O Calafrio da Mitologia
2 Capítulo 2
Encontrar o corpo a chocou. Não esperava ver aquele tipo de coisa em Nova Roma, mas talvez sua existência explicasse aquela aventura secreta de Mordred, talvez o rapaz estivesse em uma missão solo — que não deveria ser solo — para protegê-los. O idiota.
Abaixou-se junto ao corpo e examinou-o. Pelo estado estimava que a menina fora morta havia poucas horas, ocupou-se em verificar o ferimento no pescoço. O que a matara? Um corte? Um tiro ou algo mais sinistro?
E que raio de vestido era aquele?
Após examinar o corpo ergueu-se e foi ver o que os papéis no quadro diziam. Estranhava a presença do charuto, mas imaginava que devia haver um motivo para ele estar lá. Ouviu o som seco do chute de Shaka e virou-se para o rapaz.
— O que está fazendo?
Ergueu uma sobrancelha
O corpo, ela percebeu, estava com algo mexendo dentro da boca. Ao abrir, viu que era uma barata, que saiu correndo e se escondeu em baixo do armário. Dentro do vestido da mulher, logo ao abrir o zipper, havia uma outra folha de papel com uma tachinha enfiada na carne dela.
Eram três papéis. Um tinha desenhado uma roda, o outro tinha desenhado um olho e o terceiro, tirado da mulher, tinha uma folha de louro.
Shakuras chutou de novo, ouvindo o som de parede maciça mais uma vez.
— ... Ouvindo. Tá ouvindo? -- E ele bateu de novo na parede. O som era muito abafado. A propósito, abafado demais. Ela não ouvia som nenhum de lugar algum. Nada dos barulhos noturnos de Nova Roma.
— Não, na verdade... Mas deveria. É estranho.
Comentou aproximando-se do rapaz e mostrando o que havia encontrado
— Um deles estava no corpo os outros dois no quadro. Acho que Mordred está em algum tipo de missão para o acampamento.
Shakuras se voltou de novo para o corpo involuntariamente quando o assunto ele se tornou. Arqueou as sobrancelhas com nojo. Como ela, ele via que a mulher tinha recebido um tiro na lateral da garganta. O tipo que não matava imediatamente, mas que fazia sangrar como uma porca até a morte. E não havia tanto sangue assim. O furo, alias, tinha sido feito quando ela estava deitada, naquela mesma posição, com uma bala abaixo do pescoço, enfiada no chão.
Depois olhou para o quadro.
— Roda, olho, folha de louro. O que isso quer dizer?
Deu dois passos para trás, encostando-se onde era a porta. Antes de tocar na parede, se bateu com algo que não estava lá antes. No susto, pulou para longe e viu um estranho projetor de imagens, daquele que recebe fotos em forma de filme. Shakuras ergueu uma sobrancelha.
— ... sinistro. Mas isso quer dizer que tem um filme aqui em algum lugar.
— Eu não faço ideia e por que alguém atiraria para não matar em um lugar tão específico? E o charuto? Por que foi aceso?
Tinham perguntas demais e poucas respostas. Talvez o projetor trouxesse alguma luz sobre o assunto.
— Vamos procurar.
E começou a rodar pelo local atrás do rolo de filme.
Os únicos lugares disponíveis eram as gavetas. A tábua de carne foi olhada e se foi usada, foi bem pouco. O aquário, não queriam revirar porque Shakuras ouvia os peixes falando que estavam com dor de barriga, e não era bom incomodá-los mais. Nas gavetas, Nova encontrou algo que parecia ser uma pasta. Na pasta tinha uma ficha dos peixes em questão. Era uma raríssima japonesa raça de estimação de Netuno, que ele tinha tirado das águas japonesas antes de serem exploradas por serem capaz de comer qualquer coisa, mas nem sempre digerí-las.
Shakuras mexia na máquina, tentando descobrir como que ligava ela.
— Shaka...
Chamou com o cenho franzido.
— Acho que já sei aonde nosso filme — ou alguma coisa — foi parar. Você disse que os peixes estão com dor de barriga, certo?
Mostra as fichas para o rapaz.
— Consegue perguntar a eles o que comeram? Se conseguirem descrever ao menos saberemos se foi o filme.
Shakuras ficou confuso mas não perguntou. Começou a fazer sons de bolhas engraçados que eram sempre constrangedores, mas ele não parecia constranger-se com isso. Fazia tranquilamente, e era tão bobo que fazia ele parecer um menino na frente de Nova. Quando acabou, puxou o cabelo para atrás da orelha, tirando o chapéu.
