O Canto da Moira
1 CAPÍTulo ÚNico
Notas iniciais
As águas escuras daquele pedaço inexplorado da Baía dos Ladrões permaneciam tão mansas quanto normalmente eram. Neblina flutuava sobre o oceano, se espalhando feito veneno, enquanto o som ínfimo de um gotejado distante, que se complementava um após o outro, parecia vir de lugar nenhum. Era quase impossível enxergar na escuridão. De vez em quando, ao se prestar atenção, era possível perceber uma canção macia se espalhando gradativamente pelo ar. O vento do leste soprava e assoviava por entre os rochedos cobertos de musgo, acentuando o cheiro da maresia. A noite cobria o mar de tal modo que nem mesmo a lua ou as estrelas eram suficientes para iluminar o caminho dos viajantes que — por estupidez, ou coragem demais — se aventuravam por aquela parte inóspita do continente.
Discretas ondas se formaram quando um pequeno barco de madeira surgiu em meio à névoa. Deslocava-se devagar, apenas resvalando sobre a água, afastando suavemente as folhas que e algas que flutuavam próximo à superfície. A quietude só tornava o mexer das águas ainda mais sonoro. Duas silhuetas podiam ser vistas sobre a madeira flutuante, a que remava, dono de visíveis músculos sobre as vestimentas maltrapilhas, e uma mais à frente, na extremidade, cujo rosto permanecia oculto sobre o chapéu de couro marrom. Ambas permaneciam em silêncio, movendo-se apenas o necessário, ao passo que o abismo abaixo delas se mantinha resoluto e parecia querer engoli-las na primeira oportunidade.
À medida que se aproximavam da costa — e eram capazes de sabê-lo graças à luz escassa do farol que ficava a algumas regrunas¹ da praia —, a melodia outrora ouvida se tornava mais e mais alta. Era fina e agradável. Era tão sedutora quanto as canções tocadas no bordel, e igualmente inocentes como as cantigas de ninar. Ecoava no ritmo das ondas, como se fizesse parte delas, e viesse das profundezas mais nefastas do pélago.
De repente, um ruído diferente. Parecia que alguma coisa tinha se remexido na água. O homem que remava ergueu o rosto em alerta, olhando para ambos os lados em busca da origem do som, mas nada viu. Sentiu uma pontada de medo se apoderar de seu coração, mas havia qualquer coisa de hipnotizante na canção do mar. Ele sabia do que se tratava, sabia quem era, mas sentia-se mole e impotente. Sua visão, por um momento, ficou escura, obrigando-o a piscar inúmeras vezes no intuito de voltar a enxergar, e foi só quando sentiu os primeiros sinais de que tinha sido pego que decidiu se pronunciar.
— Capit— Ele murmurou, mas fora interrompido.
— Shh. — A figura da frente, ainda de rosto encoberto, posicionou a mão espalmada para trás em um claro sinal de poder.
O homem se calou, com uma expressão zonza no rosto, enquanto a melodia imperava novamente. Ruídos de ondas aqui e ali, ao redor do barco, passaram a se tornar mais frequentes. A imensidão de nada que os cercava amplificava os mais ínfimos sons, transformando-os em uma orquestra macabra que se entendia por um horizonte invisível.
O baque na parte de baixo do barco fê-los ficarem alertas. Fora grande o suficiente para ser perceptível, porém pequeno demais para gerar preocupação quanto à segurança momentânea dos tripulantes. Outro veio em seguida, outro e mais outro. O homem que remava, que no início parecia preocupado, permanecia apenas sentado em silêncio como se não se importasse com o que estava prestes a acontecer. A pessoa que o acompanhava, no entanto, que trajava vestimentas ainda mais pomposas, observava em plenas condições mentais o desenrolar da cena.
Um grito medonho irrompeu o ar e o barco balançou, mas, quando o encapuzado virou-se, já não havia mais nada. Seu homem se fora. Permaneceu quieto, sem esboçar nenhuma reação concreta, e retornou à posição anterior.
Seus olhos — até o presente momento encobertos pelo chapéu — foram engaiolados pela figura da bela mulher com os braços apoiados sobre a borda do barco. Seus cabelos cacheados e cheios estavam molhados, bem como a pele negra que parecia mesclar-se à escuridão que os cercava. Encarava a outra figura diretamente, entreabrindo os lábios carnudos em ilusória menção, sem, no entanto, proferir um vocábulo sequer por segundos que pareceram horas.
Era uma Moira.
Ela fez sinal com o dedo para que o barqueiro se aproximasse e ele o fez sem questionar. Os olhos da mulher brilhavam como nagos² de ouro sedutores. Começou a cantarolar a mesma melodia que outrora ouviram e naquele instante era possível notar claramente que tratava-se de uma antiga canção de ninar pertencente aos nativos de Nabhësiv³. Ela lenta e compassada, e, sob a voz mágica de sua reprodutora, tornava-se ainda mais embalante.
Havia tudo de místico sobre a criatura feminina. Seu sorriso, seus gestos, o modo atraente com que assoviava a canção entre os dentes brancos. Seu poder sobre os homens era incontestável e ela sabia disso tanto quanto o barqueiro. Nenhum instrumento era necessário em sua solitária apresentação, pois bastava que cantasse, evidenciando o dom — e também a maldição — concedidas por Mor, a divindade dos mares, para colocar o mais rígido e rústico dos homens à seu inteiro dispôr.
— Tu deves ser o capitão Vatt. — Destilou melodicamente. — Ouvi muitas histórias a teu respeito e de teus feitos. Reconheci-o graças ao seu chapéu.
