O Caminhar
1 Prólogo
Pesadelo. Odiava quando acontecia, principalmente quando era um daqueles impossíveis de determinar se era de fato um devaneio ou um acontecimento real. Acordou ofegante. Grossas gotas de suor agora corriam por seu rosto, sentia-se cansada, sua camisola colava ao corpo e sua cabeça começava a latejar. Uma brisa gélida invadiu o quarto fazendo com que as cortinas se movessem em uma espécie de dança macabra, aquilo lhe causou um medo irracional. Sua respiração pesada foi sua companhia até a janela, fechou-a. O vento parara.
Seus pés descalços caminhavam em meio à confusão de objetos, habitantes constantes do solo. Tropeçou em um deles antes de alcançar o interruptor. A luz não acendeu. Seu coração disparou, bombeando mais sangue para seus músculos, preparando-a para a fuga. Mas fugir de quê? Não sabia, era apenas a resposta natural quando o corpo se sentia em perigo.
“Porque esta droga não acende?” Questionava-se mentalmente. Caminhou até o armário e, tateando, encontrou a lanterna. Ao ligá-la, desejou poder estar de volta ao seu pesadelo de instantes atrás. O feixe fraco de luz iluminou a porta entreaberta. O que ela viu lhe causou um pânico tão perturbador que agora a lanterna fazia companhia àqueles objetos abandonados no chão, descrevendo pequenos círculos, iluminando os quatro cantos do cômodo.
- Quem está aí? – gritava Yuu, esperando que fosse ele.
Apanhou a lanterna novamente e caminhou até a porta do quarto. Abriu-a e apontou a luz para o corredor. Nada. Vazio, como agora de costume. Desceu as escadas mirando a cozinha. Neste momento teve aquela estranha sensação de estar sendo seguida, mas, antes mesmo de apontar a lanterna para trás, ela já sabia que os degraus estavam vazios.
Ainda sonolenta e um pouco nervosa, caminhou até outro interruptor e descobriu que estava de fato sem energia elétrica. Seu corpo pesado se deixou vencer pela gravidade e desabou sobre o sofá próximo. Ainda estava frio.
***
- Yuu, eu... Eu sinto muito.
Era isto que escutava de um telefonema às duas e um da manhã. Seu noivo deveria estar ao seu lado, ainda dormindo. Mas o trabalho o impedia. Agora, a única certeza que ela tinha, era de que ele nunca mais iria voltar.
Yuu chegou ao local do acidente em meio ao desespero e ansiedade. A caminhonete vermelha estava irreconhecível. Ele ainda falava, embora soubesse que não poderia sair daquela situação com vida. Os paramédicos recusavam retirá-lo dos escombros, pois isto certamente o mataria imediatamente. Ela agachou até a porta do carro, apoiou sua mão direita sobre a roda e vislumbrou o rosto de Kenji. Sua pele estava perfurada por inúmeros estilhaços de vidro e ferro, ele agonizava, mas dizia que tudo ficaria bem.
Ela o acompanhou durante quase quatro horas. Ele se foi com a chegada do crepúsculo, suas mãos se soltaram para nunca mais se tocarem novamente.
***
Ela olhava para aquele mesmo sol agora, com o mesmo pesar e acompanhada das mesmas lágrimas de outrora. Levantou e subiu as escadas, sua mente estava completamente vazia, não pensava em nada, quase em uma espécie de transe. Colocou seu robe de seda e desceu. Ela despertou assustada quando girou a maçaneta da porta. Seus cabelos esvoaçavam-se com a mesma brisa de horas atrás. Yuu despertou, respirava o ar puro.
O jardim, que no dia anterior exibia uma saudável grama verde, agora estampava uma cor amarelada. As flores estavam murchas, as casas vizinhas estavam em pedaços, abandonadas. Não havia carros nas garagens, o asfalto estava esburacado e a rua completamente deserta. Ela sentiu um pânico ao deslumbrar aquela atmosfera caótica, mas um pânico ainda maior quando viu que logo à frente, à sua esquerda, havia um único veículo capotado. Uma caminhonete vermelha deveras familiar. Yuu resolveu caminhar até ela. Seus pés descalços não perturbavam o silêncio incomum daquela metrópole, a calmaria destoante ao medo e temor daquela frágil mulher que caminhava agora na imensidão das sombras. Mas ela caminhou, sem perturbar-se com o frio. Apenas, caminhou.
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