Notas iniciais
Minha primeira história no Nyah! (de quem eu ouvi falar muito bem, pelo visto...).

Não costumo gostar de exibir meus "exercícios" (como chamo as histórias que escrevo antes de iniciar um novo livro), mas esse, particularmente, me fez mergulhar de cabeça e até o presente momento já possui 3 partes.

Sabe, ninguém nunca me disse que ia ser difícil. Ninguém nunca teve a capacidade de bater no meu ombro e falar: “Cara, tu tá fodido, por que essa porra é difícil pra caralho”. Obviamente não haveria necessidade do vocabulário esdrúxulo para que eu compreendesse, mas como essa era a forma que os amigos do meu irmão costumavam usar para falar, imaginei que se eles tivessem tido a capacidade de me dizer como é que era A Coisa, seria mais ou menos assim que diriam. Bom, mas a questão é que ninguém me disse nada.
E eu não duvidava nem um pouco de como estava (tremendamente) fodido.


***


Sentei no telhado de casa e contemplei a noite brilhante, a briga dos meus pais servindo de trilha sonora para a visão de meteoros — tão brilhantes que chegavam a cegar — entrando na nossa atmosfera. Como eu gostaria de um pouco de paz. Pelo menos uma vez na vida, seria pedir demais?
— Tomas? — ouvi a voz do meu irmão chamar logo abaixo de mim. Ergui um pouco mais o pescoço para poder vê-lo entrar na varando do meu quarto e ele fitou-me com aquela cara de marginal com que eu jamais me habituaria. — Desce daí, pirralho, vamos sair com o Pedro e o pessoal.
— Não tô com vontade de sair hoje — retruquei me afastando um pouco mais da borda do telhado: afinal de contas, do jeito que Jonas era maluco podia muito bem me puxar dali e eu não queria nenhum osso quebrado aquela noite.
— Quer o quê, então? Ficar ouvindo as brigas conjugais dos nossos pais? — ele questionou sarcasticamente, mas pude sentir que havia um toque de amargura e infelicidade em sua voz. Não demonstrei saber disso.
— Só quero ficar no meu canto, Jon. E se o Pedro começar a dar ataque de mulherzinha histérica... — comecei quando ele ameaçou abrir a boca — diz pra ele me comprar uma aliança se quer exclusividade, sacou?
Meu irmão e eu rimos durante um longo período, e certamente pelo mesmo motivo: a cara fina e repleta de espinhas de Pedro Welling passando do vermelho para o azul-celeste de tanta raiva por causa do comentário. Um dia eu ia gravar os ataques que aquele cara tinha. Eram realmente cômicos.
— Tá certo, Tom. Eu vou nessa, mano, te cuida. Ah, e vê se pára de comprar essas revistinhas pornôs de R$1, 90. — Ele balançou uma revista de vinte páginas com uma japonesa vestida de estudante safada na capa — Um pouco de vida real faz bem pra saúde, irmãozinho...
— Jon? Vai à merda, sim?
— Ok, ok. Só pensei que...
— Já não é hora de você ir?
— Nossa, você ficou mesmo mal-humorado. Vou logo antes que me contagie com sua falta de senso de humor.
Se ele não caísse fora em dez segundos eu ia mostrar que não havia tornado-me campeão de boxe categoria peso leve à toa. Mas ele saiu e eu tornei a ficar sozinho com as estrelas. A briga (feia) dos meus pais silenciara, por enquanto. No entanto, eu sabia que não demoraria a recomeçar. Tirei um exemplar de alguma imitação tosca da Playboy do bolso de minha bermuda jeans e coloquei os fones de ouvido do meu MP3 cheio de rock.
Fazer o quê, não é?
A vida estava uma droga e eu tentava evitá-la sentado no telhado com fotos de loiras peitudas e Black Sabbath gritando o refrão de “Iron Man”, fazendo-o ecoar pelo meu cérebro.
Até que ela chegou e a vida virou mais que uma droga. Foi exatamente aí que começou a parte do fodido.
Vou contar pra você...


***


Todo mundo chamava-a de Mia, mesmo que o nome dela fosse Melinda e eu não achasse que “Mia” era o apelido certo para esse nome. Era uma garota baixinha, com cabelos loiros e sorriso inocente. Eu não conseguia tirar os olhos dela quando se apresentou na frente da turma, corada, hesitante. Tão meiga e frágil. Sentou-se ao lado de Erik Vandern, o cara mais babaca de todo o colégio. Ele até tento passar uma cantada nela, mas Mia gaguejou algo sobre partículas subatômicas (não estou brincando com você) e ele parou, encarando o quadro-negro à sua frente (pela primeira vez no semestre: milagres acontecem, ó Deus!), atordoado. Desde aquele segundo, eu decidi que precisava daquela garota.
Mas não seria nem um pouco fácil.

