. Olhei disfarçadamente para trás e vi que Marx, aquele idiota, estava numa das mesas, me observando junto com dois ou três amigos, me avaliando. Ergui mais o queixo e virei para frente, só para dar de cara com o atendente.
Devia ter uns 20 anos. Ele não era exatamente bonito, ele era meio... comum. Apagado, talvez? Seus olhos eram cinzentos, o cabelo castanho e ondulado precisava urgentemente de um corte e sua camiseta azul estava com uma mancha estranha na área da barriga. Mas, ao mesmo tempo, o jeito de olhar dele, seu sorriso meio metido, o modo como ele parecia completamente à vontade ali lhe davam certo charme. E ele me deixou nervosa — estava diretamente de frente para mim, apoiado na bancada, sorrindo como se sentisse meu desconforto.
– Você não é muito nova para vir a um bar, bonequinha?
Bonequinha??? Como?
– Sou mais velha do que pareço. — respondi, meio irritada. — E não sou uma bonequinha.
– Claro, boneca. — ele riu.
– Olha, não sei quem você pensa que é, mas...
– Luke Blunt, prazer. — me interrompeu. — E você, quem é?
– Anh.. Becky Laurrence... — respondi, surpresa pelo modo como ele me interrompeu. — Mas eu estava dizendo que...
– Olha só, Becky. — me interrompeu novamente. — Eu ouvi seu amigo Jason conversando. Eu sei que é uma aposta.
– Ele não é meu amigo! E o que você tem a ver com isso?
– Jason é meu amigo. Disse que o ajudaria a ganhar.
– Ah, é? Como? — revirei os olhos.
Luke sorriu e em seguida disse, bem alto:
– Vamos fazer assim, bonequinha: eu te dou um desconto na dose se você me der um beijo.
Automaticamente senti todos os olhares do bar nas minhas costas. Era isso. Se eu fugisse, Jason ganharia, e eu teria de andar de calcinha e sutiã pelos corredores da escola. Mas não foi aquilo que me fez seguir. Ah, não, foi o olhar de Luke, como se não houvessem dúvidas de que eu daria para trás.
Me inclinei, puxei o surpreso barman pela gola da camisa e selei nossos lábios. Após um segundo de hesitação, ele correspondeu, sua língua entrando na minha boca. Ainda conseguia sentir os olhares do bar nas minhas costas, mas e daí? Aquilo não importava agora.
Quando nos separamos, me sentia completamente zonza, mas disfarcei. Plantei um sorriso no rosto e disse, também alto:
– Depois dessa, não preciso de nenhuma dose.
Me levantei e fui em direção a porta, de queixo erguido. Toma essa, Jason.
Antes de sair, dei uma olhadinha para trás. Luke sorria.
***
Meu celular tocava 'Back in Black' no último volume, e eu praticamente voei da cama para pegá-lo, em cima da escrivaninha. Carter, meu amigo gay, tinha um encontro hoje, e prometeu me contar tudo assim que voltasse. Foi por isso que cometi o erro de atender sem olhar a identificadora de chamadas.
– Oi, Carter!!!!
Após um segundo de silêncio, a voz do outro lado da linha respondeu:
– Quem é Carter?
Eu conhecia aquela voz...
– Arthur? — meu amigo irritante e galinha não conhecia Carter.
– Não. Quantos namorados você tem? — estava prestes a mandar quem quer que fosse cuidar de sua vida quando completou: — Deixa pra lá. Aqui é o Luke.
Arfei, surpresa.
– Luke Blunt?
– O próprio. A não ser que você conheça mais algum.
– Ah, conheço. Um dos meus vários namorados. — não era verdade, mas eu queria dar o troco. Ele apenas riu.
– Nesse caso, é o Luke Blunt que te beijou na bancada do Blunt's Bar.
– Como conseguiu meu número? E, a propósito, fui eu que te beijei.
– Jason me passou. E, a propósito, adorei o beijo. Vamos repetir?
– Idiota. — resmunguei, e desliguei, mas ainda consegui ouvir:
– Cuidado, bonequinha. Assim eu me apaixono.
***
Eu acabei aceitando sair com o Luke. Em minha defesa, tenho a dizer que o cara sabia ser insistente. E, também, eu queria saber se ele beijava melhor quando estava preparado para isso.
E beijava. Descobri isso enquanto víamos Transformers no cinema. E enquanto andávamos na roda gigante. E quando estávamos na casa dos espelhos.
Conversamos, também, claro. Ele me contou que o bar era do pai dele, que sonhava em ser cantor numa banda e adorava cachorros. Eu contei a ele que queria ser escritora, odiava azeitonas e tinha medo de zumbis, mesmo que eles não existissem.
