O Caça-Fantasmas
7 Lembranças - Parte 2
Notas iniciais
Leitoras,queria avisar que esse capítulo é o meu queridinho.hahahaha
Quero a opinião de vocês, certo? Um beijo! :)
- Daniel! Daniel! — gritou Julie, sozinha na edícula. Segundos depois, Daniel apareceu com Martim e Félix.
- E aí, Julie? Como vai? — disse Martim, animadamente.
- Está a fim de tocar? — perguntou Félix.
- Não, obrigada. Estou a fim de provar pra um certo fantasma que é perfeitamente possível morrer duas vezes. Por isso, prefiro que não haja testemunhas aqui. — ela disse, olhando para Daniel, visivelmente irritada.
- Hum... Isso quer dizer que você quer ficar a sós com o Daniel? — perguntou Félix, um pouco confuso.
- Exatamente. — confirmou a garota.
- Ferrou, companheiro. — disse Martim para Daniel, antes de sair da edícula com Félix.
Daniel sorriu cinicamente para Julie.
- Sabe, eu aprecio essa sua vontade de querer ficar a sós comigo. Isso prova que você tem um pouco de bom gosto, às vezes. Mas e aí, como foi seu encontro com aquele mané? — disse Daniel, sentando-se confortavelmente no sofá.
O tom de voz despreocupado que ele usou deixou Julie ainda mais furiosa. Ela respirou fundo e tentou se acalmar ao máximo.
- Você sabe muito bem como foi o meu encontro com o Nicolas! Você estava lá para arruinar tudo! — respondeu, aumentando o tom de voz.
Quando viu que seria inútil negar, porque Julie já sabia o que ele tinha feito, Daniel sorriu e respondeu apenas:
- Não arruinei seu encontro. Só fiz com que ele ficasse mais divertido. Mais divertido pra mim, obviamente.
- Acontece que essa é a minha vida, Daniel, não a sua! Você tem que parar de se meter no que não é da sua conta! — exclamou ela, enraivecida.
A tranquilidade de Daniel não se alterou nem um pouco.
- Olha, Julie, tem uma coisinha que você precisa aprender. Eu sou um fantasma, e fantasmas podem fazer o que querem, quando querem e do jeito que querem. Não precisam da permissão de ninguém. Eu quis impedir você de ficar com um idiota e, acredite, um dia você vai me agradecer.
Julie o fuzilou com o olhar.
- Realmente, Daniel, eu tenho mesmo que te agradecer por essa sua mania de destruir a minha vida. Muito obrigada mesmo. — disse ela, com ironia escorrendo pela voz.
- Ah, Julie, para de ser dramática, vai. Foi só uma brincadeira. — disse Daniel, tentando amenizar a situação quando percebeu que Julie tinha ficado realmente muito chateada. Não queria que ela chorasse ou que ficasse emburrada por milênios.
- Você sabia o que aquele encontro significava pra mim. — ela disse, triste.
Depois de uma longa pausa, Julie continuou:
- Daniel, eu não consigo entender você. Juro que não consigo. Sabe, eu costumava achar que você agia desse jeito idiota porque tinha ciúmes. Mas isso não faz sentido nenhum, porque você mesmo já disse que nunca sentiria nada por mim. Eu sei que é óbvio o fato de que você não gosta de mim, e eu não posso te obrigar a nada, Daniel, mas você podia pelo menos...
- Eu não gosto de você?! — ele disse, mais para si mesmo que para ela, franzindo as sobrancelhas. Toda aquela tranquilidade que ele estava expressando desapareceu repentinamente.
- Você disse que eu não gosto de você?! — ele repetiu quase gritando, irritado, como se não pudesse acreditar no que Julie dissera.
Daniel tentou se acalmar e disse, parecendo angustiado:
- Eu te acompanho até a escola todos os dias, mesmo sabendo que a distância é só de cinco minutos, pra saber se você vai chegar bem. Eu deixo você ganhar de mim no Street Fighter toda a santa vez, mesmo você sendo uma jogadora horrível, só porque eu gosto de ver o jeito como você sorri quando acha que é melhor do que eu naquele jogo. Eu te ajudo a compor e a tocar suas músicas mesmo quando sei que elas são feitas especialmente pra um menino retardado que tem um senha de email patética. Quando você está triste, eu sempre faço alguma piada muito ruim, porque eu sei você acha mais graça das piadas ruins do que das boas. Eu sempre faço tudo o que você me pede pra fazer, não importa o quanto seja humilhante. Toda a vez que você sai de casa dizendo que vai voltar em cinco minutos e não volta, eu vou atrás de você pra saber se aconteceu alguma coisa, saber se você está precisando de mim. E naquela vez, quando você estava fazendo o seu dever de casa de madrugada e ficou tão cansada que acabou dormindo em cima do caderno, fui eu que te coloquei na cama e terminei de fazer o dever pra você. Eu decorei o modo como os seus olhos brilham quando você está muito empolgada com alguma coisa. E toda vez que nós estamos juntos, eu torço pra que o tempo pare de passar.