***


Quando me aproximei pela primeira vez, ela me encarou com desconfiança, a princípio. Depois olhou para os lado e questionou apontando para si mesma se era com ela que eu estava falando.
— Com quem mais seria? — perguntei, e para o meu deleite, ela corou.
— E-eu não sei. Um cara como você falando comigo...
“Um cara como você”, que merda aquilo significava? Que ela estava lisonjeada? Olhei para a porta de vidro espelhado da sala de Biologia e tentei descobrir em menos de quinze segundos o que ela queria dizer com “Um cara como você”.
Cabelos pretos na altura dos ombros e lisos (sem franja, eu não queria ser considerado emo), olhos cinzentos, pele sem cor nenhuma e lábios grossos demais para um garoto. Pelo amor de deus, eu parecia um perturbado que resolveu bancar o vampiro da saga Crepúsculo. Bom, Mia parecia gostar, então...
— Você é nova, então, sei lá, pensei que podia te mostrar a escola. — Falei normalmente dando de ombros, tentando aparentar não estar animado demais com a ideia de andar com ela pelos corredores do bom e velho Colégio Amélia Sanders.
Ela continuou a fitar-me envergonhada e pressionou um pouco mais os livros contra os seios, uma atitude tão feminina e delicada que eu quase desmontei de vergonha: eu era um cara de 1,95 de altura, definido, pálido (rá, acho que “pálido” é bondade, eu estava mais para “albino”), sinistro e introvertido, cujos passatempos preferidos — segundo o pensamento popular de quase todos os alunos do colégio — aparentavam ser a auto-mutilação e chorar em algum canto do quarto por ser “tão estranho e incompreendido”. E, bem, eu estava, descaradamente cantando aquela menina tão pequena e bonita que parecia que ia se quebrar se eu estendesse minha mão grande e coberta de calos para afastar uma mecha de cabelo que caía insistentemente sobre a sua bochecha rosada.
— Bom... — começou e pensei realmente que ela fosse me dar um fora como fez com Erik, começar a falar do sistema que a NASA usava nas suas espaçonaves ou coisa parecida, mas ela sussurrou simplesmente: — Por que não? Eu sou a Melinda, Mia se quiser.
— Mia... — repeti e o nome soou-me bem.
— E você?
— Eu o quê? — “Eu sou um imbecil”, pensei internamente meio segundo depois de falar aquilo.
— Como se chama, bobinho?
— Ah... Tomas.
— Tomas... — foi impressão minha ou ela disse meu nome do mesmo jeito que eu falei o dela?
— Vamos então? — ofereci meu braço a ela como se estivéssemos em uma novela de cavalaria do século XVII, mas ela aceitou-o, contrariando qualquer atitude humana típica de estranhar e chamar-me de maluco. — Você vai gostar daqui, é bem tranquilo... Os campos são lugares lindos pra se admirar...
Pode ter sido impressão (eu sei que foi impressão), porém juro que escutei-a murmurar muito baixo mesmo algo como “prefiro admirar outras coisas”. Deixei passar e conduzi-a pelos corredores do velho Amélia.


