O Caçador de Almas e o Vinhedo Maldito.
1 Prólogo.
Ao som de notas melancólicas do velho piano observo atentamente através da janela a ainda mais velha cidade de Liverpool acordar. Embora o sol inundasse as ruas estreitas, um sentimento negativo me tomava conta. Não era para menos. A música de fundo deixaria qualquer um infeliz. Max, quando está deprimido, consegue contagiar a vizinhança inteira com suas composições de pura tristeza. Claro que não o confrontava, na verdade, nunca o fiz nesses meus cinco anos de serviço e lealdade. Todavia, podia ver no rosto de seu antigo mordomo parado a porta de meu quarto, uma impaciência que já estava em seu limite.
Nos últimos meses ninguém veio nos procurar para um caso sobrenatural. O que não nos impediu de trabalhar, pois ainda tivemos investigações normais para prestar e concluir. Porém, o que Max gosta mesmo é de caçar espíritos por aí. Pareço tolo falando dessa forma, mas não dou a mínima. Podem não acreditar em nada disso, assim como têm o direito de perguntar-me o porquê de seguir um quarentão solteirão por esse mundão. Quanto “ão”, não é? Bem, respondo que não tinha nada antes de conhecê-lo. Após ele me explicar tudo o que sabia sobre as coisas dos outros planos, outras vidas, não pensei duas vezes em ajudá-lo, ainda mais que sempre tive um certo ar de jovem aventureiro. Não, não foi minha mãe que me disse isso. Claro que Max me escolhera também por minha virtude de falar uma língua já extinta, mas deixo isso para depois.
Antes de qualquer coisa, queria de algum modo me apresentar e ajudar aqueles que a partir de agora me acompanharão em futuros mistérios a entender um pouco sobre a vida pós a morte. O mundo em que vivemos não é tudo uma maravilha. Segredos são encontrados em cada canto sombrio. Mesmo assim, podemos encontrar sempre uma luz na escuridão, e com um pouco de coragem, auxiliar aqueles que estão perdidos. Só assim meu objetivo estará completo, minha missão feita. Só assim, Max e eu, podemos nos glorificar com o sentimento de dever cumprido.
Para começar digamos que exista tal pessoa do bem, sabe, gente boa mesmo, aquele cara que tem uma família legal, que sempre vão a igreja aos domingos, que jantam juntos depois de um dia de trabalho exaustivo, mas recompensador. Aquele cara que dá valor aos seus filhos, e ao próximo, sempre humilde e sincero a tudo que realiza. Vamos, eu sei que é difícil, mas gente assim realmente existe. O que quero dizer é que quando chegar a hora e essa pessoa morrer, uma luz intensa aparecerá e a iluminará direto do céu. Às vezes, a alma está preparada para deixar este mundo e consegue seguir para o destino de “paz celestial” sem problemas. Outras vezes, a alma está tão cheia de dor e remorso por algo mal acabado que se perde do seu real caminho. Acaba por se tornar o que chamamos de uma Alma Perdida e, por assim dizer, fica vagando por este mundo. Porém, este mundo não é mais seu. Não há mais nada que possa fazer aqui além de se perguntar o porquê de uma morte inesperada e criar confusões desnecessárias. Seus familiares não vão lhe ouvir. Nem mesmo aqueles que já estão mortos, pois estes estarão em outro nível e sequer poderão lhe enxergar. Você se torna um nada. Uma nuvem de poeira gélida. Afinal, vida é calor. Claro que ainda pode conseguir fazer coisas que não deveria, e isto é um problema. Por isso que eu e Max caçamos as Almas Perdidas. Ajudar é nosso único intuito, além de conseguir um pagamento mais justo do que um simples investigador particular pode receber, pois digamos que caçar fantasmas não é um emprego que é considerado profissional, afinal, não somos considerados exorcistas ou algo do tipo. Nem nos consideramos isso. Estamos bastante longe de seguir dogmas ou algo assim.