Ela se referia ao pequeno lenço escarlate amarrado ao cume do chapéu.
— Venha. — Convocou-o com um estender de mão. — Eu vou libertá-lo de seus fantasmas.
O espectador solitário se aproximou devagar, deslizando os pés por sobre as dobras de madeira do barco, observado diretamente pela artista semi-submersa. Entoava sua canção de modo a envolvê-lo e a fisgá-lo como um peixe indefeso. Sorria em regozijo ao constatar, através da aproximação alheia, que seu feitiço era eficiente e certeiro. E, enquanto se movia, o barqueiro repetia para si mesmo que, de todos os monstros que habitavam o fundo do mar, nascidos da tormenta matusalênica que moldou a baía como era atualmente conhecida, nenhum era tão assustadoramente sedutor e maligno quanto as Filhas de Mor.
Vagarosamente, a morena emergiu os braços da água e alcançou o rosto oculto da figura. Alisou-o com os dedos molhados e tentou erguê-lo, na tentativa de vislumbrar o rosto cujo nome era conhecido de uma ponta à outra do mar Qavyso. Sua presa oferecia resistência, no entanto, e isso parecia fazê-la desejá-la ainda mais.
— Eu posso ver dor em seu coração. — Sussurrou em tom de confidência, fechando os olhos e sorrindo, enquanto lia a alma do barqueiro através do toque mágico de seus dedos. — Um ente querido assassinado, uma família destruída. Vingança. Ah, meu caro Vatt, você deve ser um homem tão triste...
A morena entreabriu os lábios e puxou o outro com suas mãos molhadas. Sua cauda de peixe estava, naquele momento, boiando sobre as águas escuras, e ela sequer percebeu o olhar discreto que sua presa direcionara às suas escamas.
— Você está certa... — Finalmente a voz alheia ecoou na noite. — Sobre minha infância, sobre as coisas que eu carrego em meu coração.
A Moira pareceu assustada quando ele falou, pois isso indicava necessariamente que seu feitiço hipnótico não tinha surtido o efeito esperado. Não deveria haver fala, nem consciência o suficiente que permitisse o livre raciocínio. Como uma aranha, imobilizava a presa em suas canções pegajosas para só então saboreá-la, em uma dança tão sensual e envolvente que era quase totalmente inevitável. Poucos eram os homens que tinha sobrevivido a um encontro com uma delas, e menos ainda eram as exceções que possuíam a imunidade natural contra as traiçoeiras criaturas.
— Só errou em uma coisa, entretanto, um pequeno e ínfimo detalhe...
A criatura do mar tremeu.
O barqueiro ergueu a face e finalmente revelou seu rosto. Olhos finos, queixo oval e longos cabelos ruivos. A face branca, sutilmente manchada pelo sol, ostentava finos arranhões aqui e ali. Seus lábios estavam curvados em um sorriso atrevido que denunciavam o orgulho em finalmente revelar sua verdadeira natureza.
Uma mulher.
— Você... — A Moira de pele negra mal conseguiu falar. — Você...
A criatura aquática tentou se virar e imergir, mas a capitã lhe agarrou pelos cabelos. Rapidamente, sacou uma adaga, escondida no interior de sua bota direita, e cravou-a violentamente no pescoço da outra. Líquido azulado, levemente florescente, começou a escorrer da ferida e a manchar o mar negro que cercava a diminuta embarcação. A Moira agonizava, espasmando enquanto sua vida escorria por sobre os dedos de Vatt, a cauda balançando freneticamente na água abaixo dali.
Sem demonstrar um pingo de remorso ou nojo, a ruiva abriu-lhe a garganta e arrancou-lhe a traqueia. Raspou a lâmina na parte superior, retirando apenas os músculos que formavam as cordas vocais, enquanto a criatura tentava agarrá-la com braços que já nem mais tinham forças. A capitã desvencilhou-se, no entanto, e atirou-a meramente viva no oceano hostil. Observou-a afundar lentamente, encarando-a com olhos mortos e esbugalhados, enquanto desaparecia no oceano.
As fibras esbranquiçadas, que lembravam gomos de frutas exóticas, repousavam em suas mãos cobertas de sangue azul. Vatt observava seu feito satisfeita. Retirou do sobretudo surrado um saquinho de couro onde pôs o tecido musculoso. Guardou-o cuidadosamente, como o item raro que era, e endireitou-se no barco na posição em que outrora estivera.
— Mr. Naverog? — Chamou, verificando o mar ao redor do barco. — Não? Tudo bem, eu já vou. Mande lembranças à Zuri por mim.
O som de água se movendo voltou a preencher o ar e, segundos depois, assim como o pequeno barco outrora fizera, um mastro comprido, que cortava na diagonal, foi visto surgindo da névoa. Logo em seguida, foi a vez da gigantesca estátua em forma de mulher em tons de branco e cinza. Segundos foram o bastante para que todo o navio, enorme e pomposo, se tornasse completamente visível.
Ostentava uma bandeira negra — composta da imagem de uma caveira ao lado de uma rosa — se movia devagar. Vatt observou o deslocar silencioso do Destino por sobre as águas da Baía dos Ladrões. O rosto masculino familiar surgiu sobre a lateral do convés fê-la ter certeza de que tudo tinha saído conforme o plano.
— Onde está Sr. Naverog?
— Visitando Urko Hontza. — Respondeu, sem abalo nenhum.
— Espero que haja algum dinheiro com ele. — A voz firme do outro homem se fez presente mais uma vez. — Dizem que Hontza anda um pouco mesquinho.
Risos discretos selaram a noite que estava perto do fim.
Fale com o autor