***


E em uma visita à minha casa para concluir um trabalho de filosofia atrasado, Mia acabou deixando que eu a levasse para um passeio no meio da plantação de trigo. A sensação de andar de mãos dadas com ela era incrível.
— Você tinha razão... — ela acabou comentando olhando ao redor.
— Sobre o quê?
— Ai, Tom, você é muito esquecido — ela deu um tapinha leve na lateral da minha cabeça (tendo de esticar-se ao extremo para fazê-lo devido nossa diferença abismal de altura) — Quando eu cheguei no colégio você falou que os campos daqui eram muito bonitos. — Isso acontecera há cinco meses — São mesmo e muito.
— Eu gosto daqui — e afastei um pé de trigo para que passássemos para o fim da plantação e chegássemos em um tronco grande e velho que caíra ali há pelo menos vinte anos. — É meu lugar preferido. Depois dele vem o telhado da minha casa, que é onde eu geralmente fico quando não posso fugir pra cá.
— Seus pais? — questionou parecendo triste. Acariciou meu cabelo quando sentamos e eu deitei a cabeça em seu colo, cruzando as mãos na barriga.
— Pois é. O velho tá bebendo cada vez mais. Um dia desses acho que vou ter que interromper a briga antes que ele arrebente a minha mãe. Por enquanto eles só gritam desaforos, mas quem sabe amanhã...
— Dependendo do tipo de palavra, elas também podem arrebentar algo. Só que dentro de nós.
Olhei pra ela, impressionado. Esses lampejos filosóficos nunca me pareceram naturais e só agora eu reparava que talvez ela tivesse passado por situação semelhante. Mas resolvi calar a boca e apenas aproveitar os carinhos depositados na minha cabeça. Ela tinha dedos quentes e macios.
— Eu te amo, sabia? — Falei sentando de repente e assim ficando cara a cara com ela. Mia inclinava a cabeça para trás para encarar-me e eu fazia o contrário, voltando meu rosto para baixo. Como seus olhos castanhos reluziam de medo por trás dos óculos de aro cor-de-rosa... Jamais vou esquecer daquele momento.
— A-a-a-a-ama? — gaguejou sem jeito.
— É.
E, provavelmente, eu devia ter aproveitado a deixa como um bom galã de filme de comédia romântico e dado um beijo nela bem naquela hora. Só que, infelizmente, eu havia faltado a aula de “como roubar um beijo da menina por quem você tem os quatro pneus (e o estepe) arriados completamente”, portanto não fiz nada.
Uma palavra: Besta.
— Bom... Eu... Olha só... Você é meu amigo... — ela atrapalhava-se com as palavras e eu senti que esse era outro bom motivo para beijá-la e achei que devia mandar o fato de ter faltado a aula ir se danar, pois os lábios dela imploravam pra que eu cobrisse-os com os meus e sentisse o gosto da boca dela. Coisa que eu não fiz (pela segunda vez).
Duas palavras: Besta quadrada.
— Por que as mulheres sempre usam a amizade como desculpa pra dar o fora em um cara?! — eu acabei me descontrolando e levantei furioso, socando uma árvore próxima, sem ter noção de que se quebrasse o maldito punho não poderia participar da próxima luta de boxe, que ocorreria dali um mês.
— Não! Olha, Tom, você é um cara legal e...
E estranho e feio e não chego nem aos seus pés e por isso você vai me mandar pastar já que pode arranjar coisa melhor...
A mão dela acertou o meu rosto, vinda de lugar totalmente desconhecido. Na verdade, só tomei consciência do primeiro tapa quando veio o segundo e senti o rosto dolorido. Encarei-a estupefato e, numa atitude estupidamente melodramática eu a empurrei contra a árvore que socara, acreditando (asno) ser aquele o momento perfeito para o beijo romântico entre nós dois. Por alguns segundos, prensada fortemente pelo meu corpo contra a árvore, Mia agarrou meus cabelos e correspondeu ao ataque inesperado. Beijava-me desajeitada, exatamente como eu, que tinha de me curvar para alcançar seus lábios.
Mas alegria de pobre dura pouco.
Ela me empurrou, deu um terceiro tapa na minha cara e saiu gritando que eu era um cretino.
Posso considerar isso um sinal de que evolui para besta ao cubo?
Acredito que sim.