— Disse que tinha gosto de sangue e que jogaram aqui, ele achou que era um pedaço de carne.
Tinha um corpo bem ali e queria rir achando bonitinho a comunicação de Shaka com os peixes. Desviou o olhar e mordeu o lábio inferior tentando ficar séria.
— Gosto de sangue? Não deve ter sigo o filme então.
Voltou a ficar séria e olhou para o corpo da menina
— Isso tudo é tão estranho.... E Aonde foi Mordred? Ele entrou aqui, nós vimos, como desapareceu?
Shakuras continuou quieto, arqueando as sobrancelhas. Olhou para os livros e depois para os peixes de novo. Para o corpo e para o sangue por fim. Rangeu os dentes de nojo.
— ... alguém derrubou ela, asfixiou ou envenenou. Desceu sangue de menos, já não corria pelo corpo. O furo foi para tirar algo da garganta. Algo melado de sangue... que deram para os peixes... — Suspirou. — Não estamos num lugar real. Nada aqui faz sentido. É... um tantibus. Uma espécie de senha que deve ser feita dentro do pesadelo de uma pessoa, com coisas extremamente pessoais. Provavelmente estamos num tantibus de Mordred. Isso tudo deve fazer muito sentido para ele.
Nova olhou para o rapaz impressionada e então abriu um sorriso.
— Acho que Mordred não é o gênio do grupo, afinal...
Comentou rindo e beijou a bochecha de Shaka.
— Muito bom! Como encontramos Mordred aqui? "E por que isso faz sentido para Mordred? Quem é esta garota? O que havia dentro dela? Por que dar aos peixes e esse vestido? E o charuto?" — Pensou.
Shakuras tentava esconder o orgulho próprio que ela acabou de causar com um beijinho e uma frase, expressando-se com apenas um sorriso contido. Olhou para o charuto lendo parte de suas conjecturações.
— Tudo são símbolos. Em algum momento, um retroprojetor significou algo e significa o mesmo agora. O charuto aceso provavelmente foi usado em um momento para significar algo...
Tudo sobre charuto e retroprojetores que Nova conseguia se lembrar era que Mordred teve parte de sua infância com sua mãe adotiva, que fumava charutos. Uma vez ele levou ela num cinema e ligou o retroprojetor. Ela assistia um filme enquanto ele ficou acidentalmente trancado na sala de projeção. Um homem o achou lá dentro e tentou surrá-lo, mas ele escreveu na lente SOS, já que a sala de projeção era a prova de som. Quando ela entrou na sala, ele correu até ela, pegou na mochila dela uma arma e atirou contra o homem no peito várias vezes, e então correram para longe enquanto os créditos do filme passava.
— Eu... Me lembro disso. Quer dizer... Parte disso. O projetor, o charuto, sei o que são... E as paredes tão grossas... Deve ter alguma sala aqui na qual Mordred está trancado.
Shaka negou com a cabeça.
— Na-na-não. Ele está aqui, conosco, resolvendo o problema com muita facilidade. Ou já resolveu e já foi. Esse dilema foi feito para ele resolver, mas entramos enquanto ele estava, por isso estamos no dilema dele. Temos que resolver como ele resolveria.
— Isso é um teste para Mordred?
Coça a cabeça. Não era exatamente burra, só não tinha um intelecto tão superior quanto ao do rapaz.
— Precisamos descobrir o que tiraram do corpo da moça, então.
Shakuras, quase certo de que era o que era certo a se fazer, apontou para o peixe, e em seguida para a tábua de carne.
— Você quer que...
Olhou penalizada para o peixinho e então para Shaka com cara de " tem certeza? Ó.Ò"
Shaka suspirou enquanto olhava para a tábua de carne. Provavelmente aquilo era assassinato para ele, mas ele pegou o peixe do aquário sem dizer nenhuma palavra, e o colocou em cima da tábua. Certamente ele estava ouvindo o peixe implorar por sua vida, e mesmo assim pegou a faca com a mão esquerda, respirando fundo para tomar coragem.
Filhos de Netuno se davam bem com criaturas marinhas eram ouvidos e respeitados por ela. Não conseguia imaginar o quão ruim aquilo devia ser para Shaka, mas não o deixaria fazer sozinho, afinal... Não era real, nada daquilo.
