O CEO que Eu Paguei

146 Um Gesto Inesperado


Heitor acordou antes do despertador. O corpo já estava acostumado ao ritmo, mas não foi isso que o despertou. Foi o cheiro doce e familiar do cabelo de Helena espalhado pelo travesseiro. Ele se virou devagar, como se quisesse gravar aquela imagem para sempre: ela dormindo profundamente, os lábios entreabertos, o rosto calmo depois da tormenta da noite anterior.

Silencioso, desligou o próprio despertador e, contornando a cama, desligou também o dela. Queria que ela descansasse, mesmo que isso custasse o peso em suas pálpebras. Não tinha dormido direito. Como poderia? Era impossível fechar os olhos quando a mulher que ele amava passava a madrugada andando de um lado para o outro, até se encolher no sofá e chorar. Ele quase desabou junto, mas se conteve. Precisava ser o pilar dela. Forte quando ela não conseguia ser.

Quatro meses. Parecia pouco, mas ele já conhecia cada detalhe dela, até os ciclos com os humores que vinham como ventos rápidos, cólicas, choros que duravam minutos e depois cediam. Helena era tão organizada com a própria tabela que até ele, sem nunca imaginar, tinha aprendido a acompanhar. Só que, desde que ela contou que a menstruação havia adiantado, ele andava inquieto. Leu, pesquisou, mergulhou em fóruns no mesmo dia. Entendeu que mudanças e estresse podiam desregular o corpo dela, mas ainda assim a preocupação lhe corroía.

Ele suspirou. Mais cedo ou mais tarde, eles precisariam conversar sério sobre isso. Ela precisava ir ao médico, fazer exames, se cuidar como merecia. Talvez até fosse hora de ela considerar um anticoncepcional — não só para regular o ciclo, mas para que pudessem viver sem cálculos, sem medo, apenas eles dois. E, no fundo, ele queria isso com urgência: tê-la sem barreiras, inteira para ele, todos os dias. Sorriu com o pensamento, ela a cada vez mais estava menos resistente a ceder aos pedidos dele. E ele adorava quando ela se fingia de brava e dizia que podiam fazer só um pouquinho sem.

Olhou para o celular dela em sua mão. Desbloqueou e procurou a conversa com o RH da Plano & Forma. Ele digitou: “Continuarei de home hoje, vou em uma consulta agora pela manhã.” Mandou. Era o mínimo que podia fazer para poupá-la. Ela merecia uma manhã de paz. Aproximou-se, pousou os lábios na testa dela e deixou ali um beijo demorado. Heitor a amava de um jeito que doía no peito.

E, em silêncio, sabia o que queria dela: tudo. Não apenas a rotina, não apenas o corpo. Queria Helena como esposa, como sua família, como mãe dos seus filhos. Já tinha decidido isso há muito tempo, ela estava totalmente ciente disso e Heitor sabia que esse também era o desejo dela. Por ele, não haveria mais barreiras entre eles, não haveria camisinha, apenas eles dois, dia após dia, sem medos ou cálculos. Mas ele respeitava o tempo dela. Quando ela estivesse pronta, ele estaria ali. Esperando. Louco por ela.

Sorriu sozinho ao imaginar, o desejo sempre queimando sob a pele. Mas respirou fundo e se levantou. Vestiu-se, preparou o café dela, deixou a refeição no micro-ondas e um recado na caderneta: “Descanse por hoje, amor. Qualquer coisa, me liga. Te amo.”

Depois brincou um pouco com Mel até que a funcionária chegou para levá-la.

— Tenha um bom dia de escolinha, meu bebê — murmurou, abraçando a cachorrinha com carinho e mexendo nas orelhinhas dela, a vendo abanar o rabinho.

Então, ajeitou o paletó, entrou no carro que já o esperava e seguiu para o dia. Mas o pensamento ficou nela, sempre nela.

Dentro do carro, Heitor deixou o olhar perdido na janela. O motorista seguia em silêncio, mas a mente dele estava longe dali.

Havia uma semelhança que o atormentava desde a primeira vez que notou. Helena… Jonas… Isaac. E como se não bastasse, o nome da mãe dela era o mesmo da mãe deles. Lorena.

Levou os dedos às têmporas, massageando devagar.

— Só o que me faltava… — murmurou baixo, como se a vida estivesse pregando uma peça de mau gosto.

