O Canto da Sereia
1 Prólogo: A Tempestade e a Sereia
Notas iniciais
Prólogo
A Tempestade e a Sereia
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A aurora demorara para despontar naquele dia, mas quando o fez, pareceu devolver a vida ao rosto do rapaz. A maré era baixa, formada por ondas que dançavam suavemente ao som de uma melodia própria, e em sua superfície refletia o sol como numa pintura à óleo. A paisagem tranquila de céu límpido escondia qualquer vestígio da tempestade que acometera a região na última madrugada.
Ela levou os dedos ao cabelo escuro do rapaz e o afagou por entre os nós. Desejou que abrisse os olhos, que a fitasse do mesmo modo que ela fazia desde que alcançaram a praia, horas antes.
Naquela noite o céu decidira castigar o mar. O dia começara tão claro que mesmo os mais experientes não adivinhariam que uma tempestade se aproximava. Quando Lily emergira, foi incapaz de notar algo diferente. O fascínio pelo mundo fora d’água era tamanho que conseguia cegar qualquer um de seus instintos.
E ela permanecera onde estava, hipnotizada pelas cores no céu — rosa, vermelho, lilás e amarelo. Cores que se misturavam como aquarela, efeito impossível de ser alcançado onde morava.
Foi só depois de muito após a noite cair, trazendo consigo a lua cheia e uma porção de estrelas, que finalmente o viu. A besta dos mares. Teria acabado com a fera de metal se o rapaz não tivesse lhe roubado a atenção. Ele andava pelo convés com formosura, hora ou outra apertando a mão dos companheiros, o cabelo rebelde voando para todas as direções.
O reconheceu quando o luar tocou-lhe o rosto — já o vira outrora em outras de suas aventuras para o mundo fora d’água. Sempre de longe, jamais permitindo ser vista. O que não daria para descobrir a cor de seus olhos?
A lei, no entanto, era o que a obrigava a viver miseravelmente todos os dias de sua longa existência. Se aproximar dar criaturas sem cauda era terminantemente proibido, a não ser para as irmãs do sudeste que enfeitiçavam os homens que navegavam nas bestas dos mares com a arma mais poderosa que tinham; o canto.
A lei mais antiga e sagrada de seu povo de nada importara quando o rapaz atingiu a água.
Guiada pela irracionalidade, a cauda escamosa de Lily começou a movê-la para a mesma direção, nadando entre os destroços metálicos sem medo de ser esmagada, até conseguir agarrar o rapaz inconsciente. O corpo dele era leve, mas o mar tempestuoso dificultava a tarefa de levá-lo para cima, onde seria capaz de sobreviver.
O negrume das ondas subia para beijar o cinzento das nuvens, vez ou outra acompanhados pela luz dos relâmpagos e pela música dos trovões. Era jogada sem cuidado de um lado para o outro e o rapaz mantinha-se firme por entre seus dedos, ambos dançando ao som do mar zangado.
Lutar contra uma tempestade é inútil, às vezes é preciso se deixar levar, carregando consigo apenas a esperança de chegar a um lugar melhor.
A terra firme tardou para surgir ao horizonte, trazendo a visão de uma cadeia montanhosa de picos alvos. Ela depositou o corpo ensopado na encosta de uma rocha no começo da faixa de areia.
E esperou. Esperou até a calmaria chegar; o céu tingir-se de azul claro e o mar cantar com a voz soprana. Esperou até que criaturas cruzassem o ar sobre sua cabeça, fazendo um coro para a canção lamuriosa que escapava de sua boca.
Esperou até o rapaz abrir seus olhos castanho-esverdeados, logo após uma série de tossidas.
Mas não esperou que ele lhe visse. Jogou-se ao capricho das ondas antes que o rapaz pudesse retomar a consciência, o coração acalentado ao saber que sobrevivera, mesmo que jamais viria a descobrir quem o salvara da noite de tormenta.
Os mais variados nomes tentavam descrever a criatura que se afastava cada vez mais da praia. A espécie era mais um mito do que realidade para aqueles que viviam fora d’água. Tágide, nereida, ondine, sereia… Do que quisessem lhe chamar.
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