O Cair das Folhas
2 Capítulo 2: Amigos
Notas iniciais
Algum tempo depois, escutei o conhecido som metálico das correntes, correntes que eu já deveria ter quebrado, porém, por alguma razão, eu não conseguia usar minha magia de amplificação de força. Rido não disse nada, apenas emitiu um gemido que eu conhecia, sede.
Tateando até ele, realizei o nosso processo de transferência. Ele ficava constrangido, coisa que me envergonhava também. De certa forma, parecia que eu estava abusando dele, tive que afastar esses pensamentos, pois de nada adiantariam no momento. De i a ele o pão, dessa vez, ele comeu menos ainda.
–Uma pergunta, por que você não usa magia para fugir daqui? — Eu estava bastante curioso sobre isso.
–Acho que você ainda não notou – Ele mexeu os braços rangendo as correntes – Mas, além dessa servir para nos prender aqui, ela também cria um vácuo mágico.
–... — Como não percebi isso? Já estou a um tempo aqui, deveria ter notado – Será que tem alguma forma de escaparmos?
–Eu já tentei, duas vezes, mas aquela garota tem olhos em tudo e, depois disso, ela me prendeu nessa cama – Disse baixinho.
–Verdade, também existem câmeras nesta sala – Lembrei.
–Não só câmeras pela casa, ela também invoca pequenos demônios – A rede de informações dela era muito vasta.
–Se trabalharmos juntos, talvez tenhamos uma chance, você não quer ser livre? — Argumentei, eu precisava de qualquer tipo de ajuda naquele momento.
–Eu quero, mas... Não consigo... — Choramingou, rangendo as correntes mais uma vez.
–Fique parado, deixe-me verificar – Apoiei-me na cama e comecei a tateá-lo.
Com as mãos, pouco a pouco, verifiquei a situação dele. Primeiro, removi uma venda de seus olhos que eu não havia notado antes e a guardei em um dos meus bolsos. Depois, a mordaça, ela estava afivelada em sua nuca, demorei um pouco para conseguir removê-la. Pouco a baixo, em seu pescoço, havia uma coleira, ela não tinha nenhuma fivela e eu não fazia ideia de como fora parar ali, tão pouco consegui removê-la.
A partir dai, as coisas eram mais difíceis. Na altura de seu abdômen, havia um emaranhado de cordas e nós que prendiam seus braços na parte de baixado da cama, sem contar nas correntes que prendiam suas mãos uma na outra, apenas dessa não ser muito apertada, não consegui tirar de seus pulsos.
Enquanto eu retirava os nós, preocupava-me com as câmeras da garota demônio. Aldrich tremia, os guardas poderiam aparecer a qualquer momento, isso me deixava nervoso. Após tirar as cordas, ajudei a passar os braços dele por cima da cama, porém ele não alcançava a parte superior da cama, suas pernas deveriam estar presas ainda.
Desci um pouco mais minhas mãos, quando, sem querer, notei que ele estava completamente nu, eu havia tocado levemente em seu órgão sexual e, imediatamente, subi minhas mãos para seu abdômen, Aldrich soltou um gemido de vergonha e logo eu tratei de me desculpar com veemência. Logo abstrai o ocorrido para não me desconcentrar. Desci então minhas mãos pela lateral de seu corpo e logo encontrei um emaranhado de cordas em seus tornozelos e, por sorte, nenhuma corrente.
Após soltar suas pernas, eu o senti se encolher. Outra coisa que notei, foi que, fora o longo cabelo que ele tinha, não havia pelo nenhum em seu corpo, ele tremia de frio. Sem perder tempo, puxei-o para parte de cima da cama, essa era sustentada, por sorte, apenas por uma coluna no meio dela, que em nada nos atrapalhou com a corrente. Assim que o soltei, coloquei meu casaco encima dele.
Assim que o coloquei de pé, ele tombou, não se sustentando de pé. Abaixei-me ao lado dele, ajudei-o a vestir o casaco. Nesse momento, ele fez uma coisa me deixou bem envergonhado e nervoso. Ele me abraçou ainda com o casaco semiaberto e sussurrou um agradecimento em meu ouvido.
–Não me agradeça ainda, permanecemos presos – Eu disse depois de acalmar meus pensamentos.
Tentamos derrubar a porta, mas não deu certo. Depois, vagamos no escuro em busca de câmeras, mas a sala era muito alta. Nos encontramos o mais longe possível da porta. Comemos o resto do pão que eu havia guardado no casaco que agora estava com Aldrich.
Estávamos sentados quando, em um baque surdo, a porta foi aberta. Levantamos e esperamos, mas nada ocorreu, só conseguíamos escutar alguns barulhos externos à sala, mas ainda muito baixos para serem identificados.
