O CEO que Eu Paguei

30 O que é meu, ninguém encosta


O grave da música batia forte, mas não era o suficiente pra calar o incômodo que Heitor sentia por dentro.

A boate estava cheia, e ele, rodeado. Uma mulher do lado esquerdo jogava o cabelo toda vez que falava, a outra, do direito, ria bem sugestivamente. As duas eram bonitas. Não faltava beleza ali. Nem corpo, nem cheiro doce. Nem vontade.

Mas faltava uma coisa que ele não sabia nomear… e que irritava o caralho.

A morena puxou conversa sobre viagens, a loira perguntou do colarinho da camisa dele. Ele respondeu tudo com um sorriso torto, levantando o copo de gin que nem queria mais beber. Aquilo não estava funcionando como ele pensou.

— Você é sempre assim quieto ou tá testando até onde vou? — perguntou a morena, se inclinando, os dedos passando no ombro dele como um convite.

Heitor riu pelo nariz. Nem era sobre ela. Era ele. Ele que não tava ali, tinha vindo pra esquecer e agora só queria sumir.

Levou o copo aos lábios, sentindo o gelo bater nos dentes. Mas nem o álcool descia bem. Porque o gosto de outra boca ainda tava presente — e não era nenhuma daquelas duas.

— A gente vai dançar ou você só veio se exibir com essa pose de homem misterioso? — a loira insistiu, colando nele.

Ele ia responder qualquer merda… até ver.

Lá no meio da pista. O vestido preto, curtíssimo, marcando a cintura e as coxas grossas. As pernas de fora brilhando de suor. O cabelo rebelde mais bagunçado que o normal, o quadril desenhando no ritmo do funk com precisão que ele nunca imaginou. Helena.

Ele viu antes de aceitar. Porque os olhos dele sempre procuravam antes da cabeça admitir.

E quando viu, parou. Um gelo no estômago. Depois, uma raiva quente.

Ela dançava com um cara com pinta de malandro, a mão dele colada na cintura dela. As pernas entrelaçadas no ritmo. E Helena… ela sorria.

Sorria e rebolava. Empinava. Subia e descia com um controle que fazia qualquer homem ficar duro só de olhar.

Heitor sentiu a mandíbula travar. A bebida desceu amarga.

— Que foi? — a morena perguntou se afastando no peitoral dele. — Tá com cara de quem viu um fantasma.

— Vi pior. — Ele largou o copo num balcão alto e seguiu o olhar.

Helena beijou o cara.

Ali. No meio da pista. Como se nunca tivesse dito que “piranha do escritório”, como se a porra daquele beijo na obra não tivesse acontecido, como se ela não tivesse se agarrado nele até gemer baixo.

Ele sentiu o sangue ferver.

O coração batia no ouvido. A visão embaçou por um segundo. A morena tocou o braço dele de novo, e ele se desvencilhou como se tivesse levado choque.

— Tô saindo. — Foi só o que disse.

Desceu os degraus do camarote sem olhar pra trás.

Porque, caralho… se ela queria o tirar do eixo, ela conseguiu.

E agora, ele queria o que ela tinha prometido que ninguém ia ter.

Queria a verdade na cara dela.

Heitor atravessou a multidão como quem cruzava uma linha de guerra. Ele já não escutava mais a música. Só o som do próprio sangue quente no ouvido.

Quando viu a mão do homem escorregando pela cintura da Helena de novo, o mundo perdeu a cor.

Aquele vestido colado, a bunda rebolando nele, a boca dela na orelha do cara. A porra toda ali na frente dele como se nada fosse. Como se ele já não estivesse louco. Como se ele já não tivesse sonhado com aquela boca todas as noites desde que a conheceu.

Ele não pensou. Só agiu.

— Tira a mão dela!

Fábio se virou com uma expressão debochada.

— Que porra é essa, irmão?

— É você se afastando antes que eu esqueça que tô numa festa.

— Ela não disse que era comprometida.

— Ela não precisava. Só um cego não via que ela não é tua.

— Heitor, pelo amor de Deus! — Helena entrou entre os dois, a mão espalmada no peito dele.

Ele mal sentiu o toque. O sangue já tava fervendo.

— Tu vai deixar qualquer merda te encostar agora, é isso?

— EU NÃO SOU SUA PROPRIEDADE! — ela gritou.

— MAS NÃO DEIXA DE SER MINHA POR ISSO! — ele devolveu, os olhos cravados nela.

— A GENTE NÃO TEM NADA, HEITOR!