A proximidade dos Medeiros com os Monteiro sempre foi natural, quase uma extensão da própria família. Mas e se Helena fosse filha da mesma mulher? Como ele iria lidar com essa dinâmica? Seria uma sombra insuportável. Não havia outro jeito: precisava tirar essa dúvida pela raiz.

Pegou o celular e digitou no WhatsApp: “Lorena Medeiros”. A foto de perfil apareceu — Paulo, Isaac e Jonas, de paletó, Jonas levantando uma taça de champanhe, Paulo no centro, os três sorrindo.

Heitor prendeu o ar. Se fosse Lorena ali na foto, talvez tivesse desistido de apertar o botão. Ainda bem. Mas a inquietação não diminuiu. Lorena era a esposa do governador, qualquer pesquisa rápida na internet poderia lhe trazer a resposta. Mesmo assim, ele não queria descobrir daquela forma.

Seu coração disparava. Fazia tempo que não a via, e quando a via… não prestava tanta atenção assim. Tinha apenas uma vaga lembrança do rosto dela, suficiente para reconhecê-la pessoalmente, mas insuficiente para aliviar a aflição que o corroía agora.

Antes que pudesse pensar duas vezes, apertou o ícone de chamada. O toque ecoou uma, duas vezes…

— Alô? Heitor? — a voz de Lorena surgiu carregada de preocupação.

Ele respirou fundo, disfarçando o nervosismo com a simpatia controlada que sempre usava em público.

— Bom dia, primeira-dama.

— Aconteceu alguma coisa? — o tom dela soou aflito.

— Não, não. Está tudo bem. Só liguei porque faz tempo que não conversamos.

— Ahhh… que susto, garoto. — a risada dela saiu leve, mas Heitor manteve o semblante tenso.

— Fica tranquila. Como estão as coisas?

— Tudo bem por aqui. E você? Soube da sua nova namorada.

Ele sorriu sozinho, mas a menção apenas apertou ainda mais a sensação no peito.

— A Helena. Ela é… excelente. Como se tivesse sido feita sob medida para mim.

— Que apaixonado, hein? Ela deve ser incrível mesmo.

— Ela é. — a voz dele saiu firme, convicta. — Escuta, eu trouxe de Fortaleza um presente para a coleção do padrinho. Queria passar aí para entregar… e aproveitar para ver vocês.

Silêncio. Do outro lado, Lorena demorou alguns segundos que pareceram uma eternidade.

— Você vai vir… com a Helena? — a forma como ela perguntou fez o estômago dele embrulhar. O calafrio que percorreu sua espinha quase o fez soltar um palavrão.

— Vou só eu. — respondeu rápido, direto, tentando manter o tom leve. — Ela está ocupada com umas propostas. Vai ser coisa rápida.

— Hm… pode vir depois de amanhã. Serve?

— Nesse horário?

— Às 12h. Almoce conosco. Vai ser ótimo.

— Estarei aí.

— Te espero.

Quando desligou, ficou com o celular apoiado na perna, o punho fechado. O nó no estômago não passava. Aquilo que pensava era absurdo, impossível. Mas só olhando nos olhos dela conseguiria ter certeza. E, mais que isso, havia uma pergunta guardada dentro dele que não iria mais se calar.

Enquanto ele tentava sufocar as dúvidas, do outro lado da cidade, Helena também travava sua própria batalha.

Ela acordou num sobressalto, levou as mãos à boca e correu para o banheiro. Mal teve tempo de se ajoelhar quando o corpo expulsou tudo de uma vez. O estômago se revirava tanto que, mesmo depois de não restar nada, a ânsia insistia em sacudi-la. Ficou ali, apoiada no azulejo frio, respirando com dificuldade, os olhos marejados pelo esforço.

— Mas o que é isso? — murmurou para si mesma, tentando entender.

Nunca tinha passado tão mal assim. Cólica, irritação, choros repentinos… isso ela conhecia bem. Mas aquele enjoo avassalador? Aquilo era novidade.

Levantou-se cambaleando e entrou no chuveiro. A água quente escorria pelas costas, tentando lavar não só o mal-estar, mas também a confusão que lhe pesava na cabeça. Enquanto esfregava o rosto, flashes do dia anterior vieram: as propostas, as reuniões… E, de repente, o pânico. Que horas eram?

