O Caos dos calados
7 Um passarinho verde
Notas iniciais
Terça-feira... Clarice perdia a virgindade numa cama de solteiro. Acalme-se! Não é o que você está pensando! A virgindade nem sempre significa o rompimento de um hímen e eu costumo acreditar que existem duas virgindades: a física e a psicológica. Clarice perdeu sua virgindade psicológica quando se deu prazer pensando em Álvaro. Meu querido leitor, não se assuste! Não sei o que leva os humanos a encararem esse ato como um tabu! Ninguém é de ferro, nem mesmo Clarice.
Acordou meia hora antes do esperado e (como dizem), mente vazia, oficina do diabo. Até hoje me pergunto se foi diabo ou Deus que criou algo desse tipo, a imagem de tal ato é tão negativa que vocês humanos têm para si como algo demoníaco. Não é!
Álvaro não se atreveu a fazer algo desse tipo, pelo contrário! Dormiu tão bem devido a novas descobertas que não teve tempo de acordar e pensar nisso.
Clarice levantou-se da cama e ficou parada em frente ao espelho.
– Sou bonita — disse para si.
Dirigiu-se ao banheiro. Fazia um dia que estava apaixonada e, em comemoração, decidiu tomar um banho caprichado. Voltou ao seu quarto e fez um belo penteado. Passou o perfume o qual usava apenas para ocasiões especiais. Colocou sua calça de sempre. Seu tênis. Passou um batom vermelho que destacou seus belos lábios. Um batom vermelho! Primeira sensualidade de Clarice. Naquele momento, pela primeira vez e mais do que nunca, Clarice sentia-se realmente bonita e sensual. Pegou sua mochila e tentou evitar falar com seus pais, queria sair de casa sem tomar café. Queria evitar fadiga.
– Você não vai tomar café? — sua mãe perguntou quando ela estava próxima da porta.
– Não estou com fome, mãe — respondeu.
– Desde ontem você não come nada! — a mulher rebateu.
Sem pestanejar, seu pai pegou dinheiro e entregou.
– Coma alguma coisa pela escola.
Clarice entrou no ônibus e mal podia esperar para ver Karina e saber a reação de sua amiga.
Karina entrou no ônibus e deu um grito.
– MENTIRA!
Clarice deu uma gargalhada em alto e bom som.
– Você é mesmo minha amiga?
– Sou sua amiga — respondeu.
– E por que está desse jeito?
Álvaro não andaria na escola naquele dia, mas o desejo de Clarice era de mostrar que estava feliz e nada melhor que se arrumar um pouco melhor, pelo menos uma vez.
– Por nada, apenas acordei disposta.
– Amiga, acorde assim mais vezes, sério!
Karina sabia que havia alguma coisa, mas descobriria depois. Conversavam amenidades até que chegaram à parada da escola.
Entraram na sala e Diogo já foi logo comentando.
– Clarice! Você tá linda!
– Acho que ela viu um passarinho verde — completou Karina.
– E qual o nome desse passarinho?
Clarice revirou os olhos.
– Vocês são muito bestas! Qual o problema de eu decidir me arrumar um dia? Amanhã eu venho como todos os dias! Hoje foi apenas porque acordei mais cedo.
Karina e Diogo entreolharam-se e deixaram passar.
Álvaro estava no carro e colocou a música Carinhoso, cantada por Caetano Veloso.
"Vem matar essa paixão,
Que me devora o coração,
E só assim então,
Serei feliz,
Bem feliz."
Lembrou de Clarice e deu um longo suspiro. Não falaria com ela naquele dia. Não mandaria mensagens. A menina deveria ter coisas mais importantes a fazer.
Existe uma lenda japonesa que, traduzindo para o português, chama-se fio vermelho do destino. A lenda diz que um fio vermelho invisível liga duas pessoas que estão predestinadas a se conhecer e serem almas gêmeas. O fio pode esticar o quanto for necessário, mas jamais irá romper. Não direi nada, meu querido leitor, mas... Será coincidência Álvaro já ter sido casado e ter se divorciado? Será coincidência ambos apaixonarem-se ao mesmo tempo? Tire suas próprias conclusões.
Fale com o autor