O Caminhante

2 Capítulo 1 - Aquele que veio do barro


Numa cabana de peles suspensa por restos de ossos de animais, entrelaçados por cordas feitas com fibra de couro de alces, uma agitação incomum estava se dando. Muito incomum, afinal, normalmente essa cabana era a mais silenciosa. A cabana de Adari, a mulher sonhadora. Uma bela mulher, de pele alva, cabelos grisalhos escuros, quase negros, e olhos verdes como esmeraldas. Era normal encontrá-la deslumbrando o horizonte, enquanto massageava as próprias mãos ou tomava uma xícara de chá ou uma bebida alcoólica quente. Um local calmo, onde raramente se encontrava movimento, muito menos a afobação de hoje.

E essa cabana estivera ainda mais silenciosa, desde que Adari adoeceu.

A mulher havia adoecido desde o desaparecimento do marido. Dário havia saído para caçar alces um dia, como qualquer outro dia, como sempre fazia, porém não voltou no final da tarde, como de costume. Adari esperou ansiosamente por dias, e então semanas, mas não parece que os Deuses tiveram piedade de Dário, engolido pela neve e gelo do inverno.

Uma pequena fogueira estendia-se firme e tímida sobre um tonel de metal, deixando o ambiente agradavelmente morno. Mesmo não estando tão quente, podia-se ver gotas de suor escorrendo pelo lado da cabeça de um homem de estatura mediana, cabelos repicados da cor dos de Adari e olhos castanhos, diferentes dos da irmã. Este a observava, apreensivo, enquanto a mulher respirava com dificuldade.

Adari estava em um estado lamentável. Seus cabelos haviam perdido a cor vívida, ficando pálidos. Seus olhos, antes de um verde vivo e penetrante, que viviam sorrindo, agora estavam cansados e sem ânimo, como se dissessem que a vida logo abandonaria aquele corpo, tão amado corpo pelos aldeões.

— Aaron... — Chamou Adari, com a voz rouca e cansada.

O homem não esperou muito, e logo sentou-se ao seu lado, na cama baixa de madeira de pinho. Cobertas encobriam o corpo da moça, que estava grávida. Sim, um enorme volume, como uma pequena colina, estendia-se no lençol. Ela iria ter um bebê logo. Mas Aaron temia que ela estivesse fraca demais para dar a luz, e que se perdesse ela e o bebê.

— Estou aqui, irmã... — Disse ele, segurando sua mão, que tremia. Estava um pouco fria, e Aaron a esfregava para esquentá-la.

— Onde está a curandeira? — A mulher fez uma expressão de dor, e curvou as costas, gemendo, enquanto tocava a própria barriga. — Chame a anciã... Está na hora!

O homem ficou atônito. Encarou a irmã pasmo, sem proferir nenhuma palavra, por alguns instantes. Logo a morena voltou a sentir a dor das contrações de seu útero, e fuzilou o homem com os olhos verdes, que foram preenchidos com alguma vida novamente.

— VÁ! — Ordenou, e sem mais distrações, Aaron correu, saindo da cabana, em direção à caverna da anciã.

Na entrada, dois chifres de alce demarcavam a caverna da anciã. Na escuridão, apenas o brilho de uma chama trêmula separava a estadia da mesma do breu do interior de sua casa. Apetrechos, medicinas, plantas e ervas guardadas em potes revestidos com pele de alce sobre prateleiras que faziam parte das paredes da própria caverna, como se tivesse sido moldada especialmente para Maali, a mais velha de todos.

Ninguém sabia quantos anos tinha, mas tampouco ninguém se importava em perguntar. Tudo o que sabiam é que não tem uma pessoa na aldeia que não a conheça, nem que não tenha tido a vida influenciada por ela de alguma maneira; e agora mais uma vida seria trazida ao mundo por ela.

A mulher idosa se esquentava ao fogo, enquanto batia algumas ervas em uma tigela de madeira, fazendo uma mistura, provavelmente para um chá. Aaron, ofegante, foi até a anciã de cabelos grisalhos e olhos azuis claros como o gelo do exterior. As rugas do rosto da idosa se espremeram em um sorriso cálido, mostrando os dentes fortes e brancos.

— Ora, o que me dá o prazer de sua visita, querido? — Disse amistosa, como sempre.

— O... O bebê... Adari... — Falava, entre ofegos. — Está... Na hora...

— Oh sim, oh sim! Estava ansiosa por esse momento, os Deuses me deram ótimas expectativas! — A anciã sorriu, levantando-se agilmente, o que poderia aparentar estranho por sua aparência velha e frágil, mas quem a conhecia sabia o quanto era enérgica.

— Ótimas... Expectativas? — Aaron não pode deixar um sorriso largo encobrir-lhe a face. — Então quer dizer que... Adari...

Adivinhando os pensamentos do rapaz, Maali encarou-o, deixando uma expressão séria engolir o sorriso.

