O Caos Que Me Leva a Você
1 Somos feitos de pó de estrelas, e ao pó voltaremos
Notas iniciais
Estou sozinho nesse lugar triste. Olho para cima, vejo o céu cor de cinza coberto por enormes nuvens em tons escuros que se chocam uma na outra fazendo ecoar um estrondo que invade minha alma. O sonido do trovão bate em meu peito como um soco tão forte que sinto a dor amargar minha boca.
Um gosto amargo.
Uma vida amarga sem você.
Olho novamente para onde você está mas não mantenho o contato por muito tempo. Sou incapaz de encarar você, imagino sua pele tão fria quanto a garoa que anuncia as primeiras gotas de chuva, e isso eu não posso suportar. Não posso deixar que seu rosto tão vívido em minha memória se torne essa imagem anêmica, de pele pálida e lábios ressequidos. Os lábios que eu jamais beijarei outra vez. Afasto essa visão de minha mente. Deus! Nunca mais posso ter tal pensamento, me perdoe por visualizá-la tão apática. Não é essa a recordação que terei. Lembrarei de ti em seus dias mais graciosos, do seu cheiro, de sua risada. Eu era muito bom em te fazer sorrir, você se lembra? Eu mesmo não me lembro de muita coisa, mas do pouco que lembro, você sempre está lá.
Fecho meus olhos para recordar a lembrança mais antiga, aquele exato momento que nos leva ao lugar mais longe do que estamos agora, me dando a impressão que desde então, até chegar aqui, teremos muito tempo ao lado um do outro. É uma ilusão, eu sei, mas deixe-me aproveitar esse momento antes de descobrir se conseguirei seguir sem você.
Estamos no Lab, há apenas você e eu na sala de descanso. Não sei há quanto tempo estamos aqui, perdi a noção das horas a olhando secretamente. Você está concentrada em resolver as palavras cruzadas. Se eu não soubesse como adquiriu esse hábito, diria que é genético. Ouvi sua conversa com Nick outro dia, você disse se sentir muito sozinha nas últimas semanas, e que precisa de um pouco de diversão até tudo voltar ao normal. Nick faz uma gracinha e você diz que o seu normal é maravilhoso. Não faço ideia do que você está falando mas de uma coisa eu sei, eu nunca a deixaria se sentir só. Ah, se você soubesse como eu posso fazê-la feliz. O quanto eu quero fazê-la feliz. Mas há outra coisa que infelizmente eu também sei: você nunca saberá se eu não disser, mas não tenho coragem de fazê-lo. Sou um covarde ou apenas um menino brincando de gente grande, como você diz.
Você ajeita uma mecha de cabelo atrás da orelha, fecha os olhos e suspira profundamente. Eu daria qualquer coisa para saber o que está pensando agora. Seria pretensão minha achar que talvez estivesse pensando em mim? Não, isso não aconteceria. Você não teria interesse em um cara como eu. Só de ter essa vaga ideia estou trêmulo. Talvez eu seja mesmo um covarde, no final das contas. Apoio a cabeça em minhas mãos sentindo o peso dos pensamentos que me perturbam. Arrisco olhar uma última vez para você antes de me sentir, quem sabe, o homem mais sortudo do mundo ou o homem com um coração partido. Tudo depende se você dirá sim. Seus olhos permanecem fechados e baixinho você canta uma música antiga. Conheço um lugar que toca músicas como essa, poderíamos dançar a noite toda ao embalo desse ritmo, você gostaria de lá. Tenho certeza que se sentirá surpresa por eu conhecer um lugar como esse, que parece tão aquém do tempo para alguém como eu. Irei convidá-la. Inspiro fundo. Chamo seu nome. Não posso voltar atrás.
Você me fita por segundos que me deixam ansioso por sua resposta. “Agora?” pergunta. Sim, agora. Não me olhe desse jeito, não é loucura como parece. Para nós dois eu tenho planos que soariam indecentes se eu dissesse em voz alta. Vamos sair daqui agora, alugar uma Limousine, nos casamos numa capela e brindamos com champagne. Vamos fazer um filho e uma tatuagem com nossos nomes.