Saiu apressada, enfiou o roupão às pressas e foi até a janela. O sol estava alto demais para ser manhã. Correu até o celular no criado-mudo. Quase 14h.

— Não, não, não… — murmurou, apavorada. Havia perdido o horário de trabalho.

Com raiva, discou para Heitor. Como ele não a acordou? Mas antes que ligasse, viu a tela de mensagens. No WhatsApp, uma notificação do RH da Plano & Forma: “Bom dia, combinado. Melhoras.” Helena arqueou a sobrancelha. Deslizou a tela para cima e viu a mensagem anterior: enviada pelo próprio Heitor. Revirou os olhos e, apesar da irritação, não conteve o riso.

— Só podia ser ele mesmo… — falou sozinha, balançando a cabeça.

Ignorou os outros chats e foi direto na conversa com ele. Apertou o botão de áudio:

— Amor, você é insuportável mesmo. Mas agradeço por ser meu insuportável. Precisava descansar. Acordei só agora, acredita? Vou ficar te esperando.

Poucos segundos depois, a notificação surgiu na tela. Ela abriu imediatamente.

— Oi, meu amor. Que bom que descansou. Aproveita o dia, já já tô em casa. Tô doido pra te ver, gatinha.

O coração dela amoleceu. Sorria feito boba, repetindo o áudio como se fosse uma música. Doido pra te ver…

Levantou-se e foi até a cozinha. Encontrou o recado carinhoso dele na caderneta e, ao abrir o micro-ondas para pegar a refeição, o cheiro quente do tempero subiu forte. O enjoo voltou como uma onda. Helena correu de novo para o banheiro, ajoelhando-se no chão frio. O corpo tentou expulsar o que não existia mais.

Ofegante, sentada ao lado do vaso, pegou o celular. Os dedos tremiam enquanto digitava: “vômito, falta de apetite, cansaço.” Os resultados surgiram rápido: viroses, infecções, desidratação, anemia.

— Deve ser isso… — sussurrou, tentando se convencer. Tinha bebido pouca água nos últimos dias, estava exausta. Precisava se hidratar, descansar. Se continuasse no dia seguinte, procuraria um médico.

Lavou o rosto, escovou os dentes e deixou o cabelo solto para secar naturalmente. Deitou-se no sofá, colocou sua série favorita e puxou a manta. Ainda se sentia inchada, desconfortável. Passou a mão na barriga, suspirou fundo.

— Preciso começar a ir na academia com o Heitor mesmo… — resmungou, fechando os olhos.

Helena estava deitada no sofá, perdida no episódio do seriado, quando o celular vibrou sobre a sua barriga. Olhou a tela: “Celina Monteiro”. Respirou fundo antes de atender.

— Alô?

— Helena, você está em casa? — a voz firme da sogra soou do outro lado.

— Estou sim.

— Ótimo. Vou mandar alguém te buscar, quero te mostrar uma coisa.

Helena apertou os olhos, cansada.

— Ah… Celina, eu não tô me sentindo muito bem hoje. Será que pode ser amanhã?

Houve uma pausa curta.

— O que você tem?

— Acho que desidratei. Esse calor do Rio… ainda não me acostumei.

— Heitor está aí com você?

— Não, ele tá no trabalho.

— Então vou eu mesma.

Helena se endireitou no sofá.

— Não precisa, de verdade. Eu só preciso descansar um pouco.

A risada baixa de Celina veio carregada de ironia.

— Descansar? E se você desmaiar no meio do caminho até a cozinha? Não quero ter que chamar os bombeiros.

Helena suspirou, vencida.

— Tá bom…

— Deixa a porta aberta. Em quinze minutos eu chego.

A linha ficou muda. Helena encarou o celular na mão e deixou a cabeça cair contra a almofada, sem forças para discutir mais.

Passou-se um tempo. Helena estava quase pegando no sono quando o som da porta abrindo a fez sobressaltar. Sentou-se rápido, tentando ajeitar o cabelo, e viu Celina Monteiro entrar com elegância, carregando várias sacolas.

— Desculpe a demora — disse a sogra, fechando a porta com naturalidade e pousando as sacolas sobre a mesa.

Antes que Helena dissesse qualquer coisa, Celina atravessou a sala e se inclinou diante dela, tocando-lhe a testa e depois a nuca. O gesto foi rápido, firme, mas cheio de cuidado. O perfume sofisticado de Celina se espalhou pelo ar, e Helena sentiu a pele arrepiar.