Chega de enrolar. Daqui a pouco posso me matar com a droga dessa melodia. A propósito, meu nome é Anthony Jones.
Agora que já sabem o meu nome e a minha “profissão”, vou de alguma forma fortalecer esses dois quesitos. Falando um pouco de mim, e sobre quem sou... digamos que apenas mais um no meio da multidão. Passei a minha infância toda em um orfanato. Nunca conheci os meus pais, mas sei onde eles moram. Na avenida mais evitada de Liverpool, onde o cemitério é localizado. Sim, meus pais estão mortos e isto faz um tempo. Jamais fui adotado, nem ao menos queriam que eu continuasse com vaga naquele orfanato católico com o passar dos anos. Eu era um xereta. Tudo bem, um pé no saco cai melhor. Sempre aventureiro, pensava que era o próprio Sherlock Holmes depois de ler seus livros. Desvendava mistérios bobos, como por exemplo, quem escondeu as roupas da Irmã Violeta na lixeira. Talvez por conta disso, acabei criando alguns inimigos.
Em uma briga típica de jovens estúpidos no qual eu estava metido, me deparei pela primeira vez com Max. Ele sabia que eu estava em desvantagem contra cinco oponentes, mas mesmo assim não fez menção alguma de me ajudar, na verdade até mandou os garotos continuarem. Confesso que lhe quis dar um soco no estômago por conta disso naquele momento. Porém não tive tempo. Um daqueles cinco meninos em forma de brutamontes veio para cima de mim. Lembro-me muito bem como desviei de seus golpes e consegui encaixar um belo cruzado em sua mandíbula, o fazendo se contorcer no chão. Após, veio o próximo garoto. Este que olhou seu amigo no chão e rangeu seus dentes amarelados para mim. Sim, minha memória é boa, por sinal. Infelizmente, ele não sabia ao menos correr com equilíbrio. Para derrotá-lo, precisei apenas deixar um de meus pés em sua frente. Neste momento, recordo-me que escutei o riso de Max que continuava parado observando a luta injusta. Sobraram então três garotos de pé, mas somente um deles era o líder daquela gangue. Sua cara pálida de medo se enrijeceu o que fez seus pobres subordinados ao ataque sem piedade e ao mesmo tempo. Consegui desviar do primeiro golpe, mas não deu tempo de escapar do segundo, pois este já me esperava com o punho fechado. Acho que meu ouvido zombe até hoje debaixo da água por isso.
Enfim, caí no chão, e pude sentir o cheiro da água podre que contaminava aquela rua deserta. Particularmente, lembro-me do gargalhar histérico daquele cara pálida me encarando. Devo dizer... odeio gargalhadas histéricas e sempre vou odiar. Num ato de raiva, dei uma rápida rasteira no garoto mais próximo, o derrubando instantaneamente. O outro me olhou perplexo, e nada pôde fazer contra meu soco em seu nariz. O som fora um estralo agonizante. Sangue jorrou, e ele acabou fugindo. Procurei então o líder medroso, sozinho. Não o achei porque ele se projetou por trás de mim, e se não fosse por Max, o seu golpe com um pedaço de pau em minha cabeça poderia ser letal.
Engraçado, se eu fechar os olhos posso enxergar Max em minha frente naquela rua solitária, todo trajado de preto com um chapéu coco na cabeça. Eu estava de novo confuso, encarando o homem que acabara de me salvar, e então perguntei o porquê dele não ter feito aquilo antes, desde o começo da briga nada justa.
— A briga não era minha, Mr. Jones — ele respondeu sem qualquer interesse ou preocupação. Nem mesmo na ocasião notei que ele sabia meu nome.
— Mesmo assim o senhor me salvou. Devia ter o deixado acabar comigo então!
— Tem razão — sorriu de maneira cansada. — No entanto, no momento em que ele ia lhe acertar pelas costas, essa briga se tornou a minha também...
Max me convidou para tomar um café, e claro que o segui. Disse-me que estava atrás de algum garoto especial no orfanato onde eu estudava, e parecia que tinha o encontrado. Fiquei no mínimo confuso com aquela declaração.
