O Cajado Da Primavera
9 Sou engolida por uma parede
Notas iniciais

Me despedi de Will, e fui para minha casa com Snow, ele se ofereceu para ajudar a bagunça, mas não quis aceitar, afinal ele já tinha me ajudado o bastante. Arrumei a coisas caídas e quebradas que a dracaenae havia derrubado, pelos deuses, aquelas duas… “pernas” de cobras faziam um estrago legal por onde passavam. No meu quarto as coisas ficavam um pouco piores, estava tudo revirado, sem contar que estava repleto de cacos de vidros, da janela que havia sido quebrada, eu preciso me preparar mais… O primeiro monstro que me aparece quase me mata… Grande heroína você é ein Susan… Enfim, depois de arrumar todo o meu quarto resolvi tomar um banho, bem gelado, essa era a minha forma de relaxar, a água gelada parecia um analgésico enquanto escorria pelo meu corpo, os músculos doloridos iam melhorando, não quis molhar minha mãe, tive medo de tirar o remédio… Após isso me olhei no espelho, é, eu estava um pouco melhor do que há minutos atrás, vesti uma camiseta de manga comprida azul e um short capri jeans, deixei meu cabelo solto e desci para a sala.
Quando desci meu pai havia acabado de chegar, ele olhou para minha mãe enfaixada e depois para meu rosto ainda marcado dos arranhões e soltou sua pasta no chão.
--- Susan! --- Exclamou ele preocupado vindo até mim. --- Você está bem? O que aconteceu?
Antes que eu pudesse responder ele viu no canto os cacos das coisas quebradas e do vidro… E olhou novamente pra mim.
--- O que aconteceu aqui? --- Perguntou ele segurando minha mão enfaixada.
--- Pai… Pode ficar tranquilo… Foi somente um… --- Me interrompi por alguns segundos. É meio difícil falar pra seu pai que foi “só um monstro”, porque só de ser um “monstro” já deixa de ser algo comum e algo inofensivo, mas meu pai sabia que em algum momento algum monstro iria me perseguir, é normal para semideuses serem perseguidos, poucos de nós realmente sobrevivem por muito tempo. --- Monstro. --- Mas logo acrescentei rapidamente tentando melhorar a conversa. --- Mas ele já foi destruído, não precisa mais se preocupar, eu estou bem. Will me ajudou.
Ele olhou dentro dos meus olhos, eu vi a preocupação dele estampada naquele olhar, apertou minha mão ternamente e me abraçou.
--- Está tudo bem pai… --- Disse eu devolvendo o seu abraço. --- Não precisa se preocupar.
--- Me desculpe, eu… Devia estar aqui… Pra te proteger. --- Disse ele ainda me abraçando.
Eu me afastei e olhei pra ele com um sorriso e disse.
--- Você sempre esteve aqui por mim.
Ele devolveu meu sorriso e pigarreou.
--- Então… Parece que você arranjou um novo “super-herói” --- Falou ele, esse sim era meu pai, sempre achando um jeito de me fazer rir, ou nesse caso, ficar sem graça.
Eu ri e respondi.
--- Semideuses, temos que nos ajudar certo?
--- Arram… --- Respondeu ele cruzando os braços, obviamente essa resposta não convencia ele. --- Que tal sairmos? Vamos comer algum sanduíche por aí!
--- O.K, eu estou morrendo de fome.
