O CEO que Eu Paguei

54 Tudo ao Mesmo Tempo Agora


Heitor dirigia pelas ruas da cidade com a mão esquerda no volante e a cabeça longe demais para manter qualquer foco. Helena. Ela estava em tudo — no cheiro que ainda estava grudado nele, na memória da voz, no gosto da pele, até na porra do banco do carona, que parecia ter guardado o calor dela.

Mas o que ele ia fazer agora?

O som do GPS avisava uma curva e ele ignorava. A rua se aproximava, mas os pensamentos estavam quilômetros à frente. Helena. Helena com aquele corpo delicioso, com aquele jeito ranzinza que ele já tinha aprendido a decifrar. E agora? Ele tinha dito que cuidaria dela. E queria mesmo cuidar. O problema é que cuidar… envolvia muita coisa.

Será que ela usaria uma aliança? Será que ela queria tudo isso? Será que ele mesmo estava pronto?

Ele apertou o volante.

Desde moleque, aprendeu a esconder o que sentia. O pai nunca disse com palavras — não era do tipo que falava de sentimentos. Era no jeito de se portar, no jeito de ser homem e na forma de sustentar o sobrenome Monteiro. “Pra carregar esse nome, tem que ser homem de fibra”, as palavras de seu pai foram os pilares da formação do homem que ele era hoje. Heitor nunca soube ser leve, mas teve que aprender a se controlar. Amor era demonstração com limite, com tempo marcado. E Heitor cresceu acreditando que se mostrasse demais… viraria fraqueza.

Mas com Helena?

Caralho. Ele mal conseguia controlar.

Ela invadia os espaços que ele protegia. Ela olhava e via. Tocava e quebrava. E ele não sabia como lidar com isso sem desmoronar — então tentava conter.

Mas conter o que sentia por Helena era como tentar segurar o mar com as mãos.

Ela tirava o juízo dele com uma frase atravessada, com aquele andar empinado, com a forma como empurrava ele pra longe mesmo enquanto se jogava na boca dele. Era intensa. Era cheia de orgulho. Mas ele via — ele sentia — o quanto ela se doava quando se entregava. Por isso ele queria mais. Muito mais.

Só que ele não queria ficar ali. Aquela cidade não era o mundo dele.

O Rio era. E era lá que ele se via de novo — mas agora com ela. Só que como ia tirar Helena de perto da avó? Ele precisaria dar qualidade de vida para a Dona Olívia. E isso incluía casa, conforto, tudo.

A cabeça dele latejava quando finalmente chegou ao condomínio fechado onde morava naquela cidade. A casa era espaçosa, bonita, com o toque de luxo que o avô exigia. O jardim era bem cuidado pela funcionária que mantinha o local sempre arrumado, mesmo com Heitor passando mais tempo fora do que dentro.

Mas por mais bonita que fosse, ele olhou e pensou: não é o suficiente pra ela.

Ele queria um lar. Um lar com cheiro de Helena. Com roupa dela no varal, com Totó e Mel latindo no quintal, com Dona Olívia assistindo novela e criticando as atrizes. Ele queria tudo.

Entrou, jogou as chaves na bancada e tirou o calção com uma pressa impaciente. Foi direto pro banho.

A água quente caiu sobre ele como um soco lento. Mas não lavava o desejo. E, naquele instante, com a lembrança da boca da Helena, da forma como ela gemia e tremia, o olhar entregue de tesão, o jeito que ela apertava ele dentro dela, Heitor encostou a testa no azulejo e deixou a mão descer.

Sozinho.

Só conseguia pensar naqueles lindos olhos castanhos, pareciam desenhados e quando ela o olhava de lado, nossa... era tão sexy. Quando ela soltava o ar pelos lábios carnudos, aqueles mesmo que o envolviam. O sorriso safado que ela dava enquanto mordia o lábio, gostosa demais. A visão do pescoço e do colo dos seios, ela era uma obra prima do mais puro pecado, a pele marrom bombom que parecia brilhar contra a luz. Os seios pequenos empinados, com os mamilos mais escuros durinhos com a respiração quente dele sobre eles.

