O Caminho do Mago
12 Herói (Primeira parte)
Notas iniciais
“O que posso fazer para torná-lo heróico e nobre, príncipe? Que posso fazer para despertar bons sentimentos e magnanimidade em alguém que não se importa com os outros?” Merlin pensava enquanto caminhava de volta a Camelot.
“Vencer torneios de força e destreza? Isso torna alguém heróico? Ofertar grandes tesouros aos outros? Isso torna alguém valoroso e nobre? Ser bom e compassivo com quem não tem nada na vida? Sim, isso o tornaria melhor aos meus olhos.” Merlin teve uma idéia que considerou brilhante: “Pat”.
Foi correndo ao castelo real, e embora fosse tarde, teve a entrada franqueada pelos sentinelas. Foi até aos aposentos reais, mas teve escrúpulos em incomodar o príncipe naquela hora da noite. Ficou ali parado sem coragem de bater na porta de madeira maciça, que protegia a intimidade da realeza. Até que apareceu Gwen. Ela estranhou o aprendiz de mestre Gaius ficar parado em frente aos aposentos do príncipe Arthur.
— Merlin! O que houve? Precisa de algo?
— Oh! Não! Quero dizer sim! Ah... Preciso falar com o príncipe Arthur, então vim correndo até aqui, mas começo a achar que não deveria incomodá-lo a esta hora, pois deve estar dormindo. Ah, esqueci de cumprimentá-la. Boa noite Gwen!
— Calma! Acalme-se! — Gwen sorriu ao observar a agitação de Merlin. — Acho que o príncipe ainda não está dormindo, mas talvez devesse repensar o que tem a dizer a ele. Não é bom incomodar a realeza com tolices. Por que não me conta do que se trata?
— Bem, eu... É uma longa história.
— Venha comigo, ali naquela saleta, poderá sentar-se e me contar o que está acontecendo. — Gwen guiou-o pela mão, como se fosse uma criança.
Merlin ardeu em vergonha e perturbação, pois agora o toque de moças bonitas deixava suas pernas bambas. “Controle-se mago” Merlin pensou intimamente.
Após sentar-se na confortável e luxuosa cadeira, Merlin relaxou e resolveu que poderia confiar naquela moça tão bonita e boazinha. Lembrou-se do aviso de Arthur de que não se envolvesse com ela, pois era pajem de Morgana, e resolveu não vê-la como namorada, mas como uma amiga.
— O príncipe Arthur me disse que... A lenda de Excalibour era fantasia. Acontece que eu sei onde ela está, e gostaria de dizer isso a Arthur.
— Excalibour?
— A espada do herói.
— Sim, eu conheço a lenda. Não passa de folclore. Ela não existe.
— Só que... Hã... Eu sei onde a espada está, mas não posso pegá-la. Somente Arthur Pendragon pode obtê-la. Isso se ele executar um grande feito. Um ato de nobreza e heroísmo. Foi aí que eu tive essa idéia. Pat!
— Você está indo rápido demais. O que Pat tem a ver com isso?
— Pat é o pajem do príncipe Arthur. Ele é tão maltratado que vive triste o tempo inteiro. Eu tenho pena dele, por isso gostaria que o príncipe o libertasse. Isso o tornaria um herói aos meus olhos. Então ele poderia merecer Excalibour.
Gwen estava estupefata. Ela olhou com pena e admiração para aquele rapazinho, que sinceramente acreditava em todas aquelas histórias fantasiosas. Percebeu que teria que usar palavras duras para fazê-lo perceber a verdade. Sentia-se sendo má para uma criança.
— Merlin... Preste atenção no que eu vou lhe falar, pois direi apenas uma vez. Excalibour não existe. Pat está bem do jeito em que vive. O príncipe Arthur não acreditará em nada do que disser a ele, pois sua história é... Fantástica demais. É uma ilusão. Uma mentira.
— Eu... — Merlin ficou de pé e pensou seriamente em completar a frase “... sou um mago”, mas achou que ainda não era hora de arcar com as conseqüências dessa revelação. — Vou para casa. Boa noite Gwen!
— Boa noite, Merlin.
No dia seguinte, Merlin voltou a sua rotina de aprendiz de curandeiro. Sim, por que agora ele havia concordado em aprender a arte de Gaius, enquanto à noite lia seu livro de feitiços. Contudo a lembrança de Excalibour não saía de sua cabeça.
Uma tarde, ele estava apanhando ervas num matagal próximo a Camelot, quando o príncipe Arthur o abordou.
— Como vai, Merlin? Há algum tempo não o vejo. O que foi? A corte real nunca mais adoeceu?
— Penso que sim! Meu mestre Gaius nunca mais me mandou até lá.
— Bom! Embora isso torne Gaius não mais necessário. Ele ficará sem emprego.
— Entretanto, o povo humilde continua doente. O trabalho de meu mestre acaso é menos valioso e necessário, por que cuida da vida de pessoas humildes e sem importância?
— Não, claro que não. Toda a vida é valiosa e importante, mesmo sendo da plebe. Está me testando, Merlin?
— Não, estou apenas jogando conversa fora.
— Não é a primeira vez que me fala em nome dos pobres e oprimidos. Qual foi o motivo da outra vez?
— Pat, seu pajem.
— Sim, e isso quase lhe custou sua vida.
— É. Contudo a situação de Pat não mudou. Ele continua sendo tratado da mesma forma.
