O CEO que Eu Paguei

139 Princípios em Conflito


Após se despedir de Helena pela manhã, Heitor seguiu para a mansão da família. Havia combinado de ver a mãe.

Celina mexeu a colher no café, observando o líquido escuro girar em círculos perfeitos. Por fora, era a mesma mulher refinada de sempre: postura ereta, movimentos graciosos, olhar que parecia estudar cada detalhe do ambiente. Mas por dentro, a mente fervia pela noite anterior com Lorena.

Heitor a olhava com expectativa. Sempre tão direto, tão parecido com o pai nesse aspecto. E ainda assim, tão diferente. Ele percebeu que o sorriso dela estava mais contido do que de costume. Ele se recostou no sofá, os olhos azuis analisando a mãe com a mesma intensidade que ela usava para medir o mundo. Esse olhar, ele herdou dela.

— Obrigado por ter cuidado da Helena ontem. — a voz dele quebrou o silêncio, firme, mas com um fio de gratidão sincera. — Você foi incrível, mãe.

Celina suspirou devagar, repousando a xícara. Forçou um sorriso discreto.

— Eu fiz o que qualquer mãe faria.

— Nem toda mãe faria. — ele retrucou, sério. — Mas você fez. E eu não tenho como agradecer o suficiente.

Ela desviou o olhar, escondendo a pontada que as palavras provocaram. “Nem toda mãe faria”… e a lembrança de Lorena explodiu dentro dela. Não apenas o que Lorena revelou na noite anterior, mas o que ela disse décadas atrás em seu casamento, o que confidenciou a ela.

— Heitor… — ela começou, controlada — você sabe que eu só quero o melhor pra você. Sempre quis.

Ele se inclinou para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas.

— Eu sei. É por isso que preciso te pedir uma coisa.

Celina ergueu o queixo, elegante, quase defensiva.

— O que seria?

— Que você seja próxima da Helena. — disse sem rodeios. — Que tente conhecê-la de verdade.

A frase caiu como uma pedra na sala. Celina não respondeu de imediato. Por dentro, uma guerra se acendia. O elitismo enraizado. A herança da própria criação. O rosto de Lorena chorando na noite anterior. E agora o filho pedindo aquilo, com aquela convicção que só ele tinha.

Celina manteve a compostura, mas por dentro sentiu o coração vacilar. Por que tinha que ser tão sério? Por que tinha que ser justamente ela?

— Heitor… — ela pigarreou, tentando ganhar tempo. — Você sabe que eu não sou fácil de conquistar.

Ele deu um meio sorriso.

— Sei. Mas se tem alguém capaz de conquistar você, é ela.

Celina bufou com delicadeza, escondendo a inquietação.

— Essa confiança toda… você está apaixonado de verdade.

Ele inclinou-se para a frente, e os olhos azuis — que tantas vezes foram espelho dos dela — agora queimavam com uma intensidade que a desconcertava.

— Eu amo a Helena. Amo como nunca pensei que fosse possível amar alguém. Quero passar a vida com ela, e se houverem outras vidas depois desta… também quero todas com ela.

Celina piscou, surpresa pela confissão tão direta. As palavras ecoaram fundo, e por um segundo ela viu não apenas o filho adulto diante dela, mas o menino que um dia segurou sua mão, jurando que nunca a deixaria. O mesmo menino que agora jurava por outra mulher.

Heitor respirou fundo, mas não baixou o olhar.

— Você sempre me ensinou que quando algo vale a pena, a gente luta até o fim. Pois bem, mãe: a Helena vale cada batalha. Eu não vou desistir dela.

O coração de Celina se contraiu. Pensou na conversa com Lorena, na revelação que ainda queimava como ferro em brasa. O mundo parecia desmoronar, mas ali estava seu filho, olhando-a com fé absoluta, pedindo algo que não sabia o quão cruel era para ela.

— Você fala como se fosse destino. — Celina disse, num fio de voz, escondendo a tempestade interior.

Heitor esboçou um sorriso breve, seguro, quase sereno.

— Talvez seja. E se não for, eu vou transformar em destino.