***


Estava brincando de acertar o canivete na foto do Osama Binladem presa em um alvo, quando meu irmão entrou no quarto. Não o encarei ou falei nada.
— Mamãe falou que você não come faz três dias. — Ele disse suavemente, deixando de ser, por um minuto, meu irmão babaca que parecia viver só para me perturbar.
Permaneci em silêncio. O canivete estava cravado no meio da testa furada de Osama e eu levantei para pegá-lo. No caminho, Jonas agarrou meu punho sem brutalidade, mas firmemente, o suficiente para chamar-me a atenção.
— O seu ritual de passagem é na sexta e você fica aí agindo feito uma garotinha que foi rejeitada e perdeu a vontade de viver.
— Ah, qual foi? Vê se me deixa em paz! — resmunguei soltando-me com facilidade e apanhando o canivete. Joguei-me de costas na cama mais uma vez e tornei a atirá-lo. Com um tuc seco a lâmina cravou-se no olho esquerdo de Osaminha.
— Tom... — Jon sentou na cama. Cara, ele sabe ser um porre — Eu me preocupo com você.
Lancei-lhe um olhar de “certo, se eu fingir que acredito você cai fora e me deixa aqui brincando com o canivete feito um maníaco com distúrbios mentais?”. Meu irmão limitou-se a balançar a cabeça. Pois é, o olhar não tinha dado certo.
— Você e eu... Nós dois somos iguais. Eu amo você por isso, cara.
— Que nojo, Jon.
Ele deu-me um soco fraco no ombro e sorriu.
— Não conte isso pra ninguém, babaca. — E depois suspirou e voltou a ficar sério. — Tom, você não pode continuar assim, cara. Precisa tocar sua vida pra frente, saca?
— Mas eu gosto da Mia! E ela me chutou! — “Na verdade, bateu”, corrigi a mim mesmo mentalmente.
— Escute seu irmão que leva jeito com as mulheres: — pela primeira vez eu quis ouvir um conselho do Jon. Cacete, devo estar muito desesperado mesmo — As mulheres são todas umas doidas, cara. Mas como diz o ditado: “Ruim com elas, muito pior sem elas”...
— Dá pra pular essa introdução e ir logo pra parte que me ajuda a recuperar a vontade de viver e a conquistar a garota dos meus sonhos?
— Tom, meu irmão, não desista. Prove que você é um homem de verdade e corra atrás dessa mulher. Mesmo que ela te bata e te chute, vá atrás dela e se for necessário, arraste-se...
— Que maravilha, cara! Agora só me explica onde foi parar meu amor-próprio?
Que delícia! Será que eu havia evoluído para um estado de bestitude altamente elevado? Tipo, quem sabe agora eu fosse O Senhor das Bestas, ou coisa parecida...
— “Amor-próprio”? Se você tivesse um pouquinho que fosse desse tipo de coisa teria cortado essa porra de cabelo há muito tempo...
— Tá, tá. Voltando ao assunto: Eu preciso bancar o capacho pra ela gostar de mim?
— Não! Tom, o que eu quis dizer é que você precisa...
O som de alguma coisa espatifando-se no andar de baixo interrompeu nossa conversa e em poucos segundos descíamos a escada de madeira barulhentamente, os pés acertando os degraus com tanta força que eles estalavam e pensei que fossem arrebentar e seríamos jogados com tudo no chão e nos quebraríamos em várias partes como... o vaso de porcelana da vovó.
Nossa mãe encontrava-se estirada no chão, o cabelo castanho-escuro jogado pelo rosto e um pouco de sangue escorrendo do couro cabeludo. Havia pedaços do que um dia fora o vaso de porcelana azul da vovó, caídos em torno de sua cabeça. De pé próximo a ela nosso pai ofegava, a barba comprida e cinzenta molhada. Círculos de suor estavam marcados nos braços de sua camisa branca manchada e ele passou a mão na cabeça com indícios de calvície quando avistou nós dois estáticos no corredor que dava para a sala de jantar.
— A culpa foi dela! — berrou apontando para a figura feminina semelhante a uma boneca de pano surrada — uma boneca que talvez não tornasse a levantar. — A culpa foi toda dela!
E saiu coxeando para o lado oposto ao nosso, atravessando a cozinha e saindo para o lado de fora da casa pela área.
— Filho da... — Jon começou a mover-se e eu pude sentir sua energia vibrando, pude sentir os pelos de seu braço arrepiados e a vontade que ele tinha de enfiar os dentes na carne daquele maldito até fazê-lo gritar, porém mesmo assim eu o segurei. Movimento automático. Eu sabia o que fazia.
— Não — sussurrou uma voz que não era minha que, entretanto saía da minha boca. — Não ainda.
— Então quando? — e quem retrucou ferozmente também não foi Jon. Foi algo muito mais sombrio que ele, uma criatura que morava dentro de seu ser e que só se revelava nas noites de Lua Cheia, quando a canção proibida era tocada e ela podia bailar livremente pelos campos atrás de um par perfeito. Um par que, quem sabe, talvez aceitasse um arranhão ou dois... E se não aceitasse, tudo bem: ela mostraria que um arranhão ou dois não eram nada...
— Na sexta. — E a criatura que morava em mim sorriu. — Agora — o bom e velho Tom estava retornando pouco a pouco, e o bom e velho Tom não gostava do cabelo caindo na cara, por isso o tirou de frente dela e cutucou o irmão levemente — me ajude com isso.
Levantamos mamãe c0m delicadeza com protestos de sua parte (estava viva, graças aos céus) e eu consegui apanhá-la no colo, murmurando que ela ficaria bem. Enquanto Jon ia ligar para o médico, segurei a mão dela e falei que íamos fazê-lo pagar.
Oh, sim, nós íamos...
E o preço seria caro.
Naquele momento, até o problema com Mia pareceu infinitamente pequeno. Mas eu não o esquecera, todavia.

Notas finais
O Canto da Lua Cheia - Parte I de Sara J. Treze é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil.
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