— A senhora tem um cheiro bom… — murmurou, sem coragem de encarar.

Celina arqueou uma sobrancelha, surpresa, e então sorriu.

— Você também. — puxou delicadamente os cabelos de Helena para trás da orelha, como uma mãe faria com a filha. — Não está com febre.

Sem mais palavras, levantou-se e abriu uma das sacolas. Tirou uma garrafa de vidro de água, levou até a cozinha e, com gestos firmes, misturou uma colher de sal e açúcar. Voltou em poucos minutos e estendeu a garrafa.

— Aqui. Beba isso.

Helena obedeceu, fazendo uma careta ao engolir.

— Que gosto estranho… o que é?

— Soro. — respondeu simples. — Você precisa se hidratar. Vou deixar mais alguns prontos.

Logo depois, pegou outra garrafa na sacola e entregou.

— E aqui, água de coco. Natural, ajuda a repor minerais.

Helena segurou a garrafa, sem jeito.

— Obrigada…

— Não precisa agradecer. — o tom de Celina era firme, mas a doçura estava ali, escondida sob a postura impecável. — O Rio é quente, você não está acostumada. Mas isso também é reflexo da sua alimentação. Está comendo direito?

— Não… — admitiu, sem graça. — O tempero daqui ainda não me desceu muito bem.

Celina a fitou séria, os olhos azuis intensos como os do filho. Depois, ajeitou as mangas da blusa e foi direto para a cozinha.

— Então está explicado. Assim não vai melhorar nunca. — falou decidida, já separando panelas. — Vou preparar algo leve para você, sem tempero forte, mas nutritivo.

Helena piscou, surpresa.

— A senhora não precisa…

— Preciso sim. — interrompeu, categórica, sem sequer olhar para trás. — Quero ver você melhorando. Você é a mulher do meu filho, Helena. Não vou deixar você definhar por falta de comida.

Helena encostou-se no sofá, observando a cena. O som da faca contra a tábua, o cheiro suave de legumes começando a dourar no azeite… tudo era tão diferente do que imaginava. Celina Monteiro, impecável, de salto, pulseiras de ouro com diamantes tilintando no pulso, agora cuidando dela como se fosse da família desde sempre.

Por um instante, Helena deixou de se sentir uma intrusa no mundo dos Monteiro. Ali, no silêncio aconchegante do apartamento, com Celina preparando algo especialmente para ela, era quase como se tivesse encontrado uma mãe.

Celina voltou da cozinha com uma tigela fumegante. Era uma sopa cremosa de legumes, o aroma suave não provocava o enjoo de antes — pelo contrário, fazia o estômago de Helena roncar. Ela pegou a colher sem protestar e provou. O sabor explodiu na boca: leve, equilibrado, reconfortante.

Em poucos minutos, estava inclinada sobre a tigela, raspando o prato até onde dava. Passou o dedo discretamente pelo fundo.

— Ei! — Celina ergueu as sobrancelhas, perplexa. — Tira esse dedo do prato. Eu ponho mais, se quiser.

Helena levou o dedo à boca e riu, sem jeito.

— Desculpa… é que está deliciosa.

Celina tentou manter a pose, mas a boca traiu e um sorriso largo escapou.

— Esfomeada mesmo… Meu filho não te alimenta, não? Francamente.

As duas riram juntas. Helena repetiu o prato uma, duas, três vezes, até encostar a colher na mesa com suspiro satisfeito. Celina a observava como quem tinha vencido uma pequena batalha.

— Pronto. Agora sim está satisfeita. — disse, recolhendo os pratos.

Voltou à sala trazendo uma sacola elegante da Dior. Seus olhos brilhavam com a mesma energia de uma menina prestes a revelar um segredo. Sentou-se ao lado de Helena no sofá e, com cuidado, retirou de dentro um álbum de fotos enorme, com capa de couro trabalhado.

— Semana que vem é o aniversário de quarenta anos do Heitor. — anunciou com orgulho. O sorriso dela suavizou os traços sofisticados. — O tempo passa tão rápido…

Passou a mão sobre a capa, como quem acaricia uma lembrança.

— Queria te mostrar as fotos dele. — seus olhos azuis cintilavam de emoção. — Ele já é um homem maduro, um líder… mas para mim, continua sendo o meu bebê.