Daniel fez uma longa pausa, sem acreditar que tivera mesmo coragem de dizer aquilo tudo, e olhou para Julie, que estava imóvel e com os olhos cheios de lágrimas.
- Eu ainda não acredito que você teve a capacidade de dizer que eu não gosto de você! — Daniel a acusou, visivelmente ofendido. — Eu praticamente lambo o chão que você pisa, Julie, e ainda tenho que escutar você dizer isso?
Ela tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíam. Julie estava contendo um enorme nó na garganta, tentando entender o que estava acontecendo dentro dela.
- Você só precisava ter me dito, Daniel. A única coisa que você precisava fazer era ter dito que gostava de mim, mas você sempre me disse o contrário. — ela conseguiu dizer, por fim, se aproximando dele.
Daniel ainda estava irritado. Não queria aquele sentimento, já tinha se humilhado demais, estava cansado de ser ignorado e queria desesperadamente arrumar algum jeito de não sentir nada por ela.
- Eu odeio gostar de você. Odeio. — ele murmurou.
- Daniel. — Julie olhou dentro dos olhos dele — Eu preciso que você me diga o que você está sentindo de verdade.
- A verdade, Julie... É que eu te odeio, por gostar daquele cretino que tem a inteligência de uma ameba. Eu te odeio, mas não te odeio, entende?
Ela franziu a testa e ficou em silêncio por alguns segundos. Como alguém podia odiar uma pessoa e não odiá-la ao mesmo tempo?
- Não, na verdade. Não faz sentido nenhum. — disse Julie, em um tom de voz muito baixo.
Daniel parou para pensar no que tinha dito e chegou à conclusão de aquilo realmente não fazia sentido nenhum. Nem ele conseguia se entender.
- Eu... Vou dar uma volta por aí. — disse ele, um pouco mais calmo. Em seguida, atravessou a parede e desapareceu.
Depois daquele dia, Julie tentou conversar com ele novamente, mas toda a vez que ela tentava voltar ao assunto, Daniel se esquivava de algum modo. Daniel, por sua vez, estava se esforçando para parar de espioná-la, mas, alguns dias depois, acabou não resistindo à tentação de escutar escondido a uma conversa que Julie e Bia estavam tendo no quarto.
- Eu não te falei? — disse Bia, empolgada. — Eu sabia que o Nicolas estava a fim de você, eu sabia! Cara, nem acredito que ele tentou te beijar hoje, na saída da escola, principalmente depois do fiasco que foi aquele encontro... E aí, como foi o beijo? Ele beija bem? Me conta!
Julie não parecia ter nem a metade da animação da amiga.
- Não teve beijo nenhum, Bia.
- E por que não? Você sempre sonhou com isso, Julie! Como assim? — ela perguntou, chocada.
Julie respirou fundo.
- Olha, eu sei que eu sempre gostei dele desde a quinta série, mas...
- Mas o quê?
- Eu não queria beijar o Nicolas. Não queria mesmo. — ela confessou, por fim.
- Eu não estou entendendo nada, Julie. Como assim?- disse Bia, arregalando os olhos.
- Nem eu sei explicar direito. Mas é que... Sabe quando você quer muito uma coisa, muito mesmo, mas depois para pra pensar e percebe que não era bem o que você queria?
- Não. Eu não sei. Julie, era o Nicolas! O Nicolas! De uma hora pra outra, quando finalmente consegue o que queria, você descobre que não gosta mais dele?! O que está acontecendo com você, hein?
Julie bufou e enterrou o rosto em uma almofada.
- Boa pergunta. Eu não faço a menor ideia do que está acontecendo comigo.
Bia arrancou a almofada do rosto de Julie, olhou para ela por alguns instantes e sorriu, quando finalmente sentiu a ficha cair.
- Já entendi tudo. — disse ela, rindo.
- O quê? — Julie perguntou, olhando com atenção para a amiga.
- Daniel. Você está gostando do Daniel. Eu não acredito.
- Como assim? Ficou maluca, Bia?
- Não adianta negar. Só pode ser isso. Bem que eu estava achando que tinha alguma coisa diferente entre vocês dois, desde aquele dia em que o ele arruinou o seu encontro. Você parou de se interessar pelo Nicolas porque se apaixonou pelo Daniel. É simples.
Julie nunca se sentira tão confusa.
- Você está me enlouquecendo, Bia. Vamos mudar de assunto, por favor.
Enquanto escutava a conversa, Daniel não pôde deixar de desejar, com todas as forças, que Bia estivesse certa.
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