Ela o encarou. Ele realmente era quem ela criou para ele ser.

Celina cruzou as pernas, apoiou as mãos sobre elas.

— Heitor, você sabe que eu fui criada em um mundo onde… — a voz vacilou por um instante — onde certas diferenças eram vistas de forma dura.

— Eu sei. — ele interrompeu com suavidade. — Mas você também me ensinou a ver além disso. Você me ensinou que caráter e amor são as coisas mais importantes.

Ela fechou os olhos por um instante. As palavras de Lorena ecoavam. “Ela é minha filha.” O coração de Celina se apertou.

— Helena… — Celina disse devagar, quase como se testasse o nome na boca. — Ela não é o que eu esperava pra você.

Heitor respirou fundo, sustentando o olhar dela.

— Talvez não seja o que você esperava. Mas é o que eu sempre preciso.

Um silêncio pesado caiu entre os dois durante alguns minutos.

— Você está pedindo muito de mim. — ela disse por fim.

— Não. — ele corrigiu. — Tô pedindo só o básico. Que você a conheça. Que dê uma chance.

Celina respirou fundo, mantendo a pose de mulher elegante, mas por dentro tudo era caos. A imagem de Helena sorrindo, tão parecida com Lorena, queimava sua mente. E o filho, ali, esperando por ela.

Ela pousou a mão sobre a dele.

— Eu vou tentar.

Heitor sorriu, aliviado, e apertou a mão dela de volta.

— É tudo que eu preciso.

Ela sabia exatamente porque Lorena havia pedido sua ajuda. Só ela tinha o poder de reescrever o passado de alguém, de oferecer a Lorena uma história diferente da verdade — uma história capaz de convencer Helena. Em outras circunstâncias, Celina talvez não se importasse em ceder. Mas agora… agora havia Heitor. Não poderia magoar o filho, tampouco ser cúmplice de uma mentira que, direta ou indiretamente, recairia sobre a própria família.

Ainda assim, a pergunta latejava: e se os fins justificassem os meios? Se, ao final, tudo se resolvesse, não seria válido? Celina sempre defendeu princípios rígidos, mas havia um que se erguia acima de todos: a família.

E se Heitor insistisse naquela moça? E se ele se casasse com ela? Como seriam os netos dela? O sangue Monteiro misturado… com quê? E se Helena estivesse apenas usando-o, seduzindo-o com esse jeito de menina humilde, mas calculista?

Onde foi que Heitor se perdeu? Ela o educou para ser um homem de respeito. Para manter o nome da família acima de qualquer coisa. E agora… agora ele se arrastava atrás de uma mulher pobre. Pobre e preta. O que ela jamais imaginou que poderia acontecer, agora se transformou no pior pesadelo dela.

Ela havia planejado outra vida para ele — uma união sólida, com uma mulher do mesmo círculo, de boa família, alguém que fortalecesse o legado. Em vez disso…

Ainda assim, havia uma promessa feita. Tentaria. Tentaria aceitá-la, ainda que o incômodo fosse insuportável. Bastava suportar um pouco. Com sorte, essa relação não passaria de uma fase breve, como tantas paixões que se desfazem.

Celina manteve o sorriso, mas o coração latejava. Porque sabia que não era apenas pela Helena. Era por Lorena. E agora, pelo filho.

O silêncio se alongou, e foi Celina quem decidiu quebrá-lo, ajeitando a voz como se nada a corroesse.

— Talvez… — ela hesitou, buscando firmeza — talvez nós duas possamos sair juntas. Hoje à noite, estou organizando um evento. Helena poderia ir comigo.

Heitor arqueou as sobrancelhas, surpreso e satisfeito.

— Sério? Você mesma está sugerindo isso?

Celina forçou um sorriso mais aberto.

— Claro. Se você quer que eu conheça a sua namorada, nada mais justo do que termos nosso próprio momento.

Heitor riu baixo, quase incrédulo.

— Minha mãe e minha namorada… se dando bem. Acho que finalmente ganhei na mega-sena.

