O Canto do Sabiá
2 Capítulo II

As duas semanas seguintes são tensas para o Sudeste. Sul e Nordeste já estão cansados de lutar e ficando sem condições para fazê-lo. Tiveram uma semana de trégua nos lugares onde mantinham conflitos, pequenas cidades na divisa dos estados de São Paulo e Minas, porém o rápido armistício acabou há uma semana e os rivais continuam em silêncio. Os rebeldes paulistas estão divididos ao leste e oeste de seu estado, com a dispersão dos conterrâneos, a movimentação é comprometida.
Apesar de possuir uma linha de comunicação segura, um estado de emergência é acionado nos aliados do Sudeste e a conversa é cessada entre eles. Os paulistas a oeste estão dependentes de ajuda carioca, que extrai todos os seus recursos do quase intocado estado do Espírito Santo. O transporte intra-estadual passa a demorar quatro horas extras, por questão de preocupações. O silêncio é ensurdecedor.
— Olhe de novo. – Coronel Oliveira revira os olhos, tentando manter a calma. Na verdade, está explodindo de estresse. Aquela falta de movimentação está a deixando louca.
Seu quartel, junto com o centro de treinamento, fica a extremo oeste do estado, onde podem receber proteção extra do Rio de Janeiro e Minas Gerais, porém com atraso na entrega de suprimentos químicos e peças mecânicas. O laboratório é a única área realmente prejudicada com a trégua, e a única que interessa à Coronel.
Drones camuflados – presente do Tio Sam – sobrevoam o país a procura de qualquer movimento. No início, procuravam qualquer movimento estranho, agora qualquer movimento seria o suficiente. Não há um único soldado ao ar livre, foram todos enviados de volta para seus abrigos.
A mulher anda em círculos na sala de controle, o cérebro trabalhando em sua última potência. Estaria algum dos lados planejando rendição? Destruição total do rival? Teriam descoberto um rival em comum? Desabotoa a farda e solta a gravata, começa a suar frio.
— Olhe a nossa superfície outra vez. – Ela ordena, porém sua voz já não passa tamanha autoridade.
Se Sul e Nordeste unirem forças, talvez, apenas talvez, podem enfrentar os aliados do Sudeste. Por isso o plano desde o início foi esperar eles se enfraquecerem. Se isso acontecer, a Coronel poderia ter uma chance em milhares de enfrentá-los e sair vencedora. Somente se tivesse certeza que estava sob ataque.
— Está tudo limpo, senhora. – Uma Cabo afirma com segurança, porém causando apenas mais angústia em sua superior.
— Nós temos acesso a cada centímetro dessa merda de país. – Oliveira sussurra, secando o suor da nuca. – Eles estão aqui. Nós vamos achá-los. – Endireita a postura e arruma o uniforme. – É a sua única missão.
Sem esperar continência ou formalidade alguma, ela sai às pressas, em direção ao laboratório.
— Pai? – Maria entra sem bater, mas ainda sim pede permissão ir até o homem. Ele faz um gesto com a mão, chamando-a. Ela se senta a frente dele e respira fundo antes de falar. – O povo tá falando.
— Oxi. – Ele passa a mão pela cabeça calva, irritado. – O povo sempre fala.
— Deixe de ser orgulhoso, homi. – Ela cruza os braços e solta o corpo na cadeira. – Todo mundo sabe que é agora. Aí tu vai e se esconde. – Maria se cala e espera a resposta do pai. – Tu não lembra não? Todo aquele seu discurso sobre a nossa terra, todos os homens que tu liderou até o inferno e trouxe de volta?
— Pare me enrolar menina.
— Não vai doer ir lá fora e dar uma satisfação.
— E tu quer que eu fale o que?
— Que nós temos uma chance, painho. – Maria se levanta exasperada e vai até o homem, sentando em seu colo com um ar infantil. – Eles tiveram tantas baixas quanto nós, mas a gente pode chamar os reforços do Amapá, do Pará, até da Amazônia. Confia no teu povo como o teu povo confiou em tu.
— Aquele guri poderia ter esperado a gente ganhar para poder morrer. – Marcos esfrega os olhos, tentando espantar o sono de duas noites em claro. A foto de Bernardo agora estampa as paredes do Quartel General Farroupilha, o jovem soldado que tanto se destacou num período tão difícil de sua nação é o principal mártir da revolução. Seu nome substituirá o de Tiradentes com a vitória Sulista. – Ninguém aqui vai conseguir fazer o que ele fazia.