Puta merda, ele nem conseguiu descer mais pela lembrança do corpo dela, já sentiu a respiração pesada e entrecortada. A voz dela gemendo o nome dele, enquanto o olha com tanto desejo e entrega, como se suplicasse por ele. Sentiu os espasmo e então o alívio, enquanto o orgasmo escorria pastoso como leite condensado pelo pau dele e sujava a mão esquerda que ainda punhetava devagar.

Depois… ficou em silêncio por alguns minutos.

— Que porra tá acontecendo comigo? — murmurou.

Secou o cabelo, vestiu uma bermuda de moletom e ficou sem camisa. Quando pegou o celular, viu uma mensagem dela.

“Helena ❤️❤️”. Só de ler o nome já apareceu aquele sorriso idiota no canto da boca.

“Chegou bem?”

Mensagem simples. Do jeito dela. Mas que deixava o peito dele… cheio.

Ele respondeu:

“Cheguei sim. Mas queria ter ficado aí. Certeza que a noite seria mais gostosa com você.”

Demorou dois minutos. O visto azul apareceu. Ela respondeu:

“Você fala como se já não tivesse aproveitado o suficiente.”

Ele sorriu.

“Ainda tô com gosto de você na boca. Não me parece o suficiente.”

Helena mandou um emoji de revirar os olhos, mas ele sabia. Ela tava sorrindo.

“Vai dormir, Monteiro. Amanhã a gente trabalha.”

“Eu tô pensando eu ficar de folga amanhã. Mas se você pedir com jeitinho… posso ir só pra te ver.”

“Boa noite, Heitor.”

“Boa noite, Helena. Sonha comigo, tá? Mas sem gritar, senão sua vó acorda.”

Heitor riu sozinho e soltou o celular ao lado do sofá. Pegou o aplicativo de delivery e pediu um hambúrguer com batata. Estava com fome. De comida, agora. Porque de Helena… ele estava sempre faminto .

Dez minutos depois, o interfone tocou. Mas, junto, veio outra coisa.

O celular vibrou.

Chamada de vídeo.

Nome na tela:

“Mãe 🫂”

Heitor suspirou fundo. Passou a mão no rosto.

— Lá vem… — murmurou, antes de atender.

Atendeu com a boca meio cheia e a voz arrastada:

— Boa noite, dona Celina.

Ela suspirou, como se ele tivesse cometido um crime grave.

— Pra você é mamãe, Heitor.

Ele riu pelo nariz e engoliu.

— Tá bom, mamãe... — falou com um sorrisinho irônico no canto da boca. — Tava até demorando pra ligar, confesso. Tá tudo bem aí?

— Tudo ótimo. Mas você... — ela ajeitou a câmera, o batom impecável, cabelo preso num coque alto, pérolas nas orelhas — você que tá demorando demais. Fiquei com a impressão de que resolveria tudo nessa cidade em três dias do tanto que você falou mal dela.

Heitor se encostou no sofá com a cara de quem sabia que ia tomar sermão e provocou:

— Então, mãe… a cidade me surpreendeu.

Ela o encarou, semicerrando os olhos.

— Heitor... Heitor... O que é que você tá aprontando? — Ela cruzou os braços. — Mas antes de você inventar história, sabe com quem passei o dia hoje?

— Com a mãe do Jonas? — arriscou ele, pegando uma batata.

— Passei um tempo com a Lôlô ontem… mas hoje? Hoje quem eu vi foi a Marcela.

Heitor revirou os olhos com força e soltou:

— Ahhh, porra, mãe! — e logo depois: — Desculpa. Mas não, né?

— Heitor Monteiro! — ela estalou a língua. — Marcela é excelente pra você! Sempre foi! Inteligente, bonita, família e sofisticada. Eu queria muito que você ligasse pra ela.