— A gente tem um beijo que até hoje tá marcado na porra do meu corpo! — as palavras saíram com a mais pura indignação, foi baixo, perto do rosto dela. — Tem a sua boca tremendo na minha. Tem a tua mão puxando minha camisa. Tem o gemido que você fingiu que não deu.

Ela endureceu o olhar enquanto ele falava.

— E depois você virou as costas como se nada tivesse acontecido. Tu que saiu gritando como se eu tivesse te ofendido! — ele disse gesticulando com as mãos, indignado e alterado.

— PORQUE VOCÊ ESTRAGA TUDO! — Helena esbravejou — Fez a mesma coisa que sempre faz! Aparece, bagunça e finge que não tem responsabilidade NENHUMA com o que faz!

Fábio olhava a cena em silêncio. O braço ainda meio na cintura dela. Heitor percebeu, e foi ali que perdeu qualquer traço de autocontrole.

Ele empurrou o braço bruscamente.

— TIRA A MÃO DELA, AGORA! — gritou Heitor já querendo partir para cima do cara.

— Relaxa, parceiro. — Fábio ergueu as duas mãos como se não quisesse confusão. — A mina tá com’ocê. Tá explicado o porquê da insegurança.

— Vai cuidar da tua vida — Heitor respondeu, ríspido.

— Com esse teatro todo? Achei que fosse ex, mas parece namoro mal resolvido.

— Vai embora — Helena disse a Fábio, já sem graça, massageando as têmporas.

Ele deu um passo pra trás.

— Pena. Uma mulher gostosa dessas presa num cara assim... é desperdício.

Helena fechou os olhos com raiva. Heitor deu um passo como se fosse bater, mas ela o segurou.

— JÁ DEU, HEITOR! JÁ FEZ A MERDA QUE QUERIA! — gritou Helena o segurando, depois respirou e falou a voz carregada de raiva — Já me expôs para a cidade inteira.

Ele se virou pra ela, o peito subindo e descendo. O olhar descontrolado, mas ainda fixo. Helena parecia brava, mas ele conhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar de quando ela xingava e gemia na mesma respiração.

— Acha mesmo que eu ia deixar alguém botar a mão em você?

— EU NÃO SOU SUA, PORRA!

— ENTÃO POR QUE FICOU TREMENDO QUANDO ME VIU?

Ela travou a mandíbula.

— Eu tô tremendo de raiva.

— Tá tremendo porque sabe que ele nunca ia te beijar como eu. Nunca ia saber que tua pele arrepia quando eu pego aqui — ele roçou dois dedos na lateral da cintura dela, baixinho, como quem marca. — Ou quando eu aperto tua coxa e você morde o lábio pra não gemer.

Ela recuou um passo.

— Cala a boca! Você não tem o direito. — disse com o nariz levemente franzido numa expressão de desgosto.

— NÃO TENHO? PORQUE ONTEM VOCÊ DISSE QUE NUNCA TERIA NADA COMIGO? QUE EU ERA SÓ UM ERRO BONITO?

A voz dele subiu. A mágoa escorria nas palavras.

— EU SOU UM ERRO, HELENA? ENTÃO POR QUE ME OLHA ASSIM? POR QUE BEIJA OUTRO COM A PORRA DO MEU GOSTO NA BOCA?

Ela piscou. Os olhos marejaram.

— Vai embora, Heitor…

Ele pegou na mão dela.

— Não.

— Me solta! — ela falou enquanto lançava um olhar como se fosse o esganar naquele momento.

— A gente vai conversar. Lá fora.

— Você tá maluco.

— TÔ! POR VOCÊ! — ele segurou a mão com firmeza, mas sem machucar. — E não vou fingir mais que isso aqui é só fogo. Porque se for… tu queima comigo.

Helena tentou resistir.

Mas cedeu.

Heitor começou a puxá-la pela mão em direção à saída da boate, mas foi barrado por um segurança que cobrava o valor dos consumos, Heitor sem soltar a mão de Helena, pegou com a outra mão livre a comanda que estava presa no outro pulso dela, ele tirou com cuidado e entregou para o homem junto com a dele. Tirou da carteira um cartão black e disse “débito”.

Após o pagamento, ele voltou a puxá-la, os dois sob olhares e burburinhos. Ela resmungava, xingava baixo, mas ia. Ele nem olhava pros lados.

Porque agora, só existia ela.

E ele ia resolver isso hoje. Nem que fosse a última coisa que fizesse.