— Bá! – Lucia, a única mulher da liderança, revira os olhos e bate o punho com força na mesa. – Ele era bom, era. Mas era só um piázinho de merda. Sabia falar umas palavras bonitas, mas como ele tem muito aí. E eles estão esperando pela gente pra saber o que fazer.
— Mas nós não sabemos o que fazer! – Matheus, o mais velho, afia as facas no canto da sala, sua raiva torna sua atividade perigosa. – Até agora só fizemos o que deveríamos. Nos separamos do Brasil porque o governo impedia a nossa economia de crescer. Atacamos aqueles cangaceiros porque eles nos atacaram primeiro. Colocamos São Paulo e Rio para correr porque eles estavam no meio do caminho. E agora?
— Agora nós damos o xeque-mate! – Lucia se exalta com a falta de ação de seus dois parceiros. – Nisso o piá faz falta. Ele não ficava só latindo, ele ia atrás do osso.
— Espero que tenham boas notícias pra mim. – Coronel Oliveira possui grandes círculos roxos ao redor dos olhos. Há uma semana não tem uma boa noite de sono por causa desses imprestáveis, que nem guerrear conseguem fazer direito. É só mais um motivo para o Sudeste tomar as rédeas do país outra vez, os outros estados não conseguem fazer nada sozinhos. Imagina só, comandar um país. É este pensamento que traz tranquilidade à Coronel. Do jeito que são, é capaz de ambas as regiões perderem a guerra e se auto declararem vencedoras.
Por isso o plano tem que dar certo.
— Temos que esperar a última encomenda chegar, senhora. Estamos de mãos atadas até lá. Sem mais atualizações.
Ignorando o update do Biólogo, ela se aproxima da jaula. Frente a frente ao pássaro, ela permite seu corpo relaxar por alguns segundos. Encosta o dedo indicador da mão direita no vidro e a sombra de um sorriso passa por seu rosto. É claro que o Projeto Pasárgada funcionará. O lindo Chico não a deixará na mão.
— Ele está vivo mesmo?
— Sim, senhora.
— E pode fazer tudo isso?
— Sim, senhora. Deseja que eu repasse o relato-
— Eu já sei essa merda de relatório de cor, não foi isso que eu perguntei.
— Sim, senhora.
A mulher respira funda e endireita a postura, retomando a pose.
— Quero vê-lo em ação.
O horror toma conta do rosto dos presentes na sala, que param o que estão fazendo imediatamente e trocam olhares assustados, procurando o que fazer.
— Ainda é perigoso, senhora.
— Nós estamos ficando sem tempo e sem chances de ganhar ou de ao menos de ter uma participação efetiva na guerra. Nós precisamos desse pássaro pronto. Agora. Encontrem outra forma de fazer o que seja que vocês têm que fazer, seu prazo é o meio dia.
Ela tenta se lembrar do que tem que fazer, dos lugares que tem que ir, porém seu cérebro a trai e deixa a Coronel parada em frente a porta do laboratório por milésimos de segundos. O sinal em sua escuta lhe dá as direções apropriadas. De volta à sala de controle, ela tem visitas.
— Juju! Quanto tempo! – A Coronel é esmagada pelos braços do recém-chegado assim que entra no recinto.
— General Alberto. – Ela bate continência assim que é solta. – Não é um momento apropriado para casualidades, estamos no meio de uma situação compli-
— Você tá atrasada, querida. – Ele bate no cap dela. – Eu vim pra cá porque achei que você tivesse com problemas, mas olha... Seu pessoal fez um ótimo trabalho. – Faz sinal com a cabeça para acompanhá-lo, juntos, eles vão mais a fundo da sala, onde um soldado se posiciona num círculo elevado, rodeado de pessoas de jaleco branco.
Ele usa um traje escuro com pequenos pontos prateados semelhantes a escamas de uma serpente que, conforme a movimentação da luz, alterna o brilho e a opacidade. É uma veste perfeitamente ajustada ao corpo dele, como se feita por um alfaiate, exceto por pedaço extra de tecido que forma um capuz largo.