— Está me chamando de cruel?
— Não! Embora seja isto que esteja ocorrendo.
— Pois muito bem. O que sugere que eu deva fazer?
Merlin caiu em si. Estivera apenas conversando, sem se preocupar em concatenar idéias ou manipular a situação. Estivera a tanto tempo preocupado com Excalibour, e em transformar Arthur em herói, sem se preocupar com as outras pessoas envolvidas, que se surpreendeu que uma simples conversa chegasse naquele ponto, onde a única coisa que ele precisava fazer era dizer a Arthur...
— Liberte Pat.
— Ahahaha! Deveria saber que me diria isso. E então eu liberto meu pajem, que por sinal, não é meu escravo para ser solto, tendo ele o direito de ir e vir, e eu acabo ficando sem pajem. Acho que esse não seria um bom negócio.
— Arranje outro pajem.
— Não acha que isso levaria ao problema inicial, no qual eu sou visto como o cruel senhor do pobre e oprimido pajem? Não voltaríamos à situação atual, onde você me pede que liberte o próximo pajem?
Merlin pensou rápido, mas não havia solução para aquele argumento. Percebeu que perderia a chance de libertar Pat, se não respondesse ao príncipe naquele exato instante.
— Não haveria problema, se o próximo pajem soubesse cuidar de si mesmo, e fosse alguém a quem o príncipe tivesse alguma consideração.
— Ahahahaha! E quem seria esse?
-... Eu.
Nos próximos dias, Pat foi informado que não era mais o pajem do príncipe, e que era livre para seguir seu caminho, decidindo-se ele por uma longa viajem até terras longínquas em outro continente, onde procuraria a sorte como comerciante ou outra coisa. Seus parcos pertences cabiam em uma trouxa de roupa amarrada em um cajado, que ele amparava em um ombro. O pessoal do reino de Camelot muito lamentou sua partida, queixando-se que o príncipe era um ingrato, pois poderia ter ficado com Pat até a velhice ou morte deste, assim era a tradição, mas Pat estava tranqüilo e otimista com a mudança.
Merlin foi abraçá-lo e desejar-lhe uma feliz viagem. Pat foi caloroso dessa vez, mesmo sem saber que fora Merlin quem conseguira sua liberdade. Saiu a pé de Camelot, com destino à costa, na intenção de pegar um emprego em um barco como marinheiro, e assim viajar para outras terras e reinos distantes. O jovem mago ficou muito feliz por ele, e considerou que Arthur havia sido magnânimo e heróico o suficiente, mesmo que isto tivesse lhe custado sua liberdade. Ele era agora pajem de Arthur, e segundo o costume daqueles tempos, isso seria por toda a vida.
— Quer me dizer novamente como isso aconteceu? — Gaius o inquiriu.
— Pat sofria nas mãos de Arthur. Então, eu...
— Agora chamamos o Príncipe pelo primeiro nome?
— Desculpe-me. O Príncipe Arthur me disse que não gostaria de ser visto como o cruel tirano de seu pajem. Então eu lhe disse que libertasse Pat.
— O pajem não é um escravo para ser libertado.
— Não, mas está vinculado a este serviço pelo resto da vida.
— É uma honra servir a um nobre, e não um castigo.
— Pat sofria.
— Isso era um problema dele.
— Mesmo assim, eu sofria um pouco também, ao perceber sua tristeza.
— E então se ofereceu para sofrer no lugar dele?
— Eu não irei sofrer, o Príncipe Arthur é meu amigo, e me tratará bem.
— Você escolheu isso?
— Sim!
— E onde entra Excalibour nesta história?
— Quem lhe contou sobre a espada?
— Gwen, a pajem de lady Morgana.
— Oras... Não esperava por isso. Ela veio me denunciar a você?
— Ela estava preocupada. Achou que você estava louco ou quase isso. Começo a achar que tem um fundo de verdade nessa história.
— Tudo bem! A espada existe. Está no fundo do lago a leste de Camelot. Eu a vi, mas não posso tocá-la. Está destinada ao Príncipe Arthur Pendragon, mas ele somente poderá tê-la se fizer um ato de heroísmo. Algo grandioso e nobre, como libertar Pat.
— Acredito em você, mas temo que isto não vá funcionar.
— Por que não?
— Por que o ato de heroísmo e sacrifício foi seu, Merlin, e não de Arthur.
O rapazinho refletiu por uns instantes, no qual seus olhos brilharam.
— Mas todos estão felizes, e isso dependeu apenas da palavra do príncipe e... Raios! — Merlin se deu por vencido. Seu plano não funcionara.
Pat chegou à costa e embarcou em uma grande nau movida por muitos remadores. Chegando ele mesmo a executar este serviço em turnos. Antes, porém que chegasse ao seu destino, foram atacados por outra embarcação de reino inimigo, que os aprisionou a todos, levando-os como escravos para terra distante, de língua esquisita. Um de seus companheiros de infortúnio tinha uma religião estranha, com uma crença em um único deus, cujo filho havia morrido crucificado pelos homens comuns, e que ironicamente, esse sacrifício o havia tornado maior e mais poderoso, do que se houvesse dizimado um exército ou subjugado todo um reino. Pat teria muito tempo pela frente, para tentar entender o mistério daquela religião, que enaltecia o amor, o perdão e a mansidão.
Fale com o autor