O Caminho do Mago
9 O dragão
Notas iniciais
— O que foi isso? — Gaius perguntou a Merlin, após a saída de Morgana.
— Hã... Eu... Bem... É... — Merlin ficou tão encabulado que não encontrava palavras para explicar-se a Gaius. Ele tentou se acalmar e explicar ao mestre que estava apaixonado por Morgana e que ela parecia estar interessada por ele... "Err, não é nada disso". Merlin inspirou fundo enquanto tentava clarear as idéias. Contudo não conseguiu evitar ficar mais vermelho que um tomate.
Gaius o circundou, enquanto arqueava a sobrancelha observando seu pupilo.
— Sim, sei. Já entendi tudo. E a resposta é não. — Murmurou Gaius.
— O que? Resposta? Mas eu não fiz nenhuma pergunta.
— Eu não sou cego nem surdo. Dá pra ouvir seus miolos pensando. Você está apaixonado por Lady Morgana.
— Não. Não mesmo. Só por que ela veio aqui pra falar comigo... E, além disso, eu nem tenho idade pra casar, que dirá me apaixonar...
— E então o aprendiz de curandeiro já pensa em casar-se com a donzela real. Você está maluco, rapaz?
— Não, não! Eu apenas... Tenho que me controlar para não flutuar na presença dela, por que meu estômago adquire borboletas... E ela é a criatura mais linda que eu já vi ou verei até o dia de minha morte. — Merlin falou de supetão e calou-se. Baixou a cabeça e ficou concentrado nos grãos de areia que compunham o chão batido da estrada rústica.
— Cuidado com suas palavras rapaz. Pode estar ditando seu próprio destino.
— Hein?
— Venha! Está na hora de termos uma longa conversa. — Gaius empurrou-o delicadamente para dentro de casa.
Lá chegando, Merlin sentou-se no seu banquinho mal feito, enquanto Gaius sentou-se em seu confortável cadeirão de madeira.
— Merlin, há muito tempo atrás, havia um rei muito bom, com uma bela esposa e sua filhinha adorável. Um dia ele saiu para guerrear, foi morto em batalha. Sua esposa... Teve outro marido, do qual gerou um filho. Este menino chama-se Arthur Pendragon, e a menina, filha do falecido rei, chama-se Morgana de Tintagel. Lady Morgana é meia-irmã do Príncipe Arthur. Você não pode ter ilusões de casar-se com ela.
Merlin ficou cabisbaixo. Sentia-se mergulhar num lago negro e profundo, onde não via nada, nem sentia nada. Preferiu deixar assim, ao menos não sofria.
— Um dia Lady Morgana se casará com um outro nobre, e terão muitas terras nas quais serão soberanos, quem sabe um duque, um marquês ou um barão, mas nunca em hipótese nenhuma, um curandeiro, e muito menos ainda, um mago. Você entendeu Merlin?
— Sim Mestre Gaius, entendi.
— Procure enturmar-se com as garotas da vila. Faça amizade com elas. Outro dia você me falou dessa Margô. Pode namorá-la se quiser. Ela é de nosso nível. Os nobres não. Estamos aqui apenas para trabalhar para eles. Entendeu Merlin?
— Sim Mestre Gaius, entendi.
À tarde, Merlin foi ao palácio real procurar Sir Gawain. Escolheu não se fazer anunciar, pois compreendeu que era um empregado, e que estava ali apenas como um serviçal. Indicaram-lhe o caminho, e logo estava diante do nobre cavaleiro.
— Sim? — Sir Gawain perguntou-lhe.
— O Príncipe Arthur me ofereceu um trabalho como seu pajem. Vim aqui dizer-lhe que não posso aceitar. Já estou trabalhando para Mestre Gaius.
— É mesmo? Menos mal, já tenho outro pajem trabalhando para mim. Se for só isso pode ir agora.
— Sim, senhor. Era só isso. Eu já vou.
Merlin virou-se para sair, mas uma criatura belíssima entrou no recinto. Lady Morgana.
— Merlin, Como vai? Disseram-me que estaria aqui. Veio aceitar o cargo de pajem de Sir Gawain?
— Não, Milady... Huh... Vim dizer que não poderia aceitar... Pois já sou comprometido... Digo... Já trabalho para Gaius.
— Como vai, Lady Morgana? — Sir Gawain a cumprimentou.
— Muito bem, obrigada! — Morgana respondeu educadamente ao cavaleiro, e virou-se para o aprendiz de curandeiro. — Então, Merlin de Gaius, não o verei mais vezes no castelo.
— É... Não. Sinto muito! — Merlin baixou os olhos. Sentiu uma súbita vontade de chorar. Achou melhor retirar-se, antes que objetos começassem a flutuar. — Eu agora me retiro, Milady, Sir.
Merlin saiu da sala. Morgana seguiu-o com os olhos. Queria correr atrás dele, perguntar-lhe o que acontecia, mas considerou que este não era um comportamento apropriado para uma lady. Teve uma idéia. Olhou de forma sagaz para Sir Gawain.
— Gentil Cavaleiro, sua caçada de amanhã ainda acontecerá?
— Claro Milady. O próprio príncipe Arthur a liderará.
— Gostaria de também participar. Será possível?
— Claro Milady, embora seja um esporte para homens. Longas cavalgadas, cavalos ariscos, insetos, animais selvagens... Não é o tipo de coisa a qual esteja acostumada.
— O Senhor se surpreenderá, Sir Gawain.
