O CEO que Eu Paguei

44 Raízes com Café Passado


A segunda-feira tinha começado com o pau de Heitor pulsando feito radar. O corpo dele ainda lembrava cada curva da Helena, cada gemido, cada arrepio. Era cedo, mas ele já sabia: hoje ele não ia bater ponto na Monteiro Inc. Hoje a prioridade era outra.

Mandou uma mensagem pro escritório com a tranquilidade de quem podia mandar no mundo:

“Indisponível hoje. Reunião importante.”

Se vestiu com aquela casualidade calculada: calção de moletom azul marinho, camisa polo cinza clara, chinelo Ralph Lauren no pé. Ajeitou o cabelo no espelho, escolheu um perfume mais leve — não aquele do sábado, mas um que deixava rastro mesmo depois que ele saía da sala.

Jogou algumas trocas de roupa na mochila, só por precaução. “Nunca se sabe, né?”

E antes de seguir pra casa da Helena, passou na padaria nova que ele ficou sabendo que tinha aberto no centro. Comprou biscoitos quebra-quebra com coco, um bolo de cenoura com cobertura grossa de chocolate e — porque ele sabia como agradar um cachorro — um pé de porco inteiro no açougue.

Era hora da conquista real.

Precisava agir, se quisesse ter aquela mulher mesmo, teria que se esforçar.

No carro, começou a pensar no corpo dela, a pele mulata arrepiada com o toque, a bunda grande, as coxas grossas, os seios durinhos e empinados… que delícia de mulher… nunca viu uma tão molhada daquele jeito, ele forçou bastante dentro dela, nem pensou muito, tinha entrado todo dentro, normalmente ele nem conseguia meter o pau todo e já estava acostumado com isso, mas para Helena, foi super tranquilo, ela cavalgou até o talo. Que mulher era aquela? Era a mulher dele, única explicação.

Quando respirou fundo viu o pau duro, levantando o calção. O que estava acontecendo? Ele não era mais adolescente, era um homem maduro e experiente. Tentou mudar os pensamentos. Pensou na empresa, mas logo veio a imagem de Helena a sua frente, as pernas de fora, ela passando as mãos pelos lindos cabelos rebeldes, o jeito que ela o olhava, ele amava aquele olhar, quando franzia o nariz insatisfeita ou para reclamar, e principalmente aquele sorriso, nossa, aquele sorriso o desmontava inteiro.

Pensar na empresa não estava ajudando.

Ele começou a pensar nos amigos no Rio, agora sim, brochou na hora.

Depois foi para a casa de Helena, quando chegou, bateu palma no portão. Totó foi o primeiro a responder, latindo como se fosse o segurança oficial da casa. Dona Olívia apareceu pouco depois, de chinelo e meia, avental, e cara de quem não esperava visita a essa hora da manhã.

— Você veio mesmo, rapaz? — disse ela, erguendo uma sobrancelha desconfiada.

— Claro que vim. A senhora foi muito gentil comigo ontem. Vim fazer companhia a senhora, como prometi — respondeu ele, com aquele sorriso honesto de quem vende até vento embalado.

Dona Olívia fez um sinal com a cabeça e abriu o portão. Heitor entrou e já foi direto brincar com o Totó, abaixando e oferecendo o pé de porco. O cachorro abocanhou com alegria e saiu correndo pro quintal.

— Tô começando a gostar de você — disse a senhora, cruzando os braços. — Totó aprovou.

— Um bom julgamento indiscutível, né? — disse ele, piscando.

Ela riu de leve. Só de canto de boca. Mas já era um avanço.

— E isso aí? — perguntou ela, apontando para o pacote na mão dele.

— Bolo de cenoura com cobertura e uns biscoitinhos quebra-quebra. Vi e pensei na senhora.

— Você pensa demais pra um homem só — comentou ela, abrindo espaço pra ele entrar. — Vai querer café?

— Se for passado na hora, aceito.

Dona Olívia apontou com a cabeça para a garrafa térmica.

— É de garrafa. Mas fui eu quem fez. Forte e doce, do jeito certo.

Heitor pegou a xícara, provou, ergueu as sobrancelhas e sorriu:

— Tá melhor que muito café de hotel de luxo.

Ela riu. Baixo. Mas riu.

— Foi a Helena que fez — confessou, voltando para a cozinha para pegar uma faca e pratos.

Heitor sorriu com os olhos.

— Ahn… então a moça sabe fazer café bom também.

— A Helena sabe fazer muita coisa. Só não sabe descansar. Vive com esse nariz enfiado no computador. — disse Dona Olívia, voltando. — Trabalha como se o mundo dependesse dela.

Heitor já estava ali fazia mais de uma hora conversando com a senhora. Já tinha tomado quatro xícaras inteiras, mas ele ainda o segurava com uma das mãos enquanto escutava Dona Olívia falar — do jeito que só gente antiga sabe: com o tempo entre as palavras, com as pausas que falam mais que as frases.

Dona Olívia mostrou uma foto antiga na estante.

— Esse menino aqui — disse ela, apontando pra uma moldura de madeira escura pendurada na parede. — É o Henrique. Meu caçula. O pai da Helena.

Heitor virou levemente o rosto, curioso. A foto era antiga, amarelada nas bordas, mas dava pra ver bem: o rapaz tinha um sorriso grande, uniforme da PM impecável e um brilho nos olhos de quem achava que ia mudar o mundo.

— Muito bem aparentado ele. Não sei se é a foto, mas a Helena não puxou muito ele.

Dona Olívia soltou um suspiro fundo. Não respondeu logo. Passou a mão pelo pano de prato com mais força do que antes.