— Não foi isso o que eu quis dizer. — Disse, virando-se e voltando a caminhar, enquanto suspendia a bengala meio torta, na qual em seu topo jazia uma safira grande, que reluzia, assim como o colar da anciã, que também obtinha uma safira, voltando a caminhar em direção à cabana de peles.

Entraram na cabana, e encontraram Adari se contorcendo entre os lençóis. Suava, mesmo com o frio, e tremia. A anciã apoiou a bengala na parede de couro da cabana rapidamente, e foi a seu socorro. Tocou-lhe a testa. Seu suor estava frio, sua respiração estava rápida. Os lençóis que a encobriam estavam úmidos na base, sim, a bolsa já havia estourado. Maali olhou para Aaron, que estava apavorado.

— Rápido! Derreta neve recém caída numa bacia de barro e pegue muitas colchas! O bebê está vindo!

Aaron ficou meio confuso no início, estava nervoso e ansioso, apreensivo e receoso, era normal que estivesse fora de sintonia com o aqui e o agora. Maali gritou com ele, que correu para prontamente fazer o que ela dissera. Pegou a neve do teto da cabana com a bacia de barro e colocou no fogo para derreter, e logo após foi pegando várias colchas e toalhas, a fim de enrolar a nova vida.

Maali deu a mão à Adari, e ficou dando forçar a ela, esfregando sua mão e proferindo palavras indecifráveis, como às vezes fazia ao preparar remédios, como se rezasse aos Deuses para que tudo aquilo desse certo.

Logo a natureza encarregou-se do resto do trabalho. Adari gritava, com uma voz rouca que havia sido guardada por bastante tempo, enquanto sentia que a cabeça do neném saía por entre suas pernas, envolvidas em toalhas e colchas. Assim continuou, até que Maali conseguia ver metade do corpo do bebê.

— Isso mesmo Ada, está quase lá! — Disse, enquanto apertava a mão de Adari, ansiosa para ver o sexo do bebê.

Logo Adari fez força, retirando-a de uma reserva que só os Deuses sabem de onde ela tirou, pois estava fraca e doente. E com essa força, o bebê surgiu por completo, apenas ligado à mãe pelo cordão umbilical. Maali cortou-o, envolvendo o bebê em colchas. Ele se encolhia, enquanto fazia caretas. Provavelmente não gostava do frio. Logo começou a chorar, e o choro da criança ecoou pela cabana, enquanto Adari, exausta, cujas forças tinham totalmente se esvaído. Um lindo menino.

Um menino saudável, perfeito, lindo. Com os cabelos muito escuros, assim como os da mãe, porém seus olhinhos ainda não tinham se aberto. Chorava nos braços de Maali, que sorria; também podia-se ver um sorriso no rosto cansado e exaurido de Adari. Maali banhou-o, limpando o sangue de seu pequeno corpo. O bebê parece que não gostou do banho, e jogava um pouco d’água para os lados da bacia de barro, enquanto reclamava, talvez do frio, talvez porque estivesse com fome. Logo, o bebê estava nas mãos da mãe, e Adari sorria. Sorria, sentia seu coração preenchido de alegria por ver seu filho, um lindo garotinho, mesmo chorando, lá, em seus braços. Abraçou-o contra o peito e começou a cantar uma canção antiga, que seus pais e avós cantavam a ela quando criança.

“Além da neve, além do frio...

Brilha talvez o mais lindo rio...

Dentre os raios de sol que se expandem através das planícies

Sentimos em nossos corações o calor do amor.

Não chores, pequenino

O Sol logo brilhará, e então o frio passará.

Mamãe está aqui.”

O choro cessou. O bebê agora tinha aberto os olhinhos, finalmente. Mostrando seus olhos dourados como o mais puro âmbar. Os olhos de seu desaparecido pai.

Adari não pode conter lágrimas de alegria e emoção, e olhou para Maali com um sorriso. Logo estava dando de mamar ao bebê.

— Veja Maali... É meu filho... — Disse, chorando. — Meu filho... Os olhos do pai...

— Sim, são realmente lindos olhos... — Disse, observando o garotinho, com um sorriso amistoso. — Como vai chamá-lo?

Adari parou pra pensar um pouco, e sorriu. Encarou o pote de barro onde tinham banhado o bebê, e o nome veio à sua cabeça quase que instantaneamente. Olhou seu filho uma última vez e disse:

— Adam. Se chamará Adam...

E então, com a última frase soando como um sussurro, seus olhos foram aos poucos perdendo a cor. Lágrimas ainda escorriam dos mesmos, enquanto fechavam delicadamente. Ainda abraçava a criança em seu peito, onde dele tirava seu primeiro alimento. Logo seu coração parou de pulsar, e Maali, com um pesar no peito, checou seu pulso.

Nenhuma pulsação.

“Adam... Aquele que veio do barro.”

Notas finais
Gente, sem mentira, eu chorei escrevendo esse cap ç_ç mas é tão triste, tãão triste! T-T Espero que tenham gostado dos nomes dos personagens, fiquei feito louca pesquisando pra achar nomes legais com significados que combinassem =3

Por favor, não esqueçam das reviews! >.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.