São feitas leituras infravermelhas e ultravioletas, anotações e comentários em voz baixa pelos cientistas, todos possuem a sombra de um sorriso nos lábios. Coronel Oliveira anda ao redor do soldado exposto, tenta absorver cada informação através apenas de observação, nada que o General carioca fala é interpretado por seu cérebro. Os termos técnicos não lhe são estranhos, porém ela tem dificuldade em entendê-los com clareza.
— Você pretende atacar. – Ela sussurra, ainda com os olhos fixos no homem de preto.
— Claro que não. – Alberto revira os olhos, mais entediado do que ofendido. – Seria burrice. Estamos em um número muito reduzido e sem dúvidas as duas frentes se uniriam para nos neutralizar. – O tom brincalhão deixa sua fala e dá lugar ao tom militar. Júlia fica em silêncio, espera pela explicação. – Eu não sei o que vamos fazer com isso, isso é trabalho seu. – Ele dá os ombros ao notar que ela o aguarda. A mulher bufa e revira os olhos, ele nem ao menos se dá ao trabalho de tentar ajudar. – Eu sei que isso vai garantir que o nosso governo prevaleça depois que o resto se dizimar.
— Se deixarmos eles se matarem, o que iremos governar? – Ela fala baixo e cansada, porém continua apreciando o soldado.
— Vou deixar isso com você. – O bigode do homem mexe de uma maneira estranha conforme ele fala, causando náuseas na jovem Coronel. – Precisa de mais alguma coisa? Que esteja ao meu alcance, é claro.
— Acelere a entrega do Lote HT0456. – A Coronel, já rouca, pede ao superior, faz uma continência e volta às telas de controle.
— O que seria do sinhô sem mim, hein? – Maria confere as armas do pai com um sorriso nervoso.
— Deixe de me aperreá, menina. Tu vai ter tempo pra isso quando eu voltar. – O homem abre a boca com confiança e vai até a filha, apertar-lhe as bochechas.
Seu Sebastião pode sentir o medo de Maria em relação à sua próxima ação, contudo ambos sabem que não há outra opção senão atacar os rivais. Seu último discurso aos guerrilheiros deixou claro que talvez estivesse indo em direção à morte certa, mesmo assim, ele prefere acreditar que foi apenas um brado de guerra motivacional e que tudo ficará bem.
Irá se mover com o triplo das tropas usuais em direção ao sul do país. Parará em São Paulo e reabastecerá seus mantimentos através do Mato Grosso do Sul. Então, chegará até o seu alvo com toda a força e potência sertaneja para um último confronto. Do qual sairá vencedor.
O Lote HT0456 chega com apenas meia hora de antecedência do horário previsto. Pouco antes de imagens do Farol da Barra chegarem até a Coronel com cerca de dois mil homens, incluindo o líder do movimento Cangaceiro, entrando em movimento. Se lhe resta um pouco de fé de sua época de infância, este é o momento de rezar. Ela fecha os olhos e respira fundo, murmurando algumas palavras a alguém que ela nem sabe se existe, muito menos se pode lhe ouvir.
Quando abre os olhos novamente, ela está pronta para dar o comando de guerra.
A cúpula da liderança Farroupilha passa aquele mesmo dia em discussão, sem imaginar os conflitos internos de Coronel Silva ou os conflitos morais de seu Sebastião, mas o assunto é o mesmo que atormentou os dois líderes: atacar. Ou não? Lucia é a favor do ataque surpresa, enquanto ainda possuem alguma vantagem. Matheus não acredita que eles possuam vantagem alguma e quer procurar aliados. Marcos crê que eles precisam de alguém para substituir Bernardo, fazer a propaganda e ser o incentivo vivo do movimento, para poderem passar confiança aos seguidores.
Tal discussão custa para os sulistas. Ao anoitecer, recebem a informação que os Cangaceiros estão marchando em sua direção, com muito mais homens que eles possuem à sua disposição. A diferença de simpatizantes dos movimentos sempre foi clara, até por conta do número de cidades envolvidas em cada um, porém sempre lutaram de forma justa, se é que isso é possível. Ao ver o número de rivais vindo ao seu encontro, Lucia, Matheus e Marcos decidem em um único olhar o que lhes levou o dia inteiro para fazê-lo.
O fim da guerra se inicia.
Os sabiás param de cantar.
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