Caminhei até próximo a porta e a abri mais, o barulho ficou mais intenso. Com Aldrich apoiado em mim, segui o caminho por onde me trouxeram. A casa estava em um caos total, vidros quebrados e partes incendiadas. Eu não estava entendendo absolutamente nada até ver uma imagem na parede.
Feita de tinta vermelha e preta, uma abelha havia sido desenhada, esse era o simbolo de um grupo chamado 'Free B'. Estávamos com um pouco de sorte, então, pois esse grupo ataca mansões ricas, mas ainda sim podíamos acabar parando em fogo cruzado, então preferi me apressar.
Virei-me então para Aldrich e fiquei um pouco assustado antes de reconhecê-lo. Seu corpo estava muito magro, tão pálido quanto osso, uma longa cabeleira verde bem escuro com algumas partes arroxeadas e bem liso escorria até sua coxa. Vestia apenas meu casaco negro repleto de bolsos que também alcançava suas coxas e uma coleira com uma pedra cristalina brilhante na parte frontal. Aprontei-me em fechar mais o casaco.
–Aldrich, estamos perto da saída. Consegue correr? — Perguntei apressado, não querendo desperdiçar a chance.
–Acho que não, meu corpo esta fraco demais, quase não consigo me manter de pé – Choramingou o garoto.
Aproximei-me e, pondo um dos braços atrás de seus joelhos e o outro segurando suas costas, eu o carreguei. Ele corou levemente, mas não protestou, entendia a situação. O corpo dele era bem leve, mesmo para seu atual estado tão magro. Corri o mais rápido que eu pude pelas portas abertas até chegar no jardim que era conectado a uma floresta atrás da mansão.
Correndo pela escuridão da noite, só deu tempo de notar que a guarda do governo estava chegando e logo lembrei do que a garota havia falado, sobre até o governo querer as fadas. Então, mergulhei floresta adentro, seguindo um caminho conhecido. Quando olhei para meus braços, Aldrich havia desmaiado, o que me preocupava um pouco.
Após algum tempo correndo, encontrei uma cabana abandonada, onde, um dia, já foi minha casa. Apoiando as costas do garoto fada na parede, usei a mão, que agora estava livre, para abrir a porta que estava destrancada.
Nada havia realmente mudado, apenas uma camada de poeira cobria a superfície das coisas. Segurando bem o garoto com um braço só, sem deixá-lo tombar, apoiando-o em meu ombro, removi os lençóis empoeirados da cama para então, deitá-lo lá.
Quando me virei, deparei-me com o relógio digital, marcava 02:07 da manhã do dia 15 de novembro de 2042. Havia passado 7 dias preso. Resolvi deitar, precisava descansar, mas, antes de deitar, lembrei algo de súbito. Fui até uma das minhas gavetas e peguei uma roupa intima ainda não usada e vesti o pequeno garoto, não foi surpresa quando notei que ficou frouxa, mas já era algo. Dentei então ao seu lado e logo adormeci.
Mais tarde, quando acordei, Aldrich olhava para mim, seus olhos eram roxos e profundos, ele me deu um sorrido e agradeceu. Era algo em torno de 7 da manhã, a luz solar invadia a cabana e fazia a poeira brilhar. Levantei, tinha muito coisa para fazer.
A primeira delas foi verificar se a lacrima de energia estava funcionando e, infelizmente, não estava. Quando voltei para dentro da cabana, me deparei com Aldrich tentando varrer o local. A Cueca larga insistia em cair, atrapalhando seu andar, o que tornava varrer bem mais complicado. Senti-me um pervertido ao ver aquela cena.
Procurei dentro de algumas gavetas até achar meu dinheiro, agradecendo internamente por não ter sido roubado, não era muito, mas serviria. Despedi-me dizendo para que ele tomasse cuidado e corri para uma pequena vila que havia por ali, não muito perto.
Demorei um pouco, mas consegui achar uma lacrima nunca usada a um preço que consegui comprar. Sem dinheiro para comida, voltei para a cabana. Estava um dia ensolarado com muitas núvens, o sol em meio dia. Procurei, sem sorte, frutas enquanto caminhava até a minha casa. Chegando lá, troquei a lacrima e entrei. Aldrich não estava lá, corri para o lado de fora, preocupado. Achei-o a uns 10 metros da cabana, próximo a uma fogueira improvisada.
Quando fui me aproximando, um cheiro saboroso se intensificou no ar, Aldrich me cumprimentou com um sorriso, ele estava assando um coelho, a gordura pingava no fogo. Havia uma bacia com água ensaguentada ao lado dele, além de uma faca e meu pote de sal.