Conseguimos mudar o rumo da conversa e fomos jantar, quando chegamos assistimos televisão até cairmos no sono… No meio da noite acordei desliguei a TV e cobri meu pai, que estava deitado no sofá, subi para o meu quarto e Snow me seguia sonolentamente. Ao chegar ao meu quarto me dei conta de que me esqueci de relembrar meu pai que eu estava sem janela, o vento frio entrava e rodopiava pelo quarto, estremeceria qualquer um, menos a mim. Precisava tampar aquele buraco, colocar um pano? Não… Acho que eu posso, fazer uma temporária. Aproximei-me da janela e ergui minhas mãos, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, algo chamou minha atenção, a janela de Will, a lâmpada estava acessa… Estranho, era madrugada. Olhei atentamente e vi que ele parecia estar conversando com alguém, a princípio vi apenas ele, mas depois olhei atentamente e uma mulher passou andando de um lado para o outro, graciosamente. Espera o que uma mulher estaria fazendo no quarto de Will à essa hora?! Senti um peso na consciência muito grande por estar bisbilhotando, mas foi tarde de mais para desviar a atenção, a mulher havia se virado pra mim e me encarava com uma expressão séria. Corri para o lado fora das vistas da janela, e me encostei na parede, sabendo que aquilo era uma atitude inútil, já que a mulher já havia me visto. Então no escuro da parede comecei a sentir algo me… Puxar? A parede estava e engolindo?! Mal deu tempo de entrar em desespero, Snow tentou me alcançar, mas tudo ficou escuro e a escuridão tomou conta de mim por alguns segundos, então cai no chão, saindo da parede. Tudo que eu consegui ver a principio foram… Pés? Então levantei o olhar e alguém veio me ajudar.
--- Você precisava mesmo fazer isso com minha vizinha?! --- Perguntou Will um pouco zangado à mulher.
Olhei para o local onde eu estava, era provavelmente o quarto de Will, estava bagunçado e a decoração era de cores escuras, a cama estava com os lençóis desarrumados, havia uma escrivaninha cheia de papeis e livros espalhados, as cortinas era pretas e havia um guarda-roupa e um armário, algumas roupas estavam espalhadas pelo chão, que Will tentava disfarçadamente empurrar para debaixo da cama, e em pé de braços cruzadas e expressão um pouco zangada, mas solene estava uma mulher. Vestia um longo vestido verde escuro, detalhado com flores de pérolas negras seu cabelo castanho escuro ondulado e longo caiam sobre seu ombro graciosamente e se espalhavam, seus olhos eram extraordinariamente verdes, mas se você os olhasse por muito tempo ele podia variar e mudar para cor de mel. Finalmente ela falou e se aproximou de mim segurando meu queixo com uma das mãos e me analisando.
--- Suas vizinhas são sempre semideusas que adoram ouvir as conversas dos outros? --- Ela me soltou, mas continuou me olhando.
--- Eu tenho certeza que ela não estava fazendo isso, poderia deixa-la em paz, mãe.
Mãe?! Quer dizer… Aquela era… Perséfone?! Bom, realmente, eles têm os mesmos olhos. Oh, me dei conta de que ela estava certa, e Will não sabia que eu realmente estava os bisbilhotando. Perséfone levantou as sobrancelhas esperando que eu falasse.
--- Er… Eu só estava indo dormir. --- Engoli a seco. --- E dando um jeito na minha janela.
--- Me desculpe Susan. --- Disse Will. --- Eu e minha mãe estávamos resolvendo um assunto. Acho que você pode voltar para sua casa. Mãe, pode transportá-las pelas sombras de volta?
Perséfone posicionou sua mão sobre o queixo, provavelmente nem escutou o que o filho dela disse, sua expressão se suavizou um pouco, mas suas próximas palavras nem foram tão gentis assim.
--- Uma filha de… Quione --- Falou ela com um pouco de desgosto. --- Odeio admitir, mas acho que ela pode ser útil afinal.
--- Não vou envolvê-la nisso! --- Disse Will a ela.
--- Vocês dois podem parar de falar sobre mim como se eu não estivesse aqui? --- Interrompi os dois.
Os dois olharam pra mim.
--- Em quê exatamente eu posso ser útil --- Falei me direcionando para Perséfone e depois para Will. --- Mas aparentemente não posso estar envolvida?
Perséfone abriu os braços, como se esperasse que eu notasse que havia algo de errado. Olhei pra ela com uma expressão confusa, o que quer que ela queira que eu descobrisse, não estava dando certo. Will então suspirou e falou.
--- O cajado. Lembra-se do sonho que eu lhe contei? --- Disse ele.
Oh, é mesmo, Will havia me dito que vinha tendo sonhos que o cajado de sua mãe desaparecia. Então pelo visto tudo isso era verdade.
--- Ah, ele desapareceu. --- Falei.
--- Não! --- Disse Perséfone quase com um grito. Mas ela mesmo se repreendeu e se acalmou. --- Ele foi roubado… --- Sua expressão ficou de furiosa para triste, obviamente aquele cajado era muito importante.