Não me lembro de já ter estado mais feliz em toda a minha vida. Você disse sim. E porque disse sim agora te vejo banhada por luzes azuis em meio a fumaça que sai da pista de dança. Você está sorrindo, parece tão feliz quanto eu. As luzes fortes deixam sua imagem um pouco desfocada, mas você está tão linda dançando e sorrindo e estendendo os braços para que eu segure suas mãos, que eu não me importo. As luzes azuis refletem em seu cabelo, contornam o seu corpo, brilham em seus olhos.
O odor de whisky e cigarro invadem meus sentidos. Não estamos sóbrios como quando chegamos aqui. Estamos leves, soltos, inconsequentes. A onda bate nos empurrando como se fossemos qualquer coisa muito pequena. Como grãos de areia que vão e vem com o balanço do mar, sem rumo, sem destino, apenas parte da imensidão azul tão linda que me deixa sem fôlego. Ou talvez, assumindo minha personalidade nerd, nesse exato momento somos poeira de estrelas viajando pelo espaço, uma pequena parte de algo grandioso. Tudo ao nosso redor passa por nós em câmera lenta, estamos flutuando. Você levita tão nitidamente diante dos meus olhos que vejo seu cabelo pairando no ar num emaranhado que clama o toque dos meus dedos. Aperto sua mão ainda mais forte para que não vá para longe de mim. Flutuamos juntos para além das luzes azuis, mais longe do que a fumaça pode alcançar, num lugar agradável aonde ainda é possível escutarmos os acordes da antiga balada soar em nossos ouvidos. Você olha para trás, para mim, e sorri. Sua mão lentamente desliza na superfície da minha, nosso toque vai se desfazendo e eu sei que no momento em que nossas peles se afastarem você me deixará, flutuando para além de onde eu consiga ver. Mas eu não deixo que isso aconteça. Nunca a deixarei partir. Fecho os olhos e desejo que estejamos juntos novamente sobre as luzes, sobre a cidade, sobre o céu escuro, viajando no espaço entre constelações e poeiras de estrelas, entre tudo o que somos feitos.
Toco seu rosto e fito seus olhos tão escuros como a noite sobre nossas cabeças. Me sinto atraído pelo seu olhar insano que me chama, me provoca, me excita. Eu quero beijá-la. Você se aproxima, sinto sua respiração esquentar minha pele, te puxo para mim. Você sorri com uma maldade nos lábios, morde meu queixo, é aqui que meu coração falha duas batidas e eu preciso te falar tudo o que sinto antes de ser sufocado por aquilo que nunca confessara antes. Abro os lábios ensaiando as primeiras palavras, nossos rostos cada vez mais perto, a música ao fundo, você sorrindo dissimulada.
“Sara”.
“Não fale de amor, Greg. Vamos aproveitar esse momento, não quero que acabe.”
Não fale de amor, Greg, você diz numa ordem e isso me deixa chocado. Se soubesse tudo o que me vai por dentro não teria o descaramento de me deixar tão perto de sentir seu encanto, mas sem nunca poder chegar lá. Você para de dançar e de repente não escuto mais a música, não vejo mais as luzes, não sinto o cheiro de cigarro. Só vejo você. Só escuto sua respiração. Só sinto seus lábios nos meus.
Você me puxa pela mão. Estamos correndo sôfregos, sedentos, você não disse para onde estamos indo mas eu sei, posso sentir. Entramos no táxi estacionado na saída, parece que estava esperando por nós.
Eu enrosco minhas mãos em seu cabelo, te puxo para mim mais uma vez. Em meus olhos uma pergunta muda, não quero assustá-la. Você sorri. Sigo em frente. Estamos apaixonados, não há como voltar atrás. A vida é melhor a partir de agora. Eu sou mais feliz. Sou mais forte. Estou mais confiante.
Você é a minha garota.
Subitamente estamos flutuando novamente, depois de um barulho tão alto que faz meus ouvidos doerem e minha cabeça latejar. Vejo cacos de vidros passando por mim com um brilho cortante que fere minha pele. Procuro por você onde acho tê-la visto pela última vez, mas você não está lá. Minha visão é turva, aperto os olhos para me acostumar. Ouço buzinas, pessoas gritando e sirenes em minha direção, mas não escuto você. Olho para o outro lado e a vejo, seu rosto está virado para mim. Seus olhos lentamente se abrem, acho que sou a primeira coisa que você vê, pois sorri, e eu sou muito bom em te fazer sorrir.