–Rido, de onde você tirou este coelho? — Valia a pena perguntar, estava curioso.
–Aqui próximo, tem uma grande toca de coelho. Esperei até que ele saiu e eu o apunhalei – Respondeu triste.
–Fadas, supostamente, não deveriam ser pacíficas e não machucas nada? — Questionei, sem pensar muito a respeito, a fome falava mais alto enquanto eu olhava o coelho sendo assado.
–Normalmente, é bem assim mesmo – Foi a resposta dele.
–Como assim? — Perguntei sem entender.
–Bem... — Ele virou o coelho empalado – Meu povo me classifica como uma fada do luar; Os elfos me chamam de fada da noite; O povo do submundo me chama de demônio das vinhas e vocês, humanos, de bruxo de bolso – Mexeu o coelho novamente – Você tem algum poder?
–Não exatamente – respondi, notando que ele queria mudar de assunto – Consigo aumentar minha própria força.
–Hm... Assim como Darkans, o povo do submundo, vocês, humanos, são fracos com magias, não é? — Falou sem me olhar, fixava as chamas.
–São realmente poucos os grandes usuários de magia no reino humano – Respondi sem realmente saber algo sobre o assunto.
Ficamos um tempo olhando o coelho pingar gordura. Um momento depois, Rido juntou o polegar e o indicador em uma forma de pinça e os levou à boca, murmurou alguma coisa que não ouvi direito e, como se estivesse assobiando, soprou uma rajada de vento gélido à fogueira até essa se tornar brasas brandas. Eu fiquei maravilhado com aquilo.
Ele pegou o coelho e o desempalou em cima de uma folha de bananeira que eu não tinha visto. E, com a faca, cortou o coelho em pedaços menores. Seus movimentos eram rápidos, mas sem força. As tiras de carne foram cortadas com bastante precisão e então comemos.
Não era um coelho muito grande, mas pelo menos era um coelho normal e não geneticamente alterado. A carne suculenta e salgada na medida certa estava deliciosa. É fato que comi mais que ele. Embrulhei os restos na folha de bananeira e levantamos, caminhamos até um rio ali perto onde deixei os restos próximos, lavamos as mãos e voltamos para a cabana.
No caminho, Rido, com o mesmo truque de antes, apagou a fogueira e então entramos. A primeira coisa que notei foi que, no lugar de um poeirento relógio, agora lá estava um limpo, marcando duas da tarde. Dei uma olhada em tudo e me virei para olhar para ele, estava tudo bem limpo.
–Você usou alguma magia? — Questionei.
–Na verdade, não. Apenas tive bastante tempo – Explicou enquanto ajeitava a cueca larga e, mais uma vez, achei-me um pervertido por deixá-lo assim.
–Hm...Deixe-me pegar uma blusa para você, deve estar bem quente com esse casaco – Pensei em pegar calças também, mas todas ficariam largas – Ah, e obrigado por limpar a casa.
–É o mínimo que eu deveria fazer – Ele tinha um doce sorriso no rosto.
Peguei a menor que eu tinha, uma camisa branca de mangas curtas que, ainda sim, era grande para ele. Virei-me para que ele se trocasse em quando voltei a vê-lo, ele já estava dentro da uma camisa larga demais e que o cobria até acima de seus joelhos, muito parecia uma camisola.
–Desculpe-me pelas roupas largas – Se alguém o visse agora, obviamente pensariam besteira.
–Antes eu não tinha roupas, não precisa se preocupar e agradeço pela camisa – Ele disse me olhando nos olhos.
Não tínhamos muito o que fazer, tratei de resolver logo um problema: Retirar as correntes do garoto que deixava ambos os braços próximos um do outro por causa do tamanho delas. Não sei porquê eu não havia removido elas antes. Fiz com que ele se sentasse no chão e tive que pedir para que ele retirasse a camisa por uns instantes.
Peguei algumas ferramentas e, tomando cuidado para não envergonha-lo olhando para seu corpo nu, usei duas chaves de fenda pequenas e obtive sucesso em remover as correntes. O rosto dele se iluminou em um sorriso bobo enquanto colocava a camisa de volta. Já aquela coleira bizarra foi um completo fracasso, não tinha fivela, nem fechaduras, nada com que eu pudesse trabalhar.
–Como colocaram essa coleira? — Perguntei intrigado.
–Foi colocado em mim enquanto eu transitava da minha forma fada para esse tamanho humano – Ele respondeu após pensar um pouco.
–Então é só você voltar a sua forma original que deve sair – Falei, pensando em como seria ele na outra forma.