— Mãe… a Marcela é minha ex. E por um motivo que você sabe muito bem. A gente não tem mais nada. Solta a mulher, pelo amor de Deus.

— Não seja dramático. Ela era perfeita e ainda é. Queria que ela fosse a mãe dos meus netos...

Heitor soltou uma risada baixa, debochada, e tomou um gole de refrigerante.

— Pois vai ter que querer outra. Porque a mãe dos seus netos... eu já escolhi.

Silêncio.

Celina chegou mais perto da câmera, como se os olhos azuis dela pudessem confirmar se ele estava brincando.

— Como é que é? — a voz baixou meio cortante.

—Eu conheci uma mulher. Helena. Ainda estamos nos conhecendo... — o sorriso dele escapou no canto da boca — ...mas eu tenho certeza. É ela.

— Onde você conheceu essa Helena? — Celina agora parecia uma juíza de toga na Suprema Corte. — Você está viajando pelas filiais há quase um ano. Mal tem parado. Está dizendo que se apaixonou por uma funcionária?

Heitor ficou sério. Cruzou uma perna sobre a outra coxa e apoiou o braço no encosto do sofá.

— Conheci por acaso. A vida jogou a gente junto, mãe. E… ela me virou do avesso. Do melhor jeito.

— E a família dela? — a pergunta veio como uma flecha. — Quem são?

— Ela mora com a avó. Dona Olívia. Cuida dela sozinha.

— Cadê os pais?

— O pai… faleceu quando ela era pequena. A mãe, sumiu. Nunca foi presente.

Celina se calou por um segundo. Depois soltou a pergunta de forma direta, seca:

— Ela é pobre, Heitor?

Heitor franziu o cenho, sério.

— Ela é trabalhadora. Esforçada. Nunca teve moleza de ninguém.

— Não perguntei se ela é esforçada. Perguntei se ela é pobre.

— Mãe... — ele passou a mão no rosto. — A Helena é rica do que importa. Tem dignidade, tem fibra e tem história. Você queria tanto uma mulher que cuidasse da família? Que fosse firme, leal e orgulhosa? Pois é ela.

— Eu quero alguém à sua altura. — a voz veio baixa, mas dura. — Você não é qualquer um. É o herdeiro da Monteiro Inc. É um homem com nome e com legado. E uma mulher sem estrutura, sem base social, pode acabar com sua reputação e tudo que já foi construído anteriormente.

Heitor ficou em silêncio por alguns segundos. A mandíbula travada.

Depois falou devagar:

— Mãe, com todo respeito… quem não tá à minha altura é quem não respeitar a mulher que eu escolhi.

Celina franziu o cenho.

— Você fala como se estivesse decidido mesmo.

— Tô.

— Você mal conhece essa garota.

— Já conheço o que importa. O resto, eu descubro com ela. E se a senhora quiser fazer parte disso… vai ser bem-vinda.

Celina suspirou, como se estivesse tentando entender o filho adulto que se formou embaixo do nariz dela.

— E se ela não quiser essa vida, Heitor? Esse mundo?

Ele deu um meio sorriso. O olhar, firme.

— Aí eu construo outro. Do jeito dela.

Celina ficou em silêncio de novo. Depois disse:

— Você sempre foi o mais teimoso do Monteiros.

— Não é teimosia. É só que, dessa vez… eu não tô afim de abrir mão.

Ela ajeitou o coque como se ainda tentasse controlar a situação.

— E essa menina ao menos sabe no que está se metendo?

Heitor olhou pra câmera, sério:

— Ainda não. Mas eu vou mostrar pra ela… que pode confiar.

Celina o observou longamente. Por fim, apenas disse:

— Boa noite, meu filho. Pense no que está fazendo.

— Boa noite, mãe. Tenta dormir. E… tenta gostar dela. Por mim.

— Veremos.

A tela escureceu.

Heitor soltou o ar e apoiou a cabeça no encosto do sofá. O coração ainda martelava no peito.

Mas a certeza?

A certeza tava mais firme que nunca.