--- Desculpe. --- Disse eu. --- Mas como eu posso ajudar? --- Perguntei confusa.
--- Minha mãe desconfia que quem roubou seu cajado foi Despina. --- Prosseguiu Will. --- Sua irmã que sempre teve inveja dela, pois… Digamos que Deméter puxa saco de minha mãe, e por isso Despina se especializou em congelar lagos e plantas.
--- E você vai tentar pegá-lo de volta? --- Perguntei.
--- É preciso. --- Interveio Perséfone. --- Sem o meu cajado, a primavera acabará, e para este mundo permanecer em equilíbrio precisamos de todas as estações! Sem contar que Despina pode tentar congelar sabe se mais o quê!
Me pareceu um pouco cômico eu, uma filha da deusa do gelo e das neves, ser convidada (pelo menos assim eu acho) para uma missão que impedirá o mundo de ser congelado. Claro, não quero que isso aconteça, mas é uma observação um tanto engraçada. Will colocou a mão em meu ombro.
--- Não, definitivamente eu posso dar um jeito, posso encontrar outros irmãos para irem comigo, vamos mãe, leve-a para o quarto dela. --- Disse ele.
--- Não. --- O interrompi. --- Se… Eu posso ajudar. Eu vou!
Os olhos de Perséfone brilharam e os cantos de seus lábios se curvaram em um sorriso discreto.
--- Susan! --- Exclamou Will. --- É perigoso!
--- Claro que sei disso. --- Respondi o encarando. --- Mas se eu posso ajudar em algo que pode afetar o mundo inteiro, eu vou!
--- Você não é uma super-heroína. --- Falou ele sarcasticamente.
--- E você não decide as coisas por mim, foi ideia dela --- Disse me virando para a deusa que estava presente --- então devo responder se quero ir ou não à ela. E sim, eu vou.
Perséfone deu uma risada e se sentou na cama.
--- Gostei da garota, sabe ter boas escolhas. --- Ela olhou de cara feia para Will. --- Ao contrário de certas pessoas.
Will colocou uma mão no rosto, com uma expressão frustrada e murmurou algo como “mulheres…”. Perséfone levantou-se arrumando o vestido, pelos deuses, eram realmente verdade, ela era linda, não é a toa que tantos deuses se apaixonaram por ela, nunca havia visto Afrodite, mas se Afrodite era mais bonita que ela, nem conseguia imaginar como.
--- Manterei contato a qualquer momento para lhes informar o possível paradeiro de Despina. --- Falou ela para mim e para Will, mas depois voltou-se para mim. --- E Susan… Sua mãe…--- Sua expressão era de compaixão. --- Ela apenas tem uma personalidade um tanto… Forte. Mas tenho certeza de que. --- Perséfone mesma se interrompeu, colocando os dedos na testa, como se quisesse afastar um pensamento. --- Ah, acho melhor todos irmos descansar, os próximos dias serão difíceis, e vocês precisaram estar preparados. Despina não será a única inimiga.
Mas eu queria saber o que ela queria dizer! Tem certeza de que? De que Despina se importa comigo? Que me ama? Mas obviamente Perséfone não falaria mais nada, ela se aproximou de Will e lhe deu um beijo terno em sua testa.
--- Boa Noite querido… --- Disse quase como um sussurro. Will olhou pra ela, mesmo discordando de tudo ele sorriu afetuosamente para ela.
Depois disso as sombras me engoliram novamente e eu estava de volta ao meu quarto. Olhei para janela, Perséfone me olhou e acenou brevemente, apagando a luz do quarto de Will. Fiquei parada alguns instantes, deixando o vento frio entrar pelo quarto, então toquei no parapeito da janela e encarei a visão lá fora, pouco a pouco ia se tornando fosca, e no lugar do buraco da minha janela, agora havia uma extensa camada de gelo, quase transparente, coloquei minha mão sobre ele… Então senti algo no meu pé, Snow lambia meus pés e eu o peguei no colo. Fui para minha cama envolvida nas últimas cenas que vi. Um beijo carinhoso entre Mãe… e filho. Com isso adormeci, mas acho que podia sentir pequenos flocos de neve caindo sobre mim, me embalando ao adormecer.
Fale com o autor