O CEO que Eu Paguei
45 O que Helena não contaria
O cheiro do café ainda pairava no ar. Heitor estava sentado no sofá, xícara entre as mãos, as costas eretas e o olhar voltado para uma velha moldura na parede. Por fora, continuava com a expressão tranquila, aquele ar de quem sabe conversar com todo tipo de gente — como se fosse só mais um almoço educado, uma pausa numa rotina qualquer.
Mas por dentro…
Por dentro ele estava em ruínas.
Nada do que imaginou se comparava ao que ouviu.
A história de Henrique — o pai de Helena — ainda ecoava na cabeça dele como um estouro. Um rapaz sonhador, policial, apaixonado. Uma gravidez rejeitada. Uma mulher que fugiu. Uma filha deixada. Uma arma na mão.
E um fim. Um fim que nunca devia ter sido.
Heitor apertou a xícara com mais força. Era difícil manter a pose, mesmo pra ele.
Dona Olívia havia voltado a se sentar depois de mostrar as fotos antigas. E, como se falasse sozinha, ela começou a costurar os fios da memória com palavras. Palavras pesadas, íntimas, ditas como quem já perdeu mais do que o tempo pode curar.
— Quando ela chegou com aquela roupa ontem… — começou, os olhos fixos em algum ponto além da parede. — Quase morri do coração. Por um segundo… achei que era a mãe dela.
Heitor virou o rosto devagar.
— A senhora falou da Lorena. Apareceu alguma vez?
— Nunca mais. E que continue assim. — A voz da velha carregava algo entre dor e nojo. — Mas a Helena... quando vestiu aquele vestido curto, aquele salto… foi como se a sombra daquela mulher tivesse voltado pra dentro da minha casa. E não é culpa dela. É só... a imagem. A maldita imagem.
Heitor assentiu devagar, mas por dentro se revirava. Aquele vestido. Aquela noite. Ele lembrava de cada segundo. Lembrava do gosto, da pele, dos gemidos abafados dentro do carro com os vidros embaçados. E agora aquilo estava misturado a uma história de abandono, tragédia, morte e dor.
Ele sentiu o corpo pesar. Não era só desejo mais. E ele sabia disso já havia um tempo.
— Mas Helena… ela é muito diferente da mãe, não é? — perguntou com suavidade.
— É. E não é. — respondeu Dona Olívia, num tom sincero. — É no rosto, como franzi o nariz, na forma de rir às vezes...e principalmente na forma de sorrir. Mas, nas atitudes ela é bem diferente. Ainda bem que o corpo puxou o sangue forte da nossa família.
Heitor pensava que Helena carregava tudo sozinha. A casa, a dívida, o passado, a avó. E ainda assim… briga com o mundo como se não doesse. Como se não precisasse de ninguém.
E ele?
Ele entrou na vida dela como um furacão. Primeiro um erro. Depois um incômodo. Depois um beijo. E agora… agora ele estava sentado na sala dela, ouvindo que ela era o resultado de um amor doído, de um abandono e de um su1cídio.
Aquilo não era leve. Não era simples. E ele sabia: não podia sair de perto dela agora.
Mas não era pena. Era um tipo novo de respeito. Um tipo novo de desejo. Um tipo novo de… vontade de cuidar. De estar ali para ela e ela saber disso.
Dona Olívia se levantou com dificuldade. Ele correu para ajudar.
— Não precisa, rapaz. Eu me viro sozinha.
— Eu sei. Mas agora tem alguém aqui pra te ajudar.
Ela olhou para ele por um segundo longo. E, num raro momento, sorriu. Um sorriso pequeno, sincero, carregado de gratidão contida.
Mais tarde, depois de um bolo de cenoura que ele jurou que nunca tinha comido igual, Dona Olívia mostrou mais fotos.
— Aqui ela tá com uns sete anos. Já sabia ler tudo. Nunca largava o caderno. E aqui… com o Zé. Tava aprendendo a fazer café.
Heitor olhou. E viu.
A pequena Helena abraçada ao avô. Rindo. Sincera. Aberta.
Ele teve vontade de voltar no tempo e protegê-la ali mesmo.
Ela era tão fofa, Helena tinha uma beleza diferente, era linda, mas não o linda dos padrões, se ela estivesse em uma cidade maior, com certeza ela teria sido menina de comercial infantil.
Após várias fotos de infância. Quando ele saiu daquela casa, o sol estava mais quente. Mas Heitor estava gelado por dentro.
Mas, ele estava confortável, parecia frio comparado ao Rio. O perfume dele já tinha misturado com o cheiro do café e do tempo.
E ele só conseguia pensar:
"Eu vim pra entender. Mas agora que entendi… eu preciso ficar."
Porque agora ele sabia de tudo. Das cicatrizes que ela não mostrava. De um pouco do passado que a fez quem é. Do orgulho que era defesa. E do medo… que era mais fundo que qualquer outra coisa.
Eles continuaram a conversar sobre as fotos antigas. Um tempo depois Dona Olívia calçou um chinelo diferente.
— Onde a senhora vai assim, toda animada? — Heitor perguntou, encostado na parede da cozinha.
Dona Olívia passou com a sacola ecológica pendurada no antebraço e o chinelo batendo no chão com pressa.