Ele ria sempre que eu demonstrava estar perdido, e isso me deixava encabulado. Então ele comentou que eu sabia lutar muito bem para a minha idade. Depois me perguntou o que queria de verdade saber. Perguntou-me se eu sabia falar Latim fluentemente. E claro que eu lhe assegurei que sim.
No orfanato onde passei a minha infância e boa parte da juventude, três matérias eram obrigatoriamente passadas aos alunos. Eram elas: Arte, Física e o Latim. Nunca entendi bem por que disso tudo. As freiras que tomavam conta do local diziam que isso era devido ao Padre Dominic Albert, o dono do orfanato, que amava de paixão esses três aprendizados. Porém, nunca pensei que aprender uma língua já extinta me ajudaria na vida. Qual é o sentindo não é? O curioso, que isso me fez todo o sentido do mundo. Max precisava de uma pessoa como eu. Um jovem aventureiro que sabia Latim. E eu? Bem, eu precisava sair daquele lugar o quanto antes. Por isso aceitei sua proposta de trabalho, aceitando rapidamente em ajudá-lo no que for preciso. Desde então venho morando com ele em uma casinha confortável ao sul de Liverpool. O que notei logo de cara foi que Max era um homem solitário. Contara-me que a mulher o deixara e assim ficou apenas com o imóvel, seu fiel mordomo e duas ajudantes como arrumadeiras. Ele ria sempre que alguém perguntava sobre isso, respondendo que ficara no lucro.
Não demorou muito para eu entrar em seu mundinho. Max Begum me apresentara tudo o que conhecia sobre as sombras invisíveis que dominam nossa vida. Obviamente, acreditar em fantasmas fora brevemente impossível para mim. Mas após de algumas provas bem convincentes e certamente horripilantes, não tive escolha a não ser crer.
Nós os classificamos em quatro patamares. São elas, Almas Livres: são os espíritos que já passaram pelo “julgamento” e estão livres para vagar pelo “paraíso” ou para onde quer que vão depois disso. Podem até mesmo vagar por este plano. Almas em Serviço: essas são as almas que ainda estão em nossos corpos de carne e sangue, e só saírão na hora de nossa morte. Almas Perdidas: elas são as almas que se perderam no caminho para o paraíso ou conseguiram de alguma forma fugir dos raptores do “inferno”. Ficando assim, vagando por nosso mundo sem entender bem o que estão fazendo. São essas almas que eu e Max caçamos e tentamos ajudar a encontrarem seus caminhos. E, por fim, as Almas Presas, mas não sei bem se devo falar sobre elas. São espíritos que não caçamos, pois como já disse antes, não somos exorcistas. Acho que isso já dá uma ideia do quão diferente elas são.
Enfim, é basicamente isso. Lembrando que nem eu, e muito menos Max possui poder de médiuns ou enxergamos os espíritos. Geralmente, são eles que aparecem para nós. Ou quando isso não acontece... Bem, temos nossos métodos. Ou melhor, eu tenho. Latim serve para algo, amigos!
Como veem, nosso trabalho é bem complexo. Não somos religiosos, mas usamos o senso comum em nossas missões como forma de facilitar as coisas. Ou seja, digamos que exista o paraíso e o inferno. Os bonzinhos e os mauzinhos. Anjos e demônios, luz e escuridão... Fantasmas... As almas são um molde de nosso corpo sem vida, sem cor distinguida e que trás consigo, uma forte sensação de presença.
Não ouço mais o piano tocar, o que indica que Max finalmente acabara sua distração. Logo escuto me chamar em voz alta e um tanto nervosa, e agora tenho que correr para atendê-lo. Deve ter esquecido algo em algum lugar. De fato, ele é um homem bastante esquecido.
Bem, já falei demais sobre tudo o que somos. Agora é seguir os ponteiros do relógio. Juro que vou tentar ser menos entediante daqui pra frente. Aventuras nos esperam, meus amigos.
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