–Infelizmente, não consigo fazer isso no mundo de vocês – Suspirou – É tão estranho ser tão grande...
–Eu acho normal, nem diria exatamente que você é grande – Brinquei.
–Aldrich, por que você veio para o mundo humano? — Finalmente fiz a pergunta que estava pensando a um tempo.
–Bem... É complicado – Suspirou mais uma vez.
–Vamos, diga, não tem nada o que fazer mesmo – Incentivei-o.
–Na verdade, eu estava fugindo – Ele pensou por um longo minuto – É só até ai que vou falar, desculpa.
–Tudo bem, respeito sua privacidade, mas saiba que pode contar comigo – Comentei, porém continuava bem curioso.
Ficamos algum tempo sem o que fazer, até que Aldrich saiu da cabana, eu o segui. Caminhamos até o rio e sentamos na beirada da terra, mergulhando nossos pernas na água, até os joelhos. Aproximei-me dele, ele me olhou nos olhos, seu rosto dizia claramente que estava preocupado se havia acontecido algo. Eu apenas sorri, ele sorriu de volta.
Apesar de muitos problemas, estávamos ali, calmos, tendo um longo momento de paz. A água gelada do rio e os ventos que trazia respingos d'água sobre nós era muito refrescante. Ficamos ali, sob a luz fraca do sol, que transformava a água cristalina em um rio dourado, brilhoso demais para meus olhos, o que me fazia franzi-los. Ficamos lá até algumas horas antes do anoitecer.
–Vamos procurar o que comer – Ele disse se levantando.
–Vou procurar material para a fogueira – Dividi as tarefas.
No momento seguinte, seus olhos brilharam e ele saiu andando. Observei-o, as pernas ainda meio bambas, desacostumadas a exercer suas funções, até que ele sumiu entre as árvores. Eu também tinha o que fazer, de volta a cabana, peguei um machado e cortei alguns ramos de árvore nas redondezas, certificando-me se estavam secos.
Estava terminando de por a lenha encima da antiga fogueira quando Rido apareceu. Trazia outro pequeno coelho e um punhado de ervas. O coelho estava morto, mas não havia sangue, nem feridas, o que me deixou bastante intrigado.
–Hm... Outro coelho, hoje estamos bem – Sorri.
–Sim, também achei alguns temperos – Ele me mostrou as ervas.
Rido desenrolou uma folha de bananeira que estava presa no seu braço, coisa que, novamente, eu não havia notado e repousou o coelho na folha estendida no chão, bem perto da fogueira, que eu já havia acendido. Depois, ele entrou na cabana e trouxe uma bacia, uma faca e um longo garfo. Quando se aproximou mais, notei uma panela média, ele estava indo pegar água, porém assumi essa tarefa.
Quando retornei, Aldrich havia picado as ervas e cortado partes do coelho. Cortava com precisão, mas sua mão tremia um pouco, seu rosto indicava claramente que tinha pena do coelho. Coloquei a panela e a bacia perto dele e me sentei ali próximo. Não sabia muito sobre como cozinhar um coelho, então apenas observei. Voltei a cabana para pegar o pote de sal que ele havia me pedido, também posicionei uma grade em cima da fogueira, para que ele assasse o coelho ali. Rapidamente notei a necessidade de comprar gás para o fogão, que agilizaria bastante o processo de cozimento.
Rido mergulhou o coelho na panela e levou ao fogo com sal, depois, lavou as ervas e as deixou em um cantinho da folha de bananeira. Uns minutos depois, retirou a panela do fogo, retirou o coelho e terminou de remover os pelos. Lavou rapidamente a panela e a encheu de novo. Temperando e terminando de cozinhar o coelho. Depois colocou o coelho sob a grande e o assou.
Novamente a gordura voltou a pingar no fogo e logo fui golpeado pelo saboroso odor do coelho, meu estômago roncou alto, fazendo Aldrich rir. "Mais um pouquinho" – Ele me disse. Aquilo estava quase virando tortura, quando ele retirou o coelho do fogo, apoiou-o na folha de bananeira e o fatiou. Sentei-me ao redor da folha, de frente para o garoto fada. Esperamos esfriar.
Terminado, caminhamos até o rio, levamos as coisas para lavar e, terminado isso, sentamos mais um pouco na beirada, mergulhando nossas pernas novamente na água, relaxando. A água não estava mais tão gelada. Rido sabia viver na selva, sem a tecnologia humana e talvez até mesmo sem magia. Sabia apreciar os detalhes da natureza. Ele era uma criatura extremamente pacifica, ali, sentado, olhando a lua.
Eu não sabia de nada ainda...
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