O Caminho Até Você

1 Parte I: A Garota do Trem


Parte I: A Garota do Trem

O som alto que estava saindo dos fones de ouvidos não conseguia distraí-lo. Naruto Uzumaki, um rapaz loiro e alto — especialmente para um rapaz de dezesseis anos, como ele — olhava para o mapa das estações dentro do trem que estava como passageiro e se sentia incrivelmente perdido.

Não lhe bastava ser novo na escola, ele tinha que ser novo na cidade... no país! Seus pais tinham cismado de voltar para a cidade natal de seus avós, afinal, sua mãe tinha herdado a empresa da família e era onde ela e o marido trabalhariam. Só que para Naruto, um adolescente hiperativo e apegado aos amigos que tinha, aquilo não era tão empolgante.

Seu primeiro dia de aula já estava complicado. Ele não conseguia se achar naquele mapa. Sabia que podia perguntar a alguém, mas... Ele não gostava de perguntar. A consequência era ficar perdido.

Várias pessoas saíram quando o trem parou na estação. Mais uma vez ele se perguntava se não deveria ter saído também. Mas como uma resposta divina, assim que o meio de transporte começou a se mover novamente, uma menina com o uniforme igual ao seu passou por ele. O olhar de Naruto desviou do mapa e a seguiu.

A primeira coisa que chamou a atenção dele foi o cheiro. Ela tinha um perfume de flores, mas não saberia dizer quais. Aquilo fez com que a olhasse, para saber quem tinha tal cheiro... Então o seu cabelo lhe chamou atenção. Era tão escuro que chegava a ter um brilho azulado. Piscou algumas vezes para ter certeza. Mas ela estava apressada para mudar de vagão, tanto que não notou que deixara cair um papel do meio dos livros que levava nos braços.

Naruto se afastou de onde estivera encostado até então e pegou o papel do chão do vagão. Olhou a frente, ela já estava no vagão seguinte. Tirou um dos fones do ouvido enquanto caminhava na direção dela e a chamou:

— Moça! Ei, moça! — Mas é claro que muitas mulheres olharam. — Moça da escola!

Depois do segundo chamamento, a menina olhou para trás parecendo assustada e envergonhada.

— Oi, você deixou isso aqui cair. — Naruto já estava de frente para ela, pois tinha conseguido cobrir a distância em poucos passos apressados.

— Nossa, eu nem tinha visto. Muito obrigada! — Naquele momento, Naruto notou mais duas coisas nela. A primeira era a voz baixa e doce. Sorriu só de a ouvir.

A segunda coisa que notou quase junto a voz foram os olhos. A menina à sua frente tinha olhos tão claro que pareciam perolados. O sorriso congelou e a respiração foi suspensa sem que percebesse. A boca do rapaz secou por alguns segundos. Mas notou que estava fazendo papel de idiota, pois a menina o olhava agora com espanto. Ela tinha perguntado alguma coisa.

— Desculpe, o que? — Ele então tirou o outro fone de ouvido, como que para justificar não ter a ouvido antes.

— Perguntei se você está indo também para a escola Sarutobi. — Como que para justificar o questionamento, Hinata apontou para a blusa do uniforme do rapaz.

Naquele momento, Naruto se sentiu mal arrumado. Estava com a camisa com alguns botões aberta, a gravata estava frouxa e as mangas dobradas. Que tipo de pessoa ele estaria mostrando ser no primeiro dia de aula? Ainda mais com ela!

— Ah, sim! Sou aluno novo. Estou um pouco perdido, será que podia me ajudar? Não sei onde descer.

— Na verdade, é a próxima estação. Vem, vou te mostrar. — Naruto não sabia porque ela estava sendo tão gentil com ele, mas gostou, parecia sincero.

A menina foi até outro mapa que tinha naquele vagão e mostrou a ele a estação que ele deveria descer e, após Naruto dizer qual era a que ele tinha entrado, ela mostrou quantas tinham entre elas.

— Nossa, nem sei como lhe agradecer!

— Você me ajudou, só estou retribuindo, não precisa agradecer — a menina respondeu. Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, o trem parou e as portas se abriram. Ambos se apressaram em sair. — Se quiser, posso lhe mostrar onde é a secretaria quando chegarmos à escola.

— Seria de muita ajuda, mas apenas com uma condição. — Ele sabia que era ridículo dizer que tinha uma condição para ela o ajudar, mas precisava tentar. — Me deixe pagar seu almoço hoje, como agradecimento.

— Não há necessidade. — A menina olhava para os pés agora, como se tomasse cuidado com os passos que dava.

— Eu gostaria muito. Aliás, também gostaria de saber seu nome. Sou Naruto Uzumaki. — Mesmo que estivesse andando, Naruto estendeu a mão para ela.