“Ainda está aí?” você me pergunta num fio de voz. “Eu sempre estarei aqui, Sara”. Respondo honestamente, estou fraco demais para dizer qualquer coisa que não venha da minha alma.
“Estou com medo”.
“Não se preocupe, aperte a minha mão”.
A luz vai sumindo em meio a escuridão manchada pelo vermelho das sirenes que parecem nunca nos alcançarem. Me sinto cansado, meus olhos se fecham, meu corpo descansa.
Desse momento, salto para cá, onde estamos agora. Eu queria ter vindo antes, queria me despedir decentemente, vê-la uma última vez, mas não pude, estive no hospital durante muito tempo. Tanto tempo que eu nem sei dizer. Tanto tempo que a grama já cresceu em volta do seu túmulo, que não há nenhuma flor para você além dessas que carrego comigo e tímido deixo em sua lápide. Eu deveria ter te dado flores antes, enquanto tínhamos tempo. Enquanto eu tinha você.
Mais uma vez ouço os trovões, dessa vez bem mais alto, mais assustador. A chuva cai molhando meu terno escuro, molhando as flores, a grama, molhando você. De repente eu percebo que esse barulho, de chuva e trovão, é a marcha fúnebre que não pude presenciar. Sinto um calafrio com tal pensamento, ou será que é a sua voz me chamando que me faz ter arrepios? Afloro meus sentidos para escutá-la melhor, para senti-la uma última vez em minha letargia.
“Greg!”, a escuto me chamar mais alto, abro os olhos. Estou de volta ao Lab. Minha cabeça girando, meus olhos ardem com a claridade.
“Você ainda está aqui?”
“Sempre estarei aqui, Sara.”, digo mais uma vez nassa noite maluca. Você sorri. Sou bom em te fazer sorrir.
“Acho melhor ir para casa, você parece cansado!”.
É impressão minha ou você parece mais feliz? Não estaria alegre assim se tivesse o mesmo pesadelo que eu. Mas de qualquer forma, me sinto aliviado por vê-la respirando bem diante dos meus olhos.
“Você quer sair comigo, Sara?”, pergunto antes que seja tarde demais.
“Tarde demais, Greg. Já tenho uma companhia para aproveitar a noite”.
Você pisca em minha direção e deixa a sala. Eu tenho vontade de morrer. Quero gritar para que me espere, pedir que me leve com você, mas não tenho coragem. Me recolho em meu amor platônico, mas uma certeza martela em minha mente: eu sempre estarei aqui, Sara. Um dia, espero que em breve, serei a sua companhia numa noite como essa.
“Siga o conselho dela, garoto. Vá para casa.”, ouço a voz de Grissom surgir atrás de mim. Desde quando ele chegou de viagem e se esgueirou atrás da minha cadeira como um fantasma me espreitando, eu não sei, mas seu tom me assusta e seu olhar me desencoraja. Mais uma vez sinto meu coração falhar algumas batidas. Engulo seco.
Tomando a mesma direção de Sara, vejo Grissom deixar a sala de descanso. Sinto uma sensação estranha, minhas pernas formigam. Minha cabeça ainda gira. Olho para cima tentando reordenar os pensamentos mas me sinto pior, a luz espoca em meus olhos como flashes no escuro. Ouço algumas vozes me chamando, tento me agarrar a alguma voz conhecida mas é tudo tão mutável que não posso confiar na clareza de meus sentidos. Estou caindo e sinto como se nunca fosse aterrizar.
“Greg!”
A sua voz me tira do precipício que estou despencando, me conforta, me alivia. Você inda segura minha mão. Entre nós uma poça vermelha deve deixar o retrato desse momento com um pouco mais de vida, mesmo que seja indo embora de nós.
“Você ainda está aqui?”. Quantas vezes terei que repetir até que acredite em mim?
“Eu sempre estarei aqui, Sara, porque eu te amo.” Digo e a vejo sorrir. Eu sou bom em te fazer sorrir.
“Ninguém diz eu te amo como você."
Um silêncio mórbido se instala entre nós. Não escuto sirenes, buzinas, nada. Guardo comigo apenas o som de suas últimas palavras antes de fechar os olhos novamente.
Para sempre dessa vez.
Fale com o autor