Com um suspiro, posicionou-se atrás do rapaz. Os corpos levemente colados. Segurou a mão na qual Shaka mantinha a faca e sussurrou.
— Faremos juntos...
Shaka arregalou os olhos com o contato surpresa, mas logo cerrou-os novamente, cerrando também os dentes. Sentia que ia começar a lacrimejar, então desceu logo a faca de uma vez com Nova a ajudá-lo. Fungou fundo antes de abrir os olhos. Como ambos podiam ver, tinham cortado fundo o suficiente para mostrar a chave para o lado de fora.
Aquilo lembrou algo sobre Mordred. Algo como uma memória que a sala estava forçando contra ela. Talvez devesse ser natural para Mordred pensar nisso.
Mordred uma vez tinha matado uma harpia logo depois de matar sua irmã, para que nenhuma sofresse pela outra. Ao mesmo tempo, Shakuras olhou para o peixe boquiaberto.
— ... Nova, o Borol está tranquilamente pedindo para ser cortado como o irmão.
Aquela fora uma das coisas mais desagradáveis que já fizera e não queria ter de repetir, mas entendia agora.
— Você lembra? Das Harpias... É como Mordred pensa. Precisamos fazer é o que ele faria.
Shakuras arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos, incrédulo.
— ... pra que matar o outro peixe? Já temos a chave.
E revoltado, enfiou a chave na gaveta. Dela, arrancou uma caixinha com duas fotos em filme.
— Viu? Não precisamos matar o peixe, deixa o peixe ai.
— Se não o matarmos, ele sofrerá aqui sozinho. É isso o que quer?
Perguntou duramente.
— Você disse que Mordred faria isso, então precisamos. Eu farei, apenas... Não olhe.
Shakuras resmungou violentamente sobre algo, mas preferiu não compartilhar com ela. Antes que ela pudesse cortar o peixe, o retroprojetor ligou e Shaka colocou uma das fotos. Ela ainda estava respirando fundo para se acostumar com o segundo assassinato, pois sentia nas suas costas Shakuras a ouvir o que o peixe dizia. Ele colocou a segunda fita, e então ela cortou.
Nada aconteceu. E não tinha nada de interessante no peixe. Ela se virou, então para trás.
Sua espinha gelou, um frio preencheu sua barriga. No lugar do corpo da mulher deitada tinha uma poça vazia de sangue, sem dona. A mulher tinha desaparecido e Shaka, de costas, estava alheio ao acontecimento. Nova pensou em avisá-lo, mas então enxergou onde ela estava. Estava em baixo da mesa do retroprojetor, encolhida. Seus olhos estavam brilhando para ela com selvageria contida. Na mão ela tinha um revólver apontado para a barriga de Shaka.
Shakuras continuava olhando para o retroprojetor, mexendo nele inocentemente.
Matar o segundo peixinho foi tão desagradável quanto matar o primeiro e desejou que Mordred fosse menos fúnebre, mas o que se havia de fazer? Ele era, afinal, filho de Plutão.
Virou-se a fim de se livrar da cena de seu assassinato e sentiu um grito ficar preso em sua garganta. O corpo desaparecera. Voltou-se para avisar ao rapaz mexendo no retroprojetor e o coração parou ao ver a garota. A cena que nunca vira reproduzira-se em sua mente, o pequeno Mordred com a arma na mão olhando assustado para o homem que o atacara.
Mas aquele não era um homem qualquer que seria morto, era Shaka e a perspectiva de vê-lo em dor era-lhe tão terrível que antes que pudesse se conter colocou-se entre ele e a mocinha com a arma. O que deveria fazer? Conversar com ela? Será que a escutaria? Era um corpo, afinal.
— Hey... Está tudo bem, ninguém irá machucá-la.
Tentou.
O movimento foi brusco o suficiente para invocar o olhar mais assustado e bestial que uma mulher encolhida poderia ter. O cão foi puxado para trás pelo polegar dela. Inesperada, impetuosa e inexpressivamente puxou o gatilho. Nova conseguiu ouvir o som do tiro antes de sentir sua carne perfurada pela bala. Ela caiu no chão, sangrando. Shakuras continuou mexendo no retroprojetor enquanto Nova cuspia sangue, sem ter dado nem mesmo um olhar para ela. A moça pegou a faca e esfaqueou enquanto atirava repetidas vezes, até a consciência de Nova evanescer.
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