Enquanto voltava para o estúdio de Gaius, Merlin escutou novamente o Dragão chamá-lo. Por que estava entristecido, e também por que não queria contar a Gaius que vira Morgana novamente, resolveu seguir a voz do Dragão, para ver de onde ela vinha. Andou pelas vielas de Camelot, até sair de seus domínios. Seguiu através de arbustos, mato, ravinas, até encontrar uma gruta natural, entre troncos velhos e raízes. Adentrou por aquele espaço vazio. Aquilo era interminável. Imaginou que deveria estar em um túnel de formigas, e que logo encontraria a rainha formiga e seus soldados. Merlin podia sentir um estranho calor apossar se dele, à medida que avançava. Então o caminho acabou. Viu-se em um amplo espaço subterrâneo. O caminho que seguira acabava em um precipício.
Merlin observou o ambiente a sua volta e fez algumas pedras entrarem em combustão espontaneamente. Ao iluminar o ambiente, deparou-se com uma estrutura gigantesca, cheia de escamas, e crestosa. Sua cor era um misto de âmbar e grafite. Estava na parede a sua frente, e tinha o formato de um réptil gigante. Merlin sentiu um calafrio. Talvez não tivesse sido uma boa idéia ter procurado pelo monstro que lhe chamava diariamente. Ele virou-se lentamente, temendo acordar a besta-fera, que parecia adormecida.
— Aonde vai, Merlin? — A voz do dragão soou cristalina, não mais na sua cabeça, mas ressoando em todo aquele antro subterrâneo.
— Ah... Olá! É, eu... Passei pra ver onde você morava, mas... Acho que tem alguém me procurando lá em cima. Eu já vou.
— Eu o chamei até aqui. Eu preciso de você.
— É? E pra que?
— Albyon está entregue a própria sorte. O rei não cuida de seu povo. Eu preciso que você faça Albyon voltar a sua glória antiga.
— Eu... Eu só sou um rapazinho. Não tenho poderes ou influências. Eu... Eu nem mesmo posso revelar que sou um mago.
— Eu sei. Eu lhe dei sua magia.
— Você o que? Que história é essa?
— Estive esperando que viesse a Camelot, e que reconduzisse o povo aos cultos antigos, quando eu podia voar livremente nos céus que nos cobre. Infelizmente um único homem tem o poder nas mãos, poder suficiente para me enclausurar nessa caverna, e proibi-lo de usar magia.
— O rei Uther Pendragon.
— Ele mesmo. Eu poderia destruí-lo, mas isso só mergulharia o povo em uma guerra sangrenta. Não, eu posso esperar pelo novo rei. Posso esperar que ele seja melhor que o pai, e que me liberte dessa prisão.
— O príncipe Arthur Pendragon.
— Ele mesmo. Conto com sua ajuda para orientá-lo em suas escolhas.
Merlin sorriu tristemente.
— O príncipe Arthur é um legítimo herdeiro de seu pai. Ele não é meu amigo. Pelo que eu sei, ele mesmo tocaria fogo em você, dragão, além de me condenar a morrer na fogueira, também.
— Você ainda tem a chance de reverter essa situação, mago Merlin. Eu posso ajudá-lo nisso.
Já era noite quando Merlin voltou ao estúdio de Gaius. Ele não queria falar sobre seus problemas com ninguém, pois isso apenas ressaltava sua imaturidade e deficiência em lidar com emoções e conflitos. Além disso, sentia-se humilhado ao lembrar-se que não poderia almejar o amor de Morgana, ou a amizade de Arthur. E o dragão? Até agora Merlin achava que havia imaginado ou sonhado tudo aquilo. Como um dragão mitológico poderia ter interagido com ele? E pior, ele aparentemente havia elegido Merlin o salvador de Albyon. Ridículo. Talvez por que sentisse infinita tristeza, e quisesse se alegrar, ou talvez por que desejasse sentir-se poderoso e senhor do próprio destino, Merlin foi até seu quartinho e iniciou uma série de magias.
Enfileirou canecas e ferramentas de trabalho. Paralisou insetos em pleno vôo, e fez algumas plantas aumentarem o tamanho até poderem ser chamadas de trepadeiras. Tudo ao mesmo tempo, e sem interferir ou prejudicar a magia seguinte. Deitou-se em sua caminha de palha e revirou-se. Fixou os olhos nos caibros do teto e começou a desenhar formas no teto de palha seca. Surpreendeu-se ao perceber que havia desenhado o rosto de Morgana. Sentou-se na cama e já ia procurar mais objetos para distrair-se, quando percebeu Gaius na porta de seu quarto. Assustou-se e isso fez os objetos caírem com estrépito no chão.
— Mil perdões, Gaius, mas você me assustou.
— Se tiver quebrado alguma ferramenta, terá que fazer outra para repor. — Gaius ralhou ao que Merlin prontamente levantou-se e passou a procurar os objetos no chão. Gaius aproximou-se e segurou-o pelo braço. — Não se preocupe com isso. Venha, vamos conversar.
Gaius dirigiu-se à saleta do estúdio e esperou que Merlin se acomodasse no banquinho.
— Quer me dizer agora o que está acontecendo?
— Huh... Fui até Sir Gawain para desistir do emprego. — Ao ver que Gaius fez uma expressão curiosa, tratou de explicar. — O príncipe Arthur me disse para ser pajem de Sir Gawain. Eu não lhe contei, por que pretendia recusar. Bem, Lady Morgana estava lá, mas eu fui embora rapidamente. Não quero me iludir com ela. Então, quando eu estava voltando para cá, o dragão me chamou novamente. — Merlin observou o mesmo tom surpreso no rosto de Gaius. — Eu esqueci completamente de lhe contar. O dragão Raswair me chama constantemente, desde o dia em que me contou sobre a Albyon dos tempos antigos, Gaius. E hoje eu atendi a esse chamado. Fui até onde ele estava, aprisionado em uma caverna subterrânea, pelo rei Uther Pendragon.
Gaius estava mortificado, se já não estivesse sentado em seu imponente cadeirão, teria caído duro de susto.
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