O Canto dos Cristais
1 As duas faces da luz.
Notas iniciais
O Canto dos Cristais
Lumen era pouco mais que um adolescente, intermediário entre Translúcido e Transparente, quando encontrou aqueles cristais coloridos que seriam – não apenas sua mais profunda benção – sua eterna maldição. No começo, tudo que ele pode pensar era em como eles eram lindos. Lindos como poucas coisas na vida. Lindos como coisas feitas pela Deusa, mesmo que ela fosse cada vez menos citada por aqueles lados. Os cristalinos não se interessavam pelos vivos. Naquele tempo ele ainda não compreendia, mas eles estavam muito fascinados pela aura insana que a Imperatriz emanava para se concentrar em qualquer outra coisa.
Para a Imperatriz, não existiam vivos. Existiam seres – seus estranhos e inumanos seres.
Mas, mesmo assim, encostado nos dois Ópalos que eram as coisas mais belas que suas mãos já haviam tocado, ele soube, bem no seu íntimo, simplesmente soube, que Lux amaria os ter nas mãos. Mesmo que eles fossem tudo que ele detestava – coloridos, opacos. Mas eram belos. E eles refletiam a luz que emanava daqueles cristais intermediários, da mesma forma que seu determinado irmão.
Tudo que Lux queria era ser digno da Imperatriz. Tudo que Lumen queria era que ele fosse feliz.
Mas, nos anos que se seguiriam, ele chegaria a agradecer por seu Ópalo ser gêmeo do de Lux. Lux, aquele que tanto amava a louca Imperatriz, nunca poderia chegar perto dela. Não enquanto aquele Ópalo o reconhecesse como dono – o que nunca deixaria de o ser até que Lumen se livrasse do seu próprio.
E ele nunca faria isso – nunca. Porque, embora ele se consolasse suavemente com a ideia de que alguém teria de proteger a doce Esme, ele sabia que a verdade era que Lumen daria tudo – até mesmo sua própria liberdade, o convívio com seu povo – para manter Lux afastado daquela mulher maluca e etérea. E ele o faria. Silenciosamente, sem reclamar, sem sequer piscar.
Porque ele ainda se lembrava de quando Lux era mais do que cristais amontoados ou vestes brancas. De quando ele era mais que pele translúcida e mãos frias como cadáveres. Lumen ainda se lembrava – e guardava essa memória com tanto cuidado que nem a própria Deusa poderia arrancar dele – de quando os lábios deles eram quentes contra a sua própria boca gelada. De quando o braço dele se roçava ao seu e não dava para se ver veias azuladas por baixo. De quando sua pele – pele contra pele – era mais parecida com a de um ser humano. Mais parecido com o que Lux sempre fora. Com o que Lux não era mais. Com o que Lux não seria nunca mais.
Mas Lumen se confortava sabendo que, daquele estágio, o outro não passaria. Nunca seria um opaco, é fato, e ele próprio também não, mas também nunca seria um etéreo. Estaria o mais longe possível da influência maldita da Imperatriz, e, portanto, mais próximo da segurança. Mais próximo do calor.
Mais próximo de Lumen.
Fale com o autor