Luke ganhou um urso panda no tiro ao alvo, mas pediu para trocar, e acabei ganhando uma boneca de pano enorme.
– É para você nunca se esquecer que é minha bonequinha, Becky.
E eu me apaixonei.
***
– Becky, eu tenho um presente de aniversário para você.
Ergui os olhos do fliperama, sorrindo suavemente para Luke.
– E se eu não quiser?
– Você vai querer. — sussurrou, vindo por trás de mim e beijando meu pescoço exposto.
– Argh, Luke! — reclamei. — Assim você vai me fazer perder!
– Então eu te desconcentro?
– Não foi isso que eu disse. — revidei, desistindo do jogo e me virando para ele, só para ficar presa entre o fliperama e o corpo de Luke.
– Mas foi o que pensou.
– E desde quando você sabe ler minha mente?
Luke sorriu, de uma maneira tão doce que derreteu meu coração.
– Eu nunca soube. Mas é tentar adivinhar o que se passa aí dentro se tornou a coisa mais importante para mim.
***
– O que é? — perguntei, rindo. — Já posso olhar?
– Não! — Luke riu, sem tirar as mãos dos meus olhos. — Daqui a pouco... Pronto, pode olhar!
Abri os olhos, curiosa, e vi que estávamos na sala de jantar da casa de Luke — a qual ele havia transformado num salão de restaurante 5 estrelas, com uma toalha vermelha de seda em cima da mesa, um candelabro com três velas queimando e que forneciam boa parte da luz do ambiente, uma mesa posta à altura de uma rainha e rosas — várias rosas vermelhas por todo o lugar.
– Feliz aniversário, Becky.
– Luke... você... — murmurei, sem ar.
– Se vai perguntar se fiz tudo sozinho, não, não fiz. Minha irmã ajudou. Mas o que vale é a intenção, não é?
Apenas sorri e o beijei. Luke não podia ser mais perfeito.
Depois de comermos, fomos para a sala, porque ele queria me mostrar algo. Mas não havia nada diferente ali.
– E... o que você quer me mostrar? — perguntei, olhando ao redor.
– Seu outro presente de aniversário.
– Tem mais? — ri.
Em resposta, Luke se ajoelhou a minha frente e tirou uma caixinha de veludo do bolso.
– Becky Laurrence, quer namorar comigo?
Sim, eu chorei. Aquele cara bobo, metidinho e meio sádico queria namorar comigo?
– CLARO, LUKE!
E nós acabamos nos beijando no sofá. E...
***
Nós dois chorávamos, enroscados no sofá da casa dele, do mesmo jeito que havíamos encerrado a noite do meu aniversário de 17 anos, 8 meses atrás. Algo estava se encerrando novamente. Meu pai havia conseguido um emprego melhor, e teria que se mudar. Aquilo significava dar adeus ao Nebraska. E ao Luke.
– Não é justo...- funguei na camisa dele.
– A vida não costuma ser justa, bonequinha. — ele respondeu, me apertando mais forte.
– Não quero te deixar.
– Também não, amor. Mas o que podemos fazer? Não posso te sequestrar, embora eu queira. Não podemos fugir.
– É tão injusto! — repeti.
– Você vai se esquecer de mim rápido, Becky, não se preocupe. — ele sussurrou. — New York é enorme, você vai conhecer um monte de gente, e vai esquecer desse cara chato do Nebraska.
Encarei-o, séria.
– Nunca mais repita isso, Luke.
– Becky...
– Eu te amo, seu idiota! — explodi, chorando. — Eu vou passar meses chorando no travesseiro, lembrando do seu sorriso, do seu jeito de me irritar, do seu jeito de me chamar de bonequinha! Mas isso não importa, sabe por que, Luke? Porque, no fim, eu juro, você vai ser meu.
Luke me encarou, surpreso, e então sorriu, daquele jeito doce que derretia meu coração.
– Vou confiar em você, bonequinha. E eu também te amo.
***
Eu fui para New York. Eu cresci, me formei, escrevi um ou dois best sellers e me tornei quem eu sempre sonhei. Mas me faltava quem eu sempre quis.
Então, cá estou eu, de volta ao Nebraska, por causa daquele cara legal que me chamava de Bonequinha quando eu era adolescente. E sei que fiz a escolha certa ao voltar, quando ele sorri para mim do mesmo jeito doce de seis anos atrás.
– Me vê uma dose, barman. — sorri, quando ele parou diante de mim e se inclinou para frente.
– Que tal o seguinte: eu te dou um desconto se você me der um beijo.
Exatamente igual a tantos anos atrás, me inclinei e selei nossos lábios, e dessa vez, quando ele retribuiu o beijo, foi sem hesitação.
Dessa vez, meu cara legal do Nebraska não me escapa.
Fale com o autor