Prólogo

- Você está bem melhor, Wendy!

Se por um lado o elogio de João me deixara feliz, por outro me desanimara completamente.

- É Mila! – corrigi-o – M-I-L-A, Mila! Quantas vezes tenho que falar?

- Isso é o que dá ter dois nomes. – comentou André – Por que sua mãe não te deu apenas um? A gente agradeceria.

- Meus pais são doidos, só isso. – respondi, seca – Mas se vocês gostam verdadeiramente de mim, me chamem apenas de Mila, pelo amor de Deus!

- Mila, Wendy, seja lá o que for! O que interessa é que você melhorou bastante cantando japonês. Aprendeu direitinho, heim? – o tom de João era divertido e alegre.

- Não sei o que deu em vocês para aceitarem tocar música japonesa. É suicídio, sabiam? E tudo culpa do Miguel!

- Ei, gatinha, nem venha reclamar! – gritou Miguel aos fundos – Era a chance da Neverland brilhar em algum canto! Lógico que eu não iria recusar um convite!

- Precisava ser necessariamente em um evento de cultura nipônica, Miguel? – perguntei, com a voz chorosa – Somos uma banda de pop-rock, não de J-Music!

- Agora já foi. – disse Miguel.

- Enfim, pessoal, amanhã teremos festa?

A pergunta de Tiago ecoou no estúdio. Todos os olhares voltaram-se para mim, enquanto eu, sentindo-me aos poucos intimidada, nada entendia.

- Ei, o que é? – perguntei, confusa

- Ora “o que é”, Mila! Me poupe! – reclamou Tiago – Que dia é amanhã, Camila?

- Quarta feira? – respondi, inocente.

Os meninos começaram a rir.

- Ai, ai, pobre Wendy – lamentou João, passando o braço em torno dos meus ombros – Será que esta cabeça de setenta anos te fez esquecer a data do seu próprio aniversário?

Aniversário?

- Amanhã é 21 de janeiro? – perguntei, incrédula.

Um coro me respondeu afirmativamente.

- E amanhã a gente vai aparecer na tua casa! – informou André – Vamos ver a nossa amiguinha e comemorar mais um ano de velhice.

“Mais um ano de velhice.”

As palavras de André não saíram da minha mente, criando um eco insuportável dentro dos meus ouvidos. Era triste saber que, dali a algumas horas, eu envelheceria mais um ano. Passaria dos treze para os catorze. Alguns poderiam falar que eu estava com besteira, ainda era jovem demais para reclamar da idade, mas ninguém lembrava o quão rápido passava o tempo. Em breve não seriam mais catorze, e sim quinze. Depois dezesseis. Dezessete. Dezoito. Dezenove. Adulta. Logo eu seria isto: adulta. E o brilho da minha infância? Perder-se-ia na imensidão das lembranças.

Cheguei em casa com o mesmo ânimo arrasado com o qual saíra do estúdio. Dei um beijo em minha mãe, tomei um bom e relaxante banho e segui para o meu quarto, jogando-me na cama. Nas prateleiras, as minhas bonecas, com quem, até a dois anos atrás, costumava brincar e dividir os meus sonhos. Agora estavam aposentadas, descansando.Era o primeiro sinal de que eu estava envelhecendo. Ao lado, na estante, meus livros. Escondidos atrás deles, os livrinhos infantis que tanto alegraram a minha infância. Segundo sinal. E no guarda-roupa? As roupas que não cabiam mais em mim. Terceiro sinal. Meus Deus, é o fim!

Com lágrimas nos olhos, retirei o “Orgulho e Preconceito” que escondia algum título infanto-juvenil. Queria ver qual seria aquele se ocultava atrás do romance de Jane Austen e que, no passado, fizera-me extremamente feliz. Por ironia do destino ou não, o livro que surgira fora Peter Pan, de J. M. Barrie. Peguei o volume nas mãos e folheei-o, parando justamente na primeira página, lendo a primeira e famosa frase:

“Todas as crianças crescem, menos uma”.

Era impressionante como a minha vida girava em torno daquele romance. Para começar, meu segundo nome era Wendy. Depois vinha o nome da minha banda, Neverland, ou simplesmente “Terra do Nunca”. Em seguida os nomes de dois integrantes: João e Miguel. O que mais faltava para mim?

Sentindo-me munida pelo espírito do Nunca, peguei o meu diário abandonado há anos e pus-me a escrever todo o meu tormento pré-envelhecimento.

Fortaleza, 20 de janeiro de 2009

Querido diário.

Encontro-me hoje à deriva do meu envelhecimento. Amanhã completarei catorze anos e não me acho animada para tal acontecimento. Concordo que será, provavelmente, um dia feliz, pois encontrarei os meus amigos, receberei cartas, ganharei presentes e estarei me divertindo. Porém, eu não queria, de modo algum, crescer. Queria continuar sendo criança, não agüentar pressão e não ter as obrigações de um adulto. Tudo bem que ainda não sou uma, mas, em pouco tempo, serei.

Ao pensar nisso, fico desejando ir para a Terra do Nunca. Bem que Peter Pan poderia vir me fazer uma visita e, de quebra, presentear-me com uma visita ao seu mundo mágico. Mas, como sei que não terei esse desejo concedido, apenas o registro aqui, afim de deixar gravado o meu impossível sonho. Ah, quem me dera que Peter viesse me ver...

Notas finais
Para escrever a personagem principal (a menina que conta a história), baseie-me na minha própria pessoa xD. Espero que tenham gostado do início, logo colocarei mais. Beijos!