— Sou Hinata Hyuuga. — Com as bochechas coradas, Hinata, meio desengonçada por estar carregando livros nos braços e estar ao lado de Naruto, também andando, apertou a mão dele. — Será um prazer almoçar com você hoje.

Eles almoçaram não só naquele dia, como em todos os demais. Descobriram, naquele primeiro dia, que estudariam na mesma sala e, no almoço, Hinata apresentou Naruto a seus amigos. Nos dias que se passaram, Naruto foi fazendo outros amigos que também se tornaram de Hinata. A amizade que surgiu entre eles foi instantânea.

Todos os dias eles iam para a escola e voltavam para casa juntos. Hinata, na volta, ficava em uma estação antes da ele, o que facilitava para Naruto saber quando estava chegando em casa. Mas ele se via mesmo ansiando para, na ida, chegar logo ao momento que ela entraria e se sentaria ao seu lado, ou mesmo ficaria em pé junto dele, contando alguma coisa que tinha lhe acontecido durante o dia.

Tinha notado que ela ficara muito tímida no início, mas ao desenvolverem uma amizade, foi se soltando e se tornando uma pessoa divertida e leve. Exceto quando ele a tocava. Se Naruto tocasse em seu pulso para lhe chamar, ou mesmo no braço, Hinata o olhava e ficava com as bochechas coradas. Era tão adorável que ele não resistia e fazia aquilo mais vezes.

Só que para Hinata havia um motivo para tanta timidez e reserva quando sentia o toque de Naruto: seu corpo se acendia. Desde o primeiro dia, quando o viu dentro o trem, quando encarou aqueles lindo olhos azuis, ela sentiu seu interior se iluminar e seu coração acelerar. Quanto mais o conhecia, mais o sentimento inicial se tornava mais sólido, mais concreto: ela ia se apaixonando por ele.

Mas como uma pessoa tímida, nunca dizia nada. Não arriscaria perder a amizade de Naruto, especialmente por ser considerada, por ele, sua melhor amiga. Eles iam ao cinema, ao shopping e a sorveteria juntos. Já tinham saído para patinar, para ficar sentados na praça, no museu — porque Hinata queria muito ver uma exposição especial — e a um show de rock perto da casa dela, que Naruto estava ansioso para ir. Tudo era feito junto, algumas vezes com alguns outros amigos, mas sempre entre os dois.

Por isso, quando, dois anos depois, Naruto contou que os pais estavam querendo ir embora do país novamente, ela se viu ainda mais arrasada do que ficaria. Não tinha aproveitado sua oportunidade, não tinha dito o que sentia e, agora, ele iria embora sem saber. E, pior ainda, estaria perdendo o seu melhor amigo.

Os meses antes da mudança foram os mais divertidos e mais tristes. Tinham passado muito tempo juntos, eles e os amigos. Mas o fantasma do afastamento ainda reinava.

A noite antes da partida, tinham saído apenas os dois para o cinema. Naruto tinha ganhado uma festa surpresa na noite anterior e ele queria aproveitar sua última noite com sua melhor amiga, a pessoa que sempre estivera com ele todo o tempo.

— Ainda não acredito que amanhã já não estará aqui... — ela confessou em tom baixo enquanto eles caminhavam para a estação de trem.

— Não precisamos perder o contato. Temos como nos falarmos. Não quero perder sua amizade, Hina. Por favor. — O olhar de Naruto tornava impossível dizer o contrário a ele.

Como o cinema era perto da casa de Naruto, Hinata era quem voltaria de trem. Por mais que ele tivesse insistido em leva-la para casa, a menina tinha argumentado que ele tinha uma viagem pela frente e não daria tempo. Ainda era cedo, mal tinha anoitecido. Por isso, enquanto esperava o trem chegar, parados frente a frente na estação, Hinata não sabia o que mais dizer.

— Prometa — ele pediu mais uma vez. Seu olhar era quase desesperado. Naruto não podia perder a amizade de Hinata. Era tudo o que ele sabia naquele momento.

— Prometo. Sempre estarei aqui... — ela sussurrou a resposta, mesmo sentindo em seu coração que o afastamento aconteceria em algum momento naquela separação.

Lágrimas escorreram pelo rosto da Hyuuga. Naruto secou rapidamente, fazendo menção de a abraçar, mas Hinata negou com a cabeça. Ele não entendeu a negativa. O trem chegava e ele precisava se despedir, mas ela não queria.

As portas se abriram, não tinham muito tempo. Mas era o suficiente para Hinata, que em um ato de coragem se aproximou dele e colou os lábios dos dois em um beijo rápido. Assim que se afastou, entrou no trem.

Ele não ouviu o que ela disse por trás das portas que se fecharam, estava ainda em choque pela ação da menina. Mas pôde ler seus lábios:

— Adeus. Eu te amo.