Por dentro, Celina era um campo de batalha: a mãe elitista, criada em valores que rejeitavam tudo que Helena representava… e a mãe amorosa, que faria qualquer coisa pelo filho. Entre essas duas, agora surgia a terceira: a guardiã de um segredo que poderia ruir tudo.

E ainda assim, ela repetia para si mesma como um mantra silencioso:

Pelo meu filho, eu vou suportar. Até mesmo ela.

E então, a manhã então passou vagarosamente lenta para Heitor até o horário do almoço.

O carro preto parou em frente ao restaurante, e Heitor já aguardava na porta, impecável, de mangas dobradas, mas com aquela postura natural de quem dominava qualquer ambiente. Assim que o chofer abriu a porta, os olhos dele se iluminaram ao ver Helena.

— Finalmente… — disse com um sorriso caloroso, aproximando-se para estender a mão. — Vem cá, amor.

Ela apoiou os dedos delicados nos dele e desceu. Heitor a puxou suavemente pela cintura, o gesto firme, protetor, mas cheio de ternura. Os olhos azuis correram pelo rosto dela, atentos.

— Tá se sentindo bem mesmo? — perguntou baixo, a voz carregada de preocupação. — Esses dias tu não tava legal… eu fiquei preocupado.

Helena deu um sorriso breve, como quem tenta acalmar.

— Foi só cansaço, Heitor. Já tô melhor.

Ele não pareceu convencido. Com a outra mão, ajeitou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha e suspirou.

— Helê… tu sabe que não preciso de muito pra ficar maluco de preocupação contigo, né? — os lábios dele se curvaram num meio sorriso terno. — Não brinca com a minha paz.

Ela corou.

— Tá tudo bem. De verdade.

O semblante dele suavizou, mas a intensidade ficou.

— Bom mesmo… porque, se acontece qualquer coisa contigo, eu atravesso a cidade inteira, viro o Rio de cabeça pra baixo, mas não descanso até te ter de volta nos meus braços.

Helena riu baixinho, encantada.

— Exagerado.

— Não é exagero, é amor, Helê. — ele beijou a testa dela com firmeza, ignorando qualquer olhar curioso. — Eu te amo.

O coração dela disparou, e ela se apertou contra ele.

— Também te amo, Heitor.

— Vamos? Nosso almoço tá esperando.

Heitor estendeu a mão para ela como sempre fazia — um gesto natural, cotidiano entre eles. Mas, para Helena, nunca era só isso. Havia algo na forma como ele a tocava que sempre a desarmava, como se o corpo dela não soubesse se acostumar com a presença dele.

Quando sua mão delicada encontrou a dele, sentiu a ponta dos dedos deslizarem pela palma larga e quente, um arrepio delicioso foi imediato. Os poros se eriçaram, a respiração perdeu o ritmo e uma onda suave, mas arrebatadora, correu por dentro dela até alcançar o ventre. Era um caminho conhecido, mas que sempre a surpreendia. Algo que nunca antes havia acontecido com ela.

Heitor separou os dedos e subiu a mão devagar, conduzindo os dedos dela para o entrelaço. Helena acompanhou o movimento, sentindo cada detalhe: a maciez da pele dele, os nós firmes roçando em seus dedos finos, o calor inconfundível que parecia gravar-se na pele dela. Quando os dedos se prenderam de vez, o encaixe foi perfeito — sempre era. E cada vez que aquilo acontecia, Heitor se perguntava como poderia existir algo tão certo.

A mão dela parecia pequena comparada à dele, mas nunca frágil. Dentro da dele, sentia-se inteira, completa, como se aquele espaço tivesse sido criado exatamente para recebê-la. Era a mesma sensação todas as vezes, e ainda assim, cada vez única: como se o mundo voltasse a lembrá-la que ali, naquele toque, estava a prova viva do amor que dividiam.

O corpo de Helena reagia como sempre: coração acelerado, respiração curta, a pele queimando de um jeito que só ele provocava. E ela sabia que, por mais anos que se passassem, bastaria um gesto simples de Heitor para fazê-la sentir-se assim — arrebatada, desejada e amada.