— Era o melhor dos três. O mais novo, mas parecia o mais velho. Estudioso, obediente. Meu orgulho, sabe? — Ela fez um gesto com a mão, como se afastasse uma poeira imaginária da memória. — Tinha passado na prova pra fazer Direito… Queria subir na patente, ser oficial. Mas... se meteu com a pessoa errada.

Heitor não falou nada. Só escutou.

— Lorena. — disse, com a boca amarga. — Aquilo nem devia ser chamada de gente. Mais nova que ele, menor de idade. Bonita, mas vazia. Vivia pra gastar o dinheiro dele e sair pra gandaia. E ele? Apaixonado. Cego. Achava que o amor dele a consertaria.

Heitor soltou um “hmm” baixo. E olhou de novo pra foto do rapaz.

— Foi ela quem engravidou da Helena? — perguntou, com um tom calmo se virando para a senhora.

— Foi. E queria tirar. — O pano de prato foi amassado nas mãos dela. — Meu filho não deixou. Fez acordo. Pagava tudo. Mas ela odiava a gravidez. Dizia que ia matar ela. Mas o Henrique pulava de alegria com a gravidez. Chorou quando descobriu que era menina. Ia se chamar Helena desde o começo. Foi ele quem escolheu.

Ela se levantou devagar, foi até um armário com porta de vidro e abriu.

— Vem cá.

Heitor a seguiu. Lá dentro, entre xícaras decoradas e um terço pendurado num prego, havia um porta-retrato antigo.

— Esse aqui é o Henrique mais novo.—depois apontou para outro porta-retrato — E aqui, o Zé, meu marido. E essa aqui… — Ela apontou pra uma menininha de vestido rosa, o laço torto no cabelo, sentada no colo com uma expressão doce.

— É a Helena?

— É. Com dois anos. No colo do avô. Onde ela mais gostava de ficar.

Heitor sorriu.

— Ela era uma criança muito fofa, parecia uma bonequinha.

— A cara da mãe. E eu odiava isso, ainda odeio… um pouco... — disse num tom amargo, mas sem orgulho disso. — Quanto mais crescia, mais parecia. Parecia castigo. Só a cor era nossa. Aquela cor do nosso sangue, da nossa terra.

Heitor não disse nada. Só olhou mais um pouco pra Helena pequena.O coração dele apertou um pouco, não deve ter sido fácil para ela crescer ouvindo tudo aquilo

Ela continuou a falar com a voz carregada de rancor e ódio.

— Aquela mulher... largou a menina com nem dois meses. Disse que não amava ele. Nem a criança. Que tava presa aqui, que não nasceu para ser esposa e mãe. E foi embora sem olhar pra trás.

A respiração de Heitor estava pesada. Ele mantinha o rosto calmo, um sorrisinho no canto da boca, os ombros relaxados. Mas por dentro... o peito estava revirado.

"O que fizeram com você, Helena?"

Ele se pegou pensando nisso como se fosse culpa dele também.

— O Zé… Ele é quem aguentou tudo. Quando o Henrique se afundou depois que foi largado, foi o Zé quem acolheu eles. Foi ele quem achou o nosso filho morto. — A voz dela tremeu. — Um dia o Henrique não apareceu em casa para buscar a menina. O Zé foi ver… e achou ele na sala. Tinha usado a própria arma. Helena não tinha nem três meses.

Heitor engoliu seco. Aquilo não era a história que ele imaginou ouvir. Era um corte aberto ainda que sangrava fácil.

Dona Olívia respirou fundo e voltou a sentar. A novela seguia passando na TV como um ruído de fundo.

— A Helena cresceu ouvindo que a mãe não prestava. Talvez eu tenha exagerado, sabe? Mas... como que eu ia falar bem de uma mulher que matou meu filho? — o olhar de ódio era visível — Espero que aquela excomungada esteja morta já.

Heitor ficou quieto. Até que disse, com a voz mais baixa:

— Ela sente muito a falta do avô?

— Não fala. Mas sente. Sente no jeito de andar, de olhar, de se fechar. O Zé que era o mundo dela. Incentivava a estudar, elogiava cada notinha que tirava. Quando ele morreu, há uns anos… Ela parou por dentro. Só seguiu funcionando.

O silêncio foi dolorido, longo, íntimo.

Heitor respirou fundo e disse com calma:

— Dona Olívia… a senhora sabe que não é um peso, né?

Ela deu um sorrisinho fraco.

— Sei que não devia ser. Mas sou. Ela cuida de tudo. Da casa, das contas, até da herança que sobrou do pai ela usou aqui. Diz que não precisa de ninguém… mas eu sei que precisa. Só não sabe como pedir.

Ele sussurrou, como quem promete sem fazer alarde:

— Então talvez eu precise mostrar que ela pode.

Dona Olívia o olhou, dessa vez com mais firmeza.

— Só não machuca minha neta, rapaz. Porque se machucar… cê não vai querer saber do que essa velha pode fazer.

Heitor sorriu, com o olhar mais sincero que já tinha dado a alguém que não fosse Helena.

— Eu nunca machucaria ela, Dona Olívia. Nunca. Mesmo quando ela tenta me matar com esse gênio difícil dela.

Ela riu. Um riso doído, mas verdadeiro.

— Então boa sorte. Você vai precisar.

Nem ele sabia o que estava acontecendo, mas uma coisa era certa: ele não queria soltar Helena. Ele queria cuidar. Ele queria mais. Não apenas o corpo — ele queria o mundo dela. Por mais torto, bagunçado e fechado que fosse.