Helena se ajeitou no sofá, curiosa. O coração acelerou só de pensar em ver outra versão daquele homem que hoje ocupava tanto espaço em sua vida.

Celina abriu o álbum. Na primeira página, uma foto de Heitor pequeno, não mais que cinco anos, sorrindo com os cabelos bagunçados e um carrinho de brinquedo nas mãos.

Helena levou a mão à boca, surpresa.

— Meu Deus… ele era tão…

— Travesso. — completou Celina, rindo baixo. — Era uma criança tão doce.

Helena passou os dedos pela foto, encantada.

— Aqui… — apontou com delicadeza. — Hospital Perinatal. Olha só o cabeludo.

Helena arregalou os olhos. O bebê, enrolado numa manta branca bordada com a inicial “H”, tinha uma cabeleira pretinha que chamava atenção. Ao lado, Celina — impecável mesmo no pós-parto.

— Ele nasceu com esse tanto de cabelo? — Helena riu, tocando a foto. — Não mudou nada! Continua com essa carinha travessa…

Celina sorriu, orgulhosa.

— É. Desde o berço, Helena. Olha a expressão. É o bebê mais lindo do mundo.

As duas riram.

— O parto estava previsto para o dia quinze de novembro, mas esse ansioso quis vir antes. Minha bolsa estourou no dia doze, ele nasceu na hora do almoço.

Viraram a página: o batizado na Igreja da Candelária. O bebê de linho branco no colo do pai, a família Monteiro em peso ao redor.

— Essa igreja é maravilhosa… — Helena suspirou. — E olha ele ali, tão pequenininho.

— Foi um evento. — Celina comentou, rindo. — Metade da elite carioca compareceu. Seu sogro queria que fosse grandioso.

Helena observou mais de perto.

— Engraçado… eu consigo ver o mesmo olhar dele adulto, mesmo aqui. É tão fofo, realmente os bebês parecem com suas versões adultas.

Celina fechou os lábios, emocionada, mas não comentou. Virou mais uma página.

Agora eram fotos de aniversários infantis: palhaços, decorações de circo, Mickey. Balões coloridos em salões clássicos.

— Não acredito que esse homem que eu conheço teve festa do Mickey. — Helena cobriu a boca para não rir.

— Teve, do Mickey, do circo, até de mágico. — Celina contou, divertida. — E adivinha? Ele odiava os palhaços. Chorava.

Helena gargalhou.

— Eu preciso zoar ele por isso.

— Pode zoar. — Celina disse, cúmplice. — Ele precisa lembrar que nem sempre foi tão imponente.

Avançaram. Viagens internacionais. Um carrinho Silver Cross em Orlando, fotos na Disney. Heitor bebê com os olhos semicerrados pelo sol da Flórida.

— Ai, que chique. — Helena comentou. — Ele com as orelhinhas do Mickey.

— Pois é. — Celina suspirou. — Ele nunca deixou de ser um menino doce.

Viraram para a infância: praia de Ipanema, baldinhos de areia, guarda-sóis listrados. Heitor, de óculos de sol, construindo castelos.

— Olha ele! — Helena riu alto. — Parece modelo mirim.

— E ele era mesmo. Estampou vários outdoors de lojas infantis — Celina olhou com orgulho. — Na época uma até uma panificadora tinha a foto dele representando.

— Agora sei de onde veio essa confiança dele.

As páginas seguintes traziam escola: uniformes, fotos de formaturas do pré, depois dos primeiros anos do fundamental.

— Ele sempre foi o mais querido da turma. — Celina comentou. — Olha a carinha custosa.

Helena sorriu, apertando a foto com cuidado.

— Ele é assim até hoje… Só comigo é que… — ela parou, corando.

Celina levantou os olhos para ela, mas apenas sorriu de canto, sem dizer nada.

Adolescência. Viagens de esqui: Bariloche, Aspen, Courchevel. Heitor, já alto, roupas de neve, uma postura quase adulta.

— Nossa… — Helena suspirou. — Ele tinha esse olhar… já parecia um homem.

— Foi crescendo rápido demais. — Celina comentou, com ternura. — E eu sempre pensava: é meu bebê, mas o mundo não vai enxergar assim.