Heitor sentiu o corpo se reagiu de imediato. O coração acelerou, o calor subiu em ondas, e o desejo latejou no fundo do peito, inevitável. Ele a amava com a alma, mas também a desejava com o corpo, e bastava o simples entrelaçar dos dedos para que essa verdade o consumisse. Seus olhos se prenderam aos dela, azuis em castanhos, e ali não havia mais ninguém, apenas eles.

Manteve a pressão firme, intensa, quase possessiva, mas sem perder o cuidado. Era a forma dele dizer, sem palavras: “você é minha, eu sou seu.” E ao sentir Helena estremecer em sua mão, não conteve o sorriso contido e satisfeito.

Para ele, não importava quantas vezes segurasse aquela mão: o arrepio dela sempre seria a prova mais doce de que ela o amava e o desejava com tudo o que era.

E entraram juntos, de mãos dadas, a imagem perfeita de um casal apaixonado — ele, orgulhoso de exibi-la; ela, encantada com o universo que aos poucos também passava a ser dela.

O maître abriu caminho até a mesa reservada. Heitor, puxou a cadeira para Helena com um sorriso encantado, como se aquele gesto fosse só mais uma desculpa para tocá-la. Quando ela se acomodou, ele se sentou de frente, os olhos azuis fixos nela.

— Me conta… como foi a manhã na Fort Group? — perguntou, apoiando o queixo na mão com genuína curiosidade.

Helena ajeitou o guardanapo no colo e sorriu, animada.

— Foi intenso, mas ótimo. Dei meu primeiro treinamento pra equipe de Controles Internos. — fez uma pausa, o olhar brilhando. — Eu achei que ia travar, mas não… fluiu. No fim, o pessoal veio me agradecer, fazer perguntas, parecia que eu dominava completamente o assunto. Foi… uma sensação incrível.

Os lábios de Heitor se abriram num sorriso orgulhoso.

— É claro que foi. Você nasceu pra isso, Helê. — inclinou-se um pouco pra frente. — Sabe qual foi a primeira coisa que pensei agora? Que eu queria estar lá só pra te aplaudir de pé.

Ela riu, sem jeito.

— Para, você fala assim e eu fico sem graça.

— Eu falo assim porque é verdade. — ele ergueu a taça de água num brinde improvisado. — À minha namorada, a melhor analista de riscos desse país.

Helena ergueu a sobrancelha, divertida.

— Ainda não cheguei nesse nível.

— Já chegou faz tempo. Só falta você acreditar.

Ela sentiu o coração aquecer e desviou o olhar para o prato, sorrindo.

— E você? O que fez hoje?

Heitor apoiou o braço na mesa, olhando-a com aquela mistura de leveza e seriedade que só ele sabia ter.

— Fui ver a minha mãe.

Helena ergueu os olhos, curiosa.

— É mesmo? E como ela tá?

Ele sorriu de canto.

— Tá bem. Fui agradecer por ontem… por ter ficado com você.

Helena baixou os olhos, mexendo distraída no garfo.

— Ela foi muito atenciosa. Eu realmente não esperava.

— Pois é… — ele deu um meio riso, quase incrédulo. — Mas tem mais: ela me surpreendeu. Convidou você pra sair com ela hoje à noite.

Os olhos castanhos de Helena se arregalaram, e um sorriso nervoso tomou conta do rosto.

— Sério?

Heitor confirmou com a cabeça, estudando a reação dela.

— Sério.

Ela respirou fundo, tentando conter a ansiedade.

— Eu quero ir. Quero mesmo. É importante pra mim, Heitor… ser aceita por ela. Eu sei que não vai ser fácil, que ela é exigente, mas… eu preciso disso.

O olhar azul dele suavizou, derretendo a tensão. Ele estendeu a mão por cima da mesa, enroscando os dedos nos dela.

— Helê… você não precisa provar nada pra ninguém. E além do mais, eu conheço a minha mãe. Ela já gosta de você.

Helena ficou em silêncio por um instante. Depois, com os olhos brilhando, respondeu com um sorriso bonito:

— Então parece que tudo está certo para nós. Estamos destinados, Monteiro.

Ele sorriu largo, apaixonado, e entrelaçou os dedos nos dela.

— Sempre.