— Buscar fofoca e couve! — disse ela, como se fosse óbvio. — Vem comigo. É aqui perto.
— Quer que eu pegue o carro?
Ela girou o rosto devagar, encarou ele dos pés à cabeça e respondeu com aquele tom típico de quem não leva desaforo:
— Eu tenho perna, rapaz. E você também. Anda.
Heitor deu um sorriso de canto e se ajeitou. De calção de moletom, polo cinza clara, o perfume ainda fresco na pele, ele parecia bem mais à vontade do que de costume — e, mesmo assim, ainda destoava do cenário das casinhas simples naquela rua de palalelepitidos.
Eles saíram andando, Totó ficou latindo de dentro do quintal. O sol era forte, mas havia sombra nas calçadas, árvores antigas com raízes marcando o chão. As pessoas sentadas nas varandas, crianças descalças com os pés vermelhos de terra correndo na parte não pavimentada.
Dona Olívia cumprimentava todos e comentava com Heitor sobre a vida de cada um.
Foi quando a primeira mulher surgiu na varanda do final da rua..
— Dona Olívia! Ô, mulher! Que homem bonito é esse aí com’cê?
Dona Olívia estufou o peito como se tivesse ganho um prêmio.
— Esse aqui é o namorado da Helena. Veio me visitar.
Heitor travou.
O riso preso, o olhar tentando disfarçar. Ele fez um aceno simpático, mas o rosto queimava mais do que o sol da manhã. Ele tinha 39 anos, já foi apresentado como "namorado" antes, mas... aquilo ali? Aquilo era diferente.
— Ah, então a Helena pegou um bonitão, hein? — gritou outra vizinha do outro lado da rua. — E educado também, olha o jeito que anda!
— Tem cara de limpinho, graças a Deus! — disse outra, já mais velha, da cadeira de balanço, abanando com um pedaço de papelão.
Heitor passou a mão na nuca, tentando não rir. Por fora, seu jeitão elegante de sempre. Por dentro... um nó no estômago. Uma mistura esquisita de vergonha e… prazer. Aquilo mexia com ele. A ideia de ser parte de algo, mesmo que ele não tivesse pedido.
Mesmo que Helena nem soubesse.
— E você vai levar ela no altar ou tá só brincando? — perguntou uma das senhoras.
Heitor se engasgou com a própria saliva.
— É cedo ainda, né? — respondeu, rindo, tentando parecer leve.
— Mas não tá muito cedo pra dormir abraçadinho, né? — rebateu a Dona Olívia, seca.
As mulheres riram alto. E Heitor entendeu: não tinha trégua naquele bairro.
Eles voltaram um tempo depois de conversar com as amigas de dona Olívia.
Mais tarde, enquanto Dona Olívia cochilava na cadeira de balanço e Totó roncava no tapete, Heitor pegou o celular. Abriu o WhatsApp. Olhou para o contato salvo como “Helena ❤️❤️” e começou a digitar:
“Hoje entendi por que você é como é. Você é muito mais forte do que parece, e mais linda do que imagina. Eu só queria que você soubesse que…”
Ficou olhando a mensagem por um tempo. Torceu o nariz.
— Tô virando um idiota — murmurou.
“Apaga. Apaga. Apaga”
Reescreveu:
Ficou olhando a mensagem por um tempo. Torceu o nariz. Apagou novamente. Reescreveu:
“Tô aqui, pensando em você. Desejando que o seu dia esteja sendo bom. Que você esteja feliz. Só isso.”
Mandou. Ficou olhando a tela.
Não demorou muito.
"Tá com tempo livre demais, né? Porque eu, no caso, tô TRABALHANDO. O que você devia estar fazendo também."
Heitor soltou uma risada baixa e passou a mão no queixo, olhando pra tela com aquele sorrisinho de canto que ele tinha quando era provocado.
Respondeu de volta, com a calma arrastada que só ele sabia escrever:
“Saudade dá nisso. A gente perde o foco.”
E antes que ela respondesse, mandou outra:
“Você tá com saudade de mim ou do que posso fazer com você?”
A bolinha azul subiu no mesmo instante. Ele sabia que ela leu.
Demorou mais uns segundos. Ele já estava até sorrindo quando apareceu:
"Se eu tivesse com saudade, já teria ido aí te dar uma voadora."
Heitor riu alto dessa vez, com o celular ainda na mão.
— Essa mulher vai acabar comigo — disse pra Totó, que nem se mexeu.
Mas ele já tava digitando de novo, o sorriso escancarado:
“Com essa boca aí… pode dar voadora todo dia. Mas tem que vir sentar no meu colo depois.”
A resposta demorou um pouco mais, mas chegou.
“Cala a boca, Heitor.”
E, mesmo assim, ele sorriu como se tivesse ganhado o dia.
— É… tá funcionando.
E sem pensar muito, ele respondeu só mais uma:
“Cê sabe que eu só fico assim por sua causa, né?”
Helena não respondeu de imediato. Mas Heitor nem ligou. Só largou o celular no peito, fechou os olhos, e continuou ali — esticado, sorrindo, e mais apaixonado do que ele mesmo queria admitir.
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