Mais páginas: acompanhante nas festas de 15 anos, viagens da escola para Nova York, fotos no Country Club jogando futebol e vôlei. Até chegar a um registro que fez Helena gargalhar: Heitor encostado num carro, aos 18, chave na mão.

— Esse foi o primeiro carro dele. — Celina explicou. — Um BMW que o pai mandou importar.

— Não acredito! — Helena riu. — Ele devia se achar o máximo.

— Se achava mesmo. — Celina deu de ombros.

Por fim, chegaram à vida adulta inicial: formatura na FGV, beca, pais orgulhosos ao lado. Depois, fotos de casamentos de amigos, viagens sofisticadas, eventos sociais.

Helena passou a mão pelas páginas devagar, absorvendo cada detalhe.

— Ele realmente cresceu nesse universo… e mesmo assim, comigo, ele consegue ser tão simples. — murmurou, mais para si mesma.

Celina encarou as fotos.

— É porque ele encontrou em você um lugar seguro. Onde pode ser só ele.

Helena engoliu seco, sentindo o peito aquecer.

Celina fechou o álbum, mantendo a palma sobre a capa de couro por alguns segundos. Os olhos azuis dela buscaram os de Helena, que ainda sorria com a lembrança das fotos.

— Sabe, Helena… — começou devagar, escolhendo as palavras. — Estou bem impressionada com você. Você realmente… é uma boa menina.

A frase, simples, atravessou Helena como uma onda morna. Um vazio antigo, que ela carregava sem nome, pareceu se preencher de repente. Os lábios tremeram num sorriso tímido, e, sem pensar muito, ela se virou, apoiando a cabeça no colo da sogra.

Celina congelou. O corpo inteiro travou diante daquele gesto inesperado. Por um instante, quase afastou a mão. Mas então soltou o ar devagar, balançando a cabeça em negação, como quem se rendia a algo inevitável.

Com relutância, levou os dedos até os cabelos de Helena. Nem lisos, nem cacheados — fios rebeldes que se enrolavam entre seus dedos como fitilhos de festa. A sensação era estranha, nova… mas não desagradável. Havia uma ternura escondida ali, como se cada volta de cabelo fosse um lembrete: ela é parte da minha família agora.

Helena fechou os olhos, entregue, o coração batendo calmo pela primeira vez naquele dia. Sentia-se acolhida de um jeito que não sabia que precisava.

Celina, por sua vez, observava a cena com a seriedade de sempre, mas dentro de si algo cedia. Talvez, só talvez, fosse hora de admitir: gostava daquela garota.

Naquele dia, algo mudou. Celina percebeu, com certo espanto, que estava enganada o tempo todo: Helena podia ter o rosto que lembrava Lorena, mas não era Lorena. A semelhança física se desfazia diante da essência. E foi nesse contraste que Celina finalmente a enxergou. Pela primeira vez, não como a filha de sua amiga, nem como namorada de Heitor, mas como a própria Helena. E isso, mais do que qualquer lembrança, a fez gostar dela de verdade.

No final da tarde, o som da chave girando na porta ecoou pela sala silenciosa. Heitor entrou, pronto para o cenário: Helena na manta, talvez a televisão ligada, Mel correndo até ele.

Mas o que encontrou o fez parar de respirar.

No sofá, Helena estava encolhida, profundamente adormecida. A cabeça repousava no colo de Celina Monteiro. E sua mãe, aquela mulher elitista e racista, estava ali… acariciando os cabelos da nora com um gesto lento, quase maternal.

O mundo pareceu suspender. Heitor ficou parado na porta, a pasta ainda na mão, os olhos arregalados, como se tivesse entrado em uma realidade paralela. Sua mãe, a mesma que tantas vezes se fizera de difícil, estava ali cuidando da Helena como se fosse dela.

— Mãe… — murmurou, incrédulo.

Celina levantou os olhos devagar, os dedos ainda presos nos fios de Helena, que dormia tranquila. A expressão dela foi de leveza, mas em um segundo fechou-se em armadura.

— Não se atreva a dizer nada, Heitor Monteiro. — sussurrou firme, num tom que só ela tinha.

Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Só conseguia olhar. A cena diante dele desmontava tudo o que acreditava saber sobre aquela mulher.

E pela primeira vez, Heitor não sabia se estava mais apaixonado por Helena, por tê-la visto conquistar até o coração da mãe dele… ou mais em choque com Celina, que finalmente deixava cair a máscara.